How To Save Two Lives
9 Capitulo 8: Wasting My Young Years/All These Things That I've Done
Notas iniciais
"Você cruza essa linha
Você acha que é difícil dizer isso para mim esta noite?"
– Wasting My Young Years (London Grammar)
#
Brienne saiu do escritório com um sorriso nos lábios. Podia estar indo embora de Arendelle por tempo indeterminado, mas pelo menos havia dado espaço para o seu plano fluir sem precisar estar lá.
— Brienne de Ealdor — ouviu uma voz masculina a chamar quando passou pelo pátio — Conheço você e sei o que está fazendo.
— Dá onde? Se me permite perguntar? — respondeu ela se aproximando da figura com cabelos ruivos escurecidos que se encontrava meio encoberto pelas sombras da alcova. — Alguém das Ilhas do Sul.
— Manfred — ele respondeu com uma certa frieza — Do casamento da princesa, quando dançou com aquele rapaz, mas principalmente de quando estive na Inglaterra. Seu primo Henry não parava de falar de você.
— Esteve na Inglaterra? — perguntou mais impressionada do que aparentava. Certamente que se Manfred havia estado lá, o motivo de sua ida tinha algo a ver com isso.
— Sim, na mesma época em que Hans veio a Arendelle — ele respondeu se aproximando um pouco.
— Imagino que não preciso perguntar o motivo de sua viagem até lá, por tanto — respondeu com um sorriso e então balançou os longos cabelos e se despediu — Agora tenho de partir, ajudar meu primo a organizar a bagunça que você deve ter deixado.
— Melhor ainda que esteja de saída — respondeu ele — Assim posso levar Hans de volta para as Ilhas com mais facilidade.
Ela parou, controlando a respiração e evitando que o príncipe sentisse a mudança brusca em seu pulso — E o que eu tenho a ver com isso? — perguntou ela se virando devagar para encara-lo com mais cautela.
Tinha seus 35 anos, mas não parecia ter mais que 25 com os lábios finos, a pele completamente lisa e o cabelo sem qualquer sinal de começar a embranquecer. Ele se aproximou mais alguns centímetros como se para analisar a perfeita mascara de indiferença que a mais nova havia criado.
— Sabe, se seu primo tivesse me proposto você como noiva, talvez não tivesse problemas para resolver agora — um sorriso cínico surgiu nos lábios grossos da moça que respondeu com desdém.
— Henry jamais me entregaria contra minha vontade — ela circulou o príncipe muitos centímetros mais altos, mas não olhou para cima, não podia demonstrar inferioridade — Do contrário ele poderia até mesmo perder o trono. — ele sorriu mais uma vez — Mas eu pergunto novamente o que eu tenho a ver com a partida de vocês?
— Estou pretendendo partir com Hans ainda hoje — ele respondeu e observou a dilatação repentina dos olhos da morena.
— Elsa ficara feliz — ela respondeu com simplicidade e então se afastou com o coração batendo forte no peito.
Não poderia deixar aquele maldito destruir seus planos tão bem calculados, não agora que sabia que era só uma questão de tempo. Elsa já estava pronta para dar seus passos, só precisava de pouco tempo e tudo correria como devia. Chegou no barco com ar estressado e não deu tempo do capitão trocar uma palavra com ela.
— Vamos! — respondeu — Estarei em minhas celas até o fim da viagem e não quero que ninguém me interrompa.
#
Manfred observou a morena se afastar a passos largos. Sabia que ela queria juntar Hans e Elsa, mas sua ideia e tinha grandes chances de conseguir. Era uma verdadeira pena que não conseguira falar com ela durante o casamento da princesa Anna, mas não podia fazer nada se o jovem cavaleiro estava apaixonado demais para deixar outro se aproximar. Teve de conter o riso ao se lembrar da cena, quase era possível ver a espuma escorrer pelos cantos da boca do jovem quando ouviu uma menção informal do príncipe, com seus irmãos, de tirar a feiticeira para dançar.
Passou a mão pelos cabelos ruivos e subiu as escadas com o passo apresado, queria chegar a biblioteca e conversar com dois dos irmãos mais novos.
