A chuva começou a cair pouco antes da meia-noite, fina e fria como agulhas de vidro. Os seis se abrigaram no alpendre do casarão Villalobos, encharcados, com os tênis rangendo no assoalho antigo. As bicicletas ficaram escondidas no jardim, envoltas pelos arbustos floridos bem cuidados.


Ana abriu a porta dos fundos com a chave que dizia ser “um segredo de família” e os convidou a entrar, sorrindo como quem tem um feitiço preparado na ponta da língua.


— É só uma brincadeira — ela sussurrou, como se a própria casa estivesse ouvindo.


Na sala principal, os retratos dos antepassados observavam tudo das paredes — olhos de óleo e verniz que pareciam seguir cada passo. As velas tremiam nas mãos de Maya, acendendo sombras nas cortinas pesadas e nas colunas de madeira entalhada. O cheiro de mofo e terra molhada se misturava ao perfume doce de Ana.


No centro da sala, um círculo foi desenhado com sal grosso e pétalas vermelhas. Augusto segurava o livro grosso que ela havia trazido do sótão — dizia ser uma herança, “cheia de bobagens de adultos”. Kenny ria, nervoso, mas não largava o isqueiro, encantado com a ideia de parecer corajoso. Gabriel e Hanako se olhavam com aquele tipo de tensão silenciosa que os adultos fingem não perceber, mas que os adolescentes sentem queimar na pele.


— Temos que fazer um pedido — Ana explicou, ajoelhando-se no chão de tábuas gastas. — Um desejo que não pode ser dito em voz alta. Só assim o espírito da casa escuta. Mas primeiro, coloquem as máscaras.


Naquele dia mais cedo cada um havia recebido uma máscara feita de papel machê que representava um animal. Eram artesanais e muito bonitas, especiais para aquela ocasião. Gabriel era uma onça-pintada, Hanako uma gralha-azul, Kenny um tucano, Maya um urutau, Augusto uma raposa-do-campo e Ana um lobo-guará.


Não eram mais eles ali, eram suas personas animais. A tensão no ar aumentou, parecia cada vez mais difícil de respirar. Os corações disparados deixavam seus corpos quentes, mas os estômagos eram túmulos frios.


— Espetem o dedo com o alfinete. — Ana instruiu e cada um pegou seu alfinete, furando o indicador para uma gota de sangue cair no assoalho.


E assim foi feito.


Maya prendeu a respiração quando a chama da vela se curvou sozinha. Nenhum vento. Nenhuma janela aberta. Só aquele frio que parecia nascer das paredes.


Eles deram as mãos, e Ana murmurou palavras que nenhum deles entendeu. Não era latim da escola, nem português. Parecia música feita para o escuro. Foi nesse instante que algo se moveu no andar de cima. Um arranhar lento. Uma respiração. E então, como se fosse parte do ritual, a porta do porão se abriu sozinha.


Língua presa pela mistura de medo e fascínio, Augusto foi o primeiro a rir — aquele riso alto que só existe para cobrir o pavor. Ana o olhou de lado, satisfeita. Maya, pálida, recuou um passo. Kenny apagou o isqueiro. Gabriel apertou a mão de Hanako. E todos, de um jeito ou de outro, deram um passo à frente.


Mais tarde, nenhum deles concordaria sobre o que viu. Uns jurariam que foi só uma corrente de ar. Outros diriam que ouviram uma voz chamar por seus nomes. Maya, no entanto, viu uma mulher vestida de branco, parada na escada, com os pés molhados, como quem acabara de sair da terra. Ela só tinha um dos olhos.


Na manhã seguinte, a cidade falava de um blecaute misterioso, do relógio da igreja que parou às 00h13, e do cão da rua que morreu de susto. Eles prometeram não contar a ninguém o que aconteceu. Prometeram esquecer.


Mas o casarão Villalobos não esqueceu.


Notas finais
Obrigada por ler até aqui. Espero você no próximo!