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2 Capítulo Um.
"Make a little conversation, so long I've been waiting to let go of myself and feel alive. So many nights I thought it over, told myself I kind of liked her but there was something missing in her eyes."
Doncaster, Inglaterra; 12 de abril de 2015; 01:45 pm.
Reuniões escolares não eram minhas favoritas no tempo de escola. Agora, seis anos depois eu ainda não havia aprendido a gostar delas.
Desde o último mês, após receber uma carta do meu antigo colégio em Doncaster, tudo o que se passava em minha mente era: como encarar meus antigos colegas, sem deixar transparecer que aquele era o último lugar no mundo em que eu queria estar?
A resposta mais simples era: não vá. Mas nada na vida é tão simples, não é mesmo?
Voltar a minha antiga cidade, significava encarar coisas que há muito tempo eu vinha tentando esquecer. Memórias que deveriam ficar enterradas. Ir até esse "encontro de ex-alunos", significava ter de desenterra-las de uma forma ou de outra e eu não consiga ver como isso poderia ser algo bom.
A única pessoa, além da minha família e meu melhor amigo, que eu gostaria de rever provavelmente havia deixado a cidade há anos e mesmo que ainda morasse lá, talvez não gostasse tanto assim de me reencontrar.
A última vez em que ouvi falar de Amelia, foi quando Harry me ligou dizendo que a mesma estava de casamento marcado com um antigo namorado do colégio. Isso faz dois anos.
Amelia sempre foi mais bem resolvida do que eu. Enquanto as pequenas partes da minha vida desmoronavam aos poucos, ela se preparava para construir a sua. Não do tipo de ter um relacionamento sério, se casar e ter filhos, morando em uma casinha em um bairro distante do centro. Isso era pouco para ela. Amelia queria o mundo e estava disposta a conquistá-lo.
O suposto casamento me pegara de surpresa. O convite do mesmo também.
Quando deixei nossa cidade para estudar em Lincoln, prometi a Amelia que nada mudaria. Mas as coisas já haviam mudado, eu só não havia me conformado com isso ainda.
Alguns erros foram cometidos e promessas foram quebradas, não havia como negar esse terrível fato. Conseguimos nos entender por um tempo e por alguns poucos meses, era como se nada tivesse mudado. Nos amávamos, éramos melhores amigos há anos e havíamos prometido que jamais abandonaríamos um ao outro.
Mas eu a deixara. Fui eu quem quebrei o laço intenso que nos ligava. O preço dessa decisão era doloroso e angustiante, mas só eu podia pagá-lo. Havia sido uma escolha minha e mesmo quando nos arrependemos do que decidimos, temos de lidar com elas.
Minha mãe sempre dizia que haviam coisas das quais não poderíamos viver sem. Quando era mais novo, acreditava cegamente nisso. Com o passar dos anos, pude enxergar que ela nunca esteve tão errada.
Você aprendia a viver sem as coisas e sem as pessoas, mas isso não significava que elas não viviam em você. E ali no ônibus que me levaria de volta à Doncaster, pude sentir mais uma vez como era estar vazio por dentro.
Era como se tudo o que eu era e sentia tivesse ficado ali abandonado junto com a garota que eu amava, anos atrás. Como se não houvesse forma de recuperar o que fora perdido.
O que eu tinha afinal? Um bom emprego, uma namorada neurótica e alguns poucos amigos. Era o que eu precisava, ou pelo menos, era isso o que dizia a mim mesmo todos os dias quando acordava.
Essa é sua vida, cara, aceite-a e lide com ela — esse era meu mantra há anos. Mamãe estava errada e torcia que eu também estivesse.
Nada fazia muito sentido, no final das contas. Eu era bem sucedido e tinha a carreira que sempre sonhei, mas ainda assim as coisas não se encaixavam; quase como se faltasse a peça essencial para aquele quebra cabeças de mil peças.
Eu sabia qual era essa peça. Mas não tinha certeza se ela ainda queria se encaixar em mim.
Doncaster, Inglaterra; 14 de março de 2006; 04:58 pm.
Afaguei os cabelos de Amelia, que se espalhavam pelas minhas coxas, enroscando meus dedos nos fios que pertenciam à única garota que eu era capaz de olhar com outros olhos. O olhar que minha mãe apelidara como amoroso. Ponto pra ela. Eu nunca admitiria isso.
