House of Memories
2 There's a good reason these tables are named, honey
Notas iniciais
II
Meus olhos viajavam de um lado para o outro da paisagem e eu ainda não conseguia acreditar no que eu via. Aquele acampamento era a coisa mais magnífica e assustadora com o que alguém poderia sonhar. Os chalés construídos em formato de U com uma lógica hierárquica Olimpiana, a arquitetura inspirada como homenagens aos seus deuses, os vastos campos de morango, o rio, a praia. Tudo lá era de tirar o fôlego e fascinar qualquer pessoa que tivesse a oportunidade de cruzar seu vasto terreno, mas também incrivelmente atordoante para quem entra em primeiro contato com aquele mundo.
Eu segurava uma mão na outra e olhava em tom desesperado para os campistas que corriam de um lado para o outro da área aberta vestidos em armaduras gregas, e armas nas mãos. Meus olhos não conseguiam acompanhar tanta informação para o meu cérebro ler, e eu me sentia completamente desconfortável no meio de todas aquelas crianças gladiadoras. Eu não tinha certeza se eu realmente deveria estar ali, se ter sido levada para o Acampamento Meio-Sangue foi de fato uma boa ideia, ou se eu sequer deveria me envolver nas atividades. Afinal, eu havia acabado de chegar e sequer tinha ideia sobre o meu parentesco Olimpiano. Eu me sentia uma intrusa.
O tal jogo de “captura da bandeira” era completamente fora das minhas expectativas. As pessoas pareciam vestidas para a guerra e possuíam expressões focadas no rosto, como se a vitória naquele exercício fosse realmente importante e necessária. Eu adorava ganhar jogos, é claro, mas no final era tudo o que eram: jogos. E talvez fosse por isso que eu sempre era a última a ser escolhida na educação física. Inclusive, eu já conseguia pensar na abordagem perfeita: “olá, tudo bem? Eu sou fraca e lenta, posso entrar no seu time?!”.
Eu estava prestes a sair correndo quando tive meu corpo impulsionado para frente ao trombar com um elefante vestido para a guerra. Clarisse passou o dedo na frente da garganta e me fez uma careta ainda mais horrorosa do que sua versão default, sussurrando alto o suficiente para que eu pudesse ouvir: “você já era”. Abri um sorriso irônico e acenei para ela.
— Ótimo te ver!
Falei em tom amigável, mas ela apenas me ignorou e passou reto. Soltei um suspiro cansado e fitei meus pés engolindo em seco. Eu adoraria entrar lá e acabar com a raça daquele javali fedido, mas eu apenas iria me humilhar, uma vez que minha última experiência com uma espada foi nunca.
Girei meu corpo em meus calcanhares e dei as costas para o campo onde os campistas se preparavam, tão focada em fugir dali a ponto de prender o pé em uma espada caída no chão e cambalear para frente. Talvez eu tivesse caído por ser desatenta, mas fui resgatada por um par de mãos que me salvou da experiência de provar o sabor daquela terra, e nunca fui tão grata a alguém em toda a minha vida.
— Wow! Já vai ser nocauteada? Mas o jogo nem começou.
Revirei os olhos ao reconhecer a voz de Percy e abri um sorriso divertido. Ele estava parado atrás de mim e vestido em uma armadura assim como os demais campistas. Um sorriso divertido decorava o seu rosto e ele segurava um elmo azul debaixo do braço, dando a ele uma aparência muito mais madura do que a com a que eu estava acostumada. Na verdade, observando ele com aquela postura confiante até fazia com que ele parecesse um super-herói.
— Eu não acho uma boa ideia jogar.
Abri um sorriso um tanto nervoso que obviamente não passou despercebido. Percy me observou pacientemente.
— No meu primeiro dia eu joguei, e cá estou inteiro. E se ajudar, foi também nesse dia que fui reclamado pelo meu pai.
— Bela tentativa. — Ergui uma sobrancelha, cruzando os braços sobre o peito. — Mas eu tenho certeza que está dizendo isso porque quer me ver apanhar. E não, não ajudou.
Por um momento uma expressão de confusão se formou no rosto de Percy. Ergui uma sobrancelha, me perguntando qual parte da ironia ele não pegou.
