Finalmente havia chegado o dia da competição entre eu e a pessoa do grupo de Misha.

Estávamos todos reunidos em um campo aberto próximo a aldeia. Seria uma grande festa, estavam montando barracas e decorando o local, não somente por causa da competição, mas porque seria o quadragésimo quinto aniversário do nosso Alpha, e isso era motivo para uma grande comemoração para a matilha, porém para mim não passava de um motivo fútil afinal em tempos de guerra não temos possibilidades de comemorar.

Já estava me aquecendo quando ouvi um membro de nossa matilha subir em um pequeno palco montado, ele deu umas batidas leves no microfone para ver se estava funcionando e falou:

Atenção pessoal, como vocês sabem hoje é um dia especial para nossa tribo, pois um grande líder irá comemorar seu aniversário. O nosso líder Alpha Rivers, o melhor que nossa matilha já teve. – Todos aplaudiram, alguns assobiaram até que ele pediu silêncio novamente. – Bom pessoal, nosso líder gostaria de dar umas palavrinhas antes que as festividades iniciem e a nossa tão esperada batalha de guerreiros começe.

O pai de Misha subiu no palco e foi aplaudido, ele segurava um enorme sorriso no rosto. Observei e vi Misha aplaudindo e assobiando para ele, ela parecia muito feliz, a menina adorava o pai.

Obrigado pessoal, obrigado. Mas sem mais enrolação eu gostaria de dizer que não serei mais o líder de vocês, a idade já esta muito prolongada para que eu fique na ativa. Para este cargo é necessário um espirito jovem, e como vocês sabem minha filha Misha. – Todos aplaudiram ao ouvirem o nome dela. – A minha menininha já esta com idade para tomar o cargo de Alpha. – Ele falou emocionado. – Então quando o verão chegar, eu passarei minha posse de Alpha absoluto para ela. Como já sei que ela achou seu par, filho do meu amigo e Beta de nossa tribo, Trevor. – Todos gritaram e aplaudiram novamente, Misha derrepente perdeu o sorriso no rosto e ficou séria, eu apenas virei os olhos e Trevor mostrou seus músculos e abraçou Misha.

Sério aquele cara era um babaca só tinha força e mais nada. E o pior de tudo é que vai ser ele o meu oponente na batalha. Pelo menos vou ter a oportunidade de arrancar aquele sorriso de merda da cara dele.

De repente aconteceu o inesperado, Misha soltou o braço de Trevor e subiu no palco para a surpresa de todo mundo.

Desculpa pai mas eu preciso falar algo e precisa ser em público.

Tudo bem minha filha pode falar. – O Alpha passou o microfone para Misha e todos ficaram em silêncio.

Bom olá pessoal, eu sei que é uma data especial e tudo mais, mas eu preciso me retratar com vocês, depois do que eu vou dizer aqui, vocês podem me odiar, mas estou devendo isso para uma pessoa. – Todos naquele momento se entreolharam confusos, tentando adivinhar oque a menina queria falar.

Primeiro de tudo, parabéns papai. E segundo eu queria dizer que menti, que meu verdadeiro par não é Trevor, tampouco é um menino, e que eu peço humildemente o perdão de vocês. – Todos olhavam perplexos, alguns cochichavam palavras de ódio, aparentemente lobos eram seres puros e fiéis, por tanto mentir não era visto com bons olhos na nossa matilha.

Mas minha filha porque fez isso?

Porque fiquei com medo e com vergonha do julgamento de vocês, mas percebi que vou ser muito mais infeliz se eu não ficar próxima de meu par.

Então quem é o seu par?

Meu par é a ômega. – Ela falou suspirando e abaixando a cabeça. – E eu queria pedir desculpas pela milésima vez para ela.

Blásfemia! – O pai de Misha falou furioso, se virando para mim. Todos voltaram suas cabeças para a minha direção, e eu não sabia onde escondia a minha cara.

Uma ômega não pode, nunca foi e nunca será par de uma futura alpha. Isto é um absurdo e uma afronta contra todos os nossos princípios. – Ele falou gritando e olhando para mim, enquanto os outros concordaram.

Neste momento Evy pulou na minha frente, seus olhos brilhavam furiosos, ela pegou minha mão tentando me proteger.

Ela é tão boa quanto qualquer um de vocês, talvez boa demais até para sua preciosa filhinha. – Evy falou quase rosnando.

Cuidado com essa sua língua. – O alpha falou bravo.

Ou oque? Um senhor senil vai me bater? Não se esqueça que temos um acordo, se eu for embora agora sua preciosa matilha vai ser massacrada por Nathanael. Eu tenho informante interno, sei de coisas que o senhor não sabe.

