Honestly? I love you!
5 Laços inquebráveis
Notas iniciais
Mais alguns minutos de leitura e o sol já castigava a parte de trás da cabeça de Hanna. Ela pensava em finalmente entrar na sorveteria e, de lá, ligar para Ali e perguntá-la por que diabos estava demorando tanto, porém sentiu as patinhas dianteiras de um Pastor-de-Shetland em seus joelhos.
Hanna baixou o livro e se encolheu no banco enquanto o cãozinho de pêlo tricolor – preto, caramelo e branco – bagunçado parecia estar tentando lambe-la.
— Oi, você – disse ela, infantilmente nervosa. – Onde está seu dono? – olhou em volta, ninguém à vista. – Você tem um dono?
O cãozinho olhava de maneira fixa para Hanna, abanando a cauda. Ela notou um pingente dourado e circular que estava preso à coleira dele. Meu nome é Pepe DiLaurentis, lia-se.
— Pepe, sentado! – instruiu uma voz conhecida por trás de Hanna.
Pepe tirou as patinhas de cima de Hanna, porém não sentou. Ao invés disso, começou a farejar as sapatilhas dela, arrancando-lhe risadas.
— Deixe os sapatos da moça em paz, Pepe – Alison entrou no campo de visão de Hanna com uma guia azul em mãos.
— Uau! – exclamou Hanna enquanto a loira de cabelos longos sentava ao lado dela – Você? cachorros? Quem diria!
— Pois é – disse Ali, prendendo a guia na coleira de Pepe e fazendo um carinho em seu pescoço – Ele é um garoto muito esperto. Me conquistou à primeira lambida.
Hanna riu e concordou quando Ali sugeriu para que entrassem, depois de ela ter amarrado a guia de Pepe em uma das pernas do banco de madeira e instruído para que o cãozinho deitasse debaixo dele para escapar do sol.
— Foi mesmo sua mãe que comprou ele para você? – perguntou Hanna, uma vez que as duas já estavam frente a frente em uma das mesinhas e com copos de sorvete de melancia em mãos.
— Na verdade, não. Jason resgatou-o de um abrigo. O engraçado é que ele é de raça, mas se perdeu da antiga família. Iam sacrificá-lo se não encontrassem alguém para adotá-lo – concluiu Ali, meio cabisbaixa.
— Espere – Hanna franziu uma sobrancelha – Jason? Meu Deus! Eu achei que ele ia passar o resto da vida em Londres! Acho que não o vejo desde...
— O meu memorial? – completou Ali, com uma ponta da antiga superioridade na voz.
Hanna se encolheu novamente, desconfortável.
— Está tudo bem, Hanna – Ali tranquilizou-a – Pode dizer. Não é um palavrão. Eu já superei, assim como todos pareceram superar.
Se eu voltar a ficar pronunciando a palavra novamente, aí sim que não vou superar, pensou Hanna, cruzando os braços.
— E quando Jason voltou? – indagou ela, séria.
— Quando eu voltei – disse Ali apenas, olhando pela janela.
— Por que não nos disse nada? E por que nunca o vimos por aí?
— Bem, não sei exatamente porque não disse nada – explicou, meio distante – Achei que não faria diferença. E vocês não o vêem porque ele sai cedo de casa com meu pai no carro dele. Desde que ele voltou, começou a frequentar um programa de treinamento de executivos na empresa da família. E ele volta com meu pai também, quase sempre tarde.
Hanna assentiu, lembrando-se da última vez que vira o irmão mais velho de Ali, no memorial que fizeram em homenagem a ela em Rosewood High, antes de ele voar até Londres para cursar Direito em Oxford. Ele havia crescido e virado um jovem responsável, que quase sempre vestia terno, gravata e sapatos cuidadosamente engraxados. Treinar para ser executivo combinava com ele.
— Ele disse algo sobre o porquê de ter voltado?
— Tecnicamente meu pai o mandou voltar. Disse que agora a família precisaria se manter unida. Jason não pareceu estar loucamente feliz em fazer isso, mas fez – Ali forçou um sorriso.
— Seu pai está certo – disse Hanna, sorrindo complacentemente.
