Hold me Tight
36 Não o deixe morrer
— Namjoon POV -
— Suga! Não, não, não. Abre os olhos, cara. Por favor, fica comigo. Porra! Não, não, não dorme. Não dorme, Yoongi! – comandei enquanto segurava o garoto ensanguentado em meus braços e tentava desesperadamente mantê-lo acordado e focado apenas em mim. Entretanto, todos os meus esforços foram em vão. Por mais que eu suplicasse e o chacoalhasse, procurando atrair sua atenção de todas as formas possíveis, não fui capaz de impedir que suas pálpebras se fechassem e sua cabeça tombasse pesadamente para o lado. O tempo estava acabando.
Eu sabia que havíamos trilhado um caminho sem volta quando o portão do armazém fechou-se com um baque estrondoso e definitivo atrás de nós, selando nosso destino. O caos que se instalara em seguida servia como prova. Contudo, só tive a certeza absoluta de que tudo ia por água abaixo quando Yoongi disparara no rastro de Zelo, separando-se dos demais, sozinho e incrivelmente perturbado, surdo à todos os meus gritos de advertência. Eu tinha que admitir – o irmão mais novo de Yongguk sabia muito bem como manipular pessoas. Suas palavras ácidas e afiadas como navalha sempre acertavam o alvo em cheio, alimentando ainda mais o ódio cego que meu segundo em comando nutria. Se estivesse na minha capacidade, gostaria de tê-lo calado com um belo tiro no meio dos olhos, mas assim como o loiro, eu também estava sendo observado por olhos de águia. Sem perceber, Suga havia criado a distração perfeita no momento que seu autocontrole ruiu, e por mais que o ato impulsivo lhe colocasse numa posição arriscada, também abrira a brecha ideal para que eu pudesse tomar alguma atitude sem medo da retaliação. Infelizmente, o nervosismo e a preocupação com o outro levara meu tiro muito para a esquerda, de modo à permitir que Zelo sobrevivesse e escapasse, com Yoongi logo atrás.
Por mais que quisesse segui-los e garantir a sobrevivência do meu melhor amigo, eu tinha problemas maiores e imediatos em mãos – era doloroso admitir, mas nós estávamos sendo abatidos como porcos. Após assistir cada um dos meus subalternos, cada criança que aceitara fazer parte desse plano insano, ser baleado e morto diante de meus olhos, a realização de que eu era o único ainda de pé naquela emboscada caiu como uma pedra no estômago. Eu mesmo mal conseguira sobreviver, ficando cara-a-cara com o cano de um arma em determinado ponto; para minha sorte, o revólver do inimigo estava sem munição, dando-me toda a abertura que precisava pra virar o jogo e matá-lo antes que fosse morto.
Quando o último corpo caiu, o armazém ficara quieto e imóvel, preenchido por um silêncio tenso e inquietante. Olhei ao redor com pavor comendo minhas entranhas: haviam cadáveres espalhados por todos os lados, rodeando-me, sufocando-me. Amigos, inimigos, esses rótulos já não faziam diferença. Coisas banais como de que lado estavam num combate não importavam mais quando estavam todos mortos. Qualquer lugar em que pousasse os olhos estava completamente banhado em sangue – sangue no chão, sangue nas paredes, sangue nos contêineres e maquinários, sangue nas minhas mãos. Forçando-me a manter o foco e controlar a respiração, segui na direção que vira os dois por último, desaparecendo por trás de uma série de contêineres; agora não era hora pra desespero – eu ainda precisava alcançar Yoongi. Assim que encontrei a saída alternativa por onde haviam passado, a cena que me saudou do outro lado fez-me querer gritar. Naquele momento, eu sentira um arrependimento que jamais havia sentido antes. Se ao menos eu não tivesse errado a pontaria, Zelo estaria morto e Yoongi não estaria sangrando num beco qualquer.
Agora eu estava apostando corrida contra o tempo, este que havia começado com uma grande vantagem. Desconsiderando totalmente o cuidado e o conhecimento médico de que uma pessoa ferida não deveria ser movimentada, ergui o mais velho nos braços enquanto disparava numa corrida frenética na direção que eu recordava ter estacionado meu carro. A cada sacudida provocada por meus passos apressados, eu podia ouvir o som perturbador que sua garganta produzia ao respirar com dificuldade e engasgar. Uma rápida olhada em sua direção pra certificar-me de que ficaria bem acabou causando o efeito contrário: sua cabeça e seus braços pendiam relaxados no ar, os músculos incapazes de sustentar o próprio peso em seu estado inconsciente, sua pele havia perdido todo o resquício de cor que lhe restara e a frente de sua camiseta branca estava ensopada e tingida de rubro. Diante daquela visão, apressei ainda mais o passo, sabendo que se não conseguisse ajuda logo poderia ser tarde demais.
Encontrei a picape não muito distante dali, estacionada exatamente onde a deixara – eu não olharia para o carro que a acompanhava, vazio, não, eu não podia pensar nisso agora – e com certa dificuldade fisguei as chaves dentro do bolso da calça e abri primeiro a porta do lado do carona, acomodando Suga ali da forma mais gentil e cuidadosa que conseguia, prendendo-o seguramente com o cinto de segurança, a fim de evitar que tombasse para frente ou para os lados em alguma curva ou freada brusca. Mesmo com toda a minha cautela, no instante que o colocara numa posição sentada o loiro engasgou, cuspindo uma quantidade considerável de sangue que manchava seu queixo com o mesmo tom de rubro que estampava sua camiseta. Estremeci; eu estava perdendo a corrida.