— Que bom ver os dois sozinhos sem se matar — anunciou ele entrando na sala ricamente decorada onde os irmãos se encontravam nas poltronas — Onde está Hans?
— Não está aqui — respondeu Alvan — Eu olhei em todos os corredores.
— Isso é bom, decide que partiremos o mais breve possível. — anunciou o mais velho
Ele afastou Alvan da poltrona com um tapa no braço e se sentou ali. Os três já estavam acostumados com esse jeito do irmão.
— E quanto a rainha? — perguntou Bjorn se ergueu em sua poltrona — O reino?
— Fale baixo Bjorn — respondeu o mais velho com seriedade — As paredes tem ouvidos mesmo em Casteler, não é diferente em Arendelle, mas muito mais perigoso.
— Mesmo assim — falou em um tom mais baixo que o anterior — Vamos deixar o reino assim.
— Sim — respondeu o mais velho com uma calma que assustou os outros — Hans não conseguiu fisgá-la, a princesa já está fora de alcance e você nem ao menos conseguiu uma brecha.
— Hans estragou a minha chance — respondeu o Bjorn um pouco irritado com a descrença do irmão — E eu tenho mais chance do que ele. Jogue-o para um reino menor — reclamou ele.
— Você não tem chances — respondeu Manfred — Se tem algo que sei, é como analisar alguém e Elsa não tem o mínimo interesse em você.
— Então vamos realmente desistir de Arendelle? — perguntou uma voz que acabara de entrar.
— Sim, Hans! — respondeu o irmão se virando para ele — Vamos desistir de Arendelle.
— Brienne me deu uma boa chance com a rainha — respondeu ele — Eu sei como chegar nela.
— Brienne foi embora e eu não consegui aborda-la — completou ele — Você está perdido sem ela.
— Não! Não estou! — disse o mais novo dos quatro com um sorriso na voz, não contaria a sua vantagem aos irmãos e tão pouco insistiria que Manfred o deixasse ficar ali — Elsa não é tão fora de alcance como você pensa — ele se aproximou do sofá onde Alvan estava sentado e esticou as pernas sobre a mesa de centro — E não temos escolha. Acabei de passar por Kai no corredor e ele parecia alarmado — ele sorriu aos irmãos presentes e disse — Não temos escolha, uma tempestade se aproxima de norte e todas as embarcações estão proibidas de ir ou vir enquanto ela não se afastar da costa.
#
Elsa ainda estava em seu escritório quando Kai veio avisar que o barco de Brienne já estava partindo.
— Obrigada Kai — respondeu amavelmente ao homem, que basicamente a havia criado — Mais alguma coisa.
— O príncipe Manfred, avisou que pensa em partir ainda hoje com o prisioneiro
— Graças — respondeu com um sorriso ainda maior irradiando o rosto pálido — Menos um problema, que horas ele pretende partir?
— Ainda não informou Elsa — respondeu ele e então fez uma pausa que a perturbou — Mas há um problema, uma enorme tempestade vem se formando do norte e é possível que nenhuma embarcação receba permissão de partir até que a tempestade passe — respondeu o homem.
A rainha esticou os braços em frente ao corpo e deitou a cabeça sobre eles, cansada. — Sei que é difícil — falou ela — Mas já há alguma previsão do fim dessa tempestade?
— Nenhuma rainha — respondeu ele — Pode levar muito tempo ou apenas alguns dias.
— Está bem — ela respondeu se levantando da mesa — Avise isso ao príncipe e garanta que todos eles tenham a melhor hospitalidade possível.
— Sim senhora! — respondeu o velho conselheiro saindo pela porta.
Nem bem se passaram vinte minutos quando ouviu mais batidas na porta.
— Entre — gritou de sua mesa enquanto tentava, sem sucesso, arrumar a papelada pela milésima vez, por sorte já havia diminuído consideravelmente.
— Rainha Elsa? — perguntou a voz enquanto era acompanhada com as batidas do bastão no chão — Você está ai? — na mesma hora, Elsa viu o rosto de Freya ficar rubro — Posso entrar?
— Claro! — respondeu Elsa se levantando e se aproximando da princesa cega — Entre! Quer alguma ajuda? — perguntou esticando uma das mãos para que a mais velha pegasse.
