Notas iniciais
A história é uma song, então, provavelmente, no próximo capitulo eu já deixe o link com a playlist e tudo meigo e lindo.

O céu estava cinza e a neve caia noite e dia. No começo o príncipe não se preocupava em sentir o frio, mas com o tempo o clima começara a fazer mais efeito sobre ele e passava os dias preocupado em sentar-se encolhido contra a parede de pedra cinzenta em busca de um calor que não existia, pois o próprio sol parecia esquecesse daquele pequeno local e, após uma semana, começara a sentir um ódio mortal por aquele estado, como uma terrível piada de algum deus sórdido que estivesse com algum complô com seus adorados irmãos. Isso não seria surpresa, nunca fora o favorito dos irmãos, nem dos pais, os deuses eram apenas mais alguns seres na enorme lista.
Novamente recorreu à parede de pedra e sem conseguir firmar as mãos riscou um traço: mais um dia em seu terrível exílio, pelo menos era uma chance de bolar seu plano e, se tivesse sorte, tudo daria certo. Mas já estava querendo demais, a sorte era outra coisa que não gostava dele. Estava sempre a espreita, esperando para que ele se desse mal no primeiro momento.
De repente, passos chapinhavam na neve que ainda caiam do lado de fora. Alguém se aproximava e, apesar de não poder ver, sabia muito bem quem era a única pessoa que poderia andar por aquela nevasca que entrava pelas frestas da enorme torre negra e caia em flocos aos seus lados, formando montes que raramente chegavam a derreter.
Em outros tempos teria se erguido e puxado algo com que se defender se ouvisse o trinco da porta se mexer, havia, inclusive, preparado um pedaço de madeira para o caso de isso acontecer, mas as semanas se arrastaram até deixa-lo sem qualquer resquício de sua determinação anterior. Tudo o que podia fazer era esticar as mãos enluvadas no chão frio para se arrastar até a porta.
O escuro cedeu lugar ao branco cegante da neve que escorregou para dentro junto com uma figura encapuzada que entrava por lá, tremendo.
— Loucura o que fizeram com você, não rapaz? — perguntou uma voz feminina partindo de baixo do capuz negro pesado que cobria um vestido de rendas da mesma cor. — Não sou quem você espera? — perguntou um rosto sério e moreno de lábios carnudos e olhos marrons quase encobertos por uma massa de cabelos de um castanho avermelhado — Não se preocupe, não é a primeira vez que me confundem com a rainha da neve, não são muitas pessoas que andam por uma nevasca tão terrível. — então jogou um cantil, ainda meio cheio, para o homem devastado a sua frente que apenas a encarou com um misto de curiosidade e medo — É apenas vinho, é dos bons e aquece até os ossos. Faz bem nesse frio todo.
Ela então se sentou no chão ao lado dele e tirou as botas negras de cano alto para mostrar os pés cobertos por meias finas da mesma cor.
— Você irá morrer de frio. — disse com a boca ainda seca, tomando outro gole da bebida revigorante, dessa vez mais seguro e afoito.
— Não se preocupe tanto — um sorriso surgiu em seus lábios — O frio nunca me incomodou de qualquer maneira. — ela então virou os brilhantes olhos castanhos para o jovem de cabelos e barba ruivos — Mas não posso dizer o mesmo de você aparentemente.
Ele a encarou de cima a baixo com os olhos verdes, fazendo uma analise séria dela, mas não se afastou, apenas tomou mais um gole, acabando com o liquido roxo que lhe escorria pela barba — Você é uma bruxa?
— Como descobriu? — perguntou em tom sério, mas seus olhos denunciavam a brincadeira — Minhas roupas negras, o fato de andar na neve ou só o fato de não estar morrendo de frio como você?
— Eu conheci uma bruxa do gelo uma vez — ele disse limpando o rosto molhado e tirando os pedaços de gelo que ali estavam enquanto ela se levantava e tomava o pedaço de madeira que ele usava como arma — E ela me deixou para morrer aqui, nada mais me espanta.
— Não sou uma bruxa do gelo — respondeu enquanto cortava a madeira com um machado pequeno que trazia preso a cinta e escondido pela capa — Nem Elsa é uma pessoa ruim, apenas incompreendida e… Vá lá, um pouco superprotetora demais.
O silencio se fez assim que o fogo aqueceu o ambiente. Aquele pouco calor foi tão bem-vindo que o homem se aproximou para senti-lo melhor contra as mãos meio congeladas.
— Mais um pouco e poderia ser o fim dos seus dedos, meu amigo — falou a jovem observando a coloração fria na ponta dos dedos.
— Não sou seu amigo. — respondeu ríspido, mas a moça apenas deu de ombros e se afastou um pouco mais — Afinal, quem é você.
— Brianna, tenho trabalhado com Elsa desde o… — ela o olhou de cima a baixo como se medisse as palavras — Incidente.
— Eu nunca a vi em Arandelle — ele respondeu com os olhos sérios.
— Claro que não — ela replicou no tom mais sério ainda, como se fosse algo óbvio — A embarcação da minha casa até dura pelo menos dois dias e meus pais não me deixaram partir até que tudo estivesse em relativa ordem por aqui. — respondeu revirando os olhos castanhos nas órbitas — Pais.
— Você tem problema com os seus pais! — deduziu de repente, talvez ela fosse uma boa aliada para concluir seu plano.
— Oh! Não, de forma alguma! — ela respondeu tocando as paredes de pedra cinzenta como se fosse algo de extremo bom gosto e importância. — Nenhum problema, só queria ter vindo mais cedo, mas eles acharam melhor em não me intrometer tanto. Eu sou uma mestra, não mais que isso e um mestre mostra o caminho, apenas.
— E porque veio atrás de mim — inquiriu ele, mas o olhar que ela lhe passou em seguida o fez gelar mais rápido do que nunca.
— Quem lhe disse que vim atrás de você? — perguntou séria — Você por caso sabe quem construiu isso? Quem morou aqui? — uestionou sem deixa-lo espaço para responder — Não, você não sabe que foi minha mãe em uma época de exílio terrível.
— Quem é sua mãe? — foi a única coisa que saiu de seus lábios.
— A questão não é como ou quem ela é, mas como e quem ela foi — respondeu a jovem de uma forma tão enigmática que lhe pareceu algum jogo sem graça de advinha — Minha mãe foi como Elsa — mas então ela virou-se para ele, ainda acariciando as pedras cinzas — Como você, Hans.