Hybrids

12 Uma loucura irresistível



Yoongi despertou ao sentir um aroma doce e aconchegante no ar. Era baunilha — quente, suave, quase hipnotizante. Espreguiçou-se com preguiça felina e sentou na cama, piscando contra a luz do sol que inundava o quarto. A julgar pela claridade, já era bem tarde.

— Não lembro de ter pegado uma coberta — murmurou ao notar o cobertor sobre suas pernas. Arqueou uma sobrancelha, intrigado, e sorriu de canto. — Aposto que foi ele. Kim Taehyung… parece ser um bom pet. Acho que vou adotá-lo. Seria útil tê-lo por perto pra me servir e cuidar de mim.

Seu estômago roncou alto, interrompendo sua linha de pensamento com uma súplica faminta. O cheiro de baunilha ficou ainda mais tentador. Farejou o ar como um verdadeiro gatinho faminto e seguiu o rastro do aroma pela casa.

Ao chegar na cozinha, seus olhos se iluminaram com a cena: Taehyung, de costas, usando um avental cor-de-rosa enquanto colocava cuidadosamente um bolo fumegante sobre a mesa.

Yoongi encostou na porta, sorrindo satisfeito com o que via.

Taehyung se virou no exato momento em que Yoongi apareceu com os cabelos bagunçados, o rosto amassado de sono e o olhar de quem tinha acabado de sair de um cochilo de cem anos.

E por um instante, Taehyung congelou.

Era impossível negar: aquela visão era perigosamente fofa. Fofa até demais.

— Bom dia, Yoongi — disse Taehyung com um sorriso tímido.

— Só se for pra você — resmungou Yoongi, coçando os olhos — Ainda tô com sono, só levantei porque meu estômago gritou. O cheiro tá bom… o que é?

— “Bom dia, Tae” — Taehyung imitou a voz dele com deboche.

— Bom dia, bom dia… — Yoongi revirou os olhos — Agora me diz logo, o que é isso? — apontou com o queixo para o que estava na mesa.

— Bolo? — respondeu Taehyung, como se fosse óbvio. — Nunca comeu bolo?

— Claro que já comi. Mas esse aí tá diferente… que cheiro é esse?

— Baunilha — respondeu, enquanto cortava uma fatia.

Yoongi se aproximou da mesa, farejando como se tivesse acabado de sair da selva.

— Hmmm... é um cheiro bom… gostoso — comentou, hipnotizado pelo aroma doce.

Taehyung colocou a fatia no prato e deslizou até ele com um sorrisinho.

— Prova. O gosto é ainda melhor que o cheiro.

Yoongi pegou o garfo, desconfiado, mas curioso. Levou uma garfada generosa à boca. Seus olhos se arregalaram imediatamente.

— Isso é… isso é inacreditável! — falou com a boca cheia, as bochechas infladas parecendo de um esquilo faminto.

Taehyung riu com a cena.

— Acho que você gostou.

Yoongi apenas assentiu, mastigando com gosto, sem desgrudar os olhos do bolo como se estivesse diante de um tesouro sagrado. Depois do terceiro pedaço, se recostou na cadeira com um suspiro satisfeito.

— Acho que agora podemos conversar, não é? — disse Taehyung, sentado à mesa com a xícara de café entre as mãos.

— Agora podemos… — Yoongi respondeu, limpando a boca com um guardanapo. — Por onde começo?

— Pelo começo — sugeriu Taehyung, com um meio sorriso.

Yoongi revirou os olhos com leve sarcasmo.

— Tá, justo... Primeiro, o motivo de eu estar aqui: preciso de ajuda.

— Ajuda? — Taehyung o fitava com atenção redobrada.

— Sim. No lugar de onde eu vim… eles fazem coisas horríveis. Eu era mantido preso. Só consegui fugir porque ia ser vendido pra um homem nojento. Meu amigo conseguiu interceptar a entrega e mudar o endereço... foi assim que vim parar aqui.

