Horror em Serra Branca
6 Capítulo 5 — Rachaduras
O portão de ferro estava entreaberto, rangendo suavemente com o vento. Do outro lado, o cemitério de Serra Branca parecia abandonado havia décadas. O mato crescia entre os túmulos, algumas lápides estavam rachadas e as poucas flores espalhadas pelo chão haviam perdido a cor. Não havia iluminação além da lua, parcialmente encoberta pelas nuvens, e uma névoa rasteira dificultava a visão dos caminhos.
Augusto foi o primeiro a atravessar o portão. Não sabia exatamente o que estava fazendo ali, mas tinha a estranha sensação de que precisava encontrar alguém. Gabriel vinha alguns passos atrás, olhando desconfiado para as sepulturas, enquanto Hanako permanecia próxima à entrada, incomodada com o silêncio.
— Vocês também ouviram? — perguntou ela.
Gabriel olhou para trás.
— Ouviram o quê?
Hanako não respondeu imediatamente. Havia escutado uma voz feminina chamando seu nome, tão próxima que, por um instante, acreditou que alguém estivesse sussurrando em seu ouvido. Contudo, quando tentou identificar de onde vinha, percebeu que não havia ninguém além deles.
— Acho que tem alguém aqui — murmurou.
Uma mulher vestida de branco caminhava entre os túmulos.
Estava descalça, e a barra de seu vestido arrastava pelo chão, recolhendo terra e folhas secas. Os cabelos loiros caíam sobre os ombros, escondendo parcialmente seu rosto. Não parecia perceber a presença dos três, embora caminhasse diretamente na direção deles.
— Ei! — Gabriel chamou. — Moça!
Ela parou.
Por alguns segundos, ninguém se moveu. Augusto deu um passo à frente, enquanto Hanako era sufocada por uma intensa sensação de déjà-vu.
Então, a mulher ergueu a cabeça, revelando algo perturbador em sua aparência: ela não tinha um dos olhos. Um estrondo rompeu o silêncio, fazendo o céu e a terra estremecerem no instante em que ela disse:
— Vocês voltaram para a nossa reunião.
Augusto despertou de sobressalto. Seu corpo inteiro doía. Havia dormido dentro do carro, em um estacionamento próximo à saída de Serra Branca.
Em outro ponto da cidade, Gabriel abriu os olhos ao ouvir um barulho vindo da rua. Estava deitado de costas, com o lençol embolado entre as pernas e a camiseta grudada ao corpo pelo suor. Ficou imóvel por alguns instantes, olhando para o teto, enquanto tentava compreender o significado das palavras daquela mulher.
Hanako despertou com o próprio grito.
Sentou-se bruscamente, procurando alguma coisa ao redor da cama, embora não soubesse exatamente o quê. Ainda conseguia ouvir nitidamente a voz da mulher.
Foi quando percebeu que não estava em seu próprio quarto.
❖
A baba de Kenny já formava uma poça na mesa. Ao lado, copos de café vazios e latas de energético, alguns marcados por batom, outros amassados pela força com que foram segurados durante as horas de trabalho. Uma prancheta com anotações — muitas — e desenhos — símbolos variados, códigos, caos — jazia perto do notebook em modo de suspensão, com bolhas de sabão cobrindo a tela.
O laboratório estaria silencioso se Maya não fosse tão barulhenta ao pensar. Na outra mesa, de costas para Kenny, a cientista folheava as páginas do diário, fazendo pesquisas online e checando datas para traçar uma linha de eventos. Falava consigo mesma, às vezes ria de algo que só ela compreendia e chegava a conclusões fantasiosas demais para uma cientista.
Na verdade, seus olhos ardiam, o cansaço a impedia de pensar direito e ela sabia que, quanto mais se esforçasse para ficar acordada, menos produtiva seria.
Suspirou, largando o diário. Eram 5h05 da manhã.
— Hora de acordar, Kennyson — disse, elevando a voz enquanto fechava o diário.
Kenny acordou assustado, limpou a baba e começou a teclar ferozmente no notebook.
— Resultados prontos.
— Tanto faz, eu só quero dormir. Estou enlouquecendo aqui.
— Não, Maya. Olha só.
A impressora começou a funcionar, e várias páginas repletas de resultados laboratoriais começaram a surgir.
— Enucleação traumática antemortem, com cortes limpos, sem qualquer contaminação, como eu já previa — Kenny não estava surpreso, pois havia chegado a essa conclusão com a luz ultravioleta logo após a chegada ao laboratório. — E também não pertence ao nosso “Fortunato” aqui.
Sempre nerd, Kenny riu da própria piada, fazendo referência à literatura gótica, mas Maya sequer percebeu. Estava ocupada jogando latas e copos no lixo antes de saírem. Sentia-se alheia ao papo de Kennyson e não conseguia mais pensar em nada racional depois de ler o diário psicótico de Ana Villalobos.