Chacoalhando a cabeça para livrar-me de pensamentos mórbidos, não me permiti dar ouvidos às dúvidas e incertezas que envenenavam minha determinação enquanto tomava meu lugar ao volante e girava a chave na ignição do carro sem hesitar. Eu precisava ter pressa; já podia ouvir as sirenes da polícia se aproximando da cena do crime. Percorri o caminho de volta ao estacionamento com o pé fundo no acelerador, negligenciando completamente coisas como sinais vermelhos e leis de trânsito. Eu precisava levá-lo à Seokjin, e precisava ser agora. Ao meu lado, Suga engasgava e tossia, com gotas de sangue lhe escorrendo pelos lábios e queixo em filetes vermelhos, sua respiração cada vez mais pesada e dificultosa. Aguenta firme, Yoongi, pensei, apertando o volante nas mãos. Eu não permitirei que você morra.
Os pneus da picape chegaram a cantar com a manobra brusca que fiz ao parar o carro, e se eu olhasse para o asfalto tinha certeza que encontraria marcas negras que a borracha deixou em seu caminho. Desci do carro com pressa, nem sequer dando-me ao trabalho de fechar a porta atrás de mim, contornando o automóvel a fim de abrir a porta contrária e conduzir o loiro nos braços até o interior do edifício. Suga era magro, mas seus membros relaxados confiavam-me todo o peso de seu corpo, de modo a dificultar um pouco minha tarefa de carregá-lo. Assim que alcancei os portões de tela, gritei a plenos pulmões para que me garantissem passagem, causado um verdadeiro alvoroço no interior do estacionamento. Definitivamente não era assim que eles esperavam receber a chegada de seu líder.
— Alguém chame Seokjin! – exclamei ao passar pelos portões, apertando Yoongi seguramente contra meu peito. Em questão de segundos o médico estava ao meu lado, respiração ofegante de tanto correr e expressão apavorada no rosto.
— Namjoon! O que aconteceu? – indagou, mãos voando por todos os lados sem realmente fazer alguma coisa, seu estado desvairado impedindo-o de assimilar a cena diante de si com clareza.
— Yoongi foi baleado. Você precisa fazer alguma coisa. – pedi exasperadamente, quase suplicante com a intensidade de meu olhar e a urgência na minha voz. Felizmente o estado de choque que Jin encontrava-se não durara muito tempo, pois tão logo expliquei-lhe a situação e o médico já berrava ordens para seus ajudantes, pedindo por uma maca.
Assim que a maca improvisada chegara, carregada por quatro rapazes – cada um segurando pontas distintas –, coloquei Yoongi sobre a mesma com a ajuda de Seokjin, para então acompanhá-los escada acima, sendo seguido de perto pelo médico, rumo ao seu espaço de trabalho. Ao adentrarmos o laboratório que eventualmente fazia vez de consultório médico e sala de cirurgia, comecei a sentir-me sobrecarregado com os acontecimentos daquela noite. Sentindo-me sujo e maculado com sangue que não era o meu, retirei a jaqueta que usava e joguei-a bruscamente no chão, debruçando-me sobre os joelhos e temendo passar mal do estômago a qualquer minuto. Jin hesitou em seus passos, correndo de volta até mim e passando um braço por minha cintura, ajudando-me a recobrar o equilíbrio e a calma. Quando minha respiração já estava normalizada e abri os olhos, pude ouvir um arquejo espantado vindo do mais velho. Ao voltar minha atenção para si, encontrei puro pavor em seus olhos.
— Você está ferido. – apontou, e só então notei a mancha de sangue que lentamente encharcava o tecido de minha camiseta na altura da costela. A adrenalina e nervosismo do momento haviam me impedido de sentir dor, ou sequer perceber a ferida, e talvez teria ficado completamente alheio à ela se Seokjin não tivesse notado primeiro. Pra ser sincero, eu ainda não podia sentir dor alguma, anestesiado pela adrenalina que corria em minhas veias, e intrigado, levantei a camisa para constatar que não passava de um tiro de raspão.
— Está tudo bem. A bala não entrou. – assegurei-lhe, mas de nada adiantou; Jin ainda me olhava apreensivo, imóvel no lugar. Isso era algo que eu não podia permitir. – Não se preocupe, estou bem. Yoongi precisa mais de você.
— Mas... – Jin conseguia ser teimoso como uma mula quando queria. Antes que pudesse concluir seu protesto, silenciei-lhe com ambas as mãos plantadas firmes nos seus ombros largos, dando-lhes um aperto leve enquanto tentava lhe passar segurança.
— Jin, olha pra mim. – pedi, o tom de comando na minha voz conseguindo atrair sua atenção com êxito. Fixei meu olhar em suas orbes castanhas, na esperança de transmitir-lhe a seriedade de minhas palavras. – Eu preciso que você pare de pensar como meu namorado e comece a pensar como médico. Você é o único capaz de fazer alguma coisa. Não se preocupe comigo. É Yoongi quem realmente corre perigo aqui. – aparentemente eu conseguira atingir o efeito desejado. Seus olhos estavam marejados, mas havia um novo brilho neles, uma determinação raramente vista naquelas íris cor de avelã. Com um suspiro trêmulo, Seokjin assentiu e rapidamente entrou no modo profissional, suas feições contorcidas numa expressão séria e tenaz. Porém, antes que pudesse afastar-se e começar seu trabalho, chamei sua atenção com a mão pousada delicadamente em seu braço. – Por favor, Jin. Eu te imploro. Salve-o.
— Salvarei. – garantiu-me, o único consolo que poderia me oferecer no momento, antes de distribuir ordens para seus assistentes. – Wheein, faça um curativo em Namjoon antes de se juntar à mim. Jinyoung, Narae, comigo. – observei-o dirigir-se com passos firmes e decididos até a cama de hospital na qual Yoongi fora disposto e conectado à diversos aparelhos médicos que indicavam sua frequência cardíaca e pressão arterial. Antes que eu cedesse à vontade de segui-lo, fui conduzido por Wheein até a cama ao lado, próxima de modo que eu podia ver e ouvir tudo que faziam e diziam, mas não próxima o suficiente pra atrapalhar.
— Por favor, sente-se. – pediu a moça, lançando-me um pequeno sorriso reconfortante. – Eu preciso dar uma olhada em seus ferimentos.
