Notas iniciais
Uma pequena introdução na nossa personagem, espero que gostem!

— Tem certeza que é aqui? – a garota morena cochichou para o garoto agachado ao seu lado.

— Eu ouvi a Irmã Anne falar para a Tia Hilda arquivar a carta do novo bebê aqui. – Eles tentaram abrir a porta velha mais uma vez.

Hikari massageou as têmporas, frustrada. Era pedir demais para sequer saber se seus pais haviam deixado uma carta ao a abandonarem? No Orfanato Memento, era. Independente de como havia parado ali, você nunca saberia quem eram seus pais ou sequer seu sobrenome se você não se lembrasse. E esse era o caso de Hikari, uma garota que vivia naquele orfanato desde um ano de idade e não tinha nada além de memórias vagas e confusas sobre seu passado.

Bebês eram abandonados à noite. Então, para ver uma das irmãs ou funcionárias do orfanato recolhendo um bebê, você deveria quebrar o toque de recolher, o que resultaria numa severa punição. Se você for pego, claro sempre dizia Zairo, o amigo e companheiro de quarto de Hikari, que vivia surrupiando doces para o dormitório deles.

— Se descobrirmos onde elas guardam a chave, a gente pode, a gente podia… – a menina de doze anos cochichava, desesperada.

— Não, Hikari. É hoje ou nunca! – o menino, que não era muito mais velho que sua amiga, sabia o quanto o passado poderia significar para um órfão, iria fazer de tudo para poder achar os arquivos dos seus amigos, nem que tivesse que ajoelhar-se em milho cru por semanas. – Essa porta é velha, você tem força para arrombá-la, só se jogar contra ela com muita força. Eu vou ficar derrubando panelas na cozinha, fazer o maior barulhão. Ache os nossos arquivos, pegue o que tem dentro e deixe as pastas. Encoste a porta o melhor que puder e vá correndo para o nosso dormitório. Se cuide e não se esqueça de esconder todas as coisas que você pegar dentro da tábua solta debaixo da minha cama. A gente vai ver tudo só amanhã à noite, entendeu?

— Sim, eu faço e fico te devendo uma – a garota disse, séria. Pensou em contestar o plano praticamente suicida de Zairo, mas sabia que nunca conseguiria fazer o garoto mudar de ideia, além de que sabia que ele tinha razão: era aquela noite ou nunca mais.

Parada, no escuro, Hikari observou Zairo desaparecer na penumbra e esperou e esperou e esperou. Os poucos minutos que passou ali pareceram horas. O som suave e imperceptível de sua respiração era ensurdecedor. A sensação do sangue correndo por suas veias era perceptível como nunca antes. O mundo parecia apenas composto de medo e ansiedade. Seu cérebro trabalhava a todo vapor. E se seus pais não tivessem deixado nada? E se não tivesse sido abandonada, mas sim a única sobrevivente de um terrível desastre? E se nem descobrisse seu sobrenome? E se fosse a única que os pais tivessem deixado algo, como ia encarar Zairo e Yoko? E se...Um barulho realmente ensurdecedor a assustou tanto que teve de morder o lábio até sangrar para não gritar.

Era o barulho de panelas.

Era sua deixa.

Tomou o máximo de distância possível, correu o mais rápido que pôde e se jogou com toda a sua força contra a velha e pesada porta de madeira. Não teve tempo de sentir a odiável dor em seu ombro ou de comemorar que a porta não se soltara das dobradiças; a euforia a consumiu e, frenética, ela começou a vasculhar os diversos arquivos de ferro. Viu que, felizmente, as pastas estavam organizadas em ordem alfabética. Primeiro viu a pasta de Zairo. Nada. Totalmente vazia com exceção de anotações sobre mau comportamento. Se não tivesse sido atenciosa, Hikari nem teria visto a discreta anotação de “Apareceu na porta do orfanato com provavelmente três meses de idade com apenas uma manta e só causa problemas desde então”. Pegou apenas aquele papel e já correu procurar a pasta de Yoko. Achou um colar com um pingente de lua crescente e uma anotação: “Yoko Tatsukawa — Mãe morta durante o parto. Pai suicidou-se seis meses depois”. Pegou tudo e foi, finalmente, atrás de sua pasta. Seu coração praticamente parou quando percebeu o peso do envelope de papel pardo. Um envelope de carta vermelho e pesado se encontrava dentro de sua pasta. E só. Com o coração a mil, Hikari levou tudo para o dormitório, já não ouvindo os barulhos de panela. Estava com medo, muito medo. Mas também estava feliz. Era o começo de sua identidade. Ser órfão significa não ser ninguém e esperar um dia ser. Mas poucos conseguem.