— Por que eu iria querer ver você apanhar?
— Ah, pelo amor de Deus, Jackson. — Abanei o ar com a mão dando de ombros. Ele me observou ainda em confusão. — Era uma piada, deixe para lá. Caramba, algumas coisas nunca mudam.
Depois de ouvir de mim que era uma piada, Percy então começou a rir. Revirei os olhos e balancei a cabeça em negação, usando naquele momento para lhe dar uma analisada rápida, já um tanto ciente do que eu encontraria.
Percy tinha os mesmos olhos verdes e a mesma risada de quando tínhamos dez anos, mas em âmbito geral ele era outra pessoa. Seu rosto era muito mais maduro agora — é claro -, ele era mais alto que eu e seu corpo mais atlético do que eu me lembrava. Na verdade, ele havia se tornado um rapaz de quinze anos atraente, mas é claro que eu jamais admitiria isso em voz alta.
Ao invés disso, apenas desviei os olhos e encarei uma pilha de equipamentos para que ele não me flagrasse o observando e pensasse que eu era estranha.
— Bom, eu não quero te ver apanhar, mas se você pretende lutar com uma camiseta da Nike não vai sair de lá muito bem. Venha. Vamos achar algo para te proteger.
Eu achei que tivesse dito que não ia lutar, mas também estava com preguiça de vencer a lerdeza de Percy, então apenas o segui conforme ele passava por alguns amontoados de materiais procurando por algo para mim. Nós não nos víamos desde os dez anos de idade, mas ainda não explicava o que o rapaz tinha na cabeça quando puxou uma armadura que parecia ser feita para uma criança.
Ergui uma sobrancelha o observando em um tom irônico conforme ele olhava da armadura para o meu corpo algumas vezes antes de decidir que não iria servir. Tive que segurar para não dar risada da cena.
— Eu cresci nos últimos cinco anos. Só avisando.
Comentei enquanto ele revirava os olhos e voltava a procurar na pilha. Logo ele puxou o que parecia ser uma armadura grega de mental, se aproximando para me ajudar a vestir. Quando ele soltou o equipamento em meu corpo, quase caí no chão mais uma vez. Meus joelhos fizeram força para suportar meu peso, uma vez que aquilo era mais pesado do que eu.
— Você quer que eu corra com isso?
— Seja mais grata á ela, já que ela irá te impedir de virar queijo ralado.
Eu ainda estava sensível pelo queijo da pizza que eu havia sido obrigada a jogar na fogueira como oferenda aos deuses no jantar, então apenas olhei para o chão em tom de tristeza e suspirei em aceitação. Aquela era a minha vida: a mulher de lata. Depois que Percy pareceu satisfeito em me avaliar, apoiou as mãos na cintura em expectativa.
— O que prefere? Espada? Arco? Dardos? Lança...?
— Espada, é claro! — Exclamei completamente certa, batendo levemente contra o braço de Percy e soltando uma risada divertida. — Teve essa vez no ensino fundamental em que eu usei uma espada e... Ah não, espere! Isso nunca aconteceu porque pessoas normais não costumam usar espadas no seu dia a dia.
O moreno me observou por um momento em silêncio, até que um sorriso começou a se formar em seu rosto. Ele estreitou os olhos, me observando com atenção.
— Você... Continua sarcástica.
— E você continua lerdo. Já passamos por isso.
Percy revirou os olhos em tom brincalhão e soltou um suspiro pesado.
— Ainda vou ser pago por ouvir isso. — Resmungou, fazendo com que eu abrisse um sorriso largo. Quando não manifestei minha preferência por uma arma, ele agarrou um arco. — Pegue.
— Hm... Acho que não é uma boa ideia. — Afastei um passo, me recusando a tocar naquilo. — Da última vez que tentei acertar uma bolinha de papel no meu amigo, acabei acertando a diretora que passava no corredor.
Percy foi afastando o arco de mim conforme eu contava minha história até que finalmente ele jogou a arma no chão. O rapaz assentiu, encarando a pilha de instrumentos mortais com os olhos arregalados.
— OK, sem arco para você.