— Não! Você também não, majestade — reclamou enquanto ignorava a mão estendida da rainha — Já me basta meus irmãos e minha mãe. Eu não sou inválida, só não enxergo — ela sorriu após a sentença e continuou caminho as batidas até que encontrou a poltrona de Kai na sala.
— Claro que não — respondeu a rainha com uma risada — Eu sinto muito, é só que… — ela fez mais uma pausa, estava aliviada — A sala é muito cheia de coisas, Anna entra aqui e sai cheia de roxos.
— Eu não reclamaria se houvessem menos coisas espalhadas também — respondeu com um sorriso encantador — Quase cai na biblioteca ontem, mas não moro aqui e isso não deve ser da minha conta. — ela fez mais uma pausa, dessa vez muito mais leve que as outras — Eu lhe incomodo rainha?
— De forma alguma — respondeu Elsa — Se eu a fiz pensar isso, eu sinto muito, eu só…
— Está tudo bem — respondeu a princesa — Eu só não tenho o costume de sair das Ilhas do Sul e quando surgiu a oportunidade de vir a Arendelle a primeira vez, eu fiquei tão animada de conhecer alguém que era tão isolada como eu — ela disse com um ar sonhador no rosto — Mas Hans já tinha outros planos e não vim. — ela fez outra pausa, essa consideravelmente desconfortavel em comparação com a anterior — Você poderia se aproximar? — pediu esticando as mãos no ar — Eu gostaria de poder vê-la e essa é a única forma — ela dizia enquanto mexia os dedos no ar — É um pouco limitada, mas é a única forma.
A rainha sorriu e se ajoelhou perto da princesa que começou a tocar as feições com cuidado fazendo perguntas apenas ocasionais como — Qual a cor do seu cabelo? Dourado ou prateado? Dos seus olhos?
Coisas que a rainha respondia prontamente com — Loiro, prateado, azuis.
— Hans falou que era linda — respondeu ela com um sorriso que iluminava as feições do rosto sardento. Ela lembrava muito Anna, bem mais velha, mas era o mesmo jeito com os cabelos ruivos caindo pelas costas e o sorriso largo.
— Obrigada — respondeu a rainha.
— Por favor, não agradeça — respondeu ficando séria de repente — Eu vim tratar de um assunto que pode não gostar.
— Qual?
— Hans — respondeu sem voltas — Eu sei que pode ser difícil majestade, o que ele fez não tem perdão — ela ouviu a rainha engolindo em seco e então continuou — Eu tenho medo da relação dele com Manfred, Bjorn e Alvan. Agora mesmo eles estão enfiados na biblioteca conversando e de lá não pode sair nada de bom.
— Eu não sei o que poderia fazer? — respondeu sinceramente.
— Hans é adulto, mas ainda precisa de muita proteção — ela respondeu — Ele se deixa levar pelos irmãos mais velhos e isso não é bom. Manfred é aproveitador e invejoso, da mesma forma são Bjorn e Alvan.
— Hans também se mostrou assim — disse a rainha.
— Eu sei o que ele se mostrou — disse a cega se levantando e percorrendo a sala com o auxilio de seu bastão — Mas veja-se em meu lugar! Eu o vi crescer, ele é meu irmãozinho, um dos últimos rosto que me lembro é o dele com as bochechas rosados e os cabelos vermelhos caindo sobre os olhos — Elsa se permitiu perder nas lembranças da princesa — O garotinho que eu conheci e ajudei a criar não faria isso. — ela fez mais uma pausa e então continuou enquanto esfregava os olhos por cima da venda, como se para secar uma lágrima — Não o Hans que me recebeu com abraços e risos ontem.
— Eu não posso falar, não conheci outro Hans — falou a rainha com tom de desculpas.
— Eu sei que não — disse ela se afastando até a porta — Foi bom conversar com você.
— Freya! — chamou fazendo com que ela se voltasse para a rainha novamente — Eu não sei o que posso fazer, mas… Eu posso conversar com ele.
— Eu ficaria feliz — ela disse com um sorriso — Sabe? Hans é apenas um garoto solitário, às vezes é pode ser um pouco difícil chegar até ele, mesmo assim obrigada. — ela saiu com os dentes brilhando em alegria deixando a rainha sozinha, mais uma vez.
