Honestly? I love you!
19 Solução
Notas iniciais
— Eu não sei por que estou aqui – murmurou Emily, a voz rouca, quase nula e inacreditavelmente dolorosa.
A morena estava cercada pelo grupo, com exceção de Alison, novamente à uma das mesas dispostas pelo pátio de Rosewood High. Elas estavam matando a primeira aula daquela sexta-feira.
Doía olhar para Emily. A garota tinha o olhar castanho perdido, não parecia fazer questão de focá-lo em suas amigas e parecia também estar cansada de chorar. As olheiras eram visíveis abaixo de seus olhos opacos e inexpressívos. Hanna correu brevemente os dedos pelos cabelos dela e perguntou suavemente o que todas queriam saber.
— Como está Ali?
Emily deu minimamente de ombros.
— Estável – disse, ainda com o olhar perdido. Demorou até que ela finalmente completasse – Vão deixá-la em observação no Rosewood Memorial até... eu sei lá quando – apoiou os cotovelos na mesa e suspirou pesadamente – Alguém aí tem algum remédio para dor de cabeça? Sinto que minhas funções cerebrais podem parar a qualquer minuto.
Sem dizer nada, Spencer tirou da bolsa uma cartelinha com comprimidos e entregou a Emily juntamente com uma garrafa d’água. A morena engoliu dois de uma vez.
— Você ao menos dormiu? – perguntou Aria.
— Meia hora, sendo otimista. E pra que isso acontecesse, minha mãe praticamente teve que me ninar.
— Até que horas você ficou no hospital? – Mona quis saber, já que nenhuma das meninas obteve permissão dos médicos para ver Ali, com exceção de Emily.
— Até a hora que a Sra. D me disse que em pouco tempo ia ser eu a próxima a desmaiar, mas de fome. Acho que isso foi por volta das onze da noite. Ela disse que me avisaria caso houvesse alguma mudança.
— E houve?
Emily comprimiu os lábios e, quando balançou negativamente a cabeça, seus cabelos levemente desgranhados balançaram junto.
— Ei, sabe o que eu acho que seria poético? – disse Hanna maciamente depois de um considerável tempo de silêncio – Se fosse você a doadora. Seria como nos filmes. Você daria uma parte de si ao amor da sua vida.
Um sorriso doce e inocente repousava nos lábios de Hanna. Estava claro que mais uma vez ela tentava usar suas habilidades quebra-gelo para fazer todo mundo ali se sentir melhor. Mas desta vez ninguém conseguiu sorrir em resposta. Ao invés disso, a colocação fez Emily conter outra vez um soluço e apoiar a testa na palma de uma das mãos. Spencer fitou a loira com um olhar reprovador.
— Não é hora para poesias, Hanna – disse ela, baixinho.
Hanna encolheu-se.
— Desculpe – murmurou, cabisbaixa.
— Tudo bem – garantiu Emily, conseguindo esboçar um pequeno sorriso – Seria poético mesmo, mas nem sempre as coisas na vida real saem como nos filmes.
Havia uma grande conformidade no comentário de Emily, como se ela estivesse omitindo algo das meninas. O sinal para a segunda aula soou e a garota respirou fundo.
— Tem certeza que não quer ir pra casa? – perguntou Spencer – Eu posso te levar.
— Não – disse Emily, levantando-se e ajeitando a mochila no ombro – Eu não posso ficar definhando em casa, remoendo aquilo. Como diz a minha mãe, preciso parecer forte para quando ela acordar.
— Você não precisa parecer forte – disse Hanna com o mesmo sorriso doce, levantando também e abraçando a amiga ao seu lado – Você é forte.
Mona, que estava ao lado esquerdo de Emily, sorriu também ao constatar que Hanna não poderia ter resumido de um jeito melhor todas as frases de incentivo que a garota já devia ter escutado desde a tarde do dia anterior até aquele momento. Ficou feliz quando Hanna se aproximou para dar-lhe um selinho antes de correr para a aula de Artes, que sem dúvida havia se tornado sua favorita.
— Vejo você em três horas – disse ela, com os lábios rentes a testa de Mona, que não conseguiu responder. Apenas ficou por alguns segundos observando Hanna se afastar, com um sorriso bobo no rosto e percebendo que ainda poderia haver gotinhas de mel na piscina de amargura em que todas se encontravam naquele momento, inclusive Mona.
— Ei, Senhorita Apaixonadinha – Emily estalou dois dedos em frente ao rosto de Mona, que piscou, vendo que havia um princípio de sorriso também no rosto da garota, como se de repente suas vidas tivessem voltado ao normal, ou ao mais próximo do normal que existia para elas -, vamos.