Soltei uma risadinha com a cena, e parei quando ele me ergueu uma espada. Segurei o objeto cuidadosamente, mais uma vez me surpreendendo com o peso, mas consegui aguentá-la. Percy ia falar alguma coisa, mas antes que pudesse começar, o soar de uma sirene chamou sua atenção.
— A espada vai ter que servir. — Ele concluiu, completando antes que eu pudesse reclamar. — Fique longe de briga e... — A frase ficou em suspense quando ele ergueu a mão, me oferecendo o elmo de penugem azul. O encarei em surpresa, encontrando um sorriso divertido em resposta. — Bem-vinda ao time.
— O que? — Questionei mesmo assim, correndo atrás dele em direção ao campo. Percy cumprimentava pessoas por onde passava. — Tem certeza? Eu vou atrapalhar o jogo.
— Fique atenta e longe de brigas. E definitivamente evite os filhos de Ares.
Ele parou para me dar o último aviso e então sorriu acenando. Observei um tanto perplexa conforme ele corria no centro da roda de jogadores, passando as instruções à equipe. Todos os campistas pareciam bem focados em ouvi-lo e, mesmo passando as estratégias, Percy em nada se parecia com um ditador. As ordens provavelmente haviam sido boladas por Annabeth e Percy as comunicava com muita proeza. Na verdade, naquele momento fiquei tão impressionada com seu espírito de liderança que não ficaria surpresa se um dia tivéssemos um presidente Jackson.
— Katie, Clair, Chloe e Martin. Vocês guardam a defesa junto com o grupo dois, ok?
Eu queria perguntar qual era o grupo dois, mas não queria explicar no que eu estava pensando para não prestar atenção em suas instruções, então apenas assenti. Depois de algumas outras palavras e alguns muitos “tomem cuidado”, o time se espalhou pelo campo conforme proposto por Percy. Resolvi ficar um pouco longe da nossa bandeira e segurei a espada com as mãos suadas, sem a menor ideia do que eu estava fazendo ali. E para o azar do meu coração, logo as trompas soaram mais uma vez, anunciando o início do jogo.
— Oi.
—Ah!
Soltei um grito assustado, girando meu corpo e tentando matar seja lá o que havia me abordado, mas acabei errando quando a menina de cabelos loiros desviou. Ela tinha os fios dourados, um pouco mais escuros que os meus, e seus olhos eram cinzas assim como os de Annabeth. Na verdade, elas eram bem parecidas e eu diria que poderiam ser irmãs.
— Belos reflexos.
—Obrigada. Mas deveria ver como mato mosquitos, essa sim é uma habilidade da qual me orgulho.
Acho que eu falava um pouco quando ficava nervosa, mas a menina loira não pareceu se importar. Na verdade, ela apenas abriu um sorriso e acenou impressionada. Ela vestia uma armadura como a minha e sua penugem do capacete era da mesma cor, o que indicava que éramos do mesmo time. Em suas mãos havia um arco.
— Eu nunca te vi por aqui. É nova?
— Primeiro dia. — Admiti, olhando para os lados atentamente, um tanto incomodada de estarmos tendo uma conversa em um momento tenso como àquele. A qualquer momento um brutamontes poderia pular da moita e arrancar a minha cabeça e lá estava uma desconhecida querendo fazer amizade comigo. — Sou Chloe.
— Clair. — Ela se apresentou com um sorriso. Clair usava óculos grossos que arrumava no rosto de tempos em tempos, e que pareciam ser um problema para quem estava prestes a lutar. — Do chalé de Atena.
— É claro que é.
Resmunguei baixinho. Eu sabia que a semelhança com Annabeth não era atoa, e por um momento me perguntei se todos os filhos de Atena eram loiros. Talvez eu fosse filha dela no final das contas e minha própria irmã estava tramando minha morte me distraindo daquela forma. Digo, eu tinha as características físicas para ser irmã de Clair e Annabeth, talvez exceto pelos olhos esverdeados.
— Fique tranquila, não existe perigo de vida real nos jogos. — Clair anunciou como se fosse a melhor notícia do mundo. Abri um sorriso amarelo para ela e pensei responder algo como “uau! Agora sim me sinto pronta para matar um dragão!”, mas achei que seria grossa demais. — E é uma ótima forma de descobrir os seus reflexos.
