Hold My Hand
1 Único
Notas iniciais
Ah, as lágrimas caíam, eram transparentes, frias. Era inverno, e mesmo assim elas insistiam em cair, tudo parecia ser negro. A visão do garoto estava completamente borrada pelas indesejadas lágrimas. Tudo estava errado, por que isso estava acontecendo? Seu pai matou a sua mãe. Não foi ele que deu a ideia de eles verem as estrelas juntos? Para juntá-los como uma família? Ele se lembrava da sensação de alegria e esperança que aquelas palavras lhe causaram, só para descobrir depois que os pais iam se separar.
Agora, encarando os túmulos dos pais, um ao lado do outro, Yukki se perguntou se era realmente justo que seus pais fossem enterrados assim, já que seu pai a matou. Ele se lembrava da raiva, do ressentimento da sensação te ter sido traído... Mas agora... Tudo que conseguia sentir era pura tristeza. Eles nunca mais seriam uma família. Eles nunca mais veriam as estrelas juntos. Ele estava só.
O moreno soluçou, abraçando os joelhos contra seu peito e chorando. Ah, as malditas lágrimas caindo novamente. Ele odiava ser tão chorão. Ele sabia muito bem que na manhã seguinte acordaria com os olhos vermelhos e inchados, a cabeça pesada doendo e acharia difícil de levantar. Ele ficaria na cama o dia inteiro, recebendo repetidas chamadas de Yuno, que não ia atender.
Para falar a verdade, Yukki não gostava tanto assim dela. Ela era muito grudenta, a voz dela era aguda demais e doía nos ouvidos do garoto, mas... Ela gostava dele. Realmente gostava dele, e ele sabia disso. Ele gostava da sensação de ser abraçado, amado, ainda que fosse um pouco demais, ainda que ela fosse um pouco louca. Ele só queria ser amado e abraçado, ele queria ser o centro do mundo de alguém. Era exatamente disso que ele precisava. Mas agora... Tudo que ele queria era que seu pai bagunçasse seu cabelo ou fizesse piadas de mau gosto ou que sua mãe o abraçasse e o constrangesse com perguntas sobre namoradas e afins.
Ele não sabia quanto tempo havia passado desde que havia chegado ao cemitério, nem havia notado que o sol havia se posto há tempos. Ele só notou que era tarde quando parou de ver o que estava escrito nas lápides. Agora ele só soluçava agora, não havia mais lágrimas para derramar. Ele sabia que seus pais não eram perfeitos, ou presentes, mas mesmo assim, doía. Doía muito.
De repente, ele sentiu braços a sua volta. Braços longos e gentis. Ele olhou para o lado com surpresa para ver olhos carmesins lhe encarando de volta. Akise-kun sorriu, e Yukki se forçou a sorrir de volta. Ainda que estivesse feliz ao ver o amigo, o vazio em seu coração não havia ido embora, ele não achava que jamais iria.
Neste momento, Yukki poderia jurar que o outro iria dizer algo, qualquer coisa, mas ele continuou estranhamente calmo. O silêncio não era desconfortável, era estranhamente reconfortante, para dizer a verdade. Ele achava que iria escutar Akise-kun dizendo o que todo o resto dizia. Coisas completamente cruéis, na opinião do moreno.
“Vai ficar tudo bem”, eles diziam, “A dor passa com o tempo.”.
Mentira.
Yukki sabia que não ia ficar tudo bem. Como eles podiam dizer isso se nunca haviam passado por isso? Nunca haviam visto seus pais morrerem! Nunca...!
Mas... Yukki também sabia que Akise-kun não era como os outros. Como poderia ser? Ele sabia exatamente o que não dizer. E Yukki estava grato por isso.
Os braços de Akise-kun deixaram os ombros do moreno, o que o fez sentir um pouco mais triste do que antes. Secretamente, havia gostado de ser abraçado. Mas logo sentiu uma mão apertando a sua gentilmente. Ele a apertou de volta, um tanto hesitante e olhou para o garoto mais velho, vendo-o sorrir de forma reconfortante, como se estivesse dizendo “Está tudo bem, eu estou aqui.”. O que era bem melhor do que se ele estivesse dizendo qualquer coisa, para falar a verdade.
