Hold my Heart
1 Matem a Bruxa
Notas iniciais

Vila de Magnólia, Fiore. X12X7X440
“Morra, vadia!”
“Meretriz!”
“Bruxa Demoníaca”
“Volte para seu amante-demônio!”
Ela grita de dor quando uma pedra do tamanho de uma bola de baseball atinge sua perna, fazendo-a cair de joelhos, que já se encontravam em carne viva. O sangue escorria livremente, misturando-se de bom grado com a sujeira e a imundice dos esgotos que ela tinha que percorrer para fugir. Mas ainda assim eles a encontraram. Eles não iriam parar. Eles não iriam parar até que a tivessem implorando por perdão e misericórdia. Nunca! Seus olhos profundos e castanhos incendiaram em fúria e ressentimento. Ela se levanta com a ajuda das arranhadas e pequenas mãos trêmulas. Estavam a alcançando. Praticamente podia sentir o medo e o ódio deles atingindo-a como ondas. Vai, vai, vai! Forçou seu corpo exausto a acelerar a corrida. Pedras e outros objetos atingiam-na com mais intensidade. Uma pedra pontiaguda acerta suas costas, deixando estilhaços cravados na carne. Ela sibila de dor e tenta ignorar a queimação em suas penas, pegando uma curva estreita à direita e entrando na rua principal da Vila de Magnólia. Foi um movimento arriscado, mas estava certa de que mais da metade da população estava a perseguindo. Ela só precisava entrar na floresta, seu domínio. O lugar onde eles não se atreviam a entrar, com medo da besta, quem a acolheria com um abraço caloroso. Ele iria atacar mesmo sem uma ordem de sua mestra, eles temiam sua ira demoníaca. Todos o temiam, e todos a temiam. Temem o que não intendem. Algo tão antigo quanto o tempo. Eles os chamam de demônios e profanos aos olhos de Deus. Esse pensamento fez seus olhos arderem em lágrimas. Eles não o conhecem. Não sabem como ele é! Ele não é um demônio!
“Deixem-me em paz!” Grita para eles com a voz tomada pelo pânico “Por favor!”.
“Meretriz!”
“Bruxa”
“Morra”
As lágrimas caiam pelo rosto sujo, borrando sua visão e fazendo a frustração aumentar cada vez mais. Os insultos dos aldeões rangiam em seus ouvidos, assim como mais pedras e comida podre choviam sobre ela. Estavam se aproximando, estavam tão perto que ela conseguia ouvir a respiração de um homem da vila atrás dela, provavelmente tentando agarrar seus cabelos dourados e emaranhados. Deus me ajude! O que estava pensando? Deus não iria ajuda-la. Fora desprezada por Ele e pela sociedade. Ninguém poderia ajudá-la. Ninguém além do demônio que ela convocou há muito tempo atrás.
Outra pedra bateu contra seu ombro, fazendo-a perder o equilíbrio em direção à esquerda. Ela grita e cai de lado, deitando na sujeira e em um líquido com cheiro fétido que talvez pudesse ser seu próprio vomito. Ela leva uma das mãos cheias de cicatrizes e arranhões até seu lado para sentir a ferida, vendo os dedos voltarem banhados em vermelho. Seus olhos se arregalaram e mais lágrimas saiam de lá. Só teve tempo de gritar quando uma grande mão puxou seus cabelos com violência, levantando-a até que estivesse ereta. Estava cercada pelas pessoas da vila, os gritos de ódio e falsa justiça cavavam buracos em sua mente. Ela deixa escapar um soluço sufocado enquanto era levantada mais alto pelos cabelos. Seus pés não tocavam mais no chão, e a sensação era como se o couro cabeludo estivesse desgrudando de sua cabeça. Ela tenta se soltar e é atingida violentamente no rosto por algum homem. A força do golpe a deixa desnorteada, e cai mais uma vez no chão. Ela tosse. Colorindo as pedras do pavimento com respingos de sangue. Começa então a engatinhar. Fracamente empurra-se para frente, sabendo, em seu coração, que não conseguiria fugir. Ela grita quando eles a levantam de novo, dessa vez pela garganta. Solta sibilos desesperados, engasgando enquanto a erguiam no ar, sufocando-a. E com os olhos apertados e lacrimejantes, viu seu agressor. Todos eles. Todos sujos, esfarrapados, imundos. Esses não são filhos de Deus. A Vila de Magnólia não era mais um lar para santos.
Era o inferno.
“Matem a bruxa!” Gritou uma mulher idosa, balançando uma bengala com a mão velha e mirrada. Ela sim parecia como a verdadeira bruxa, com o nariz torto e mole. A pobre garota forçou seus olhos a se focarem no homem que estava asfixiando-a. Ela balançou as pernas, chutando o ar, cravou as unhas em sua mão grossa, tentou gritar, mas foi inútil. Eles iriam mata-la a sangue frio, aqui e agora. A multidão ficou mais eufórica, assim como seus movimentos tornavam-se mais fracos e débeis. Sua falha respiração diminuiu e suas mãos penduraram molemente ao lado do corpo...
“Natsu...”
“Eu amo você, Lucy.”
“Eu também te amo, Natsu”.