Eu conhecia os meus reflexos. Eles eram uma droga. Eu até teria respondido o comentário de Clair e iniciado uma conversa terapêutica sobre como eu era péssima em atividades físicas, mas fomos rudemente interrompidas por barulhos altos de passos e de aproximação.
Meu coração foi parar em minha boca e encarando a cena com as pernas bambas, apenas observei conforme campistas invadiam nosso campo de defesa e travavam batalha com o meu time. Clair passou a sacar suas flechas e atirar em algumas pessoas em seu campo de vista. Ela tinha uma mira incrivelmente boa e não me lembro de ter visto ela errar algum tiro, o que me deixou bem admirada. Talvez se eu me escondesse atrás dela ficaria à salvo.
Na verdade, eu estava a caminho de me abrigar atrás das habilidades arqueiras de Clair quando ouvi um grito e uma sombra disparar em nossa direção, erguendo uma espada sobre a cabeça e pronto para golpear a filha de Atena de frente. Com reflexos invejáveis, Clair largou seu arco no chão e sacou a espada, chocando sua lâmina contra a do rapaz, parando seu golpe e travando sua própria batalha. A menina loira se movimentava de forma ensaiada e era como se ela conseguisse premeditar todo e qualquer movimento apenas pela linguagem corporal do rapaz, fazendo-o apanhar de forma tão graciosa que pareciam estar dançando.
Eu teria ficado babando naquela cena, mas tive que me movimentar quando senti uma terceira pessoa se aproximando. O menino que passou por mim corria tão rápido que sequer perdeu seu tempo em perceber que eu estava ali, passando disparando em direção à bandeira pendurada no mastro. Olhei para o rapaz por um momento e prendi a respiração, sentindo a adrenalina tomar meu corpo conforme eu pensava se deveria tentar impedi-lo ou não. O meu trabalho era justamente defender a bandeira, mas Percy também havia dito para eu ficar longe de luta, principalmente de filhos de Ares, e pela massa corporal daquele rapaz, ele facilmente poderia ser filho do deus da guerra.
Minha discussão mental durou um segundo e antes que eu pudesse perceber, meus pés batiam fortemente contra o chão e eu corria em dispara na direção do menino. Ele estava quase alcançando a bandeira quando me notou, e usando todas as forças do meu corpo, aproveitei minha estrutura menor e mais aerodinâmica para passa-lo e pular na sua frente.
Interrompendo seu percurso para me olhar em tom um tanto chocado e debochado, o menino soltou um suspiro e colocou a mão sobre a bainha da espada. Eu não tinha ideia de como segurar a minha arma, tampouco de como lutar, mas eu o encarava com uma expressão decidida no rosto: eu não o deixaria passar. O menino careca abriu um sorriso divertido e mudou de apoio de pé, como se eu estivesse fazendo algo fofinho ou engraçado, o que definitivamente não era o caso. A não ser que ele curtisse meninas malucas com objetos pontiagudos na mão, é claro.
— Você é tão pequena que o vento faria o trabalho de te derrubar por mim, mal se aguenta em sua armadura, não sabe como segurar uma espada e o elmo está mal encaixado na sua cabeça. Você tem certeza que quer passar pela humilhação de tentar lutar logo comigo?
Parei por um momento mudando de posição e pisquei algumas vezes olhando para o rapaz. Abri uma expressão pensativa.
— Nossa, agora que você falou, não tenho certeza. Deixa eu pensar um pouco, espera aí. — Abaixei a espada, fingindo me apoiar contra um tronco. — Qual é seu nome? Vou ver se está aqui na lista do acampamento de “dez babacas com egos plutônicos que você não vai querer enfrentar hoje”.
A expressão no rosto do rapaz foi perdendo o tom de felicidade aos poucos, sendo substituído por uma cara não muito legal. Ele chegou a ranger os dentes, provavelmente porque não gostou de ser chamado de egocêntrico. Ou talvez babaca mesmo. Talvez eu devesse evitar falar, mas como ele mesmo havia apontado: eu era pequena e magrela. O sarcasmo era a minha única defesa.