— Até porque encontramos corpúsculos de Barr nas células da conjuntiva. O olho provavelmente pertence a uma mulher. E, pelo estado do cristalino e da córnea, eu diria que ela tinha, no máximo, uns quarenta anos.
Maya revirou os olhos.
— Por favor, vamos embora. Eu preciso dormir.
Pegou a bolsa, a chave do carro e o diário.
— A Manu pode terminar os testes e enviar tudo por e-mail, não pode, Manu?
Não houve resposta. Pela primeira vez, perceberam que estavam sozinhos havia bastante tempo. Entreolharam-se em silêncio, sentindo que havia algo estranho no ar.
— Liga pra ela no caminho, eu preciso de um banho urgente. — Maya continuou seu caminho para fora do laboratório, balançando as chaves para Kenny não se perder.
Ele, no entanto, ficou.
Observou o local em busca de vestígios da saída de Manu. Um bilhete, talvez? Checou o celular. Também não havia nenhuma mensagem. Sentiu o coração bater dolorosamente, as mãos suarem enquanto segurava os papéis e o rosto arder.
Vergonha.
Acreditou que teria alguma chance depois de tanto tempo.
Balançou a cabeça, juntou suas coisas e seguiu pelo mesmo caminho de Maya.
❖
Gabriel estava bastante aéreo quando Lívia entrou no carro. Sequer ouviu a porta bater; só percebeu sua presença quando ela tocou seu ombro.
— Bom dia, desculpa. Dormi muito mal esta noite. — Esfregou os olhos e ligou o veículo. — Ainda estou tentando acordar, não tomei meu…
— Café?
Lívia sorriu, estendendo um copo de café para viagem na direção dele. Gabriel franziu o cenho, mas o aroma forte e amargo era irresistível.
— Obrigado.
— Não sei como você consegue lidar com essa pressão diariamente.
— Com o tempo, você se acostuma. — Ele bebeu o café devagar, observando os tons rosados da manhã que pintavam o céu de Serra Branca. — E dormir mal vira rotina.
— Isso só me faz admirar ainda mais seu trabalho.
Gabriel a olhou nos olhos pela primeira vez desde o beijo. Estava arrependido. Tinha se aproveitado da estagiária para afogar suas mágoas e agora se sentia um merda. Ela era nova demais, inexperiente demais. Não queria magoá-la e, por isso, não sabia como dizer o que precisava ser dito.
Até que seu celular tocou, salvando-o do silêncio opressor. Era Hanako.
— Pronto.
— Acabei de falar com o Augusto e parece que sonhamos a mesma coisa. Uma mulher de branco no cemitério…
— Espera, o quê? Eu…
— Você estava no meu sonho, então imaginei que…
— Isso só acontecia quando éramos crianças e imaginávamos coisas, Hanako. Deve ser coinci…
— Não é, e você sabe. — Ela o cortou como a navalha afiada que era. — Você sonhou também. Assim como eu e o Augusto.
Gabriel ficou em silêncio, tenso. A voz de Hanako ficou mais baixa e trêmula.
— Você sabe que vagar pelos sonhos é um mau presságio.
Então, ele riu. Só porque eram crianças e fizeram uma bruxaria ou outra não significava que tinham uma ligação sobrenatural.
— Para quem não acredita, você parece bem crédula agora.
— Marquei com o Augusto, a Maya e o Kenny nos portões do cemitério, às sete.
Abriu a boca para responder, mas ela desligou primeiro. Encarou a tela do celular e suspirou. Ficou em silêncio, sem forças e arrependido de ter voltado a Serra Branca. Todos os problemas do passado haviam sido desenterrados. Por isso, a cidade tinha cheiro de terra revirada — era o efeito de sair e voltar.
Parte do que parte, fica.
Gabriel fechou os olhos. Pensou no filho, em Beatriz, nos colegas de trabalho que valiam a pena e nos ideais que o haviam levado até ali. Precisava colocar a cabeça no lugar se quisesse levar a investigação adiante.
Sentiu a mão delicada de Lívia sobre a sua e encarou o gesto com certa apreensão, afastando-a com toda a gentileza de que era capaz naquele momento.
— Olha, Lívia, o que aconteceu ontem foi um erro de conduta da minha parte. — Estava visivelmente arrependido e constrangido. — Você é estagiária de Direito, ainda nem terminou a faculdade.
Os olhos da jovem se encheram de lágrimas e ela pareceu ainda menor do que era.
— Eu… Desculpe! — Virou o rosto, vermelho, e secou as lágrimas antes que escorressem pelas bochechas. — Sinto muito, não escolhi gostar de você. As coisas só foram acontecendo e, quando você me beijou, eu pensei que finalmente… Que finalmente…
Ele negou com a cabeça, cada vez mais sem jeito de continuar falando sobre o assunto.
