A varinha de Arseni é uma relíquia de família. Vem de seu bisavô paterno, um dos bruxos mais antigos da família. É feita de mogno, tem vinte e oito centímetros, é flexível e seu núcleo é de corda de coração de dragão.

— É de rabo-córneo húngaro. — Seu pai lhe disse quando lhe mostrou a varinha pela primeira vez — O dragão mais perigoso que existe.

Na primeira vez em que viu a varinha, ele pensou que ela não tinha nada de mais. Longa e feia, sem brilho, parecia rachada em alguns lugares, mas era apenas impressão sua. Parecia um galho de árvore cortado, qualquer. O fato de ter núcleo de coração de dragão não lhe impressionou. Era um núcleo comum. E dragão húngaro? Bem, eles estavam no leste da Europa, quantas outras varinhas feitas com dragão húngaro não existiam por lá?

Era simples.

Ele não queria tê-la.

Queria algo diferente. Algo bonito, algo que lhe fizesse parecer um bruxo de verdade, e não um pedaço de madeira que pertencera a um velho babão que não tinha mais sanidade.

Em seu apartamento, às vezes, ele via catálogos de varinhas – o tipo de coisa que vem no correio, de graça, mostrando promoções. Lá, ele viu uma varinha de freixo e pena de fênix. Era bonita, o cabo adornado de uma cor diferente do resto dela. Ele quis poder ter aquela varinha. Pena de fênix, pensou, era muito melhor do que coração de dragão. Dragões são perigosos, são cruéis. Fênix curam as pessoas; fênix são gentis. Ele não queria ser cruel como um dragão.

Mas quando empunhou a varinha pela primeira vez, ele percebeu: dragões não são cruéis. São cruéis apenas quando provocados, quando alguém invade seu território, quando alguém quer machucar um dos seus. Dragões são protetores. Dragões são sobreviventes.

Se sua varinha tinha um núcleo de dragão, era porque ele próprio também tinha. Era porque ele também estava disposto a proteger o que era seu, era porque ele também era um sobrevivente.

Então, sem hesitar, ele aceitou a varinha de seu bisavô. Porque todos os Varkhov tinham coração de dragão.