Fiz como fora solicitado, sentando-me na cama com os pés suspensos na lateral, aproveitando para tirar a camisa e dá-la acesso irrestrito à ferida. Depois de tanto tempo trabalhando com Seokjin sob minha liderança, Wheein estava mais do que habituada à situações como essa. Não era a primeira vez que retornava ferido em combate, e com certeza não seria a última. Eu havia sobrevivido à coisas muito piores, diga-se de passagem – aquela seria apenas mais uma cicatriz pra minha vasta coleção.
O produto que a enfermeira utilizara para limpar o machucado ardia como o diabo, provocando uma careta de dor e um sibilo fujão de minha parte. Pedindo desculpas – que eu desconsiderei com um aceno de cabeça e um sorriso –, a garota retornou à tarefa diante de si, com uma expressão concentrada na face e mãos firmes. Enquanto deixava que prosseguisse com seu trabalho e tentava ao máximo não esquivar-me de seus toques, peguei-me pensando no que havíamos conseguido descobrir com aquele enorme fiasco no armazém. Esse tempo todo, era Zelo quem havia sequestrado e torturado Jimin, escondendo-se bem debaixo de nossos narizes.
Eu não me surpreendi quando fiquei sabendo que Bang Yongguk havia mandado alguém atrás de Jimin, pelo contrário; eu já esperava que isso fosse acontecer mais cedo ou mais tarde, mesmo que odiasse a ideia. Na verdade, até mesmo cheguei a pensar que ele poderia vir atrás de Seokjin, mas acho que perseguir uma presa menor se mostrava ser mais proveitoso pra si. Yoongi era meu segundo em comando e melhor amigo, claramente alguém importante e de alta patente dentro de nossa gangue. Tudo que Yongguk precisava era de algo para usar contra nós, nos enfraquecer, ou pelo menos nos distrair – era assim que as guerras entre gangues funcionavam. Isso eu podia compreender. Só nunca imaginaria que o magnata fosse mandar seu próprio irmão – ainda que adotado – fazer o serviço. Eu não esperava encontrar nada além de subordinados sem identidade e sem relevância naquele armazém. Com certeza eu não esperava encontrar Choi Junhong em pessoa.
E, acima de tudo, eu definitivamente não esperava deixá-lo fugir.
A realização de que todo o sacrifício – humano, emocional, físico – fora em vão fez meu sangue ferver. Só de pensar que nós tínhamos a oportunidade de tomar nossa vingança e a deixamos escapar por entre os dedos – nós não, eu deixei escapar – deixava-me num estado furioso, com vontade de correr por ai sem rumo e socar coisas em frustração. Encontrar Zelo agora se tornara uma questão de necessidade – não, de prioridade. Eu precisava tomar alguma providência antes que fosse tarde demais.
— Wheein. – chamei, tentando conter a ira que borbulhava dentro de mim. – Você poderia trazer Sungjae até aqui?
A enfermeira me olhava com certa cautela, como se debatesse as opções: deveria seguir as instruções do chefe ou do líder? De todo modo, a escolha acabara sendo feita por ela quando lhe enviei um olhar afiado que não admitia recusas. Wheein interrompeu seu trabalho à contragosto, mesmo que estivesse praticamente concluído, e dirigiu-se aos andares inferiores onde certamente encontraria o garoto. Nem mesmo dez minutos se passaram quando retornara com Sungjae em seu encalço, o sorriso fácil do garoto morrendo assim que pusera os pés no ambiente sórdido.
— Chamou, chefe? – perguntou com a voz fraca, desviando os olhos para o local onde a figura ensanguentada de Yoongi era rodeada pelas mãos firmes e precisas de Jin e seus assistentes.
— Sim. Eu preciso que você encontre alguém pra mim. Seu nome é Choi Junhong, também conhecido como Zelo. – os olhos do garoto se arregalaram em reconhecimento, e nesse instante eu fizera questão de certificar-me de que Sungjae entendia a importância da tarefa que colocava em suas mãos, agarrando a gola de sua camisa e puxando-o para que seus olhos encontrassem os meus no mesmo nível. – Não importa o que você tenha que fazer pra encontrar aquele desgraçado, apenas faça. Mas mantenha-o vivo. Eu espero tê-lo de volta em menos de vinte e quatro horas, entendeu?
Só o larguei quando tive a confirmação que queria, vinda na forma de um aceno frenético da cabeça e uma repetição nervosa de “sim, chefe, claro”. Confiei-lhe a missão porque sabia que Sungjae era um dos poucos ali capaz de garantir-se num confronto contra Zelo e ainda sair sem maiores lesões. O garoto podia não ser forte e resistente, mas era ágil e pensava fora dos padrões, utilizando-se de todo e absolutamente qualquer meio para ganhar uma luta. Além de tudo, ainda era um atirador decente – isso também contava bastante. Portanto, eu não estava preocupado com sua segurança, mas sim com a possibilidade de Sungjae não ser capaz de rastrear o outro, pelo simples fato do rastro já ter esfriado.
Assim que Sungjae saíra do recinto, Wheein mais do que depressa pusera-se à continuar sua tarefa antes interrompida, enfaixando meu tronco em tempo recorde e dirigindo-se à outra cama, onde Seokjin estava cutucando o ferimento de Yoongi com uma pinça, a fim de prestar sua assistência. – Jin, o paciente tem um ferimento na perna.
— Sim, estou ciente disso, obrigado. Mas no momento estou com as mãos ocupadas. Preciso que você cuide disso pra mim. – veio o retruque ácido de Seokjin, que tinha o cenho franzido enquanto tentava pinçar a bala alojada no ombro de Yoongi. Imediatamente a garota fez como ordenado, tratando do ferimento causado por uma bala que passara de raspão na coxa nua do loiro como fizera comigo momentos antes.