#
Elsa parou em frente a porta da biblioteca antes de ir para seu quarto. Não tinha a menor vontade de estar ali, na verdade, mas não era a primeira vez que prometia visitar seu prisioneiro e tinha de cumprir essa promessa. Afinal, que mal poderia a ver? Ela tinha sua magia e toda a guarda real enquanto Hans era apenas um e ainda não estava cem por cento.
Bateu a porta e descobriu que as mãos estavam trêmulas. Talvez ele a assustasse mais do que ela julgou de primeira. Quando ninguém abriu pensou em ir embora, mas resistiu a isso e abriu a porta dando de cara com o homem que procurava, sentado em uma das poltronas com um livro no colo. Ela respirou fundo, procurando coragem e atravessou parte da sala até estar de frente para uma das prateleiras.
— Boa-noite Hans — disse ainda tentando evitar sua voz de tremer.
— Boa-noite majestade — respondeu ele.
— Posso saber o que está lendo? — perguntou casualmente.
— Não vejo no que isso poderia interessa-la — disse sem medir muito as palavras, mas então tomou consciência do que havia dito — Sem querer ofende-la. Se isso a importa, não é nada sobre roubar tronos — brincou, mas o humor não chegou a atingir a rainha que se sentou em frente a ele. — Posso saber o que faz aqui? Não parece que tenha apenas vindo pegar um livro.
— Eu prometi a lady Brienne que viria falar com você? — perguntou ela olhando para o livro em suas mãos e o folheou.
— De repente parece que tudo que aconteceu na minha vida está ligado de alguma forma a lady Brienne — resmungou ele.
— E a sua irmã também — isso o fez erguer uma das sobrancelhas ruivas e Elsa foi rápida em completar — Eu prometi a ela que falaria com você quando possível.
— Minha irmã — ele disse com um sorriso singelo nos lábios — Eu devia ter suspeitado que ela iria falar com você.
— Ela me parece uma pessoa muito boa — disse com os olhos baixos.
— Um pouco ingênua — respondeu Hans, um sorriso se alargou nos lábios finos do príncipe quando parou voltou a falar — Mas com certeza é uma pessoa boa.
— Você parece gostar muito dela — Elsa observou enquanto continuava a olhar o livro com apenas algumas olhadelas rápidas no homem a sua frente — Quantos vocês tem de diferença?
— Três anos mais velha — respondeu ele — São três anos de um para o outro, entre todos — ele respondeu voltando ao olhar sério e a fixar-se no livro.
— Deve ser difícil dividir a casa com mais doze irmãos. — tentou reavivar a conversa.
— Um pouco — ele respondeu simplesmente e deixou que ela morresse novamente. No meio do silencio, algo perturbou a concentração de Hans: ”abra-se para ela” era quase como se Brienne estivesse ali — Você precisa estar constantemente provando que merece o que consegue — ele disse de repente fazendo a rainha se assustar — Sinto muito — ele disse ao observa-la com uma mão sobre o peito.
— Não foi nada — ela respondeu — Eu só não esperava. — um sorriso surgiu nos lábios.
— Então roubar tronos é a forma de se mostrar digno? — provocou ela o olhando por baixo das pestanas claras enquanto ele se aproximava.
— Não importa o que Freya lhe disse — ele respondeu se apoiando na ponta da poltrona — Eu sou exatamente o que viu da primeira vez.
— Invejoso, aproveitador — ela seguiu os movimentos dele, cravando os olhos azuis nos verdes em desafio.
— Tudo isso e um pouco mais — ele respondeu com um sorriso preguiçoso se estendendo enquanto ele mesmo se estendia na poltrona — Isso nunca vai mudar.
— Então não há chances de você mudar mesmo — ela respondeu se levantando com um sorriso — Isso me deixa muito aliviada.
— Posso saber o que porque? — perguntou ele, observando-a com cuidado.
— Acho que a sua irmã achava que você ainda tinha alguma salvação.
#
"E quando não tem mais lugar para correr
Ainda há espaço para mais um filho?
Essas mudanças não estão mudando
O garoto com coração de frio que eu costumava ser"
– All These Things That I've Done (The Killers)
Fale com o autor