Mona balançou a cabeça, saindo daquele breve transe e começou a caminhar junto de Emily em direção ao fluxo de estudantes que começava a se encaminhar para suas salas. Spencer e Aria estavam um tanto longe, mais à frente, e Mona enxergou ali a oportunidade de questionar Emily a respeito do que aparentemente apenas ela notara na resposta que a garota havia dado a Spencer momentos antes. Emily usara uma entonação diferente, Mona não sabia explicar. Ela apenas sempre sabia o que Hanna queria dizer apenas com um olhar, sabia quando ela mentia, mesmo sobre as coisas mais banais possíveis, e talvez essa habilidade tivesse se estendido um pouco.
— Posso perguntar uma coisa? – ponderou em meio aos passos cautelosos que as duas davam.
— Pode – Emily rebateu, num tom convidativo.
Ainda assim Mona passou algum tempo analisando sua próxima pergunta. O que a fazia pensar que, se Emily não quisera contar certo detalhe às suas amigas, iria querer contar a ela? Então se lembrou de quando a morena confessou-a não poder contar sobre o diagnóstico a elas também, na quarta-feira. Emily havia, de certa forma, confiado em Mona, certo? E passado uma considerável responsabilidade para as mãos dela. Tendo isso em mente, Mona permitiu-se relaxar, ainda que estivesse com o coração um tanto acelerado e com a sensação de estar meio que invadindo a privacidade da garota ao seu lado. Achou melhor, por via das dúvidas, começar com a mesma frase que havia dito a Ali quando arrastara-a à sua primeira consulta médica em pelo menos dois anos.
— Eu sei que não tenho crédito o suficiente para me meter nisso, mas...
— Você tem crédito, Mona – Emily cortou-a naquele mesmo tom convidativo, amigável – Agora mais do que nunca. Tanto quanto as outras.
Certo, Mona vinha trabalhando duro para conseguir ouvir isso de alguém que não fosse Hanna desde que saíra do Radley, mas nunca pensara que seria tão bom. Quis agradecer, mas conseguiu sorrir fraco para o chão do pátio apenas.
— Antes, quando você disse “remoendo aquilo”... eu sei que você não estava apenas falando do fato de Alison ter desmaiado. Então, o que você quis dizer?
Mona esperava que a garota demorasse também um bocado para replicar, e foi o que ela fez. Deu mais uns passos passos até a estreita área coberta do pátio e sentou-se em um dos bancos vazios recostados à parede. Encolheu-se e baixou a cabeça. Foi quando Mona percebeu que Emily não havia escondido das meninas apenas um detalhe. Fosse o que fosse, era algo grande.
— O que foi? – Mona sentou junto dela, deixando a bolsa cair aos seus pés.
— Eu fui à clinica de novo hoje – Emily levantou a cabeça, revelando olhos vermelhos que provavelmente ardiam pelo esforço de tentar conter as lágrimas – Antes de vir para cá, tipo umas seis e meia, sete horas. Jason passou lá também, ainda ontem mais tarde para fazer o teste.
— E? – instigou Mona, preocupada.
— E eles já têm os primeiros quatro resultados. Os dos pais de Ali, o de Jason... e o meu. Nenhum de nós é compatível.
Emily falava como se já tivesse perdido todas as esperanças. Mona nunca pensara ter sentido tanta pena de alguém antes, o que a deixava completamente paralisada.
— Quer dizer, eu consigo entender por que eu não passei – continuou Emily, enquanto lágrimas escorriam por seu rosto –, eu não faço parte da família. Mas... se a família dela também não passou, eu não sei mais o que esperar.
Emily respirou fundo, e Mona ainda continuava paralisada, agora sentindo que havia perdido a habilidade de falar. Ainda que o médico de Ali tenha dito que a questão da compatibilidade era questão de pura sorte, era entendível o porquê de Emily estar uma pilha de nervos.
— Acho que o que mais me dói é saber que não vou poder dar o final feliz para o conto de fadas de Hanna – ela fitou Mona finalmente, conseguindo dar um minúsculo e doloroso sorriso. Então baixou a cabeça novamente, cerrando os olhos e deixando escapar o primeiro soluço.
Mona não viu outra alternativa senão abraçar a garota. Sentiu-a exitar quanto a abraçá-la de volta, mas depois de segundos Emily devolveu o gesto fortemente. Algo no modo copioso como ela chorava fazia Mona sentir os próprios olhos ficando úmidos por baixo das pálbebras agora fechadas. Era um dos primeiros abraços reais que ela recebia de alguém do grupo que não fosse Hanna. Era bom, confortável, acolhedor e agoniante, principalmente, pois era selado por desolação, um tipo ainda mais devastador, um tipo que dizia “eu estou quase que literalmente morrendo de medo”.
— Eu queria tanto poder dizer a você que tudo vai ficar bem – ela deixou escapar, não percebendo de imediato que isso poderia não confortar Emily exatamente.
— Então diga – Mona sentiu a garota sorrir por trás novamente, em meio ao choro – Eu adoro eufemismos.
