Marcella pegou a outra mala que estava no chão próximo do carro, próximo o suficiente para que ela não precisasse carregar por muito tempo, já que reclamava de dor nas costas desde a noite passada e a mala aparentava estar extremamente pesada.

— Você realmente precisará disso tudo, Clara? – perguntava à amiga que não aparentava nenhum interesse em ajudá-la e estava grudada no telefone desde o momento em que acordou.

— Claro! Senão não levaria, ué.

— Claro! Senão não levaria. — Marcella debochava enquanto estalava as costas e, provavelmente, rezava por uma massagem.

Eu, que desde o inicio se recusava a viajar, estava sentado no banco traseiro esperando para que todos terminassem de se arrumar e começassem a viagem. “Quanto mais cedo partirmos, mais cedo voltaremos” – esse era o meu lema.

Erick saiu da casa e correu até o portão. Sem nenhuma mala, para a minha angustia.

— Galera, alguém viu meu travesseiro?

— O com a fronha do Spider Man? Já está no carro – Clara deu uma grande pausa, o que lhe deu oportunidade de, por um instante, levantar a cabeça e olhar para algo que não fosse o seu próprio telefone – Por que você está sem calças?

— É que eu não estava achando meu travesseiro...

Todos olharam para o amigo, o qual usava uma cueca extremamente reveladora. Apesar de estar claro que pensavam a mesma coisa, apenas Marcella teve coragem para perguntar:

— Erick, seu lindo – chegava mais próximo do amigo seminu – Mas o que isso tem a ver com pôr calças?

— Tudo! Eu estava arrumando a mala e me vestindo ao mesmo tempo – a velocidade do discurso ia aumentando a cada palavra. – De repente não acho meu travesseiro, saio pra procurar e quando percebo Puff estou aqui fora sem calças.

— Ok – Marcella respirou profundamente, provavelmente procurando ser o mais clara possível. – Então vista uma calça e venha logo. Já estamos de saída.

As meninas logo entraram no carro. Marcella, que ligava para o namorado há horas, reclamava com Clara que ele não atendia a droga do telefone e o ameaçava, por inúmeras mensagens, de deixá-lo a pé caso ele não aparecesse em 5 minutos. É, Marcela ficava realmente muito irritada quando o namorado atrasava.

Não era por menos, a ideia de passar o fim de semana em Búzios foi dele. E a ideia de arrastar os amigos nessa, dela. Eu só queria poder me trancar no quarto, longe de visitas indesejadas, e passar o fim de semana inteiro ouvindo um pouco de Raul Seixas, comendo pizza e desperdiçando parte da minha juventude lendo edições antigas da Turma da Mônica.

Obviamente, esse argumento não me salvou da viagem.

— Ai, cauã, para de chatice! Eu prometo que será divertido. Clara, solta o telefone um pouco. Erick vem logo! – Marcella gritava com os companheiros enquanto via seu reflexo no retrovisor e arrumava seus cabelos extremamente cacheados dentro de um turbante azul.

Erick, após ter jogado sua bagagem na mala, entrou às pressas no carro, caindo em cima de Clara, fazendo-a reclamar sobre boas maneiras e “como se deve entrar num carro de uma maneira decente”. Felizmente, para todos os presentes, ela parou de falar no instante em que percebeu que o jovem infrator não prestava atenção em nada mais que não fosse o vidro do carro que descia e subia fazendo um barulho um pouco estranho.

Algum tempo depois, finalmente a viagem começava. O namorado de Marcella, Gustavo, havia finalmente chegado e após algum tempo de discussão entre o casal, que abordava perguntas como “por que você não atendeu ao telefone?” e “por que só tem Ivete Sangalo na sua playlist?”, o carro deu partida.

Eu rezei, até chegarmos à pousada, para o fim de semana valesse a pena.

∞

— Oi, tio, eu posso falar com ela, por favor?

— Um minuto – ao fundo ouviam-se as vozes de todos eles. Eles tratavam como se fosse uma reunião familiar, mas não era. Definitivamente, não era.

— Alô?

—Oi... Sou eu.

— Cauã! É o Cauã! – ela gritava para os outros. Como se alguém se importasse. – Já estou com saudades! Como está a viagem?

— Está ótima. Paramos aqui para abastecer e queria ver como você estava.

— Eu estou bem. Já disse para não se preocupar e aproveitar o passeio. Todos estão aqui comigo.

— Viu o presente que eu deixei na sua cama antes de sair? – ouvia-se Marcella me gritando para voltar para o carro. Suspirei.

— Acho que está na hora de você ir. Está tudo bem, eu juro. E sim, eu vi o presente. Quando você voltar eu lhe dou um beijo.

— Ok – respirei. Provavelmente para tomar coragem para continuar a frase. — Então eu estou indo. Até segunda.

— Vá com Deus, meu filho. Beijos.

— Tchau, vó.