Hurricane
1 Just this.
Notas iniciais
Está beem dramática da parte do Fran, mas enfim... Espero que gostem!
Boa Leitura ;P
- Não importa quantas vezes você me disse que queria ir, não importa quantas vezes você respirou... Não, você ainda não conseguia respirar – O maior sussurrou cínico, apenas com um punhal em mãos. Sabia que estaria perdido entre a arma do outro.
- Cale a boca. – Cortou-o rápido deixando o garoto surpreso; não era para ele ouvi-lo.
Mas teve que continuar, engolindo em seco numa tentativa de se aproximar.
- Não importa quantas noites você mentiu, eu esperaria ao som da chuva ácida... – Levou o olhar até a janela do galpão abandonado. Com uma fresta do vidro quebrado era possível observar um pedaço da lua cheia – Mas e então... Aonde você foi? – Aumentou a voz, pedindo por uma resposta.
- Já disse para calar sua maldita boca.
- Aonde você foi? – Insistiu com os olhos agora presos na pequena pistola negra, que a alguns metros, apontava diretamente para seu crânio.
- Isso não adianta. Vai ficar mesmo implorando por uma resposta? – O menor riu irônico – Sua vida acaba aqui, não percebe? – Pôde ouvir um leve suspiro vindo dos lábios claros “Aonde você foi?” por uma última vez – Acabou. Acabou. Não me importa se você me amou. A questão é que eu não te amo. Não mais.
- Então por que tanta mentira? Tanto fingimento? Queria algo de mim? Já o conseguiu? – Interrogou-o seco – Porque eu te amei... Mais do que tudo. Não foi o suficiente? É isso?
- Não me venha com suas tolices! – Balançou a cabeça – Pare de mentir também, pelo menos uma única vez. – Vacilou, deixando-se abaixar a cabeça e encarar o chão de madeira escura – Se estava tudo tão bem, porque não continuou? Tinha que descontar tudo na minha cara, assim, de repente? Os dias passam e as noites estão pegando fogo, não vê!?
- A gente não ia dar certo... Pelo menos eu achava.
- E depois teve a coragem de voltar na minha casa e implorar por perdão? – Riu novamente. Um riso pesado e triste em meio a tanta raiva. Seus dedos tremiam entrelaçados ao gatilho.
- As pessoas vêem isso como uma prova de amor.
- Mas eu já sei de tudo! Todos os seus podres, todos os seus pecados. Alguém como você não merece estar aqui. – As palavras foram pronunciadas rapidamente, num ar de desespero.
Ele estava enlouquecendo. Mas ajudá-lo, como tentara fazer, acabaria com sua vida.
Não importava, não podia desistir.
O menor estava certo, sabia disso. Os dois sabiam mais do que ninguém. Àquele momento ele não era nem um pouco digno de estar ali, mas se renunciara. Agora tentava provar novamente seu amor, e quem sabe tornar-se são mais uma vez? Com a inocência de uma pura criança, como fora anos atrás.
Mas o pequeno estava ali em sua defesa. E tinha toda a razão, disso o outro não podia negar.
Ele só não queria ser ferido de novo, porque a dor de um coração partido leva anos para ser curada, quando se cura e por sua causa, aquilo o estava levando a loucura, ao ponto de segurar uma arma em mãos.
Encontrou-se com os olhos na lua novamente. Deixou-se suspirar pesado, afrouxando o punhal entre a mão direita e depois de balançar levemente a cabeça, fitou o baixinho. Seu baixinho. Seu antigo baixinho. Seu rosto riscado por lágrimas que caíam segundos antes de ele entrar no galpão – que estava um tanto deplorável, caindo aos pedaços – para tentar impedir de encaixar uma bala no próprio crânio, cabelo bagunçado e roupa suja de terra deixavam a mostra seus sinais de desespero.
Não queria ser ferido, machucado. Não queria correr esse risco. De novo. Não teria vergonha de chorar, simplesmente desabar em sua frente. Só queria sumir. E acabar com o Way primeiro.
Por quê?
Para tentar esquecê-lo. Esquecer que alguém como ele, um dia passou pela terra.