Hikari finalmente se sentia alguém.

Zairo ficou com mil castigos por mais de um mês, mas nunca se demonstrou arrependido, mesmo não descobrindo nada concreto sobre si. Yoko nunca mais tirou o colar e ficou bem abalada com a história de seus pais. E Hikari releu a carta até decorar cada palavra.

Olá, Hikari.

Você é filha de duas pessoas muito poderosas e também muito egoístas. Por nosso egoísmo que nos apaixonamos. Por nosso egoísmo que nos separamos. Por nosso egoísmo que a abandonamos. Eu não ligo pra você. Não agora. Um bebê só me atrapalharia. Não que eu não pudesse protegê-la, mantendo você comigo. Mas eu não teria paciência para cuidar de você com a vida que levo. Eu sou uma Hunter, Hikari. E você está destinada a ser uma, embora não pareça. Não a culpo, você cresceu em um mundo pequeno demais, simples demais. Mas isso que você chama de mundo não é nada comparado ao desconhecido. Monstros terríveis, criaturas exóticas, imensas riquezas, tesouros escondidos, enclaves malignos, terras inexploradas... Esse desconhecido guarda uma magia, algo lindo, e algumas pessoas incríveis são atraídas por essa magia. Esses são os Hunters. Se você não compreende porque uma mãe abandonaria sua filha para ser uma Hunter é porque você não conhece essa magia. Não espero que me perdoe por te abandonar, mas gostaria muito que você me compreendesse. Se torne uma Hunter e procure pelo desconhecido, pelo novo mundo. Vá até o Continente Negro quando isso finalmente for possível. Lá você vai encontrar essa magia. Também vai encontrar alguém que pode te dizer mais sobre mim, se isso te interessar. Viva como todos deveriam viver, por favor.

Ômega

No início, a garota ficara indignada com a audácia de uma mãe que abandonara a filha e admitira não se importar nem um pouco com ela ainda fazer um pedido. Porém a garota crescera sem qualquer rumo ou meta, sem identidade. Aquele pedido prepotente era tudo que tinha, era tudo que a compunha. Era algo muito tentador, Hikari tinha que admitir que se sentia instigada por aquele desafio. Queria também descobrir seu sobrenome, o que “Ômega” significaria e por que sua mãe havia deixado tantas folhas no envelope para escrever somente em uma. Demorou mais de um mês para que, com o incentivo de Zairo e Yoko, Hikari decidisse cumprir o desejo de sua mãe.

Dos seus doze aos seus quatorze anos, ela se preparou para aquele dia. Uma mochila e uma maleta continham tudo que precisava. Estava inscrita no Exame Hunter através da assinatura forjada da Irmã Edna, chefe do Orfanato Memento. Fugiria pela janela cujas grades foram soltas de forma discreta. Finalmente tudo estava pronto. O problema agora seria se despedir da garota ruiva, Yoko.

— Tenha uma boa jornada, Hikari – a órfã disse, controlando as lágrimas, enquanto oferecia o punho fechado para um cumprimento. Seu punho, porém, nunca foi socado, afinal Hikari a abraçou forte.

— Eu vou sentir muito a sua falta, Yoko! Você sempre será uma irmã pra mim. – A menina morena entrelaçou os dedos com os da ruiva quando esta começou a soluçar no seu ombro. – Queria que o Zairo estivesse aqui para que eu pudesse me despedir.

— Caso ele não dê certo nessa família também, eu repasso suas despedidas. – Yoko se afastou sem soltar a mão da outra.

A menina do pingente de lua tinha algo a perguntar, mas faltava-lhe coragem. Ela soltou a mão alheia num gesto doloroso. Viu a companheira retirar silenciosamente a grade de ferro enquanto sentia um vazio formar-se dentro de si. Com uma corda, a outra desceu primeiro a mochila e depois a maleta. Ela juntou toda a coragem que pôde, mas ainda não foi o suficiente. Tudo que conseguiu foi observar aqueles olhos castanhos cheios de brilho descerem para a rua sombria.