— Aqui? Mas… por que exatamente aqui? Que tipo de lugar é esse? E que coisas horríveis são essas?

— Calma, uma coisa de cada vez — Yoongi respirou fundo, tentando organizar os pensamentos. — A gente escolheu você depois de muita pesquisa. Descobrimos que é um homem justo, que ajuda as pessoas, que segue a lei e luta por aquilo que acredita. Era disso que eu precisava: alguém decente. Alguém que, se entendesse a verdade, não ficaria parado.

Taehyung tentou disfarçar o sorriso que brotou com os elogios, pigarreou e fez sinal para que ele continuasse.

— O lugar onde vivi nos últimos cinco anos é um laboratório. Acordei lá quando tinha dezesseis. Não lembro de nada antes disso. Nada. Mas meu amigo descobriu que todos nós somos órfãos. Sem família. Sem ninguém que fosse sentir nossa falta. Por isso fomos escolhidos. Fomos tirados de abrigos, da rua, de qualquer lugar onde ninguém fizesse perguntas.

Yoongi fez uma pausa, desviando o olhar. Havia tristeza nos olhos dele agora.

— E então… nos transformaram. Nos fundiram com DNA animal. Me tornei isso que você vê — ele ergueu os olhos e deu um meio sorriso amargo. — Um híbrido. Meio humano, meio gato.

Taehyung o observava em silêncio, tentando processar a informação. A seriedade no tom de Yoongi, a dor contida nos olhos, tudo em sua postura dizia que aquilo era real.

Yoongi abaixou o olhar, como se estivesse envergonhado de si mesmo.

— Eu sei que parece loucura… mas é a verdade.

— Você está me dizendo que foi… geneticamente modificado? — Taehyung perguntou, a voz embargada de espanto. — Suas orelhas, seu rabo… são reais? Não são implantes ou próteses?

— Sim — Yoongi confirmou, com um tom calmo, mas carregado de dor. — É exatamente isso. Injetaram DNA felino no meu corpo. Felizmente, meu organismo não rejeitou. Estou aqui, vivo... saudável, até onde se pode chamar isso de saúde. Mas não posso dizer o mesmo dos que vieram antes de mim.

— Houveram outros?

— Muitos outros. Crianças, adolescentes... nenhum sobreviveu. Eu fui o primeiro. Depois de mim, alguns amigos conseguiram sobreviver também, talvez porque já tivessem aprendido com os erros anteriores. Mas o preço foi alto demais. — Yoongi respirou fundo e fitou Taehyung com os olhos marejados. — É por isso que estou aqui. Preciso da sua ajuda. Preciso tirar meus amigos de lá. Preciso acabar com aquilo antes que mais alguém passe pelo que a gente passou.

A súplica em sua voz quebrou algo dentro de Taehyung.

Até aquele momento, Yoongi sempre parecera altivo, confiante, quase arrogante. Mas agora, diante dele, havia apenas um rapaz machucado, tentando ser forte apesar de tudo. Alguém que escondia o medo atrás de sarcasmo. Um jovem que só queria ser salvo e salvar os outros.

Sem pensar, Taehyung levou a mão até os cabelos de Yoongi, fazendo um carinho leve, e por instinto, também tocou suas orelhinhas. A textura era suave e quente. Real. Inacreditavelmente real. Taehyung ainda lutava para aceitar aquilo como verdade, mas uma coisa era certa: não podia virar as costas para ele.

— Eu vou te ajudar, Yoongi — disse com firmeza. — Vamos tirar seus amigos de lá. E juntos, vamos pôr um fim nesse inferno. Mas... preciso entender tudo. Cada detalhe.

Yoongi assentiu em silêncio, engolindo em seco.

— Vamos pra sala — continuou Taehyung, com um tom mais leve — o sofá é mais confortável.