E logo de cara, alguém como o Iero pode ser apaixonar tão rápida e perdidamente. O maior não tinha realmente feito nada tão ruim como traí-lo ou coisa do tipo, mas eram boatos pela universidade, durante bailes, fotos que não deviam ser mostradas, chantagens que fisgavam no peito; que o faziam querer desistir.
Eram por essas coisas, que quem sabe pudessem ter sido evitadas, que o pequeno culpava o Way. Não exatamente o culpava. Culpava o fato de ter se apaixonado. Por outro garoto. Em meio a um mundo mais do que preconceituoso. E frio.
Matá-lo com certeza não era a solução. Isso nunca. Mas no ponto em que você já está frenético, claustrofóbico e assustado com o futuro; sem vontade de sair da cama só por saber o que vem depois da porta do quarto, o primeiro pensamente suicida e assassino sempre pareciam a melhor resposta para combater contra o medo.
Os pensamentos passaram rápido por sua mente. Gerard sabia que o menor estava disposto a matar para salvar sua vida. E que sobraria para ele.
Respirou fundo, revirou os olhos para impedir que alguma lágrima escorresse e encarou o Iero de forma pacifica, mesmo que certo pânico começara a invadir seu corpo, fazendo as pernas tremerem fracamente:
- Certo... Diga-me, você mataria para salvar uma vida?
- É da minha vida que estamos falando. – Respondeu sério. E a resposta estava mesmo certa...
- E você mataria para provar que está certo?
A outra resposta não foi lançada. Em vez disso, soluços realmente sofridos invadiram o interior do galpão.
Teve que se segurar para não chorar junto. A coisa que mais odiava era ver alguém como Frank chorando. Fazia-o sentir-se o pior dos pecadores. Aproximou-se do mesmo e colocou a mãos sobre seus ombros, encostando sua cabeça na dele e roçando seus narizes gelados pelo frio do lado de fora.
O baixinho se contorceu, tentado livrar-se dos braços de Gerard por entre as lágrimas. Ainda tentando escapar, acabou deixando a arma cair e se ater debaixo de algum móvel onde não era possível tirá-la sem ajuda.
Way entendia seu desespero, por ele, o melhor era colocar tudo para fora de uma vez. Tentava ver nisso, uma esperança de talvez impedir uma morte naquela noite.
Quando conseguiu manter o menor entre seus braços, ofegantes depois de rolarem pelo chão também gelado, para não deixar Frank querer pegar a arma de novo ou fugir, sussurrou descompassado com a cabeça encaixado no pescoço do outro:
- Isso mesmo, quebre, quebre, queime, deixe tudo queimar! – Falou num tom maníaco, mesmo só querendo protegê-lo — Este furacão nos persegue em nosso interior... Deixe-o sair, coloque para fora... Vai ficar tudo bem.
- Pare com isso! – Gritou, empurrando o maior para trás, que caiu sentado, batendo a cabeça em uma das paredes, onde um quadro quase atingiu sua cabeça – Você só está aqui por que me fazer mal! Quer me m-matar! – Seus olhos não fitavam um ponto fixo, a respiração se descompassava e suava frio.
Loucura, loucura, a loucura o atingira por inteiro. Acabara com ele. Louco, louco, se encontrava mortalmente louco. Algo estava errado. Era jovem, era perfeito, era puro demais para estar num estado daqueles.
- Quer me matar! Matar-me! Matar-me! – Puxou as mechas escuras do cabelo – Mas você não sabe... Ah, não sabe! Não sabe que não importa quantas vezes eu morra, eu nunca esquecerei! Não importa quantas vidas eu viva, eu nunca me arrependerei! Não sabe... Não sabe...
O outro deixou um ar de dúvida transpassar por seu olhar. As palavras que saíam de Frank não tinham sentido. Não eram ditas em sequência. E aquilo deu fortes calafrios em Gerard. Mas não tinha certeza se ele tinha ou não falado coisas como aquelas, preferia pensar que ainda estava tonto da batida na cabeça, mesmo sabendo que não era a verdade.
Ainda passando a mão no local do choque, continuara tentando fazer Frank voltar a pensar.
- Não estou tentando fazer nada com você! Só quero vê-lo bem, não tem ideia do quanto isso é importante para mim. Do quanto você é importante.