Assisti apreensivo enquanto ambos debruçavam-se sobre a figura seminua e desacordada do loiro, auxiliados por Jinyoung e Narae, que andavam afobados de um lado para o outro fazendo coisas pequenas como oferecer bisturis e pinças, ou toalhas úmidas para remover o excesso de sangue – os dois não eram médicos ou enfermeiros como Seokjin e Wheein, mas sim químicos cuja única especialidade era produzir metanfetamina, limitando muito o que poderiam fazer em situações como esta. Apesar disso, havia uma bolha impenetrável de concentração ao redor dos quatro, todos trabalhando diligentemente para garantir a sobrevivência de Yoongi.
Enquanto observava os aparelhos conectados ao braço de meu melhor amigo emitirem bipes calmos e constantes, dedurando o ritmo controlado de seus batimentos cardíacos, fui assolado por memórias antigas, relembrando-me o dia que conhecera Yoongi e a primeira impressão que este me passara. Eu ainda era capaz de lembrar o momento com exatidão, revivendo as lembranças como se fossem um filme passando diante de meus olhos. Lembro-me de ter encontrado por acaso um garoto que não aparentava ter mais do que dezenove anos zanzando pelas ruas do pequeno centro comercial próximo ao estacionamento atrás de carteiras para roubar. Sua figura pequena e franzina, somada aos olhares desconfiados e o terrível hábito de olhar por cima do ombro a cada passo que dava, me trazia à mente a imagem de um bichano assustado e sozinho no mundo, desesperado por atenção e carinho. Eu não saberia dizer ao certo o que foi que me atraiu tanto nele; talvez fosse o modo como perseguia apenas os ricos como algum tipo de Robin Hood, ou a vontade inexplicável que sentia de protegê-lo, mas algo em sua aura me levara à aproximar-me com passos leves e cuidadosos, como se estivesse diante de uma fera selvagem – e ferida.
— Eu não faria isso se fosse você. – cochichei em seu ouvido, meu aviso pegando-lhe de surpresa e lhe arrancando um arquejo sobressaltado antes que seus dedos gatunos agarrassem a bolsa de uma senhora que admirava distraidamente a vitrine de uma padaria. A pequena comoção atraiu a atenção da mais velha, essa nos encarando com um misto de desconfiança e desprezo antes de continuar seu caminho com passos rápidos, apertando a bolsa contra a lateral de seu corpo.
— Merda. – o desconhecido praguejou, assistindo sua vítima se afastar com olhos cobiçosos, antes de virar-se para mim com uma carranca raivosa estampada no rosto. – Quem é você? Por que diabos fez aquilo?
— Meu nome é Kim Namjoon, muito prazer. – estendi-lhe a mão numa forma de cumprimento, à qual ele ignorou propositalmente. Tentando não deixar transparecer meu desapontamento, retraí a mão e lhe ofereci um sorriso no lugar. – Mas pode me chamar de Rap Monster, se quiser. Eu só queria te avisar que roubar é errado.
— Desde quando isso é da sua conta? Hein, Rap Monster? – escarneceu, estalando a língua no céu da boca. Suas palavras adquiriram um tom particularmente venenoso ao proferirem meu nome artístico. – Que tipo de nome ridículo é esse, afinal?
— É um pseudônimo. – esclareci, nenhum pouco abalado pelas palavras de deboche. Eu já me acostumara com esse tipo de reação. – Bom, acho que o nome é auto explicativo. Significa que eu sou um rapper monstruoso. E, pode não parecer, mas eu sou o líder da gangue que controla a região, e me importo muito com o bem-estar dos cidadãos nessa parte da cidade.
— Quem diabos é você? – repetiu a pergunta, soando mais alarmado e inquieto dessa vez, alcançando a parte de trás da calça jeans para tirar o que eu imaginava ser uma arma. – Quer dizer, de verdade? Você está aqui pra me caçar? Hm? Está aqui pra me levar de volta?
— Ei, calma. Não precisamos nos precipitar. – ergui as mãos no ar, mostrando-lhe que estava desarmado numa tentativa de acalmá-lo um pouco. – Eu não faço a menor ideia do que você tá falando, cara. Não estou aqui pra levar ninguém pra lugar algum, não estou nem armado. Juro, pode me revistar se quiser. – o loiro me olhava desconfiado, mas desistira da arma e passara a revistar meus bolsos e botas atrás de alguma arma escondida. Obviamente não encontrou nenhuma. – Por que não começamos de novo? Olá, meu nome é Kim Namjoon. Qual é o seu?
— Não te interessa. – veio a resposta curta e grossa. Suspirei; aquela seria uma criaturinha difícil de lidar.
— Por que não inventa um pseudônimo então? Do que eu posso te chamar? – insisti, confiante de que eventualmente suas barreiras ruiriam diante de minhas investidas. O loiro pareceu ponderar por alguns instantes, decidindo se cedia ao meu pedido ou não, antes de deparar-se com a vitrine onde estavam expostos os mais diversos tipos de sobremesas – bolos, tortas e pães, cada um parecendo mais apetitoso que o outro.
— Suga. – respondeu de súbito, sem desviar os olhos dos quitutes.
— Você só escolheu esse nome por que estamos diante de uma padaria, não é? – questionei, deixando claro o divertimento que a situação me trazia, evidenciado não só pelo tom de minha voz, mas pelo sorriso de covinhas que eu lhe mostrava também.
— Claro que não. Escolhi porque tem a ver com a minha personalidade doce. – rebateu, seu semblante sério e sem o menor resquício de humor. Contudo, seus olhos o denunciavam, refletindo a travessura que sabia que podia encontrar nos meus próprios.
Fui despertado de meus devaneios nostálgicos com o soar nervoso do maquinário que monitorava Suga, o bipe que indicava seus batimentos cardíacos ressoando pelo ambiente com intervalos mais curtos, enquanto Seokjin ladrava ordens em tom ríspido para seus ajudantes. O médico havia retirado com sucesso a bala no ombro do loiro, uma pequena bolota metálica suja de sangue disposta numa bandeja de alumínio, mas enquanto pinçava a bala no peito – um procedimento bem mais delicado e perigoso do que o primeiro –, houvera alguma complicação e agora brotava sangue sem parar da ferida. Nesse momento, o bipe ficara ainda mais frenético e escandaloso, ao mesmo tempo que Yoongi começara a convulsionar na cama de hospital. Num piscar de olhos eu estava de pé e bufando no pescoço de Seokjin, agoniado demais para continuar apenas assistindo.