Com as lágrimas escorrendo, silenciosas, Yoko Tatsukawa segredou aquela dolorosa pergunta para a noite densa, num sussurro fraco:

— Você vai voltar?

O Orfanato Memento ficava numa cidade grande, porém pobre. Era uma cidade cinzenta e fedida, com sua economia baseada em indústrias têxteis. A comunicação com o resto do mundo era precária e poucas casas tinham televisão, sendo que apenas duas famílias tinham acesso à internet. Hikari estava empolgada para ver como o mundo tinha mudado desde que foram escritos os velhos livros da precária biblioteca do Orfanato.

Após passar uma noite dormindo em um beco escondido, estava na hora de gastar praticamente todo o dinheiro que acumulara das mais diversas formas ao longo dos últimos anos em uma passagem de dirigível para uma das ilhas do Jappon.

"O Exame Hunter deste ano se passará em alguma das ilhas jappônicas. Os participantes devem se reunir na Ilha Kuroshima para que sejam levados a uma outra pequena ilha não muito distante"

Dizia o informando que recebera. Durante a viagem, a menina lia e relia atenciosamente as palavras em busca de um significado escondido. Sabia que até encontrar o local do Exame seria um trabalho árduo e estava animada com isso, seu cérebro não parava de maquinar.

Todas aquelas grandes questões pararam de incomodá-la quando o zepelin começou a subir e a paisagem que via enchia seus olhos. Seu mundo finalmente se expandia, Hikari estava hipnotizada por aquele admirável mundo novo. Doía admitir, mas sua mãe estava certa quando dissera que Hikari crescera “em um mundo pequeno demais, simples demais”.

Acordando de seu transe, a garota voltou a refletir sobre o bilhete. As ilhas próximas de Kuroshima eram Kuchierabujima, Ioujima e Takeshima, pelo menos as pequenas. O informando não dizia que seriam levados de barco, o que poderia ser uma pegadinha para quem pressupusesse isso. Também não era dito que o Exame aconteceria nessa ilha próxima, apenas que seriam levados para lá… Perdida em pensamentos, a menina adormeceu.

Hikari acordou sentindo, pela primeira vez, o cheiro forte de maresia. Guardou a jaqueta azul, uniforme do Orfanato, em sua mochila e saiu do dirigível. A paisagem ensolarada, o ar límpido, o cheiro de mar e dos peixes, o próprio mar e a praia, tudo era inédito para ela. Poderia ter quatorze anos, mas até um adulto na mesma situação reagiria de forma pura e infantil. A menina ia, saltitando, investigar cada coisa que era nova para ela, ou seja, tudo.

Depois de uma hora gasta matando curiosidade, a menina voltou-se ao seu objetivo: o Exame Hunter. A ilha, não muito grande, tinha três portos: um na costa norte, um na costa sul e um na costa oeste. Apenas o da costa oeste apontava para as três ilhas, por isso era o único a ter um aglomerado considerável de pessoas excêntricas, provavelmente candidatos do Exame Hunter. Hikari primeiro desconfiou que os barcos que passassem por ali realmente levassem os candidatos para o Exame. Logo em seguida, ao ver uma embarcação bem sofisticada e com o logo da Associação Hunter bem explícito, ela concluiu que aquilo tudo não seria desperdiçado em uma pegadinha para diminuir o número de candidatos. A garota se dirigia ao porto, decidida a embarcar, quando uma sensação assustadora a paralisou. Era a mesma sensação que ela sentia quando via que algo ia cair em sua direção e não teria como desviar, mas muito mais intensa e sem nada a cair. Olhando para os lados, a procura da fonte daquela sensação, não havia dúvidas: Um garoto de cabelo curto e loiro, olhos verdes, vestia uma camisa rosa, uma gravata azul, calças e sapatos sociais pretos e um suspensório, podendo ser facilmente confundido com uma garota, andava tranquilamente enquanto era seguido descaradamente por muitas pessoas, além de alguns mais discretos. Hikari se viu dividida: embarcar no navio da Associação Hunter ou seguir o garoto suspeito?

Notas finais
-----> Entrar no barco. ou —----> Seguir o garoto. Curta nossa página e/ou entre no nosso grupo e vote! Espero que tenham gostado! E se shipparam a Hikari com a Yoko, podem shippar, porque eu shippei, mas não criem muitas esperanças com o shipp.