- E-então volte. – Disse ignorante cruzando os braços.
- Você é importante para mim junto ou não. Me faz bem te ver bem, eu... – Viu nos olhos do Iero, um misto de tristeza, raiva e dor.
Ele olhava em volta procurando algo que serviria para um ataque mortal, Gerard percebeu ainda em seus olhos. Mas quando o pequeno derrubou com vontade uma vela que jazia acesa numa pequena mesinha; no tapete à sua frente, já era tarde para impedir.
— O-o que está fazendo!? – Gritou enquanto o pânico que fizera suas pernas tremerem; subia e invadia todo o corpo. O fogo não alcançara ninguém – ainda -, mas imaginar o que o estrago que começara num tapete, fazia-o estremecer.
- Acabando com isso de uma vez! – Gargalhou alto, chutando alguns outros móveis.
Way levantou-se o quanto antes e se dirigiu ligeiro para um canto longe do fogo que começava a se formar, levando junto o pequeno tapete; encostou-se em outra parede e começou a socá-la de leve, verificando se teria condições, de em certo caso, quebrá-la.
- Frankie! Frank, eu sei que há um fogo por dentro desse coração, e um tumulto prestes a explodir em chamas, mas, por favor, onde está seu Deus?! – Suplicou em voz alta.
Frank entrara em transe observando as altas chamas brilhantes, mortais, mas de um esplendor e brilho intenso para ele. Ficou parado apenas vidrado no fogo, como se pretendesse se jogar naquele centro ou algo do gênero.
Antes que pudesse pensar em outra coisa mais medonha, Gerard socou mais forte as paredes e voltou a gritar com toda a sua força:
- Aonde está o seu Deus?! Aonde está o seu Deus?! – Conseguiu fazer o menor olhá-lo.
Mas ele apenas riu. Riu com desgosto. Um desgosto medonho. Maníaco, psicótico.
- Apenas cale a boca e aproveite a morte que merece.
- Você não está pensando! Está maluco! Maluco! – Socou mais e mais forte, sem nenhum bom resultado – Acalme-se e verá! O que você está fazendo não tem sentido algum!
- Aproveite a morte... Aproveite-a... Não pode ser tão ru—
Sem conseguir terminar a frase, foi interrompido por Gerard, que pulou em seu pescoço, afastando Frank do fogo, que quase encostara em seu rosto, e caiu deitado, em cima do Way. Foi um ato instintivo. Simples medo de perdê-lo.
Pensando que seria agradecido, o maior ganhou por ter salvado a vida do pequeno, um forte e doloroso soco no rosto, enquanto o Iero levantava-se. Sem desistir, chutou as pernas do outro, que voltou a cair em seu colo.
Segurando-o pela cintura com uma mão e pelo rosto com a outra, pôde continuar, fazendo-se de frio, enquanto realmente, a única coisa que tinha dentro de si era medo.
- Você realmente quer? Você realmente me quer? Você realmente me quer morto ou vivo para me torturar pelos meus pecados? – Frank assentiu nervoso com a cabeça, mesmo sem poder se mexer muito, ainda preso — Você realmente quer? Você realmente me quer? Você realmente me quer morto ou vivo para viver uma mentira?! – Sussurrou com os rangendo os dentes.
Foi bom quando o Iero deu-lhe outro soco certeiro e conseguiu sair de seus braços, pois a raiva começava a transbordá-lo e teve medo do que poderia acontecer.
O fogo agora iniciava a invadir aquele canto do galpão, que vez ou outra parecia estremecer com o contato das chamas com a madeira antiga e o pequeno aproveitou a chance para correr até o único lado ainda salvo.
Pela primeira vez começou a entender a gravidade do que tinha feito. Mas não tinha mais jeito. Olhando freneticamente para os lados novamente, foi surpreendido por uma mão agarrando-o pelo braço direito sem a opção de soltá-lo muito cedo.
- Qual é o seu problema?! Ia me deixar lá para morrer queimado?! – Gerard perguntou soluçando.
- Quer mesmo ouvir minha resposta? – Pronunciou-se frio.
- O que está acontecendo?! – Chacoalhou-lhe forte pelo mesmo braço – Pare com essa loucura!