— Não o deixe morrer, Jin. Você precisa salvá-lo. Isso é uma ordem. – vociferei, deixando que o desespero tomasse conta de minhas ações e minhas palavras. Se estivesse com a cabeça no lugar, saberia que minha atitude apenas pioraria a situação, mas agora tudo que eu queria era que aquele bipe infernal normalizasse.
— Narae, Wheein, segurem os braços do paciente. – Jin ordenou por cima do barulho insistente, sendo prontamente atendido pelas duas moças. O médico tentava ignorar minhas súplicas disfarçadas de ordens, fingir-se de surdo para todos os barulhos externos, sem sucesso. – Alguém, pelo amor de Deus, tira ele daqui. – berrou irritado quando eu não parei de importuná-lo, implorando pra que não deixasse Yoongi morrer. Logo um par de mãos fortes me segurou pelos braços, afastando-me da cena. Irritado, livrei-me do aperto de Jinyoung e me distanciei por conta própria, antes que o químico fosse solicitado à segurar as pernas do paciente que ainda convulsionava. Andando em círculos pelo chão cimentado à alguns metros de distância da cena, soltei pesadamente todo o ar dos pulmões enquanto corria as mãos por meus fios platinados, puxando-os e bagunçando-os em pura aflição.
Não é que eu não confiava em Jin e na sua capacidade de manter Yoongi vivo. Eu tinha consciência de que o médico era nossa única salvação, nossa última esperança, mas não podia deixar de ficar apreensivo. Não podia deixar de sentir medo. Haviam muitas pessoas com as quais me importava, pessoas que significavam muito pra mim como amigos e todos aqueles jovens sem rumo que acolhi sob minhas asas para fazer parte dessa família não-convencional que tínhamos, mas nenhuma delas significavam tanto quanto as três pessoas mais importantes da minha vida – minha mãe, Seokjin e Yoongi. Os três eram os pilares sobre os quais sustentava toda a minha existência; se um desses pilares desmoronasse, eu estaria arruinado.
Em meio à pensamentos pessimistas e desesperadores, peguei-me recordando o dia que apresentara Suga à Seokjin. Naquela época eu e Jin ainda não estávamos juntos romanticamente falando, mas eu já sabia que o mais velho me acompanharia em qualquer jornada, aventura ou situação pelo resto da vida. Lembro-me de estar realmente animado pra apresentar os dois. Não só pelo simples fato de apresentá-los, mas porque naquele dia eu alimentara a ideia de sugerir à Yoongi para que se juntasse à nós – se juntasse à família. Era engraçado como eu ainda conhecia pouquíssimo sobre sua história – porém muito sobre sua personalidade e modo fascinante de pensar –, mesmo tendo diversos encontros com o garoto de palavras duras e um coração protegido por muros altos. Sua amizade era difícil de conquistar, e o loiro talvez ainda me considerasse um completo estranho, mas no momento que o conhecera imediatamente percebi que ele também me acompanharia em qualquer jornada, aventura ou situação pelo resto da vida.
— Onde você está me levando, Mon? – indagou Jin enquanto subíamos uma estreita escada metálica de aparência frágil que corria pela lateral de um antigo hotel abandonado, situada num beco sujo e esquisito. Ao invés de respondê-lo, apenas lhe dirigi um sorriso travesso por cima do ombro. Jin não sabia o motivo de estar ali, mas logo descobriria.
Ao alcançarmos o terraço do prédio, logo encontrei a figura pequena e magra de meu mais novo amigo encolhido no sofá sob a cabana improvisada que lhe servia de casa, dormindo. Jin também o notara, e o olhar que me lançara não poderia ser mais perdido – e, consequentemente, mais engraçado. Sem preocupar-me com explicações e esclarecimentos, aproximei-me da figura adormecida em posição fetal e cutuquei seu ombro repetidas vezes, até que o loiro acordasse com um rosnado indignado. Suga mal abriu os olhos, espreguiçando-se no sofá antes de fazer menção de rolar para o outro lado e continuar a dormir, mas a visão de meu rosto tão próximo ao seu despertou-o por completo num piscar de olhos.
— Rap Monster? O que diabos você está fazendo aqui? – Suga ergueu-se no sofá num movimento rápido e súbito, grunhindo com a tontura que o ato lhe causara e apertando os olhinhos na tentativa de filtrar a luz ofuscante do Sol. Mais uma vez, seus gestos me faziam recordar os gestos de um gato assustado. Era fofo.
— Faço de suas palavras as minhas. – disse Seokjin, cruzando os braços enquanto me lançava um olhar curioso, encorajando-me a revelar minhas intenções. Contive a vontade de rir diante das expressões similarmente confusas dos dois.
— E quem seria você? – indagou, fuzilando o moreno ao meu lado, parecendo ofendido com a presença do outro em seu esconderijo secreto.
— Me chamo Kim Seokjin. Ou só Jin, tanto faz. – deu de ombros. – E você? – rebateu, dirigindo olhares julgadores para o loiro e sua residência precária.
— Suga. – respondeu simplista.
— Que tipo de nome é esse? – zombou o mais velho, seu tom assustadoramente semelhante ao que Suga usara comigo no dia que lhe disse meu pseudônimo.
— Que tipo de nome é Rap Monster? – devolveu, como se dissesse “olha, existem nomes piores”.
— Tem razão. – Jin concordou, largando a discussão no mesmo instante.
— Hahaha, muito engraçado. – fingi rir num tom debochado, mesmo não achando a menor graça naquilo. Ambos deram de ombros ao mesmo tempo. – Enfim. Lembra quando mencionei que era o líder de uma gangue? – perguntei, dirigindo-me ao loiro que me olhava com um misto de mínima curiosidade e tédio. Suga assentiu.
