Hurricane

6 Capítulo 6


Beckett estacionou o carro em frente a um prédio velho, com algumas janelas penduradas. O apartamento de Nick era no terceiro andar, e as escadas eram sujas e cheias de buracos. Não encontraram ninguém no caminho, mas o prédio era cheio de ruídos estranhos. Crianças chorando, um casal discutindo, um rádio narrando uma partida de baseball ao longe. Beckett parou diante do número 325, sacou a arma e experimentou a fechadura. A porta estava aberta. Cuidadosamente ela entrou no apartamento, com Castle atrás.

Era um lugar pequeno, com poucas coisas em enorme desordem. Ela verificou o minúsculo banheiro e o que seria a cozinha, cheia de restos de comida espalhados. Quando viu que não havia ninguém, guardou a arma.

- O que estamos procurando? – perguntou Castle.

- Não sei – ela respondeu – Qualquer coisa que possa ser uma potencial pista.

Vasculharam o apartamento todo. Não havia nada além de roupas espalhadas e lixo. Beckett sentou numa cadeira e mergulhou a cabeça entre as mãos.

- É isso. Acabou. – ela murmurou – Não temos mais para onde ir com essa história.

Castle observava a rua pela janela. Virou-se e, de onde estava, viu um pedaço de papel aparecendo por baixo de um colchonete que havia no canto da sala. Sem dizer nada, dirigiu-se até lá e o pegou.

- O que é isso? – Beckett perguntou.

- Não sei – ele disse – Mas tem um endereço. E um horário. 19h de hoje.

- É daqui a uma hora – ela disse, dando um pulo da cadeira – Vamos.

O lugar anotado no papel era um distrito industrial da cidade, e o endereço era no final dele, uma área semiabandonada.

- Beckett, não estou gostando disso.

- Eu também não. Mas agora vamos até o fim.

Chegaram aos fundos de uma fábrica. Beckett estacionou o carro, mas deixou-o ligado e com os faróis acesos, e saiu. A noite já tinha caído e o lugar estava deserto e escuro.

- Tem certeza de que é uma boa ideia andarmos por aqui assim, expostos?

- Tome – ela lhe deu a arma reserva – Fique alerta.

- Sim, claro. Nada que meus olhos élficos não consigam identificar movendo-se na escuridão.

- Shh. – ela sussurrou – Acho que ouvi alguma coisa.

Passos se aproximavam calmamente da lateral da fábrica. Beckett e Castle apontaram as armas. Um vulto surgiu, um homem caminhava em direção a eles de forma quase descontraída.

- Pare! NYPD, mãos pro alto! – gritou Kate.

- A famosa detetive Kate Beckett – respondeu o homem misterioso – É um prazer enfim conhecê-la pessoalmente, embora nestas circunstâncias... Digamos, inapropriadas.

Castle sentiu-se gelar. Conhecia aquela voz. Baixou a arma, confuso.

- Quem é você? – Beckett gritou, ainda com a arma apontada. – Fique onde está ou eu atiro!

- Não, você não vai atirar. – o homem respondeu, ainda caminhando calmamente em direção a eles – Primeiro porque não há necessidade. Eu não ofereço perigo, pelo menos não a vocês, não neste momento. Segundo porque você quer respostas, e eu sou o único que pode dá-las. Ou pelo menos o único disposto a dá-las. – ele entrou então na área iluminada pelo farol do carro de Kate. – Olá, filho. É bom revê-lo.

Castle deu um passo pra trás. De todas as pessoas no mundo, a última que ele esperava ver ali, à sua frente, era seu próprio pai. Kate baixou a arma lentamente. O homem não parecia armado, estava vestido com um moletom, tênis e camiseta. Em qualquer outro lugar da cidade, poderia passar por um idoso praticando sua corrida noturna. Ela olhou para Castle. Este estava pálido, sério e irritado. Ela se voltou para o estranho novamente, agora cheia de uma curiosidade indisfarçada. Então este era o pai de Castle?

- Por todos os demônios, o que você faz aqui? – Castle perguntou.

- Tirando vocês de uma encrenca com a qual não poderão lidar, se continuarem a entrar nela – ele respondeu.