— Talvez – rebateu Ali – Mas ainda é estranho. Antes de tudo acontecer, nós vivíamos brigando. Minha mãe gritava com Jason por ele só pensar em sair para festinhas; comigo por eu ser sempre malcriada; com meu pai por ele só prestar atenção ao trabalho. É irônico dizer que eu tive que morrer e ressucitar para que nós finalmente virássemos uma família de verdade. Nós agora nos abraçamos fortemente por segundos inteiros! – ela riu com os olhos já marejados, como se abraçar a família fosse a coisa mais surreal do mundo – Eu estou feliz. E só consigo pensar em qual será a próxima coisa a tirar esse sentimento de mim.
— Nada vai tirar isso de você, Ali – Hanna alcançou a mão direita da amiga. – Acabou. Talvez você ainda se sinta culpada por estar feliz porque passamos tanto tempo vivendo vidas miseráveis que... a felicidade parece uma armadilha. De qualquer jeito, se alguém tentar te fazer mal, você tem seu cão de guarda agora – brincou, arrancando de Ali uma gargalhada.
— É claro – confirmou ela. – Além do mais, ele vai ser também uma desculpa para Emily vir me visitar. Ela já me ajuda a cuidar dele como se ele fosse nosso futuro bebê de proveta.
Hanna sentiu que seus olhos não escondiam o contentamento ao ouvir aquela última frase. Com certeza seria algo que Emily diria, mas Alison? Falando sobre fertilização em vidro? Hanna tinha a impressão de que os hormônios de Emily enlouqueceriam se ela ouvisse algo do tipo saindo dos lábios de Alison.
— Estou surpresa que não tenha colocado o nome do cachorro de Pepe Fields DiLaurentis— Hanna fingiu desdém, achando que tal piadinha lhe custaria os dentes, mas Ali cerrou os olhos por um segundo, parecendo conter a animação.
— Você não sabe o quanto eu tive vontade de fazer isso! Mas aí me perguntei se não seria apressar demais as coisas.
Hanna olhou incrédula para Ali.
— Ela fisgou você direitinho, não é? – brincou, e apenas viu Ali corar – Fisgou sim! Você está completamente enfeitiçada!
— Pode ser – disse Ali com o rosto apoiado nas mãos.
— E quem diria que isso uma vez chegou a ser ao contrário, não é? Ela enfeitiçada por você.
— Por favor, não me lembre mais disso. Só de pensar que ela esteve aqui, tão perto de mim, antes que tudo isso pudesse acontecer, me amando e eu nunca percebi, meu coração começa a se contorcer – concluiu ela, agarrando levemente a gola da camiseta. – Vou pegar mais um pouco disto aqui – disse numa voz animada em seguida, com o copinho de sorvete já vazio em mãos, como se varresse o momento pesado para longe. – Quer também?
— Claro – respondeu Hanna, um tanto distante, antes de ver Ali caminhar até o buffet de sorvetes.
Tudo no que ela conseguia pensar agora era em como as palavras que Ali usara para descrever seu relacionamento com Emily também descreviam quase que perfeitamente como ela se sentia em relação a Mona.
Hanna não tinha certeza se um amor do tipo “mais do que amizade” sempre existira entre elas, mas Mona definitivamente nunca havia sido uma amiga comum. Ela, de fato, sempre estivera ali, e por muito tempo Hanna não percebera.
Absorta em memórias, Hanna mordeu o lábio, subitamente se lembrando de que tinha sido não somente o primeiro beijo de Mona, mas também a primeira vez dela, e apenas agora se dava conta de como aquilo a fazia sentir-se honrada.
Como se o universo conspirasse mais uma vez a favor dela, Hanna ouviu uma doce e conhecida voz por trás, que pedia ao rapaz do caixa uma garrafinha de água com gás.
E ali estava ela, vestindo uma camiseta que lembrava o verão havaiano, o que ela fazia várias vezes para honrar as origens, já que a família viera de Oahu, no Havaí.
O par de segundos que se passou antes que Mona notasse que Hanna a estava observando pareceu congelar e fazer com que Hanna sentisse que poderia ficar ali, olhando-a de todos os ângulos, por pelo menos muito tempo. Como isso pode ser possível?, perguntava-se a loira novamente, de uma hora para outra é como se eu a visse com outros olhos! Mas, de qualquer forma, Hanna sabia o que sentia. Era insanamente compreensível.
O olhar de Hanna fisgou o de Mona assim que a morena virou o rosto para a esquerda.
— Olá, estranha – cumprimentou ela animadamente, se aproximando de Hanna e, sem cerimônias, dando-a um beijo na testa.