— Ah, não. – protestou Jin ao meu lado, prevendo exatamente onde eu queria chegar com aquela conversa. – Namjoonie, o que eu te disse sobre recrutar qualquer vira-lata que encontra na rua?
— Quem você está chamando de vira-lata? Repete isso na minha cara, se for homem o bastante. – desafiou Suga, ficando de pé e invadindo o espaço pessoal de Seokjin, mas sua tentativa de intimidação mostrara-se deveras falha; ele não tinha nem o tamanho, nem o porte físico para causar o efeito desejado.
— Com muito prazer. Vi-ra-la-ta. – Jin provocou, pontuando cada silaba com o dedo indicador cutucando a testa do outro, conseguindo desestabilizá-lo e afastá-lo de si. Por sua vez, Suga rosnou e parecia pronto pra brigar, fechando as mãos em punho ao lado do corpo, mas resolvi intervir antes que acontecesse alguma tragédia. Eu queria que eles se tornassem amigos, e não inimigos mortais que se atacavam ao menor sinal de provocação como cães raivosos.
— Ei, ei, vamos parar. Suga não é nenhum vira-lata. Na verdade, acho que ele seria uma ótima adição ao grupo. – disse, colocando-me entre os dois com as palmas apoiadas contra seus respectivos troncos e os braços esticados, afastando-os ainda mais.
— Tsc, me poupe. – bufou Seokjin, estalando a língua no céu da boca e revirando os olhos.
— Você acha? – Suga indagou ao mesmo tempo, ignorando propositalmente o descaso do outro e parecendo genuinamente surpreso e lisonjeado com minhas palavras.
— Acho. – falei convicto. – Por isso, gostaria de pedir que se juntasse à minha gangue. O que me diz? – tentei ao máximo não criar expectativas, nem denunciá-las no tom de minha voz, mas não podia negar que na tensão do momento havia prendido a respiração, ao mesmo tempo ansioso e temeroso com sua resposta.
O loiro ficou quieto por um tempo, encarando-me sem reação antes de erguer o olhar e fitar o céu como se ponderasse as opções, perdido em pensamentos. Sua expressão era indecifrável, distante e misteriosa, e por um breve instante eu pensei ter visto tristeza e medo colorir sua face. Porém, o momento passara tão rápido quanto veio, e logo suas orbes negras estavam fixadas nas minhas novamente. – Eu topo.
— Você não sabe no que está se metendo, criança. Fuja agora enquanto ainda há tempo. Acredite em mim, você vai se arrepender. – Jin avisou num tom sombrio, como se anunciasse um mau presságio. Resisti a vontade de dar-lhe um tapa no ombro e protestar em indignação; ele provavelmente estaria certo.
— Pode ser que sim, ou pode ser que não. – Suga deu de ombros. – Mas eu nunca saberei se não tentar, não é mesmo? Pelo que Rapmon me fala, essa gangue de vocês parece ser uma que vale à pena fazer parte.
— Esse é o espírito. – sorri, dando-lhe tapinhas orgulhosos no ombro. – Gostaria de conhecer sua nova família? – brinquei, envolvendo ambos pelos ombros enquanto os conduzia pelo caminho de onde viera, em direção ao lugar que eu sabia que faríamos boas lembranças, e o mais importante – juntos.
— Onde está o desfibrilador? – ouvi Jin gritar exasperado, voltando minha atenção para a realidade, e só então notei o agoniante ruído contínuo provindo dos aparelhos ao lado da cama que mostravam uma linha reta e sem vida na tela. Wheein, sempre eficaz, encontrou o objeto e colocou-o à disposição do médico, aplicando uma espécie de gel antes de estender-lhe as pás do desfibrilador. – Mude a voltagem para 250 Joules. – instruiu, friccionando as placas metálicas umas nas outras. – Afastem-se!
Os três obedeceram suas ordens prontamente, liberando espaço para Jin fazer seu trabalho. O médico apoiou as placas sobre o peito de Suga com firmeza e, ao sinal de Wheein, deu-lhe uma descarga elétrica no coração. O som provocado pelo choque era perturbador, porém não mais do que o ruído vindo da máquina que monitorava seus batimentos, máquina esta que parecia zombar de seus esforços, mantendo-se sem reação.
— De novo! Wheein, aumente a voltagem para 310 Joules. – Jin ordenou, cheio de certeza na voz, determinado a não deixar-se vencer. Entretanto, nem mesmo seu comando fora capaz de convencer a assistente, que abriu a boca como se quisesse dizer algo, hesitando no lugar com as mãos pairando acima do aparelho.
— Mas Jin, isso pode—
— Eu não quero saber! – esbravejou, cortando a sentença antes que Wheein pudesse conclui-la, seus olhos lançando adagas na direção da moça. – Aumente a porra da voltagem!
A enfermeira fizera como ordenado, mesmo que deixasse evidente seu descontentamento. Ao seu sinal, Jin pressionou novamente as placas contra a caixa torácica de Suga, dando-lhe um choque tão forte que seu corpo chegara a tremer. Ainda assim, o desfibrilador não surtara nenhum efeito. Seokjin à essa altura encontrava-se num estado de pânico, beirando a histeria, negligenciando o aparelho à favor de uma massagem cardíaca que seu estado deplorável impedia que fosse feita corretamente. Em passos largos e rápidos, diminui a distância até o médico e o abracei por trás, mantendo-o seguro nos meus braços e o afastando do corpo inerte de Yoongi.
— Chega, Jin. Já é tarde demais. – sussurrei em seu ouvido, minha voz embargada pela dor que sentia em meu peito. Já não havia mais nada que podíamos fazer. Meu melhor amigo estava morto.