- Explique-se. Quem é você, e o que quer? – disse Beckett.

- Ora, vamos, detetive. Você sabe quem eu sou. Nem precisaria ser tão inteligente quanto você é pra saber. Sou o pai de seu namorado... Ora, isso implica dizer que sou seu sogro, não?

Ninguém respondeu.

- Bem, que seja – ele continuou, descontraído – Sabendo disso, tenho certeza de que você também sabe que meu nome não importa e os motivos disso. Se insistir em querer saber quem sou, posso dar-lhe um nome. Ou vários. Nenhum deles será verdadeiro. Então podemos ir direto ao assunto?

- O que você quer? – perguntou Castle. A voz dele saiu gelada como uma pedra de gelo. Beckett o olhou de lado. Ele parecia transtornado.

- Eu quero que não se metam em algo com o qual não podem lidar – ele respondeu – Logo, quero protegê-los de sua própria curiosidade e senso de justiça.

- Pode ser mais claro? – perguntou Kate – Você não está fazendo sentido.

- Claro, detetive. Refiro-me ao caso Bracken.

- Imaginei – sussurrou Castle – O que você tem a ver com isso?

- Tudo... E nada. – ele gesticulou didaticamente – Vejam. Bracken era mais do que aparentava, e sei que vocês sabem disso. Mas a atuação dele era maior do que vocês podem imaginar. Policiais corruptos, sequestro de mafiosos, assassinatos, isso era apenas um pequeno lado deles que vocês conheciam.

- Você... – gaguejou Kate – Você conhece essa história? Toda?

- Sobre a morte da sua mãe e sua atuação na investigação, bem como a de Castle? Sim, claro. – o homem respondeu – Agora, a questão é: Vocês estão investigando coisas que escapam à esfera de atuação de vocês. Descobrimos que Bracken era um problema, um grande e grave problema que, como tal, foi solucionado.

- Espera – interrompeu Beckett – Que tipo de problema? Descobrimos, quem descobriu?

- O FBI. A segurança nacional – ele respondeu – Enquanto Bracken envolvia-se com crimes domésticos, não nos metemos. Veja bem, é necessário fazer vista grossa a muitas coisas quando se está nesse tipo de trabalho. Não podemos nos meter, exceto quando as coisas fogem do controle. E Bracken quis voar muito perto do sol... Tivemos que derreter suas asas.

- Você o matou? – perguntou Castle.

- Seria melhor que você não tivesse conhecimento desse tipo de detalhe...

- VOCÊ O MATOU? Sim ou não, é uma pergunta simples que exige uma resposta simples. – Castle insistiu. O homem hesitou mas enfim respondeu.

- Sim. Fui eu.

Um silêncio incômodo pairou entre eles.

- Por que? – perguntou Beckett, finalmente.

- Porque Bracken estava envolvido em espionagem internacional – ele respondeu. – Estava vendendo segredos militares para espiões da Coreia do Norte.

- Como é? – Kate estava incrédula – Como assim?! Ele...

- Sim, ele seria anunciado como candidato à presidência este ano – o homem misterioso a interrompeu – E o plano dele para ser eleito era perversamente bem elaborado. Descobrimos isso há pouco mais de dois meses. Vendendo segredos de guerra para a Coreia do Norte, a intenção é que houvesse uma guerra na península coreana, onde os EUA se vissem forçados a intervir. Mas, sem saber, estaríamos enviando milhares de soldados para a morte, porque Bracken agiria como espião inimigo.

- Mas no que isso... – Beckett hesitou antes de entender – Isso geraria uma crise interna e detonaria com a campanha de reeleição...

- Abrindo uma larga e espaçosa avenida para que Bracken se elegesse com um belo discurso de paz. – ele completou – Exatamente.

Beckett e Castle se entreolharam, surpresos.

- Então aquela pasta... – começou Castle.

- Continha segredos militares. – seu pai respondeu – Nas últimas semanas me mantive em contato com ele, como correspondente coreano. Até que toda a operação estivesse pronta para pegá-lo.

- Por que não o prenderam? – perguntou Beckett – Ele era um cidadão americano!