— Eu não sei se esse é o tipo de exemplo que vale a pena comparar – afastaram-se – Mas quer saber? Eu atingi meu limite quando estive no Radley. Não só cheguei ao fundo do poço como fui soterrada abaixo dele. Eu não tinha mais nada, juro. E quando eu estava a ponto de desistir... foi que minha sorte virou... completamente. Você sabe quem foi a responsável por isso.
Emily assentiu, já com um doce e verdadeiro sorriso no rosto, e as memórias das idas de Hanna ao Radley para visitá-la voltavam agora à Mona com força total, bem como as palavras ditas pela loira ao pé de seu ouvido enquanto ela dormia, certa vez – Eu nunca desisti de você. Eu acredito que você possa mudar. Eu te amo. –, e o gosto daquele beijo terno e quente que Hanna dera-a ao terminar o pequeno discurso, que só não fora mais maravilhoso porque Mona não pôde corresponder a ele. Hanna trouxera-a de volta e ela sabia muito bem disso.
— Como eu disse, eu não sei se isso ajuda em algo – Mona continuou, não sabendo bem por que resolvera tocar justo naquele assunto –, mas eu só quero que você saiba que há sempre uma saída. Para tudo. Está bem?
Emily buscou pela mão direita de Mona e sorriu novamente.
— Ajuda bastante – disse ela suavemente – Agora, posso eu te fazer uma pergunta?
Numa expressão serena, Mona assentiu.
— Você faria a cirurgia? Quer dizer, se você acabasse por ser a única compatível... você doaria um de seus rins a Ali?
Mona de certa forma já esperava por aquela pergunta. Isto é, se Emily não a fosse fazer em voz alta, com certeza questionaria-se internamente. Era natural que ainda houvesse algum resquício de desconfiança. Mona, porém, quis se fazer entender da maneira mais clara possível.
— Assim como as outras meninas, eu puxei a manga da minha camiseta por uma única razão, Emily.
No fim das contas, Emily acabou rendendo-se ao nervosismo e à preocupação e deixou Rosewood High para ir ao hospital ficar com Ali – que ainda provavelmente estava desacordada – depois do almoço daquela manhã.
***
Mona teve sua penúltima aula com Hanna e, embora estivesse se sentindo um tanto avoada, pôde passar vários minutos de mãos dadas com ela devido às carteiras duplas, o que, como sempre, confortava-a tremendamente. Por quase uma hora, aliás, permitiu-se apenas concentrar-se em tais carícias e em como não queria ir embora junto com sua turma de filosofia quando soasse o sinal para a última aula, já que o professor havia faltado. Porém não houve alternativa.
Assim que ouviu suas botas tocarem a calçada em frente à escola, Mona ouviu também o celular tocar dentro da bolsa. Sua mãe passou por sua mente numa possibilidade imediata porque, afinal, quem mais a ligaria, considerando que os alunos eram proibidos de usar celular durante as aulas e Hanna não poderia fazer isso? Mas não era nenhuma das duas. Era Emily.
Mona permaneceu por dois segundos encarando a telinha do aparelho que piscava. Por que Emily ligaria para ela tendo Aria, Spencer ou mesmo Hanna, que eram muito mais próximas de si do que Mona? Por um momento, a conversa que as duas tiveram pela manhã não veio à mente dela. Mas mesmo se a garota estivesse desesperada ou algo assim e não soubesse para quem ligar, o nome de Aria com certeza devia estar em primeiro lugar em sua lista de contatos. Mona resolveu, por fim, atender ao invés de ficar matutando sobre o fato inusual, que não adiantaria em nada.
— Oi, Em – ela gaguejou antes de pronunciar o apelido da garota. Não queria que soasse forçado.
— Graças a Deus você atendeu! – suspirou Emily do outro lado da linha. Sua voz parecia um misto de impaciência e... empolgação?
— Algum problema? – Mona parou de caminhar.
— Não, não. Ao contrário. Uma solução. Nós temos... uma solução!
Emily agora soava eufórica e Mona era capaz de imaginá-la sorrindo e praticamente sem fôlego enquanto falava.
— Emily, devagar – instruiu, tentando manter a si mesma calma – O que foi?
— Um doador – Emily ofegou, a voz agora soando um tanto embargada. Parecia que ela havia caminhado para a rua ou para um lugar mais movimentado, onde podia falar mais alto – Acharam um doador para Ali.
Mona sentiu o próprio corpo relaxar e seus lábios se curvarem em um grande sorriso. Era possível sentir o alívio do tom de voz de Emily, o que era emocionante por si só.
— Ah, meu Deus! – exclamou, de certa forma espantada com a agilidade da medicina de uma cidadezinha como Rosewood. Estava claro que os médicos haviam reexaminado os exames dos pais de Ali ou o de Jason e descoberto que um dos três era de fato compatível com a garota, mas ainda assim ela sentiu-se impaciente para fazer a pergunta crucial – Quem?
Emily manteve-se por alguns segundos num agoniante silêncio, como se quisesse fazer um suspense desnecessário rufando tambores em sua mente.
— Você, Mona.
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