— Se você pudesse escolher estar em qualquer lugar do mundo, agora e nesse momento — fez uma breve pausa, se esforçando para ser misteriosa ao expressar suas palavras. — Qual seria?
Soltei um riso baixo, fazendo-a revirar seus olhos e depois fecha-los. Amelia era provavelmente a única garota que conseguia me fazer refletir sobre algo. Independente do que fosse, seja lá o que significasse de verdade. Sua mania, julgada por muitos como estranha, de divagar pelo tempo e se perder em pensamentos, fazia dela uma pessoa única.
Como quando tínhamos doze anos e ela me convenceu a subir em uma árvore, repetindo constantemente que poderíamos voar se acreditássemos fielmente nisso. E eu subi na árvore. Mas não porque acreditava que sua teoria estava certa, mas pelo simples fato de que aquele sorriso sonhador lhe caia bem e que não seria eu a ousar tira-lo de seu rosto.
Amelia era o tipo de pessoa que se sentia livre em momentos que pareciam simples, como se a liberdade estivesse tatuada em seus olhos e cérebro. Era capaz de se sentir viva, pelo simples fato de que realmente estava. Amelia era o tipo de pessoa que eu jamais conseguiria ser.
— Não sei. — murmurei, passando meus dedos por sua testa, fazendo que ela abrisse seus olhos e me encarasse. — No show da minha banda preferida, talvez?
— Pelo sentimento ou pelo simples fato de estar?
E aquele era outro dom seu. Amelia era adepta ao sentir, para ela não existia nada mais importante. E eu a admirava, mais uma vez.
— Você tem que parar de me fazer essas perguntas. — ri de maneira nervosa, fazendo com que um sorriso brotasse em seus lábios. Seus olhos castanhos ainda estavam fixados nos meus, aguardando ansiosamente por uma resposta. Mas não aquele tipo de resposta que você mantêm guardada na ponta da língua e sim aquela que você diz, porque é simplesmente a verdade, o que você sente. Eu poderia ter escolhido não dize-la, mas Amelia saberia de qualquer forma. — Gostaria de estar no show do Bon Jovi, em Londres, no maior estádio! — ri baixo, sendo acompanhado por ela. Sua risada alta atraía a atenção de quem passava, mas aquilo só me fazia rir mais ainda. Parei abruptamente, fazendo-a me observar com o cenho franzido. Eu era tão bom quanto ela em suspense, da maneira mais irônica que isso podia ser dito. Coloquei minha mão na frente de seus olhos, fazendo-a me estapear. Existiam pequenas coisas que não podiam ser ditas sob o olhar atento de minha melhor amiga, e aquela era com certeza uma delas. — Com você.
Pude sentir sua mão que apertava a minha, minutos antes, se afrouxar. No auge dos meus dezesseis anos, com toda aquela história de hormônios em ebulição e sentimentos a flor da pele, eu não podia negar que me sentia atraído por ela.
Sua risada baixa parecia me dizer que ela sentia o mesmo, mas Amelia era durona demais para deixar transparecer uma certeza absoluta.
— Eu — começou, afastando minhas mãos de seus olhos e prosseguindo com o assunto, quase como se o que tinha dito não lhe tivesse surtido efeito. Se fosse outro cara na minha situação, ele provavelmente se sentiria ofendido, mas conhecendo Amelia como eu conhecia, aquela sua forma de agir valia mais do que qualquer confirmação. — Gostaria de estar... Provavelmente, no Canadá.
— E o que diabos tem pra você no Canadá?
— Gatinhos, Tomlinson! — riu mais uma vez, olhando-me profundamente antes de se sentar ao meu lado. — O mundo é tão grande!
— E nós tão jovens. — murmurei, caçoando de sua típica frase clichê. — E pobres, então esquece. — sua mão voltou a estapear meu braço, me fazendo conter o riso e forjar uma cara que variava entre a emburrada e a séria. — Sabe qual lugar nós vamos, no máximo, conseguir ir? — Amelia percebeu que eu estava querendo irrita-la, por isso fechou sua cara e rodou os olhos. — Na sua casa. Por que eu to morrendo de fome!
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