Homotenebrus
1 O Homotenebrus
“Sou rejeitado por aqueles que amo. Normalmente as pessoas passam a amar ou odiar umas as outras depois que se conhecem. Eu sou odiado, antes mesmo de me conhecerem.”
A lua cheia se esconde entre as nuvens. Nas redondezas vê-se apenas uma longa estrada de barro que é seguida pela vasta floresta. Longe do povo; perto do nada. Um refúgio; para muitos, um pouco de paz.
Na mesa daquela movimentada taberna, Antony, como de costume, aprecia sua bebida predileta; um suco de frutas comuns da região; doce, e ainda assim, meio azedo. Nas paredes daquele lugar, esculturas esculpidas em madeira. Em uma delas há um lobo e uma águia; uma águia sobre um lobo morto. É o símbolo do Império. A águia representa o povo; o poder; o alto. O lobo representa a violência; a desordem; as trevas. Ouvem-se as músicas de um grupo musical que toca suas melodias usando instrumentos de corda, com sonoridade suave e ao mesmo tempo alegre; além dos constantes gritos de homens que festejam tomando vinho e saquê.
Antony pensa profundamente. O silêncio dos seus pensamentos aquieta o barulho gerado pelas repetidas batidas que são produzidas pelas jarras de clientes que se alegram demasiadamente. Sua aparência é delicada. Seus cabelos são compridos e intensamente negros. Usando vestes escuras e joias no corpo, percebe-se que é um tipo de pessoa comum naquele lugar. Calmo e relaxado; não sente o tempo passar.
Ele, de forma tranquila, induz o seu olhar para a loira garçonete que, observando-o, pisca o olho rapidamente. Ela usa um vestido de cores branco e vermelho. Uma tiara enfeita seu cabelo e em seus olhos brilha um radiante azul. Ele responde com um sincero e breve sorriso, mas logo perde a atenção quando um grupo de guerreiros brutamontes se aproxima de sua mesa, embriagados e cheios de euforia. Um deles se aproxima muito de Antony e diz:
— Desculpe-me pelo incômodo... Garoto. Precisamos de sua mesa. — Sua voz era grossa e seu irônico sorriso chega a ser agonizante para Antony que profundamente esconde esse sentimento, demonstrando apenas um penetrante olhar. O homem possuía uma estatura além do comum. Era grande demais. Provavelmente das terras sulistas. Não tinha emblemas no uniforme, mas possuía marcas que patenteava seu status; era um guerreiro líder. Os clãs originários do extremo sul costuma ter grande senso de guerrilha e todos os homens geralmente são caçadores ou guerreiros desde novos.
Seria normal se alguém viesse pedir a mesa que ele ocupava, mas não da maneira que aquele homem o fez. Ele não se apresentou e não foi cordial, como de costume. Ele poderia ter sido mais educado. Talvez o tamanho de seus músculos em comparação aos de Antony impedisse que o grande homem se submetesse a falar com um tom de igualdade. Seria sensato da parte de Antony, simplesmente sair.
— Sim! Certamente terás quando eu terminar com a minha bebida — respondeu Antony, que nem mesmo chega a olhá-lo.
O guerreiro vira-se para os seus companheiros. Em seguida, pega o copo de Antony e derrama todo o líquido no chão.
— Acho que sua bebida acabou.
Quanta arrogância. Os olhos de Antony brilham diante da ação do grotesco guerreiro. Um sentimento de adrenalina que ele muito aprecia.
Antony levanta o braço devagar.
— Laura, mais um. Por favor! — era outra garçonete da movimentada taberna. Foi um desafio feito pelo orgulhoso guerreiro e logo aceito por Antony.
O homem, demonstrando muita raiva, soca o peito de Antony de forma monstruosa. Chega a arremessá-lo em metros de distância, ao chão. Então a música para e toda a atenção é voltada para eles.
Antony, levantando-se vagarosamente, bate a poeira da roupa e volta para a sua mesa, sentando-se. O guerreiro se move para batê-lo de novo, mas Antony se levanta com uma velocidade incrível. Esquivando-se para trás, com a ponta do pé desequilibra o homem e com muita força quebra a cadeira na cabeça do brutamonte. Então, os companheiros do guerreiro que, agora está nocauteado, se enfurecem e logo o cercam.
A face do jovem, que antes era delicada e carismática se torna sombria e assassina. Ele fica encurralado pelos homens altamente armados e se agarra na parede como se a gravidade não existisse. Como um aracnídeo que naturalmente escala qualquer superfície.
— Ele é um tenebrus — disse um cliente com olhar surpreso.
— Peguem-no! — euforicamente, gritou outro cliente.
Os olhares amedrontados revelam o medo que muitos daqueles homens tinham de Antony. Muitas armas são desembainhadas e os homens totalmente armados, ansiavam atacá-lo. O clima que antes era calmo e animador, agora é aterrorizante.
Ao ver a loira correr para os fundos da taberna, ele rapidamente segue o mesmo caminho, antes estourando um saco de moedas no rosto do homem velho que tentara impedir sua passagem. Após pular pelo balcão, ele corre até chegar numa porta, nos fundos da taberna. Ao passar pela porta, a garçonete abre uma janela, em um estreito corredor que o leva em direção à floresta. Antony sai, mas antes põe a mão no rosto dela e faz um breve carinho.
Em uma fuga bem sucedida, Antony entra na floresta. Alguns minutos separam-no daquele barulhento lugar. Ele sente sede e para pra tomar água na beira de um estreito rio que ali havia. Ao se agachar, sente uma dor intensa em sua perna direita e logo nota que está sangrando. Uma flecha o atingiu de raspão durante a fuga. Antony vê o reflexo da lua na água antes da imagem desaparecer aos poucos e ele cair em sono profundo. Havia veneno naquela flecha.
“Sou caçado por um crime que não cometi. Julgo-me inocente, mas o mundo não aceita um bom coração dentro de um corpo coberto de maldição.”
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