O moreno suspirou e virou-se para frente novamente, encarando as lápides, tentando parar o desejo mórbido de se juntar a elas, principalmente agora que Akise-kun estava ali para tentar reconfortá-lo. Ele sentiu outro soluço balançar seu corpo novamente, as lágrimas começando a encher seus olhos novamente. Ele limpou o rosto com a manga da blusa, as lágrimas manchando o tecido macio.
Os olhos do moreno se fecharam quase que automaticamente, sentindo o cansaço finalmente começar a tomar conta do seu corpo. Yukki apoiou a cabeça no ombro do amigo, ainda segurando a mão dele.
Ele abriu os olhos novamente, notando como o céu estava estrelado naquela noite. E uma ideia surpreendentemente infantil e ainda assim reconfortante passou pela sua cabeça. Talvez, só talvez, as pessoas poderiam virar estrelas quando morriam. Ele se sentiu envergonhado só por pensar em algo assim, mas logo se sentiu um pouco melhor. Isso significava que seus pais estariam sempre com ele agora, certo?
Ele sentiu mais algumas lágrimas caindo pelo seu rosto, fazendo cócegas por onde passavam. Lembrando-se que estava com a cabeça apoiada no ombro de Akise, ele sentou reto agora, esfregando o rosto com a mão livre.
— D-desculpa... — Ele disse um pouco envergonhado. — Molhei toda a sua blusa...
Para a surpresa do mais baixo, Akise-kun riu. Havia dito algo engraçado?
— Não tem problema, Yukiteru-kun. Pode continuar usando meu ombro como apoio se quiser.
Por alguma razão, aquilo fez o moreno se sentir um pouco envergonhado. Ele balançou a cabeça.
— N-não precisa! — Akise sorriu, apertando a mão do moreno.
Eles não disseram nada por alguns minutos, até o albino quebrar o silêncio de repente.
— Estou feliz em ouvir a sua voz. — Ele disse diretamente, sorrindo para o moreno.
Yukki ficou sem reação, o que alguém dizia para algo assim? Akise-kun sorriu de lado, o moreno não entendeu muito bem o porquê.
— Vamos, Yukiteru-kun? Já está tarde. — Akise gentilmente disse, era quase como um pedido. E, por alguma razão, Yukki decidiu dizer “sim.”.
Quando Akise-kun estendeu a mão para ajudá-lo a ficar de pé, o moreno teve outra crise de choro. Não queria abandonar os pais, não queria...
De repente, Yukki percebeu que havia braços em volta dele, gentis e reconfortantes. As lágrimas pararam de cair, e ele se levantou devagar quando Akise-kun diminuiu o aperto, o moreno estava um pouco envergonhado. Ele estava agindo como uma criança!
— D-desculpa... — Ele disse novamente, e Akise-kun sorriu, apertando a mão do outro mais forte.
— Não precisa se desculpar. — E mais seriamente, adicionou um tanto hesitante. — Yukiteru-kun... Você não está abandonando eles, como poderia? E, além do mais, eu tenho certeza que eles não gostariam que você ficasse chorando a morte deles. Eles iriam querer que você... Seguisse em frente.
Por um momento, Yukki não sabia muito bem o que dizer. Aquilo... Era basicamente o que o garoto não queria ouvir. Seus outros amigos haviam dito algo parecido, mas ele não queria escutar. Então por que ele estava considerando o que Akise-kun estava dizendo?
— Eu... O-OK... — O moreno concordou, apertando a mão do amigo e andando um pouco mais rápido para a saída do cemitério. Akise-kun acompanhou o garoto, os dois em silêncio, cada um emerso em seus próprios pensamentos.
E, mesmo quando os dois saíram pelos portões de ferro, Yukki não olhou para trás nenhuma vez, mas apertou a mão de Akise mais forte. Eles voltariam juntos no dia seguinte, mas dessa vez, ele não chorou.
Yukki não estava mais sozinho, por que, apesar de tudo, tudo que ele queria era que alguém segurasse a sua mão.
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