Neste momento o Alpha rangeu os dentes e fechou os punhos concordando. Evy olhou para mim e deu uma leve apertada na minha mão e depois largou.

Misha desceu do palco, sendo observada por todos e saiu correndo para dentro da floresta. Eu ia correr atrás dela mas Evy me impediu.

Não se esqueça que tem uma luta agora, você vai ter que provar pra o Alpha que é melhor que Trevor.

E se eu não conseguir?

Tá brincando né. Você foi treinada por mim, obvio que vai dar conta. – Ela falou piscando o olho.

Uma espécie de arena circular foi montada, e arquibancadas dispostas ao redor. Todos da matilha já estavam acomodados, quando o locutor anunciou.

Pessoal, depois deste pequeno imprevisto estamos todos aqui reunidos para presenciar este fantástico combate entre Suriel e Trevor! – Todos aplaudiram, alguns vaiaram, no caso me vaiaram, porque estava na cara para quem eles estavam apostando e torcendo.

Eu me preparei, alonguei meus músculos, tomei o tempo necessário para relaxar e me concentrar. Trevor apenas sorria com cara de idiota e gritava com os punhos para cima, incitando a platéia que gritava em um coro só. “ Trevor! Trevor! Trevor!”

A lua hoje estava cheia e parecia mais do que especial, pois estava combinada com a aurora boreal que brilhava linda no céu, fazendo parecer uma noite mágica. Em noites de lua cheia nossos poderes ficavam ainda maiores, talvez por isso que a data da luta tenha sido marcada para hoje, que coincidentemente também é aniversário do Alpha.

Muito bem, lutadores preparados? – O locutor falou. Eu concordei e me posicionei, e Trevor fez o mesmo.

Então lutem! – Um sino tocou.

Trevor correu para me atacar, e me deu um soco tão rápido que, mal deu tempo para que eu desviasse, minha mandíbula deve ter deslocado, eu caí no chão gritando de dor e todos aplaudiram a performance do garoto.

Eu me levantei enquanto ele comemorava e passei uma rasteira, o garoto caiu sentado no chão. Aproveitei a oportunidade e agarrei ele por trás e tentei sufocá-lo. Quanto mais ele tentava se desvencilhar, mais eu apertava, meus braços estavam sangrando devido aos arranhões que ele me dava. Até que uma hora ele me sacudiu das costas dele e se transformou, eu fui jogada uns dois metros longe.

Um enorme lobo cinza e branco agora rosnava ferozmente para mim.

Eu me transformei também antes que ele me atacasse, e felizmente consegui me desviar da mordida.

Novamente ele foi para cima de mim e eu desviei, e mais uma vez e mais uma e outra. Nós dois estávamos começando a cansar, meu coração estava disparado, a adrenalina estava me fazendo rápida. Finalmente ele conseguiu me pegar pelo pescoço e me sacudiu, eu cai bruscamente no chão e bati a cabeça em uma rocha. Foi ai que tudo começou a girar e ficou escuro. Eu ouvia o grito do público mas eu não conseguia me mexer. O locutor começou a contagem regressiva para o fim da luta, mas minhas patas não respondiam. Senti algo estranho dentro de mim, como se algo estivesse mudando, meus ossos começaram a estralar e eu senti uma dor absurda, a mesma dor de quando eu tinha me transformado pela primeira vez, talvez até pior. Todos olharam impressionados quando eu consegui me levantar. Meus pelos cinza estavam no chão e agora crescia rapidamente em meu corpo uma pelagem espessa e negra como a noite, a minha cauda estava mais comprida e possuía apenas uma mancha branca na ponta. Eu também me sentia muito maior e muito mais forte. De fato agora eu estava maior que Trevor, porém mais confusa que qualquer um ali.

Consegui focar minha visão novamente, todos olhavam de boca aberta para mim. Eu não fazia a mínima idéia do que tinha acontecido e porque todos estavam daquele jeito, a única coisa que eu sabia é que eu tinha trocado de cor e que eu estava maior.

Sem ter muito tempo para pensar senti uma dor na minha perna esquerda e vi que Trevor estava me mordendo. Eu sacudi minha pata e o menino voou uns 5 metros de distância batendo em uma árvore e caindo desacordado.

Contagem juiz! – Evy gritou. Ela estava com os braços cruzados encostada em uma das arquibancadas.

O juiz retomou seus pensamentos e começou a contar. Trevor nem se mexia. Dez segundos se passaram e a luta terminou.

Evy veio correndo para cima de mim e me abraçou.

Eu voltei a minha forma humana.