Homo Sapiens

7 Homo sapiens


Aquela foi sua segunda transformação, mas foi a primeira vez que sentiu dor.

A primeira coisa que aconteceu foi a paralisia. Enquanto andava – corria, corria o mais longe que podia de tudo o que era vivo – seu corpo paralisou e ele caiu no chão. Os ossos começaram a se esticar e alguns a se encolher, e a dor era estonteante: eles se quebravam, um a um, e cresciam outra vez, mais fortes, como se a ferocidade começasse ali. Ele tentou expressar a dor através do grito, mas sua garganta falhava: ela também estava se desfazendo e se reestruturando, fazendo sua voz desaparecer e então voltar, alta, mais do que ele gostaria de ouvir. O grito que irrompeu dela não foi humano.

Tudo coçava. Cada pedaço de sua pele coçava enquanto os pelos aumentavam de número e tamanho, enquanto as unhas cresciam e se transformavam em garras, enquanto suas mãos se tornavam patas gigantescas.

Ele ficou cego por um instante. A luz abandonou seus olhos para que eles pudessem diminuir, e quando a visão retornou, estava diferente, escura, mas ele sentia que nunca enxergou tão bem na vida. A noite não era nada. Ele via tudo.

E sentia o cheiro de tudo também – das folhas, dos animais que se escondiam, temerosos que ele pudesse encontrá-los. Mas ele os encontraria, como o lobo mal nas lendas, como um monstro em uma história de terror.

Porque é o que ele era: um monstro.

E seu uivo, cortante e imponente, afugentou os morcegos da árvore que ele escalou – a única ali –, procurando um ponto de vantagem para a caça.

Não tinha mais controle. Não tinha mais uma segunda voz dentro daquela cabeça: era o lobo e apenas o lobo.

Ele observou a estepe escura ao seu redor, um campo de folhagens pálidas e quase sem árvores. Ele farejou o ar, procurando algum resquício de vida.

Grama.

Água.

Cabras.

Num pulo, desceu da árvore e correu, salivando, na direção do cheiro.

Atacou o animal pelas costas. Os chifres feriram seu rosto, mas ele não sentiu. O que sentia era apenas fome, e ele precisava devorar alguma coisa. A cabra berrava como se implorasse por piedade, mas ele não tinha nenhuma. Ele rasgou aquele corpo com os dentes, manchando os pelos ao redor da boca com o sangue, e devorando a carne crua e suculenta. Devorou para que os berros cessassem e o barulho não era algo que o incomodava, era apenas outra parte do alimento. Porque o medo também lhe dava sustento.

Enquanto devorava a cabra, sentiu outro cheiro. De outro. Outro como ele.

Virou-se, arreganhando os dentes ensanguentados. O grunhido vinha de alguns metros de distância e ele o seguiu.

Mas foi o outro quem atacou primeiro.

Ele pulou sobre seu corpo, a boca a atacar seu pescoço. Arseni – não, o lobo – revidou com as garras, empurrando-o para longe. O outro chegou a mordê-lo, mas não com força o bastante para derrubá-lo.

O lobo então arreganhou os dentes outra vez, exibindo o sangue da cabra que ainda pingava de sua boca. Soltou um uivo alto, dominante, e partiu para o ataque, arrancando tufos de pelo e pedaços da pele do invasor. Quando ele enfim caiu, derrotado, o lobo perdeu o interesse e voltou a correr pela estepe.

O cansaço o venceu quando a aurora chegou. A metamorfose o fez urrar de dor outra vez, perder a voz, a visão e os movimentos. Como um homem que nasce, sujo, ensanguentado e nu, ele rastejou pela estepe, tentando recobrar alguma de sua humanidade.

— Arseni. — ouviu. Ergueu os olhos e viu Matviei, uma coberta em seus braços que ele prontamente colocou sobre o corpo do rapaz — Você está bem?

Arseni ensaiou algumas palavras, mas não conseguiu falar. Era como se sua mandíbula estivesse travada, e ainda dolorida pela transformação. Ele se ajoelhou, o cobertor sobre os ombros, e se encostou no corpo do outro, respirando fundo.

— Pescoço. — murmurou. As palavras se arrastavam, demoravam para vir, e ele percebeu que teria que escolhê-las com cuidado, — Outro me atacou. Como eu. — e ergueu os olhos para o horizonte, onde viu uma linha de trem. Quis rir.

Aquela era a mesma estepe em que foi atacado.