Hanna surpreendeu-se com aquela demonstração de carinho em público. Sim, fora Mona quem, no hospital em Nova York, dissera que Hanna não deveria se preocupar com o que as coisas significavam, fora ela quem perguntara esperançosamente “não podemos apenas viver isso do jeito que dá vontade?”. Porém, na noite anterior, fora Mona quem parecera assustada. E agora isso.
Hanna abraçava a morena, que estava ainda em pé, pela cintura e esta não parecia querer se afastar.
— Senti sua falta – confessou, na mais melosa sinceridade, inclinando a cabeça para trás a fim de olhar nos olhos de Mona. Sentia uma sensação de forte intimidade dominá-la. Era como se estivessem sozinhas.
— Eu também – replicou Mona, baixinho, ajeitando alguns dos fios loiros e rebeldes de Hanna.
Por um momento singular, Mona pareceu buscar por algo nos olhos azuis de Hanna, e esta sentiu que seria beijada, mas a morena não se aproximou o suficiente. Hanna então quebrou o contato visual e beijou a garota no centro do abdome, por sobre a blusa. Mona riu e deu meio passo para trás como se sentisse cócegas. Então virou o rosto novamente e avistou as costas de Alison. A felicidade pareceu evaporar do rosto dela. Hanna tomou as mãos da morena, já sentindo a familiar tensão no ar.
— O que foi? – perguntou.
— Nada – respondeu Mona, sem tirar os olhos de Alison por um momento, mas o desconforto era visível nela –, apenas achei que você estivesse sozinha.
— Não há um problema nisso, há? – mas estava claro que havia um problema. Hanna via que a respiração de Mona estava agitada e suas mãos estavam começando a esfriar.
— Não sei – confessou ela, quase que inaudivelmente. – Acho que já vou, está bem?
Mona parecia desesperada para fugir dali, e Hanna não entendia muito bem aquilo. Quer dizer, Mona trabalhara junto das meninas para trazer Ali de volta, já ficara junto dela várias vezes, ainda assim parecia querer evitar um confronto de qualquer maneira.
— Ei – Hanna ainda segurava a garota pelas duas mãos – , não. Escute, se quiser fazer parte da minha vida desse jeito, terá que se acostumar a isso. A ela. Consegue fazer isso por mim, não é?
Mona ainda parecia incerta e, antes que pudesse responder, a voz de Ali soou pelo lado direito, também um tanto nervosa.
— Oi, Mona – cumprimentou ela, sorrindo sutilmente.
Mona soltou as mãos de Hanna ao perceber que Ali notava aquele contato.
— Alison – a morena também tentou sorrir.
Um silêncio altamente constrangedor se fez depois disso. Ali ainda não havia se sentado novamente e parecia esperar que Mona dissesse algo mais.
— Eu realmente acho que preciso ir – alegou ela, já se movendo para sair dali.
Os olhos de Ali foram de Hanna, cuja expressão era de desapontamento, para Mona.
— Espere – pediu Ali, antes que Mona tivesse a chance de se virar. – O que eu realmente acho que você deve fazer é experimentar o de melancia – ela ofereceu um dos dois copinhos a Mona. – Está divino. Por minha conta.
A gentileza pareceu deixar ambas, Hanna e Mona, sem palavras. Alison tinha agora um genuíno sorriso no rosto.
— Obrigada – a morena conseguiu balbuciar e sentou-se ao lado de Hanna.
Assim que Ali se afastou novamente para pegar um terceiro copinho de sorvete, Mona se recostou em Hanna, como se apenas o mais amigável dos encontros com Alison fizesse suas forças se esgotarem, porém se recompôs quando a viu voltar.
Para a surpresa de Hanna, novamente, a conversa se mantivera superficial e amigável. Ali falara sobre as praias da Georgia e, Mona, por sua vez, quando perguntada, falara sobre quando era pequena e costumava ir ao Havaí com os pais visitar os avós. Mencionara também que o casal tinha uma cadelinha chamada Kleo e isso dera a Ali a chance de falar sobre Pepe.
Era incrível como as duas conversavam entre si quase como se fossem amigas de verdade. Hanna procurou pela mão de Mona por debaixo da mesa, em meio a mais uma história, a fim de dizê-la de forma subliminar “você está indo muito bem”, e esta entrelaçou a sua à de Hanna firmemente. Porém parte da felicidade que envolvia a loira desapareceu assim que Mona avisou-a que iria ao banheiro. Uma ótima desculpa para escapulir, pensou Hanna, já que os banheiros ficavam ao lado da entrada do local.