Ela sorri para ele, trazendo-o mais perto. Ele sorri de volta, beijando-a suavemente. Suas mãos repousando em seus quadris delicados, e as dela em seus ombros fortes. Eles se moviam para trás e para frente, acompanhando a doce melodia do violino. Ela deita a cabeça em seu peito, sorrindo quando ele pressiona os lábios em sua cabeça, um gesto tão simples... Que fez seu coração disparar.
“Lucy...”
“Hm?”
“Seja minha.”
Ela olhou para ele, o sentimento de surpresa estampado em seus olhos. “V-Você está...?”
Ele sorri para ela, os olhos onyx brilhantes de emoção “Case-se comigo, Lucy. Faça-me o homem mais feliz do mundo e seja minha pela eternidade.”
Lágrimas brotaram em seus olhos castanhos e ela sorriu o mais belo dos sorrisos “É claro que sim, Natsu, é claro que sim!”. Beijou-o sob a luz do sol poente, enquanto ele desliza o anel de ouro em seu dedo fino. Ela pertence a ele, e ele pertence a ela.
“Eu amo você, Lucy.”
“Eu também te amo, Natsu”.
Quando ela acordou, acreditou estar morta. Delicadamente abriu os olhos e deixou escapar um pequeno gemido por entre lábios secos. Sua língua logo cuidou de umedecê-los antes que uma dor lancinante atingisse seu ombro, suas pernas, e principalmente, seu pescoço. Será que quebrou algum osso? O que aconteceu-oh. Ah, sim. A memória do homem e a multidão vieram em sua mente. Ela começa a tremer.
Abriu os olhos rapidamente, o olhar voando a procura de algum sinal de ameaça. Ainda está na rua da vila, mas agora deitada no chão de paralelepípedos. Ela cautelosamente tentou se erguer com as mãos doloridas e fecha os olhos com força tentando resistir à dor. Todos os lugares doíam, mas teve que lutar contra isso. Ela precisava se levantar e voltar para casa. Ele estaria lá, ele iria salvá-la. Mas por que ainda estava viva? Estava em alguma versão macabra da vila, onde acreditava que era onde o inferno começava. Esse é o inferno? Ela merece o inferno?
Sua mão toca em algo macio, quente e molhado. Franze o nariz com o fedor e seus olhos se abrem mais ainda. Sua visão ficou embaçada por um momento, então, não teve uma reação imediata quando viu a cabeça decapitada da velha que parecia uma bruxa de um filme de terror piegas. Ela congelou, os olhos se arregalando e os lábios se afastando para emitir um gemido de horror. Ela rapidamente puxa sua mão longe, agarrando-a contra o peito. Quem fez isso? O que aconteceu? Infelizmente, já tinha uma resposta, mas estava com muito medo de estar certa. O som de um grunhido distorcido chama sua atenção e ela vira para olhar.
Mas desejou que não o tivesse feito.
Seu amado estava acima de um aldeão ensanguentado, que implorava por misericórdia com uma voz apavorada, rezando aos céus. Seu rosto continuava impassível mesmo com apelos do aldeão, seus familiares olhos onyx observando-o com uma fúria fria. Seria inútil implorar, ela sabia que o tempo dessa pessoa já acabou neste mundo. Ele está de costas para ela. Ela não pode ver seu rosto, mas pode sentir sua raiva. Pode ver isso em seus músculos travados e punhos fechados. Deus ajude esse pobre aldeão. Ela luta para ficar em pé, gritar pedindo para que ele pare... Mas as palavras morreram em sua língua. Ela mal conseguia respirar com os danos causados em seu pescoço. “N... a...u...” Ela sibilou, finalmente conseguindo ficar de pé sobre os joelhos trêmulos. Começou a ofegar, o suor escorrendo pelo rosto para se juntar às lágrimas e sangue secos. “Pa...r...”. Ele pode ouvi-la, ela sabe que pode. A raiva dele foi longe demais. Não havia como para-lo, não importa o que ela fizesse.
Foi forçada a vê-lo arrancar a garganta do morador da vila com as próprias mãos.
Ela tentou gritar, tentou chorar, mas não conseguiu. Estava entorpecida. Coberta por sangue, o seu próprio e o dos aldeões ao redor dela. Cabeças decapitadas, membros dilacerados, entranhas e lixo cobriam a rua principal da Vila de Magnólia. Queria justiça, mas não isso! Seu corpo se convulsionava enquanto o vomito era expelido, logo sendo seguido de um grito de desespero. Isso pareceu tira-lo do transe, lentamente virando-se para olha-la. Respingos de escarlate decoravam o rosto dele, as mãos encharcadas e o peito coberto de sangue. Olhou-a com olhos mortos, a boca em uma linha fina e sem expressão. Ela levanta o torso, uma mão segurando o ombro ferido. Ela olha para ele, lágrimas caindo feito uma cascata por seus olhos castanhos, e lentamente, ele sorri aquele sorriso caloroso. Instantaneamente ela sente seu coração derreter feito manteiga, e o horror e a dor que sentia anteriormente desapareceram junto com suas lágrimas.
“Eu assustei você?” Ele pergunta em uma voz rouca.
A mesma voz que tantas vezes sussurrou palavras doces a ela “Me desculpe.”
A mesma voz que pertence a um monstro.
Mas está tudo bem.
Eu o amo.
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