Homúnculo: Um Ser de Esperança
1 O Nascimento do Que Não Deveria Existir
A tempestade rugia sobre Valdric, um vilarejo esquecido entre montanhas cobertas por névoa e pinheiros retorcidos. As ruas eram de pedra irregular, encharcadas pela chuva que transformava o chão em um espelho trêmulo de luzes de lamparinas. Os sinos da capela batiam ao longe, abafados pelo trovão.
No topo da colina, um velho laboratório de pedra negra se destacava como uma ferida no horizonte. As janelas quebradas deixavam escapar clarões esverdeados e o som metálico de frascos tilintando. Dentro, o alquimista Eldran Marvok trabalhava em frenesi. O ar estava denso, quente, e cheirava a enxofre, sangue e ferro derretido.
No centro da sala, um círculo alquímico cobria o chão — desenhado com giz, mercúrio e runas entalhadas no próprio piso. O alquimista caminhava em torno dele com passos rápidos e trêmulos, segurando um frasco que brilhava como fogo líquido.
— “Vinte anos de estudo… vinte anos de sacrifício… hoje os deuses verão que não precisam mais ser temidos,” — murmurou Eldran, os olhos insanos, refletindo o brilho do frasco.
Ele despejou o líquido sobre um corpo de barro e cinzas repousando no centro do círculo. As substâncias sibilavam como cobras, e o corpo começou a se mover. Veios escuros se formaram sob a pele pálida. Ossos translúcidos, quase de cristal, começaram a se delinear.
O alquimista ergueu as mãos, o rosto iluminado pelas velas que tremiam com o vento que soprava das frestas.
— “Levanta-te... criatura feita da essência perdida... que a centelha dos deuses profanados desperte em ti!”
O trovão respondeu. A sala tremeu. As chamas das velas cresceram e todas as janelas explodiram, espalhando vidro e vento frio. O corpo arqueou, soltando um grito gutural que misturava dor e nascimento.
Quando a fumaça começou a se dissipar, Eldran ofegava. No centro do círculo, uma figura humana respirava, coberta de barro rachado e veias azuladas. Olhos dourados, brilhando como âmbar sob a luz fraca, se abriram pela primeira vez.
A criatura olhou em volta, confusa, e sussurrou:
— “Pa... pai?”
Eldran cambaleou para trás. O sorriso de êxtase sumiu. Ele via, diante de si, não uma criação, mas um reflexo distorcido de si mesmo.
— “Não... não! Isso não era o que eu planejei!”
O homúnculo se aproximou, hesitante, a pele fria, o olhar inocente.
— “Por que... você... teme?”
Eldran gritou. Pegou uma tocha e tentou afastar a criatura. A chama dançava sobre o rosto do ser, revelando uma expressão de puro desamparo.
— “Volte para o barro! Volte para onde pertence!” — berrou o alquimista.
O homúnculo deu um passo para trás, tropeçando, derrubando frascos. Uma explosão de vidro e fogo encheu o laboratório. O teto cedeu, e as chamas engoliram o lugar.
Horas depois, o silêncio foi quebrado por passos apressados. Aldeões subiam o morro com tochas e foices nas mãos. O cheiro de fumaça ainda pairava no ar.
— “O laboratório de Eldran pegou fogo!” — gritou um deles.
— “Dizem que ele mexia com artes proibidas!” — respondeu outro.
Quando chegaram, encontraram o alquimista morto sob as cinzas… e algo se movendo entre os destroços. Um vulto curvado, nu, coberto de fuligem, com olhos brilhantes.
As tochas se voltaram para ele.
— “Por todos os santos...” — murmurou uma mulher, dando um passo para trás.
— “É um demônio!” — gritou o ferreiro, erguendo o machado.
— “Matem antes que amaldiçoe a vila!”
O homúnculo recuava, tremendo. As chamas refletiam nos olhos dourados.
— “Não... machuquem...” — tentou dizer, mas sua voz mal saía.
As pessoas avançaram. Um pedaço de madeira aceso voou em sua direção, queimando-lhe o ombro. Ele gritou de dor e caiu de joelhos, tentando se proteger.
Então, uma voz grossa e firme rompeu o tumulto.
— “Chega!”
A multidão se calou. Um homem alto, de casaco grosso e barba grisalha, empurrava os aldeões para o lado. Era Gregor, dono do armazém da vila.
Ele olhou para a criatura, respirando pesado.
— “Olhem bem pra ele. Isso não é um demônio. É só um... pobre coitado.”
— “Gregor, saia da frente! Isso é uma aberração!” — gritou o ferreiro.
— “Aberração é a pressa de vocês em matar o que não entendem!” — respondeu ele, o olhar duro.
Um silêncio pesado se formou. O trovão iluminou o morro e, por um instante, Gregor viu o medo nos olhos da criatura — medo verdadeiro, humano.
Ele tirou o casaco e jogou sobre o corpo trêmulo.
— “Vem comigo, garoto.”
Antes que os aldeões reagissem, ele o puxou pela mão e o levou colina abaixo, sumindo entre a chuva e a escuridão.
O porão do armazém cheirava a madeira úmida e grãos antigos. Gregor acendeu uma lamparina e fechou a porta atrás de si. A luz amarelada dançava sobre as paredes, projetando a sombra do homúnculo — magra, deformada, mas viva.
— “Você pode falar?” — perguntou o homem, agachando-se.
A criatura hesitou.
— “Posso... tentar.”
— “Como se chama?”
— “Não... tenho nome.”
Gregor ficou em silêncio por um momento, observando as rachaduras da pele do ser se fechando lentamente como argila viva.
— “Por que me salvou?” — perguntou o homúnculo, os olhos fixos na chama da lamparina.