Yoongi o seguiu em silêncio, e pela primeira vez desde que chegaram naquela casa, ele parecia em paz.

Ficaram a tarde inteira sentados no sofá. Yoongi contava, aos poucos, tudo o que lembrava, cada detalhe do laboratório, dos procedimentos, dos rostos que conseguiu gravar na memória. Taehyung escutava atentamente, digitando tudo em seu notebook enquanto também gravava a conversa em áudio, para garantir que nenhuma informação se perdesse.

— Antes de mais nada, precisamos tirar seus amigos de lá — Taehyung disse com seriedade, os olhos vidrados na tela. — Mesmo que estejam em segurança por enquanto, prefiro que fiquem aqui conosco. E mais importante: vou precisar de ajuda pra conseguir provas contra essa corporação. Pelo que você contou, ela sequer existe oficialmente, então vamos precisar cavar fundo.

Yoongi assentiu, pensativo.

— Você conhece mais alguém que possa nos ajudar?

Taehyung sorriu, com um brilho orgulhoso nos olhos.

— Conheço, sim. Um deles é meu amigo e também meu assistente. Ele é promotor, assim como eu. Honesto, comprometido… tenho certeza de que vai adorar conhecê-lo. O nome dele é Kwan Suk.

— Hm… já não gostei do nome — Yoongi fez uma careta de desprezo. — Tem cara de nome de gente metida, nojenta e cheia de si.

Taehyung soltou uma gargalhada.

— Não diga isso! O Suk é um doce. Você vai gostar dele, só precisa dar uma chance.

— Duvido. Mas prossiga — disse Yoongi, cruzando os braços, ainda emburrado.

— O outro é o meu trunfo. O nome dele é Mingi — disse Taehyung com um ar orgulhoso. — Trabalha na Inteligência dos Estados Unidos. Missões secretas, coisas malucas, disfarces, operações delicadíssimas. Mingi já fez de tudo. Ele é exatamente o tipo de pessoa que precisamos. E o melhor: está de folga agora. Vou ligar pra ele vir o quanto antes.

Yoongi arqueou as sobrancelhas, ligeiramente impressionado, apesar de tentar esconder.

— Ok! Temos dois promotores, um agente secreto e o mais inteligente de todos… eu. Perfeito! Seremos uma equipe do caralho! — Yoongi declarou com um sorriso convencido.

Taehyung riu, balançando a cabeça. Era impossível não se divertir com a autoconfiança exagerada de Yoongi que, no fundo, ele começava a achar encantadora.

— Vou entrar em contato com os dois agora mesmo — disse Taehyung, pegando o celular.

Yoongi observou em silêncio por um instante, depois, num gesto inesperado, se aproximou e o abraçou. Encostou a cabeça no peito de Taehyung, ficando ali quietinho por alguns segundos.

— Muito obrigado, Taehy — murmurou, com a voz suave e verdadeira.

Taehyung sentiu o coração acelerar. Não pelas palavras em si, mas porque vinha de Yoongi. Era a primeira vez que ele o agradecia de verdade. E por algum motivo, aquilo o atingiu com força.

A intimidade entre eles tinha nascido rápido, de um jeito estranho e quase mágico. Era como se seus corpos já se conhecessem há muito tempo. Aquele abraço, apesar de inocente, tinha um calor avassalador. Taehyung se sentiu pequeno diante daquilo. Vulnerável e encantado.

Yoongi fechou os olhos, inspirando o aroma suave da pele de Taehyung. Era um cheiro novo, confortável e viciante. Queria senti-lo para sempre.

Taehyung, com uma mão trêmula, começou a acariciar os cabelos de Yoongi, ouvindo aquele ronronar sutil, tão parecido com o de um gato.

“Em que loucura estou me metendo?” — pensou, olhando para o rosto delicado de Yoongi encostado em seu peito.

“Uma loucura irresistível.”

Notas finais
Já era Tae... virou pet do Yoon kkkkkkkkkkk