— Saia da minha frente, princesa.
— Acho que não, Shrek.
Respondi voltando a minha posição de ataque, fazendo com que o brutamontes erguesse uma sobrancelha. Ele soltou um suspiro preguiçoso e então sacou sua espada, me olhando em tom impaciente.
— Então ok. Vamos realmente fazer isso.
A luta foi muito foda e eu acabei chutando a bunda daquele babaca em cinco segundos. Só que eu estou mentindo e tudo aconteceu exatamente da forma contrária.
Eu quase tropecei em meus próprios pés quando o rapaz se aproximou e girou sua lâmina em movimento circular, pegando por pouco meu peito coberto pela armadura, mas por algum milagre consegui desviar. Ergui a espada para tentar acertá-lo, mas o peso fez com que eu não conseguisse guia-la muito bem, fazendo com que eu errasse o golpe e levasse em contra-ataque um soco em minhas costas, que me desequilibrou e me lançou contra o chão.
Me ajoelhei rapidamente e me coloquei de pé, pegando a espada mais uma vez e olhando feio para a cara debochada do semideus. Corri em sua direção e ergui a lâmina, mas como anteriormente acabei errando o golpe e tropecei com uma rasteira que ele fez questão de parecer bem fácil de dar.
Ele soltou uma risada quando caí e balançou a cabeça em negação. Me coloquei de pé por uma terceira vez, agora começando a sentir uma pontadinha de ódio me atingir. Ele me olhava com uma expressão debochada, e estava começando a me irritar. Mais uma vez o ataquei com a espada, mas ele desviou e desferiu um soco em meu rosto, fazendo com que eu caísse sobre os meus joelhos. Senti minha face arder com o impacto e instintivamente coloquei a mão sobre a área, soltando um grunhido de dor. Parei apenas quando ouvi a escandalosa do garoto que insistia em me humilhar.
— Você não vai chorar, vai? Se sim, me avise pra eu sair de perto, não sou fã de drama.
Pressionei os dentes e tranquei meu maxilar, sentindo meu peito arder de ódio. Me coloquei de pé, minhas mãos tremiam pela raiva, mas me forcei a avançar sobre ele mais uma vez. O garoto desviou do meu golpe mais uma vez e bateu o punho da sua espada contra a minha nuca, fazendo com que eu caísse de barriga no chão e sentisse uma dor ardente tomar o meu tornozelo. Soltei um grito e olhei para minha perna, tentando ao máximo realmente não chorar.
O rapaz caminhou em minha direção quando continuei no chão, e abriu um sorriso largo. Eu quis cuspir nele.
— Já chega, mocinha. Está feio o suficiente.
Minha expressão era de puro ódio, mas não respondi o que ele disse e permaneci no chão. Abaixei a cabeça derrotada e não quis me levantar, aquilo havia sido humilhação suficiente. O garoto sorriu ainda mais abertamente quando viu minha rendição e se ajoelhou ao meu lado, tocando o meu rosto. Me afastei imediatamente.
— Por isso que eu digo. É aí que vocês garotas devem ficar: limpando o meu chão. Não venham brincar de lutinha.
Ele se colocou de pé pronto para caminhar em direção à bandeira, e conforme ele se afastava, suas palavras ecoavam em minha mente. Eu não consegui me manter em silêncio depois de todas as asneiras que tive que ouvir. Juntando todas as forças do meu ser, cuspi na perna do rapaz que se virou em minha direção, fuzilando-me com os olhos irritados e surpresos.
— Quer que eu limpe assim?
Agora parecendo estar realmente puto, o semideus se abaixou mais uma vez e me ergueu do chão. Ouvi um “ei” de Clair ser berrado do outro lado, mas ele ignorou. Tentei me soltar, mas foi inútil uma vez que o rapaz era vinte vezes mais forte que eu, e após alguns passos, senti meu corpo ser lançado fortemente para frente, sendo envolvido logo em seguida pela água gelada do que parecia ser um rio.