- Agora já é tarde. – Riu – Não percebeu? Tudo já está sendo tomado pelas chamas mesmo!
- Se realmente quisermos, conseguimos sair daqui. – Aproximou seu rosto ao de Frank – Já passamos por tanta coisa... Lembra-se? Tantas orações só para nos curar, segredos e...
- As promessas que fizemos não foram suficientes. As orações que havia orado eram como uma droga! Os segredos que nós vendemos? – Olhou incrédulo — Nunca foram conhecidos!
O tom frio do pequeno partia cada vez mais o coração machucado do Way, mesmo sabendo que ele encontrava-se completamente fora de si. Não sabia mais o que dizer, mas não queria deixar Frank ali para morrer.
- E o amor que tínhamos, o amor que tínhamos?! – Perguntou desesperadamente.
- Nós tivemos que deixá-lo ir. – Respondeu como se fosse óbvio, sem demonstrar emoção.
- Não! Não tivemos!... E eu posso te provar. – Chorou.
- Ah é? – Perguntou indiferente — Como?
Subitamente, Gerard entrelaçou seus braços na cintura de Frank, selando seus lábios num beijo apaixonante, visivelmente esperado há um longo tempo e finalmente ali. Preso ao momento numa questão de segundos, o Iero, ainda que na ponta dos pés e deixando a raiva ir embora, passou as mãos pelo pescoço de Gerard, logo em seguida indo para sua nuca onde afagou o cabelo negro aproximando mais seu rosto.
Não queriam parar. Ficariam assim pelo resto da vida se pudessem.
Mas ela acabou sendo um tanto breve.
Ao olharem para trás, um pouco ofegantes, notaram a falta do ar pelo galpão que ganhara brilho laranja e amarelo – ainda que bonito e hipnotizante; amedrontador -, ouvindo as estacas de madeira que o constituíam estalarem sem parar.
A fumaça dificultava a respiração e logo os dois não paravam mais de tossir, até que Frank, lutando para respirar ar fresco, deixou cair-se ajoelhado misturando a tosse com tragadas em pânico do ar.
- Frank! Frank! – Abaixou-se até o menor – Frank!
- N-não quero morrer... – Falou com dificuldade.
- Não vai! Não – Parou para tossir várias vezes – vai... Eu não vou deixar, como não deixei até agora...
Pegou-o no colo e começou a chutar a parede com o que restavam de suas forças. Nada adiantou. Pegou o punhal, guardado no bolso em uma proteção de couro e fez o que pôde para arrancar alguma estaca do depósito, enquanto o Iero agarrou-se em suas costas, fechando os olhos.
Arrancou uma única estaca, quando ouviu Frank gritar abafado e se remexer pendurado em seu pescoço. Mas quando olhou para trás já era tarde.
- Este furacão...
O fogo havia tomado conta de tudo e “casa” – ou o que restava dela – desabou em cima dos garotos, que não tiveram tempo de dizer uma palavra a mais.
Mas, fora dos perigos da loucura, desespero, medo, raiva e sofrimento; puderam finalmente ver-se livres de todos os problemas do mundo lá fora. Não tinham ideia do que aconteceria com as famílias no dia seguinte – a não ser a tristeza indomável -, mas tinham certeza de que sempre permaneceriam aos seus lados.
Livres agora dos problemas, desde a escola – preconceito ridículo -, queriam mais que aquilo fosse visto como uma tentativa de suicídio que acabou na morte prematura dos dois. Queriam mostrar aos que os feriram por estarem juntos na maldita universidade, aos que os encaravam com nojo na rua, e todo o resto; o que pequenas palavras, que se tornam grandes atos de insulto, podem fazer a uma alma inocente.
Só que agora, nada daquilo importava. Estavam finalmente em paz. Prontos para se amarem de novo. E dessa vez, como nunca.
E se realmente existisse um Deus, um céu, um lugar maravilhoso – eles mereciam – para permanecer numa nova vida; que rezassem todos os dias pelos dois. Verdadeiros batalhadores.
Se conseguiram vencer a guerra? Só depende de sua opinião. Na minha, não há dúvidas de que já estava vencida há tempos.
Fale com o autor