O velho respirou fundo e respondeu, com voz baixa:
— “Porque já vi monstros de verdade. E nenhum deles parecia tão perdido quanto você.”
Lá fora, o trovão rugiu novamente. E, sob o som da tempestade, a chama da lamparina tremulava — única testemunha do início de algo que o mundo jamais compreenderia.
O sol nunca entrava completamente no porão de Gregor. Apenas um filete de luz escorria pelas frestas da madeira, iluminando partículas de poeira suspensas no ar. O som distante da chuva que caía sobre o telhado misturava-se ao estalar do fogo na lamparina — a única testemunha das horas lentas que se arrastavam entre o medo e o aprendizado.
O homúnculo permanecia ali, sentado sobre um cobertor velho, observando tudo como quem vê o mundo pela primeira vez. Cada ruído o fazia estremecer, cada sombra parecia uma ameaça. Gregor descia as escadas com passos lentos, trazendo uma tigela fumegante nas mãos.
— “Devagar, está quente,” — avisou o velho, pousando o prato diante dele.
O ser olhou, confuso, o vapor subindo.
— “Comer,” — disse Gregor, fazendo o gesto de levar a colher à boca.
A criatura o imitou, com hesitação. O líquido escorreu-lhe pelo queixo, e ele fez uma careta de espanto.
Gregor riu — pela primeira vez em muito tempo.
— “Não precisa gostar de tudo. Nem eu gosto da sopa de nabo da velha Margit.”
O homúnculo ergueu o olhar, intrigado, como se tentasse compreender a risada.
— “O que é... isso?” — perguntou, apontando para o rosto de Gregor.
— “Isto? É... rir. A gente faz quando algo é... engraçado.”
— “Engraçado?”
— “Algo que faz o coração ficar mais leve, mesmo que por pouco tempo.”
A criatura ficou em silêncio, processando as palavras como quem grava fogo na mente. Depois, tentou imitar o gesto: um sorriso torto, quase doloroso, mas genuíno. Gregor o observou e sentiu algo apertar-lhe o peito — compaixão, talvez. Ou culpa.
Os dias seguintes foram uma lenta descoberta. Gregor ensinava palavras, mostrando objetos simples:
— “Mesa.”
— “Pão.”
— “Mão.”
O homúnculo repetia, tropeçando nas sílabas, mas sua voz ia se tornando mais firme.
— “Gregor,” — dizia ele, às vezes, para se certificar de que o nome do homem era real.
— “Isso mesmo,” — respondia o velho, com um meio sorriso. — “Gregor. E você precisa de um nome também, garoto.”
A criatura o encarou, os olhos dourados refletindo a chama da lamparina.
— “Nome... significa o que sou?”
— “Em parte. É o que as pessoas dizem quando pensam em você. Um nome é... uma lembrança viva.”
Gregor ficou em silêncio por alguns instantes. Caminhou até um canto, abriu um baú de madeira e retirou um rolo de fita velha, amarelada pelo tempo.
— “Quando eu era jovem, vi um filme. Um que nunca esqueci. Era sobre um homem que criou vida com as próprias mãos… mas o mundo não estava pronto pra aceitar o que ele fez.”
O homúnculo o observava atentamente.
— “O nome do filme era Frankenstein,” — continuou Gregor. — “E para combinar… vai se chamar Stein.”
A criatura piscou, confusa.
— “Stein…” — repetiu devagar, o som ecoando entre as paredes.
Gregor assentiu.
— “Sim. Acho que combina com você. Forte, direto… e, de certo modo, incompleto. Como todos nós.”
O homúnculo olhou para as próprias mãos, cheias de rachaduras que pareciam cicatrizes antigas.
— “Então… sou Stein.”
Gregor colocou uma mão pesada sobre o ombro dele.
— “Sim, Stein. E agora, tem um lugar neste mundo, mesmo que o mundo ainda não saiba disso.”
As semanas passaram. Gregor levava pão e água todas as manhãs e, às vezes, descia apenas para conversar. Stein começou a observar o jeito como o velho se movia, como suspirava antes de falar, como seus olhos ficavam marejados quando olhava para a lamparina.
Um dia, Gregor chegou cansado, coberto de poeira e serragem.
— “Hoje foi difícil, garoto. Gente demais comprando mantimentos, e todos falando sobre ‘o demônio da colina’.”
Stein franziu o cenho.
— “Demônio... sou eu?”
Gregor hesitou. — “Pra eles, talvez. Mas pra mim, você é o que há de mais humano nessa vila.”
O silêncio que seguiu foi pesado. Stein abaixou a cabeça.
— “Por que... humano tem medo?”
Gregor respondeu depois de um longo suspiro.
— “Porque tudo que é diferente lembra o que eles não entendem... e o que não entendem, eles tentam destruir.”
Stein pensou nisso por um tempo. Depois olhou para Gregor com os olhos dourados brilhando à luz da lamparina.
— “Então... se eu aprender a ser humano... eles vão parar de temer?”
O velho sorriu triste.
— “Talvez... mas às vezes, quanto mais humano a gente se torna, mais dói.”
Stein aproximou-se da lamparina e estendeu a mão. A chama dançou, e sua sombra se projetou na parede — não mais monstruosa, apenas solitária.
— “Mas... quero tentar.”
Gregor assentiu.
— “Então vamos começar, Stein. Vamos te ensinar a ser o que o mundo esqueceu de ser.”
E enquanto lá fora o vento assobiava entre as frestas e o luar recortava o silêncio, o homem e o homúnculo partilhavam o mesmo abrigo, unidos não pelo sangue, mas pelo desejo de existir sem ser temido.
Na penumbra do porão, nascia algo raro:
a humanidade redescoberta.
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