— Não! Eu me recuso. – vociferou. – Me larga. Me larga, Namjoon! Eu preciso salvá-lo! Eu não posso deixá-lo morrer. Não, não, não, não! – Jin debatia-se como um louco em meus braços, deixando que seus gritos desesperados ecoassem pelo estacionamento. Os golpes de Seokjin me machucavam, um misto de chutes, cotoveladas e arranhões, mas sua luta só me fazia prendê-lo de maneira mais firme em meu abraço. Entretanto, eu também não era imune ao luto; dentro de instantes peguei-me tendo que reprimir as lágrimas que teimavam em arder meus olhos. – Me deixe salvá-lo, Namjoon. Por favor, me deixe salvá-lo.
Quando percebeu que não o largaria, Jin virou-se para mim e começou a distribuir socos frustrados em meu peito enquanto protestava com lágrimas fujonas rolando por sua face, mas logo suas mãos desistiam de golpear-me e agarravam a frente de minhas vestes. Assisti impotente o mais velho afundar o rosto contra mim, abafando um grito desolado em meu ombro. Envolvi-o num abraço protetor e reconfortante, trocando a força bruta de antes por uma ternura que era direcionada unicamente à ele, buscando conforto em seus braços.
Estávamos ambos tão absortos na nossa própria bolha de dor e luto que não percebemos uma leve mudança no ruído ensurdecedor e zombeteiro, um tímido bipe que se sobressaltava dos demais. Mas o bipe estava lá, e com o passar dos segundos só ficava mais alto e evidente. O som era inconfundível: os batimentos cardíacos de Suga estavam, pouco a pouco, retornando ao normal. Espantados, voltamos nosso olhar na direção do som para encontrar Wheein massageando o peito de Yoongi de forma determinada, suas feições delicadas contorcidas numa carranca de concentração enquanto os braços finos bombeavam sangue para seu coração. Em pouco tempo a pulsação havia retornado à sua frequência habitual, e Jin parecia dividido entre afundar-se mais em lágrimas ou correr até sua assistente e tomar-lhe os lábios. Acabou não fazendo nenhum dos dois, optando por incorporar novamente sua persona fria e racional de médico e terminar o que havia começado.
A cirurgia fora concluída com êxito em menos de uma hora, e em momento algum o quadro do paciente havia se desestabilizado. Ao término de um trabalho bem executado, Seokjin limpava o suor da testa com um pequeno sorriso puxando o canto dos lábios, fazendo-me pensar distraído se o médico estava ciente das emoções que estampavam seu rosto tão claramente. Tão logo a dúvida surgia em minha cabeça, imediatamente decidi que não importava; Jin apenas sentia-se aliviado e orgulhoso de si e do seu trabalho, exatamente como deveria. Se não fosse por ele, certamente a noite terminaria de um jeito deveras diferente.
Enquanto o médico descansava e aproveitava a pausa para reidratar-se e comer alguma coisa, seus assistentes permaneciam ao lado do paciente, alguns limpando o local de trabalho e todos os instrumentos cirúrgicos utilizados no procedimento enquanto outros tentavam deixar Suga o mais confortável possível, fazendo coisas pequenas como afofar o travesseiro e cobri-lo com um lençol, inclusive removendo todo o resquício de sangue que manchava sua pele pálida – que aos poucos recobrava um pouco da cor –, fazendo curativos e envolvendo-o em gazes e bandagens – não só com a finalidade de proteger as feridas como também esconder as duas marcas vermelhas e raivosas que estampavam o local onde as pás do desfibrilador queimaram sua pele. Assim que retornara, Jin oferecera-me a opção de voltar pra casa e descansar enquanto ele ficaria de olho no loiro. Nem sequer hesitei em recusar tal oferta, desconsiderando todas as suas preocupações e tentativas falhas de fazer-me mudar de ideia – ao lado de Yoongi era justamente onde eu devia ficar.
O resto da noite passara de forma tranquila, se não um pouco desconfortável; eu e Jin, depois de muito debate, havíamos chegado num consenso e concordado com o arranjo sugerido de dormir em turnos numa poltrona ao lado da cama enquanto o outro vigiava o paciente para o caso de qualquer mudança em seu estado aparentemente estável – Yoongi dormira como uma pedra a noite toda, sua respiração constante e seus batimentos cardíacos controlados, mas todo cuidado era pouco. Algumas horas após o amanhecer, Seokjin aliviara-me de meu posto, ordenando que eu cochilasse por pelo menos uma hora enquanto discutia assuntos médicos com Wheein. Eu havia acabado de acomodar-me na poltrona, deixando que o cansaço e a fadiga me vencessem, quando um leve ruído atraíra minha atenção. Era um ruído baixo e abafado, como uma vibração, vindo de um lugar próximo; depois de muito procurar percebi que o som vinha da calça jeans de Suga, dobrada cuidadosamente e disposta junto com sua camiseta ao lado da cama que ocupava. Tateei os bolsos em busca do eletrônico, mas o nome indicado no visor fizera meu sangue gelar. Jimin.
Hesitei por um momento, deixando meu dedo pairar sobre o aparelho sem saber o que fazer em seguida. Definitivamente eu não esperava enfrentar uma situação como aquela, e a incerteza ia lentamente fazendo-se presente no fundo do meu estômago, bombardeando minha mente com perguntas. Eu deveria atender a ligação? O que eu diria pra ele? Contaria tudo que acontecera? Mentiria? Como Jimin reagiria? Será que é meu papel lhe contar? Será que não deveria esperar Yoongi acordar? Deixar que ele mesmo contasse o que aconteceu? O que deveria fazer?
Como se pressentisse meu nervosismo – ou simplesmente lesse meus pensamentos –, Seokjin interrompera bruscamente a conversa recheada de termos médicos sobre a condição de Suga que tinha com a assistente antes de se aproximar, pairando curiosamente atrás de mim enquanto espiava o celular por cima do meu ombro. – O que houve?
— Jimin está ligando pro Suga. – disse simplista, segurando o objeto longe de meu corpo como se temesse ser atacado, encarando o nome do garoto enquanto tentava persuadi-lo a desistir apenas com a força do pensamento.