O homem suspirou, como se estivesse cansado.

- Nem tudo segue a lógica estabelecida, detetive, especialmente quando lidamos com crimes de guerra, espionagem internacional e coisas do gênero. Há coisas que precisam ser feitas sem espaço para questionamento. Castle teve a péssima possibilidade de experimentar isso em Paris, não é mesmo, meu filho?

Rick não respondeu.

- Bem, agora que têm suas respostas...

- Espere – interrompeu Kate – Então foi você que matou Bracken? Como fugiu tão rápido do local do crime?

- Como eu lhe disse, detetive, foi uma operação cuidadosamente elaborada. Eu tive cobertura todo o tempo.

- O carro... – murmurou Castle – Achamos que não tinha a ver com o crime...

- Sim, ele me pegou na esquina seguinte – o homem respondeu, dando de ombros.

- E quanto a Nick Smith? – perguntou Beckett – Vocês também o mataram?

- Não, não. Esse moço só teve a infelicidade de se envolver com coisas e pessoas erradas. Não interferimos nisso. Foi uma ação de oportunidade; houve uma briga de gangues, ele foi morto, e você, detetive, estava investigando demais. Precisávamos fazê-la parar, então plantamos as provas. Assim o caso pôde ser encerrado e explicado de forma crível pra sociedade.

Beckett e Castle estavam chocados.

- Bem – o desconhecido comentou, depois de alguns momentos de silêncio opressivo entre eles – Não espero que me entendam ou concordem com minha atuação nessa situação. Cumpri ordens e fiz o que foi necessário. O sacrifício de uma vida salvou milhares, e esse é o meu trabalho. Ainda estamos investigando essa rede de espionagem, mas tudo indica que o principal cabeça aqui nos EUA era mesmo Bracken. E, veja bem, detetive... Estou aqui por conta própria, correndo meus próprios riscos por motivos pessoais. Sei que é uma profissional extraordinária, e nada seria capaz de pará-la nessa investigação, não enquanto não obtivesse respostas satisfatórias. E sei também o quanto meu filho a ama. Se continuasse com isso, vocês dois se prejudicariam muito seriamente. Por isso deixei esse bilhete na casa do rapaz. Sabia que sua investigação chegaria a ele, e sabia que encontrariam este lugar. Agora que têm suas repostas, peço-lhe, pelo seu próprio bem e do meu filho: Encerre as investigações. Vocês não conseguirão avançar, porque o FBI já fechou todas as portas. Isso é coisa nossa.

Beckett não sabia o que responder.

- Foi um prazer conhecê-la pessoalmente, detetive – ele continuou – Lamento que seja nessas circunstâncias, mas... Infelizmente a natureza do meu trabalho não me permite poder usufruir dos prazeres de uma vida comum, ao lado do meu filho, minha neta... Mas ainda assim fico feliz que Rick tenha encontrado uma mulher linda e forte como você. Sei que são capazes de cuidar um do outro, e isso me é um alívio. E, Rick... – voltou-se para Castle – Tente não me odiar muito. Há forças que são maiores do que nossos mais íntimos desejos. Nunca pude estar ao seu lado como gostaria, mas já lhe disse que sempre estive como pude. E continuarei a estar. Ao seu lado, ao lado de Martha, Alexis e agora do seu também, detetive. Espero que sejam felizes. – virou-se para ir embora, mas voltou-se uma última vez – Ah, e mais uma coisa... Não deixe seu trabalho afastá-la de quem você ama. É muito solitário quando o trabalho rouba sua vida. – dizendo isso, mergulhou na escuridão e sumiu.

Beckett guardou a arma lentamente. Estava sem reação diante de tudo que ouvira. Olhou para Castle; ele estava com o semblante fechado, tenso, ainda com a arma na mão. Delicadamente ela a pegou e guardou. Acariciou o rosto dele e perguntou:

- Você está bem? – como não obteve resposta, ela o abraçou. Lentamente ela sentiu os músculos tensos dele relaxarem. Ele começou a tremer.

- Vamos pra casa – ela disse – Hoje é você que precisa dos meus cuidados.