Impacientemente sai do comunal e leva um susto de encontrar o fantasma da Dama Cinzenta ao fim do corredor.

"Fui capaz de sentir sua agonia quando chegou ao seu salão, rapaz"

— Ah, eu....-suspira e encolhe os ombros sem graça- Estava indo te procurar, na verdade. Gostaria de saber se....quer ouvir uma canção?

O espectro da mulher vira para ele e sorri compreensiva, virando as costas e flutuando escada abaixo, com Benjy ao seu enlaço. Ao chegarem próximo ao lago negro a fantasma analisa o rapaz apoiar o estojo no chão e pegar o saxofone, ficando surpresa porque não o via tocar a alguns anos.

— Meus dedos.... não aguentam mais uma noite com as cordas do violino -ele explica como se soubesse que ela mentalmente fazia essa pergunta, quase que tentando convencer a si mesmo. Ela sabia que ia além, e ele sabia disso, então apenas sorri e assente com a cabeça.

"Entendo. Aposto que vou apreciar da mesma forma"

Assim que ela termina de falar, Benjy leva o instrumento a boca e começa a tocar, com notas longas e arrastadas. Helena tinha certeza que se estivesse viva estaria arrepiada.

Nenhum dos dois falou nada por horas. Ela apenas ouvindo as melodias e percebendo como o garoto parecia mais leve a cada nota, mesmo com lágrimas pelas bochechas e o rosto corado pelo esforço usado no sopro. E ele já não sabendo mais o que estava tocando, as composições haviam sido deixadas de lado e ele tocava o que sentia, parecendo que explodiria de energia. Eram tantas sensações que mal conseguia nomear, ele estava tão triste e ao mesmo tempo tão feliz. Ele amava tocar e odiava estar naquela situação, tocando para um fantasma na surdina da noite. Ele queria mostrar pra todos o quanto era feliz e livre mas ao mesmo tempo queria guardar esse segredo pra si, queria guardar essa beleza dentro de si.

Era o segredo dele, essa nova música formada no calor do momento era apenas sua. Ele para de tocar aos poucos e sente os joelhos cederem, se sentando no chão de frente a mulher cinza, que o encarava atentamente.

"É lindo a forma como lida com sua tristeza, Benjy"

Ele sequer responde, só sorri de forma genuína, sem fôlego e assente em agradecimento, embora soubesse que estava agradecendo mais a companhia que as palavras.

"A transformar em arte é algo admirável, só não se deixe consumir complementarmente, meu menino"

Dito isso, a figura acinzentada se levanta e flutua para longe, sumindo da vista. Benjy não demora muito para juntar forças e se levantar, guardar o saxofone no estojo e rumar de volta para o comunal.

Notas finais
:))))
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.