— Eu sinto muito, Lívia. Não tive a intenção de te dar esperanças, estava desamparado por conta de tudo, e essa cidade… — Seus próprios olhos encheram-se de lágrimas e ele socou o volante. — Eu preciso descobrir o que aconteceu com a Bea e se eu tiver que desenterrar todo o passado, eu vou. Mesmo que eu morra no processo.
A jovem soluçou, sem conseguir conter-se após a explosão de raiva de Gabriel.
— Não culpe a cidade, Gabriel. Culpe quem está ao seu lado e não partilha da sua dor!
Gabriel a olhou, apertando o volante.
— Culpe quem esconde segredos!
Fechou os olhos, tentando ignorar as palavras de Lívia.
— Pergunte a Hanako onde ela estava durante a madrugada. Com quem estava. Teste a confiabilidade da sua aliada que te usa como uma marionete e você nem percebe. Quem garante que ela não está envolvida no sumiço da sua esposa?
— Por favor, Lívia. Fica quieta.
— Me deixe na rodoviária, Gabriel. Eu vou pegar o próximo ônibus para São Paulo e não quero nunca mais pisar nesse lugar.
❖
Dentro do carro, Maya lutava para manter os olhos abertos quando Hanako ligou. Em qualquer outro momento, teria ignorado aquela conversa sobre sonhos, mas, quando a detetive mencionou uma mulher de branco, sentiu os pelos da nuca se arrepiarem.
— Kennyson!
— Acordado! — Ele se ajeitou no banco, como se não tivesse passado os últimos minutos dormindo.
— Vai acontecer alguma coisa.
— Como assim, “alguma coisa”? — Coçou os olhos e bocejou. — Coisas acontecem o tempo todo.
Conforme se aproximavam do cemitério, mais neblina encontravam pelo caminho. Maya aumentou a intensidade dos faróis e diminuiu a velocidade, mesmo com as ruas desertas da cidade ainda adormecida.
— Conseguiu falar com a Manu?
— Deixa a Manu pra lá. Que coisas, Maya?
— Sei lá, Kennyson! É uma sensação ruim! Não sei explicar!
Maya não percebeu o sinal vermelho e quase atravessou o cruzamento. Freou a poucos centímetros da trajetória de um ônibus que passou em alta velocidade e desapareceu na neblina. Ambos foram projetados para a frente com a freada brusca, contidos apenas pelos cintos de segurança. Do contrário, teriam batido contra o para-brisa.
Entreolharam-se em silêncio, ainda paralisados pelo susto.
❖
Era exatamente como no sonho. A neblina tomava a rua, e o cheiro de terra úmida e ferro pairava no ar frio, como fios de um passado que nunca se rompeu de verdade. O silêncio da vizinhança tornava o cenário ainda mais assustador, pois Hanako se recordava não apenas do sonho recente com a mulher de branco, mas de todas as vezes em que vagara pelos sonhos dos amigos e coisas ruins aconteceram depois.
Não conseguia se lembrar de quando começara a caminhar pelos sonhos, mas sempre acabava relacionando o fenômeno ao ritual no casarão Villalobos. Tudo voltara a acontecer depois de seu retorno a Serra Branca e, agora, mais uma vez, estava parada diante dos portões do cemitério — palco de outros pesadelos e um lugar que sempre procurara evitar.
Aproximou-se. As mãos já usavam luvas de látex quando forçou o portão e a velha corrente enferrujada tilintou.
— Trancado, óbvio.
Carregava uma caixa de ferramentas no carro onde encontrou um alicate perfeito para arrombar um velho portão.
Maya e Kenny chegaram em seguida e viram apenas Hanako guardando ferramentas no carro.
— Vocês estão mais pálidos que eu.
— Não dormimos nada, então é bom que sua intuição esteja certa. — Embora Maya demonstrasse uma postura cética, por dentro sabia que algo ia acontecer.
— Vamos logo com isso, então. — Kenny foi se adiantando, mas Hanako o impediu.
— Gabriel e Augusto não chegaram. É importante que estejam aqui, eles me acompanhavam no sonho.
Kenny fez uma careta e encarou Maya.
— Vamos esperar um pouquinho, Kenny. Não custa nada. Já conseguiu falar com a Manu?
Ele resmungou, afastando-se um pouco.
— E os resultados? — Hanako questionou.
— Olho humano, como prevíamos. Foi arrancado enquanto a vítima ainda estava viva, e quem o fez sabia o que estava fazendo. — Cruzou os braços, levemente incomodada ao imaginar a cena. — Deve ter usado um bisturi ou algo semelhante.
— Queria causar dor.
— Sim. E o Antônio foi morto asfixiado.
As duas se entreolharam.
Havia receio.
Porque é como dizem: em Serra Branca, parte do que parte, fica.
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