Tentei nadar em direção à superfície, mas continuei afundando conforme o peso da armadura me puxava para baixo. Desesperadamente, me contorci até conseguir soltá-la do meu corpo e disparei com toda a minha vontade em direção à superfície, respirando em desespero conforme o ar enchia meus pulmões. Me arrastei até a borda e apoiei a cabeça sobre uma pedra, respirando alto pelo cansaço e pelo susto. Por um curto período de tempo pensei que iria me afogar, e a ideia era aterrorizante.
Quando olhei para cima, encontrei o olhar de ódio do rapaz acompanhado por uma gargalhada escandalosa que chamou a atenção de todos os campistas à nossa volta. Interessados pela briga, alguns até pararam de lutar.
— Lamentável.
Ele falou por fim, o que gerou algumas risadinhas. Eu estava me sentindo humilhada, derrotada e até um pouco machucada, e agora não era mais a vontade de ganhar aquele jogo que me movia. Respirei fundo e aos poucos senti o ódio me dominar, atingindo até as pequenas áreas do meu corpo. Minha temperatura aumentou e pela primeira vez senti meus ouvidos zumbirem com os sentimentos que explodiam dentro de mim. A adrenalina passou a percorrer o meu corpo e, sentindo uma força trazida pelo turbilhão de emoções, me coloquei de pé na margem do rio.
— O que você vai fazer, princesa? Sem armadura? Sem uma arma?
— Vá se foder, meu anjo.
Respondi em tom seco, o que gerou algumas risadas. O rapaz abriu um sorriso debochado e então deu de ombros, largando sua espada e escudo no chão, desabotoando a armadura que em seguida caiu pesada. Ele fechou os punhos na frente do rosto e então acenou para mim. E eu não pensei duas vezes ao atacar.
Movimentei meu corpo com velocidade e corri na direção do brutamontes, desviando do seu primeiro soco ao rolar para o lado. Eu poderia ser menor e mais fraca, mas sem dúvidas eu era bem mais rápida.
O garoto tentou chutar logo em seguida, mas consegui desviar, parando seu chute com minha canela e devolvendo seu golpe com uma canelada que acertou — em cheio — a lateral do seu rosto. Eu não tinha ideia de onde vinham aqueles reflexos, mas também não iria questionar. Havia ouvido caso de mães que haviam levantado carros sozinhas na adrenalina de salvar seus filhos, e com certeza essa era uma coisa que dominava o meu corpo naquele momento. Eu só tinha que usá-la da melhor forma.
Irritado com o golpe, o rapaz lançou os punhos em minha direção, mas com alguns passos consegui desviar. Ergui o braço tentando acertá-lo, sendo bloqueada, e senti uma dor aguda atingir meu corpo quando levei um soco na base da costela. Rolei para o lado e movimentei minhas pernas em uma rasteira que fez um bom trabalho em derrubá-lo. Com velocidade, o careca se colocou de pé e correu em minha direção, mas foi surpreendido com um chute em sua coxa e um empurrão do meu pé contra o seu peitoral.
Ele recuou dois passos para equilíbrio, e isso abriu espaço para que eu conseguisse acertar um soco em seu rosto. Vi sangue escorrer do seu nariz, mas isso apenas pareceu servir como motivação para ele acabar com a minha raça. O brutamontes disparou em minha direção e me segurou pela camiseta, erguendo meu corpo do chão, chocando-o com força contra o solo. Arfei em tom alto, tentando recuperar o ar que perdi pelo impacto, mas consegui me concentrar em me soltar dos braços do rapaz e prender seu pescoço entre minhas pernas, usando o impulso do meu corpo para girar e derrubá-lo também.
Quando no chão, me apoiei sobre seu corpo e passei a desferir inúmeros socos que, pouco a pouco começaram a passar pelas defesas dos braços dos seus braços. Ele me empurrou para o lado, mas pelo meu tamanho consegui me levantar mais rápido e pular, acertando um chute com todas as forças do meu ser, em cheio no rosto do rapaz já atordoado. Com um último grunhido de dor e com tentativa de se levantar, ele sentiu sua cabeça pesar e despencou contra o chão, apagando ali onde caiu.