— Você pretende atender a ligação? – indagou-me, observando o celular que ainda vibrava teimosamente em minha mão com o mesmo afinco que eu certamente demonstrava.
— Não sei. – respondi com sinceridade. – O que você gostaria que fizessem caso fosse você no lugar dele? – questionei, pela primeira vez virando-me em sua direção e fixando meu olhar em suas orbes castanhas. Seokjin pareceu ponderar por alguns segundos, cenho franzido em pensamento profundo, antes de suspirar pesadamente e estender-me a palma aberta.
— Me dê o celular. – ofereci-lhe o eletrônico enquanto o assistia se afastar para atender a ligação com um pouco mais de privacidade. A distância não me permitia distinguir as palavras com clareza, mas o tom suave que Seokjin usava era indício suficiente de que ele explicava a situação delicada na melhor de suas capacidades. O mais velho era bem mais indicado do que eu para lidar com esse tipo de coisa – Jin era calmo, compreensivo, reconfortante; tudo que eu não tinha condições de ser no momento.
Em menos de quarenta minutos a figura pequena e agitada de Park Jimin irrompera pela pesada porta de chumbo do laboratório, escoltado por ninguém menos do que Sungjae. Observei o menor praticamente disparar na direção da cama de hospital onde Yoongi dormia profundamente com lençóis brancos cobrindo-lhe até o queixo, mas meu foco na verdade estava no garoto atrás dele. Sungjae pareceu entender a pergunta subentendida em meu olhar, pois assim que nossos olhos se encontraram, seu semblante transformou-se em algo que parecia uma mistura de culpa, resignação e vergonha. Eu não precisava do tímido e quase imperceptível aceno negativo de sua cabeça pra saber que a missão que lhe dei fracassara – Zelo já estava há muito inalcançável.
Tudo que eu menos precisava no momento eram más notícias, mas não queria lidar com o assunto agora. Dispensei Sungjae com um gesto distraído das mãos sem nem ao menos trocar uma palavra com o garoto, decepcionado demais consigo para me preocupar em elevar sua moral. Voltei minha atenção para Jimin, encontrando-o sentado numa cadeira do outro lado da cama – sem dúvida trazida por Narae ou Jinyoung –, envolvendo uma das mãos sempre frias de Yoongi nas suas enquanto fazia o possível para engolir o choro, mesmo que soubesse que o esforço seria em vão – chorar diante do estado deplorável que seu amado encontrava-se era algo inevitável. Seokjin preferira ficar de pé ao seu lado, desenhando círculos com a palma aberta em movimentos lentos e constantes nas costas do mais novo, tentando lhe trazer conforto da única maneira que sabia.
— O que aconteceu? – Jimin perguntou num sussurro, e algo no modo como fitava meus olhos dizia-me que ele não me pedia para constatar o óbvio. O mais novo não precisava que eu lhe explicasse como Yoongi fora parar numa cama de hospital; ele precisava de respostas. Então me pus a narrar em detalhes toda nossa jornada, desde o momento que Yoongi descobrira sobre o sequestro de Jimin até sua sede de vingança e os desafortunados eventos que levaram ao nosso fracasso, sem omitir ou distorcer nenhum fato, por mais sórdido que fosse. Jimin se mostrara um excelente ouvinte, escutando tudo atentamente e sem interrupções, demonstrando reação apenas quando apertava a mão do loiro com um pouco mais de força, ou quando permitia que novas lágrimas lhe escapassem os olhos. Quando terminei meu relato, o garoto diante de mim, outrora a exata personificação de um raio de sol, agora apresentava uma imagem terrivelmente semelhante à de Suga no momento que entramos no armazém: irado e cegado pelo ódio.
— Zelo, aquele desgraçado... – rosnou entredentes. – Eu estava disposto à superar tudo que fizera comigo e seguir em frente, deixar o passado pra trás. Mas machucar Yoongi... Isso é algo que jamais poderei perdoar. – tive que reprimir a súbita e inadequada vontade de rir; isso era exatamente o que Yoongi diria. – Por favor, me diga que vocês conseguiram pegá-lo.
Seokjin, que se mantivera quieto durante todo o tempo que usara para narrar os acontecimentos das últimas semanas, também voltou seus olhos curiosos para mim, alheio à pequena troca que tive com Sungjae momentos antes. Engoli em seco enquanto mantinha meus olhos grudados nas mãos que brincavam nervosamente em meu colo, incapaz de erguê-los e encarar o médico, quem dirá Jimin, temendo encontrar a decepção que lançara à Sungjae em seus respectivos olhares. – Não. Sinto muito.
Ouvi Jimin soltar todo o ar dos pulmões num suspiro cansado – frustrado talvez fosse a palavra mais adequada – antes do garoto adormecido ao seu lado começar a mexer-se sob os lençóis, seus membros contorcendo-se preguiçosamente por conta própria, despertado pelo excesso de barulho ao seu redor. Imediatamente a atenção do mais novo estava sobre si; sem pensar muito no assunto, Jimin levara a mão fraca e previamente aquecida de Yoongi até seu rosto, inclinando a cabeça em busca de mais contato. O garoto esfregava a bochecha na palma de Yoongi como um gatinho, virando o rosto vez ou outra pra plantar um beijo ali. O alívio que sentia por vê-lo acordado chegava a ser palpável.
— Jimin... – o chamado de Yoongi soara fraco, sua voz rouca e falhada pelo desuso, apenas um fantasma do quão imponente costumava ser. Os pequenos olhos negros estavam fixos no objeto de sua adoração, mas as pálpebras não permaneceriam abertas por muito tempo. Seu cansaço era evidente; a luta que travava contra a inconsciência, visível.
— Estou aqui, Yoongi. – respondeu o outro, sorrindo apesar da nova trilha de lágrimas que rolavam por suas bochechas. Jimin envolvera a mão de Yoongi que tinha contra o rosto em ambas as suas, trazendo os dedos pálidos e finos até os lábios. – Eu estou aqui.
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