How to survive
14 Cão farejador

Ellie.
Alguns dias se passaram. E acho que isso foi bom. Bem, pelo menos as noites melancólicas sentadas na janela acabaram. Não que eu tenha esquecido de tudo, mas... Nascer nesse mundo, e ter que passar por tudo que passei, me ensinou a transformar sofrimento em apenas lembranças, e transformar esses sentimentos, como saudade, em rotina.
Aprendemos a ser nossos próprios psicólogos, nos motivando a sobreviver a cada dia que passa. Aposto minha vida que todos os suicídios foram concluídos pela falta desse pensamento, dessa vontade.
E a minha motivação é uma conclusão. Meu sofrimento no momento é a dúvida. E os meus sentimentos não merecem ser uma simples rotina.
O sol ainda não tinha nascido, mas Tommy me acordou com leves batidas na porta. Caçadores são treinados para acordar com o menor ruído. Sim, eu estava de volta à ativa.
– Suas coisas já estão prontas? – Perguntou Tommy na porta.
– Sim, me espera lá fora, só preciso trocar de roupa.
– Ok, vai rápido.
– Eh, espera! – disse antes que ele se afastasse.
Tommy se virou para mim.
– Quem vai com a gente?
– Relaxa Ellie! Só nós dois. Joel está ajudando na usina, e os outros são muito barulhentos para caçadas.
– Ok, então..
– Te espero lá fora. Leve seu arco.
Troquei de roupa e peguei minhas coisas. Aliviada por Brandon não ir com a gente. Não pelo que ele fez em relação ao Aiden/William. Mas ele é o tipo de cara que não entende quando uma garota não está interessada. Durante aquela semana ele simplesmente não largou do meu pé. E bem, a sua falta de atenção complicou as coisas entre Mable e eu.
No dia em que ela finalmente admitiu que sentia algo pelo Brandon (apesar de eu já perceber isso antes), eu ele fomos vigiar a entrada principal.
– Ah, não era assim que eu esperava mais...
– Do que você ta falando agora, Brandon? – Eu já estava cansada de ouvir as conversas sem sentido dele.
– Ah, você sabe... – Ele veio do meu lado – E-Eu esperava uma ocasião um pouco mais agradável para... Eh... Ficar a sós com você? – Disse como se perguntasse para ele mesmo.
Fiquei sem expressão. E eu achando que ele poderia ser o vilão da história. Brandon não passava de um cara ingênuo. E eu acho que fui educada o bastante para não falar meus pensamentos em voz alta. Queria não ser fria e rude, pelo menos uma vez.
Só pode ser brincadeira, eu pensei. Mas para ele não era. O garoto ingênuo se aproximou de mim, com a respiração acelerada. Colocou a mão no meu rosto.
– Brandon, eu acho que... – Me segurando ao máximo para não dar um chute nele, não pelo que estava fazendo comigo, mas sim com Mable. Pensei nela naquele momento. E antes de completar a frase, ela chegou para me substituir. Tinha acabado meu turno.
Mable ficou ali por alguns segundos e foi embora. Eu conhecia ela o bastante para saber o que ela estava tentando esconder. Depois de chamar Brandon de burro com as piores palavras e no pior tom possível, eu fui atrás dela.
Como sempre, não adiantou. Expliquei tudo para ela, talvez ela tenha acreditado que eu não tinha culpa de nada. Mas ainda sim doía. Entre lagrimas ela disse que já previa isso, que eu era a mais velha, com mais qualidades, mais bonita, e por isso estava acontecendo de novo.
– De novo? – Eu perguntei.
– É. – Disse ela – Foi a mesma coisa com o Trent.
Desde então ela não tem falado comigo. Eu estava tão preocupada com meus problemas que não percebi que ela também tinha os dela. A maioria por minha causa.
Maria esteve conversando com ela depois disso. Simplesmente não sei como agir nessas situações. Sei que parece covardia mas me sinto aliviada quando Tommy me chama para caçadas, para uma chance de sair dali e esperar tudo se resolver. Mas essas coisas não se resolvem assim tão fácil.
– Há! Duas vítimas... – Sussurrou Tommy.
Avistei dois cervos na beira de um rio. A neve congelava nossos pés mas permanecíamos imóveis. Duque estava logo atrás, farejando o máximo que podia, sem fazer nenhum barulho.
– No três, eu acerto o da direita e você o da esquerda, ok?
– Certo.
– Um, dois... Três!
Os dois animais caíram mortos. Duque disparou na direção deles. Nós nos aproximamos.
– Uau, Ellie! Bem no meio dos olhos... Você tá cada dia melhor, em..
– Foi sorte, haha...
Tommy abriu a boca para responder, mas duque interrompeu. Ele deu um latido e saiu em disparada na direção da floresta, deixando pegadas na neve. Nos entreolhamos e corremos atrás dele.
Seguimos as pegadas, chamando pelo cachorro. As pegadas se confundiram com de outros animais, e nós perdemos ele.
– Ah onde esse cachorro se meteu... – Tommy disse segurando o gorro em uma mão e coçando a cabeça com outra. – Vou ir pegar os cervos.
– Tudo bem, eu espero aqui.
O sol já estava nascendo. Depois de alguns minutos, ouvi um barulho. Parecia alguém pisoteando a neve. Andei silenciosamente na direção do som. Comecei a sentir um cheiro familiar, e ouvir o som de algo respirando com dificuldade. Lembrei da onde conhecia esse cheiro. Encontrei o duque, e a fonte do cheiro de sangue. Eu gritei.
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