Horoscopo Ocidental
1 Prólogo
Na imensidão do cosmo, tudo possuí uma função, uma determinada ação e um tempo correto para ser executada, às vezes até mais de uma. Mas quem foi que criou e estipulou que a completude cosmológica deveria acontecer dessa forma desde seu início? Bem, nessa história existem duas coisas primordiais que tiveram esse papel: Destino e Universo. Enquanto o segundo citado cria e armazena tudo, o primeiro organiza e decide a sequência de acontecimentos que ocorrerá até o fim da existência do que foi criado.
Nada no cosmo fugia desse funcionamento: as galáxias, os planetas, as estrelas, e até mesmo os seres vivos. Porém, um certo dia, após a criação de inúmeras entidades e seus locais, já com a resolução fixa de como deveriam ser, se portar, viver, sentir e se expressar, outros seres foram criados. Estes baseados justamente nos anteriores e por isso deveriam seguir alguns de seus mesmos conceitos estipulados, mas algo parecia ter acontecido para que essas novas criações não seguissem as determinações antecipadamente ordenadas.
— Tá. A gente está quase acabando. Agora só falta criar mais alguns humanos — disse um dos seres primordiais.
— Ok. Vou começar aqui — disse o outro ser enquanto movia algumas de suas extensões cumpridas, arredondadas, móveis e articuladas como se estivesse manipulando algo pequeno na sua frente.
Após três segundos, sete pessoas vestindo túnicas estavam paradas, de pé e com os olhos fechados, bem diante dos originadores do cosmo.
— Agora eu vou deliberar a vida deles.
Depois de cada movimento único também de seus membros prolongados, cada um daqueles indivíduos foi desaparecendo até que só restou um homem. Tinha a pele levemente morena, cabelos longos que iam até o início de suas costas e uma barba também longa que acabava no início de seu peito.
De repente, esse mesmo homem abriu seus olhos. Ele observou tudo em sua volta e não reconheceu nada, ficando confuso com o que acontecia ali.
— Olá, eu sou o Destino e esse aqui ao meu lado é o Universo. Nós te criamos e estipulamos como vai viver, por qual direção seguir, os caminhos que vai traçar. Enfim, criamos a sua história. Você não vai se lembrar de nada disso daqui a pouco, pois vai começar a sua jornada na vida quando for mandado para um planeta…
— Que provavelmente será a Terra, né? — perguntou retoricamente o Universo.
— É — confirmou e sorriu, levemente constrangido.
— Por quê? — indagou o tal homem, agora olhando para os primários.
— Hãm? Como assim “Por quê”? — Destino questionou o humano.
— Por que eu vou viver da maneira que você diz que eu devo?
— Ué, porque eu sou o Destino. Eu decidi que vai ser assim e assim será. Ou pelo menos deveria ser. — Destino se aproximou do humano a ponto de quase tocá-lo com um de seus olhos, apontando para a direção do ser criado recentemente.
— Será que eu fiz algo errado? — Se perguntou Universo. — Mas eu criei tantos outros iguais antes e eles já estão agindo como você estipulou. Você realmente colocou as definições nele?
— Sim, coloquei — Destino respondeu enquanto se afastava do rapaz. — Mas parece que, por alguma razão, ele não as está seguindo.
— Quem sou eu? O que faço aqui? Por que vocês me criaram e querem decidir como devo ser e viver?
— Ele está piorando. Melhor colocar logo no planeta e depois criarmos algo para destruí-lo e aí fazer outro — disse Universo com uma voz trêmula.
— Não. Acabei de conferir que os outros seis que você criou estão iguais a esse.
Universo também possuía aquela mesma parte do corpo arredondada que ficava no topo do corpo do Destino. Na verdade, os dois tinham duas dessas partes iguais, mas ambas ficavam com uma certa distância lateral uma da outra e, no caso do criador, as duas estavam agora visivelmente maiores e mais redondas.
— Tudo bem. Tive uma ideia — Destino disse para o Universo.