Encontrou, então, o olhar de Ali que claramente dizia “eu sei o que você está aprontando”.
— O que foi? – indagou Hanna.
— Nada – Ali deu de ombros com um sorriso distante. – É só... vocês duas. Parece que não são mais as mesmas desde a última vez que eu realmente vi vocês, anos atrás.
— Ali, ninguém aqui é mais o mesmo de anos atrás.
— Eu sei. Não quis dizer isso. Vocês apenas parecem estar agindo de forma diferente. Um diferente bom.
— Espere aí, você não soube desde o início que Mona e eu nos beijamos no hospital em Nova York? – Hanna franziu uma sobrancelha, confusa.
Ali deu de ombros mais uma vez, com uma expressão doce.
— Eu imaginava que algo assim pudesse ter acontecido entre vocês naquela noite, mas não tinha certeza
— Emily não disse nada a você?
Ali deu uma leve risada.
— Emily é a pessoa mais leal que há neste planeta. Se existe alguém que sabe guardar a sete chaves um segredo, este alguém é ela.
Hanna concordou.
— Mas o que isso quer dizer? – Ali voltou a indagar – Que você e Mona estão juntas? Como um casal?
— Já faz um tempo que deixei de me preocupar com o que as coisas querem dizer – alegou Hanna –, mas é certo dizer que o que Mona e eu temos são laços inquebráveis.
Após um momento de silêncio, para a surpresa – e alívio – de Hanna, a morena voltou a seu lugar junto dela, parecendo mais tranquila. Porém a despedida não deixou de ser constrangedora. Alison parecia não saber se devia ou não abraçar Mona, então não abraçou nenhuma das duas e apenas disse um “até mais” como se não soubesse onde colocar as mãos.
Depois, Mona passou alguns bons segundos apenas com os olhos indo do copinho de sorvete vazio para a garrafa de água com gás que, agora, provavelmente já estava morna.
— Eu estou fazendo disso um dilema maior do que deveria ser – disse ela, séria.
—Não está – garantiu Hanna, tocando as pontas dos cabelos de Mona – Eu entendo. E me desculpe por ter te forçado a fazer isso. Não consigo nem imaginar o quão estranho isso tudo deve ser para você.
— É estranho – Mona deu uma leve risada – É como se eu quisesse me dar o direito de ainda continuar com raiva dela, mas não consigo. Alison perseguia a mim enquanto Bethany a perseguia. O que ela fazia comigo e com tantos outros “perdedores” não era nada mais do que uma válvula de escape. A pose de abelha-rainha era uma resposta para a insegurança dela. E eu nunca pensei que fosse dizer isso mas... ela é parecida comigo em muitos sentidos.
Mona falava como se fosse a primeira vez que somasse dois mais dois. Para duas pessoas que passaram praticamente a vida inteira odiando uma a outra, aquele pequeno discurso era lindamente inacreditável, e Hanna sentiu novamente uma súbita vontade de puxar Mona para si e confortá-la, dizendo-a o quão corajosa ela era. E foi o que fez, porém calada.
— Pensei muito em dizer a você que eu não estive aqui de bom grado – continuou Mona, abraçada à loira; que só suportei isso por você, mas não é inteiramente verdade. Eu quero recomeçar. Não quero mais que você se preocupe comigo estando desconfortável perto dela, porque eu não quero mais me sentir desconfortável.
Hanna levantou o rosto de Mona para si, beijando-a delicadamente em seguida, tendo a certeza de que nunca a amara tanto como naquele momento, e ajeitou a garota confortavelmente em seu colo, não dando a mínima se eram alvo dos olhares de canto de alguém.
Mona era “abraçável” e macia como uma bonequinha de pano, porém uma onde um coração batia rapidamente. Hanna conseguia sentir o sangue correndo por debaixo da pele cor-de-areia dela. As respirações se chocavam e nada era mais acolhedor. Mona acariciava os cabelos de Hanna como se dissesse “eu não mereço isso”.
— Você não faz a mais remota ideia do quanto eu me orgulho de ter você – Hanna sussurrou de olhos semicerrados, pensando que, se dependesse de si, jamais a largaria novamente.
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