Apoiei minhas mãos sobre meu joelho e respirei com dificuldade pelas dores em minha costela. Parei para olhar para alguns campistas que observavam aquele show em tom completamente perplexo, mas não demorou para que o foco mudasse de lugar. Gritos puderam ser ouvidos e então, ao longe, uma imagem surgiu, disparando em alta velocidade na nossa direção, segurando uma bandeira vermelha nas mãos.
Um sorriso se formou no rosto de todos os campistas do time azul quando Percy jogou o tecido de cor escarlate contra o chão, e logo a tensão foi substituída por uma alta comemoração. Todos gritavam, pulavam e comemoravam enquanto o time vermelho parecia lamentar sua derrota. Um sorriso largo se formou em meu rosto, e me permiti segurar a lateral do meu corpo e despencar de bunda contra a grama. Olhei para cima, podendo agora respirar um pouco melhor, tentando controlar a dor e a exaustão da melhor forma possível, mas não estava fácil. Pelo menos nós havíamos ganhado aquela joça.
— Chloe, você está bem? — A voz de Clair pode ser ouvida quando a menina se ajoelhou ao meu lado. Assenti. — Aquilo foi incrível, eu não consigo acreditar! Eu estava prestes a interromper a briga, mas sinceramente? Adorei assistir você dar uma surra no Mike.
Soltei uma risada gostosa, mesmo que tenha feito meu corpo doer ainda mais. Olhei para Clair com um sorriso largo e assenti, observando os olhos cinzas cheios de animação e empolgação pelo confronto daquele momento, conseguindo perceber — apenas com aquela cena — que eu estava diante de uma futura grande amiga.
— Chloe! Chloe! — Clair berrou contra a minha cara, o que não fez sentido algum. — Pelos deuses, alguém nesse ônibus tem uma garrafa d’água?
Abri os olhos quando ouvi os berros de Matty, principalmente quando ele mencionou água. Pisquei algumas vezes ainda sentindo minhas pálpebras pesadas e encarei o rapaz de cabelos escuros que me observava em tom impaciente. Quando percebeu que acordei, ele finalmente pareceu sossegar.
— Você dorme como uma pedra. Quase preciso invocar um deus para conseguir te acordar.
— Cale a boca, imbecil. Sua voz é irritante.
Grunhi um pouco mal-humorada por ter sido despertada daquela forma. Matty revirou os olhos, mas ainda conseguiu formar um sorriso naquele rosto irritante e lindo. O encarei com uma careta, vendo-o erguer uma sobrancelha.
— Sonhou com Percy Jackson de novo?
— Sim.
Admiti, arrumando minha posição na poltrona. Omiti a parte de meu sonho ter se passado no Acampamento Meio Sangue. Matty piscou algumas vezes me observando com certo cuidado e pareceu questionar se deveria me dizer algo ou não. Eu já sabia o que ele queria perguntar.
— Como se sente sabendo que o veremos no acampamento?
— Uma merda. — Admiti, massageando meu cenho. Eu sentia dor de cabeça, e provavelmente era por causa da ansiedade misturada com os sonhos conturbados. Soltei um suspiro. — Mas precisamos fazer isso. Por Cassie... Certo?
—... Certo. — Matty respondeu em desaprovação, me olhando em olhar repreensivo. — Não está pensando em voltar atrás, está?!
— Não!
Menti. Meu amigo assentiu, abrindo um sorrisinho em seguida.
— Ótimo. Então se levante. Nossa parada é a próxima.
Grunhi em tom desanimado conforme era arrastada pelo maior para fora do veículo que logo perdeu seu movimento.
Havia muito tempo desde a última vez que pisei em Long Island. Depois que havia fugido e encontrado Cassie e Matty, eu havia feito o possível e o impossível para passar pela extensão dos Estados Unidos inteiro, sempre preocupada em não me aproximar muito de Nova Iorque. Eu tinha algumas memórias muito doloridas que preferia não reascender, e agora todas estavam voltando para mim de uma vez só.
Prendi a respiração conforme meu amigo tirava um mapa da sua mochila e olhava para as coordenadas, procurando pela direção que deveríamos seguir até atingir as colinas que nos levariam ao Velocino de Ouro, e às barreiras do Acampamento Meio-Sangue. Eu não tinha ideia de qual era o caminho, mas todas as paisagens por onde passávamos eram assombrosamente familiares.
