Homotenebrus
3 A Garota dos Olhos Expressivos
No campo, próximo das florestas de Luna Civitas não existe muitas famílias. Luna tinha poucos amigos, mas possuía uma grande imaginação e bastava ter seu irmão mais novo do lado para não precisar de mais ninguém. Ela era aventureira, mesmo medrosa. Sempre sonhou em conhecer a cidade e os grandes palácios; em usar um vestido brilhante; montar numa carruagem guiada por um cocheiro; descer da carruagem e ser recebida por um lindo príncipe, com sorriso claro e cabelos cintilantes. Não era muito diferente das moças de sua idade.
Willy só queria se divertir, como se não houvesse amanhã. Adorava os animais e costumava imitá-los. Tinha praticamente a metade da idade da irmã, mas era um tanto cumprido e magricelo; não por falta de apetite, pois Nicol o chamava de “pequeno lobo”, com referência a sempre comer muito.
Nicol sempre foi um camponês vivendo do próprio trabalho. Ervas, frutas e legumes são cultivados por ele que, diariamente vai a cidade comercializar a fim de trazer compras para sua família. Os negócios da família não eram mais os mesmos após a morte da esposa. Ele ainda era um velho brincalhão, mas não possuía mais o brilho da felicidade. Ele é incansável, trabalhador de bom coração. Bastava sentar em sua poltrona predileta que logo pegava no sono, deixando as crianças falando sozinhas. Por mais que se consiga viver nos campos, a tecnologia e inovações das grandes cidades acabam sendo necessárias para uma melhor qualidade de vida, inclusive rural. Mas, O velho não era bom com inovações e continuava a plantar e colher de forma primitiva, produzindo pouco e ganhando apenas o necessário para viver bem. Mas, Luna e Willy nunca deixavam Nicol sentir vontade de não viver; via neles o mesmo fogo radiante que via em seu falecido filho, Willian.
O sol radiante emana uma luz que, refletida na água, brilha como uma joia. Luna se diverte com seu irmão enquanto colhe frutos de plantas que seguem rio acima. Seu vestido simples e colorido se torna incolor diante de sua beleza. Seu escuro cabelo se destaca devido à cor de sua clara pele. A exuberância do seu sorriso faz com que seja o mais carismático dos seres e a expressividade de seus olhos, mesmo em meio a tantos sorrisos, ainda é penetrante.
O ambiente ao redor exala o aroma perfumado das flores caídas ao chão. Ouve-se apenas o canto das aves e o mover das águas do rio. Willy caminha próximo às margens. Desengonçado, olhar curioso, com o cabelo desarrumado e descalço. Chega ser engraçado de se ver.
— Willy, olha. Tem alguém deitado ali — ela disse, enquanto apontava para a margem.
— É um homem — afirmou Willy, com uma das sobrancelhas arqueada.
Ao se aproximarem, percebem que ele está vivo e tiram o corpo da água. Luna rapidamente posiciona o corpo e faz uma reanimação; montou no homem e espremeu seu abdômen repetidas vezes até ele vomitar e abre os olhos. A garota se assusta ao ver que seus olhos são totalmente negros. Tanto a pupila, quanto o que deveria ser o branco do olho. Depois do breve olhar ele volta a desmaiar.
Deitado em uma cama confortável, ele descansa. Suas roupas estão limpas, seu corpo envolvido em ataduras, num quarto aquecido e bastante florido. Ao seu lado há um jarro de flores. São lírios que exalam um doce e suave perfume. Ele parece estar em sono profundo. Luna se aproxima da cama trazendo consigo uma jarra. O estranho abre os olhos rapidamente. Seu olhar transmite uma frieza nunca antes vista pela garota. Levantando-se, ele agarra Luna pelo pescoço, batendo-a contra a parede e a segurando fortemente. Ao ouvir a jarra de água quebrar no chão, Willy entra no quarto. Paralisado, demonstra apavoro diante da situação.
— Quem é você? — perguntou pausadamente, com o olhar profundo e amedrontador. Os poucos segundos de silêncio chegam ser uma eternidade para todos que ali se encontram.
— Está me machucando — ela respondeu com as lágrimas já descendo pelo seu rosto.
— Quem é você? — insistiu.
— Te salvamos e é assim que agradece? – disse Luna calmamente, com seus olhos fechados.
Percebendo que ela falava a verdade e era aparentemente inofensiva, ele logo a solta, abaixando a cabeça e sentando-se na cama.
— Perdoe-me. Não foi minha intenção. Lembro de você, dos seus olhos. — Depois de um breve silêncio, ele continua. — O que aconteceu?
— Não sabemos. Apenas te encontramos quase morto, envenenado e com o corpo bastante desidratado — respondeu Luna enquanto acariciava a garganta machucada.
— Garoto, já pode se mexer. Eu não farei mal a vocês — disse, olhando para Willy.
Ela pega o escuro sobretudo e o entrega.
— Estava sujo e rasgado. Lavei e costurei — ela fala mostrando-lhe um lindo sorriso com bochechas molhadas.
— Não precisava se incomodar. Nem mesmo deveria ter me salvado. Agora, além de procurado, devo minha vida a uma garota — disse, muito pensativo.
“Meu estômago queima, sinto fome e ânsia de vômito. Preciso me alimentar”. Ele pensou.
— Você é criminoso?
— Sou!
Ela fingiu que ele não respondera que sim.
— Você dormiu por três dias, teve muita febre. Todas as vezes que tentamos te dar alimento, você vomitava. Tentamos de tudo, e nada. Você só ingeriu água e chá. Vovô é muito bom com ervas medicinal. Ele conseguiu te salvar.
Enquanto isso, Willy permanecia parado, sem falar ou se mover, observando Antony atentamente. A porta se abre. Por ela entra um velho engraçado com um cajado na mão e um dos olhos que não abre.
— Acho que cheguei numa boa hora. Todos devem estar com fome. Trouxe frutas e pão. — O velho agarra o garoto fazendo um cafuné, tirando-o do estado de choque.
Ao olharem para a cama, veem que o estranho homem não mais está. Na janela aberta, apenas o movimento na cortina causada pelo vento. Mas, quem seria aquele homem? De onde veio? O que fazia? Para onde vai? São dúvidas que a curiosa Luna agora tem.
“Eu não tive medo. As lágrimas foram de tristeza. Pelo olhar, de alguma forma ele me fez sentir que estava profundamente desesperado”.
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