How to survive
7 Obstáculos
Notas iniciais

Ellie.
Naquela noite, eu queria ver o céu. Mas tudo que eu via era a lona alaranjada tremulando com a luz do fogo. Já tinha me decidido que iria levantar quando lembrei que ainda estava nublado. Sim eu amo o inverno, mas não aguentava mais ver neve na minha frente. Tinha sido um inverno rigoroso. E não estava perto de acabar.
Senti uma movimentação do meu lado. Aiden. Se voltou para mim, mas eu não tirei os olhos da lona acima de nós. Só percebi que ele estava acordado quando sussurrou para mim.
– Também sem conseguir dormir? — Deitei de lado para encara-lo.
– É... Muita coisa na cabeça?
– Talvez... E você?
– Não muitas. Besteira... Eu só queria ver o céu. E ter vivido num mundo normal.
– Ah mas que sem graça! Se vivesse num mundo normal, nunca teria histórias interessantes pra contar... Inclusive a história de como conheceu o cara mais legal que você já viu durante uma caçada! — E piscou para mim. Eu revirei os olhos e ri baixinho.
– Acrescente a habilidade de contar piadas sem graça na sua descrição.
– Mas você riu!
– Eu apenas sou educada. — Dei mais uma risada e me levantei para dar uma volta. Percebi que ele também foi atras de mim.
– E como a senhorita educada foi educada? — Disse surgindo do meu lado.
– Como assim, cara?
– Qual a sua história?
Continuamos andando na neve sem fazer muito barulho. A lua estava encoberta, mas mesmo assim a noite estava clara.
– Era nisso que você estava pensando enquanto não dormia?
– Na verdade estava pensando na minha história... E então quis saber da sua...
– Bem...
Não o conhecia muito bem, mas o contei sobre minha infância sem muitos detalhes. Sobre a escola. Sobre Riley. Como sabia poucas coisas sobre minha família. Não gostava muito de lembrar sobre algumas coisas.
– O que foi? — Ele percebeu que eu ainda o encarava quando terminei.
– Sua vez. Te contei minha história, e eu mal te conheço.
– É... Ta certo...
Ele sentou em um tronco e deu um grande suspiro. Eu sentei ao seu lado.
– Bem minha família era perfeita... A gente vivia em uma zona de quarentena enorme, bem protegida, com uma boa vizinhança. Meu pai, assim como sua mãe, era enfermeiro. Minha mãe era fotógrafa. E eu tinha uma irmã mais nova chamada Alice.Ela tinha seis anos quando... Ah... — Ele suspirou. Eu fiquei em silêncio. — Bem, quando a zona foi invadida. Tudo aconteceu de uma vez. Eu ouvi um barulho muito forte vindo da rua. Eu tinha quinze anos na época. Os barulhos ficaram frequentes e vinham de todos os lados. Não sei se foram contrabandistas que form mordidos ou os infectados acharam um modo de entrar na zona. Eu tinha brigado com meu pai, por não me deixar usar uma arma. Eu fui dormir com raiva, me tranquei em um quarto separado de todos. Era verão. Eu estava sem camisa e sem nenhuma arma por perto. Me levantei com um susto. Quando saí do quarto era tarde demais. Já estava tudo silencioso. Encontrei minha mãe sentada no chão com minha irmã chorando de dor. Ela tinha sido mordida. Notei a perna de minha mãe sangrando também. Meu pai surgiu chorando, e... — Lágrimas escorreram. Eu não tinha coragem de dizer nada. Mas ele continuou — E... Ele tinha uma mordida no ombro. Ele... Me entregou a arma e disse que eu podia usá-la agora... — Ele enterrou o rosto nas mãos. Aiden soluçava. — E-eu... Eu saí muito tarde daquele quarto... Eu tava com muito... E Eu atirei, droga!... A culpa... — Ele tentou dizer mais alguma coisa, mas num movimento quase involuntário eu o abracei. Eu não disse nada. Ele parou de falar e encostou a testa no meu ombro.
Eu realmente não sabia o que dizer, ou o que fazer além daquilo. Também passei por coisas difíceis e sabia como era aquele sentimento. Nenhuma palavra melhoraria. Se existisse alguma outra parte da história que ele ainda não havia contado, eu não queria saber. Sou péssima pra consolar ou seja lá o que fosse preciso fazer em uma situação como aquela. Mas senti que só o abraço era o suficiente. Bem... Para mim sempre foi.
Aiden retribuiu o afeto. Eu não liguei. Estava frio.
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