— É sua primeira vez indo ao Acampamento Meio-Sangue, certo?
Matty puxou assunto, quebrando completamente o silêncio mortal da nossa caminhada. Olhei de rabo de olho para ele e apenas assenti. O rapaz sorriu com minha resposta.
— Eu já estive lá. Duas semanas. Depois disso fui ignorado pelo meu pai e resolvi que seria melhor viver sozinho, sem treinar para virar peão de um deus. O Acampamento é bem bonito, mas não se impressione. O lugar em si não oferece nada demais.
— Apenas proteção.
Dei de ombros. Matty concordou, mas uma risadinha escapou dos seus lábios.
— Não exatamente. Até porque nos últimos sete anos o local já foi invadido algumas vezes por monstros, gigantes, titãs e até semideuses romanos. Não é tão seguro assim se você parar para pensar.
Um sorriso amargo se formou em meu rosto com aquele comentário. Eu fitava o asfalto sobre o qual eu pisava e me recusava a olhar demais ao meu redor. Minha vontade de interagir com o espaço e com o filho de Eólo era nula, então apenas continuei caminhando como se estivesse me dirigindo à cadeira elétrica.
— E Percy vai estar lá. — Matthew completou, fazendo com que eu olhasse para ele. Ele me abriu um sorriso preocupado. — Agora ganhei sua atenção, né? Não fique nervosa, você tem sonhado com ele por um bom tempo e irá reencontrá-lo depois de sete anos. Eu tenho certeza que ele não vai estar puto com você de verdade, digo, vocês tinham dez anos.
— Eu sei. — Dei de ombros, cruzando meus braços sobre o peito. Fitei o céu, soltando um suspiro alto. Apenas pensar em um reencontro com Percy fazia meu estômago se reduzir ao tamanho de uma ervilha. — Eu não estou nervosa.
— Mentirosa. — O moreno bateu o ombro contra o meu, fazendo com que um sorriso sem exibir os dentes se formasse em meu rosto. — Eu sei que você não quer falar sobre isso, mas eu tenho que dizer pela última vez: é uma coincidência sem tamanho seu amigo de infância se tornar um dos semideuses mais conhecidos do mundo.
— É.
Soltei uma risadinha sem graça, tendo minha atenção completamente tomada quando vi um letreiro que fez meu coração pular como pipoca dentro do meu peito. A imagem foi repentina, mas espalhou sensações de todas as formas pelo meu corpo, deixando-me completamente elétrica. Por um momento meus olhos brilharam e eu senti a maior felicidade que um dia pensei ser capaz de sentir. Eu não acreditava no que eu via. Alguém precisava me beliscar.
— Matty!
O chamei, sequer esperando antes de disparar em direção à porta do lugar que basicamente gritava pelo meu nome. Eu nunca pensei que aquele seria o sentimento que me tomaria quando eu encontrasse aquele salão, e que um dia eu ficaria tão aliviada em estar dentro de algum lugar. Respirei fundo quando passei para a porta e soltei um suspiro completamente prazeroso, o sorriso tomando meu rosto de orelha a orelha. Não demorou para que os passos apressados de Matty me alcançassem, parando ao meu lado.
— Uma loja de bebidas? Sério?
O sorriso se alargou ainda mais em meu rosto e não consegui esconder uma risadinha satisfatória.
— Esse, meu caro amigo, é um sinal dos deuses. Tem que ser um sinal dos deuses.
Matty me encarou de canto de olho com uma expressão de desprezo, mas eu não liguei. Existiam muitas informações sobre meu passado que eu havia escondido dos meus amigos, e agora tudo voltaria à tona. Não só para eles, que talvez me odiassem quando descobriram a verdadeira razão de eu ter fugido para o meio do nada, mas também para mim, que havia omitido todos aqueles fatos como uma tentativa desesperadora de fingir que eles nunca aconteceram. E agora eu estava voltando, voltando para olhar nos olhos de cada um deles.
Eu faria isso por Cassie porque a amava mais do que tudo. Eu enfrentaria meus fantasmas para salvar a minha família, isso era um fato irredutível. Mas isso não significava que eu teria que fazê-lo sóbria.
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