Após os globos oculares do outro primordial retornarem ao tamanho e formato anterior, Destino falou para o humano criado:
— Você vai me obedecer e fazer tudo o que eu já decidi para o seu futuro: comer, sentir, se comportar e viver. Começando por andar em zigue-zague indo na direção oposta em que está virado agora.
Universo primeiro direcionou as esferas oculares de sua cabeça para seu companheiro e então um rasgo curvado para cima apareceu logo abaixo daqueles orbes. Depois elas apontaram para o sujeito de tamanho inferior aos seres primordiais.
O homem olhou para aqueles que o criaram e deram-lhe:
— Não! Eu vou contra vocês dois — respondeu com determinação em seu olhar. — Vou avançar sempre em frente, indo em direção do caminho que eu mesmo escolhi e assim criando a minha própria história, sentimentos e expressões.
Dessa vez, Destino foi quem emitiu aquela coisa na região da sua cabeça, logo abaixo dos olhos que antes havia aparecido no Universo. Mas aquilo apareceu de uma forma tão rápida que mal pôde ser percebida e então o ser ordenador falou novamente com o humano:
— Muito bem, então. Faça o que quiser, mas se você quiser obter as respostas que deseja e concluir esse seu objetivo, precisa nos desafiar.
— E como faço isso? — A curiosidade surgiu logo ao lado da determinação naquele rapaz.
— Nós iremos te dar algum nível de conhecimento e entendimento das coisas que criamos até agora e você deve usar isso para seguir esse seu caminho. Nos encontraremos ao final dele e aí responderemos todas as perguntas das quais você ainda não saiba ou compreenda.
— Mas… como vou saber se estou chegando ao final desse caminho?
— Vamos dar uma dica pra ele. Pra ajudá-lo mais um pouquinho — sugeriu Universo.
— Está bem. Haverão algumas paradas nessa reta. Passe por elas e chegará no fim. Pare em uma delas e você viverá lá, gostará das coisas de lá, comerá o que tiver lá… Enfim, vai ser o fim do desafio, pois ficará ali e terá que seguir tudo o que eu estipulei até o fim da sua vida, além de não conseguir aprender mais nada que não seja relacionado aquele ambiente em que estiver.
— E você vai acabar gostando tanto de estar lá, será algo tão natural pra você que vai até esquecer de tudo o que aconteceu antes da sua chegada — complementou Universo.
— Entendi. Então eu preciso desafiar vocês dois, Destino e Universo, seguindo um caminho, sem parar, pra ter uma vida e ser eu mesmo, fazendo minhas próprias escolhas durante esse percurso com o conhecimento que vocês me derem?
— Sim. Basicamente é isso — respondeu Destino, sendo apoiado pelo Universo que balançava levemente o topo do seu corpo para cima e para baixo.
— Ok, então. Aceito essa proposta e já começarei a seguir o meu caminho. Seguirei por essa direção — o homem apontou com seu dedo para frente —, andarei sempre em frente até encontrar vocês e vencer esse desafio.
— Muito bem, então.
Após Destino falar aquilo, os olhos do Universo brilharam, em seguida a cabeça do rebelde também se ilumina, deixando-o cego por um breve instante devido aos clarões.
Poucos segundos depois os orbes do Universo já não estavam mais emitindo luz e nem a cabeça do recém criado. Tudo havia voltado ao normal naquela imensidão cósmica escura, levemente iluminada pelas estrelas.
Destino encerra aquele momento se despedindo:
— Use o conhecimento e as informações que lhe demos e nos veremos no final da sua jornada.
Os dois seres primordiais se despediram do humano e depois desapareceram. O homem, sozinho, usando roupas simplórias e sem mais nada para ajudá-lo no percurso, admirou por um instante aquela bela vista. Uma imensidão escura, repleta de pequenos pontos luminosos, clareando levemente tudo ao redor e no horizonte uma estrada de terra.
Ele não perdeu muito mais tempo e começou a andar pelo caminho que escolheu.
Fale com o autor