Hogwarts Mystery
1 Capítulo 1 - Assombrada
Notas iniciais
Eu já tive pesadelos antes, mas não como os que eu estou tendo agora; eles são escuros e sinistros, me guiando até cantos obscuros do meu inconsciente, congelando a minha alma com uma sensação gélida que insiste em me atormentar mesmo quando estou acordada.
Jacob.
Acordo ensopada de suor, com meu coração batendo tão rápido que temo que ele possa explodir de dentro pra fora. Seco as lágrimas que teimam em cair incessantemente pelas minhas bochechas. Apesar de estar suando, estou sentindo muito frio; como se estivesse enterrada na neve.
O brilho pálido da minha luz noturna me traz um pouco de conforto. Eu levanto, tentando andar o mais silenciosamente possível para não acordar meus avós, e entro no quarto do outro lado do corredor.
O quarto de Jacob.
Se tornou minha rotina noturna acordar desses pesadelos e vagar pelo quarto dele. Me faz sentir um pouco melhor, como se ele estivesse cuidando de mim. Sinto um peso no meu coração só de pensar que ele possa estar morto. Fecho minhas mãos em punhos, rezando para que, onde quer que ele esteja, esteja seguro.
— Athena? – a voz de minha avó me faz levar um susto. Ela está de pé sob o portal, olhando para mim com preocupação. – O que está fazendo aqui?
— Não consegui dormir – eu minto. A verdade é que eu consigo dormir, mas isso me leva para lugares assombrados que eu não desejo visitar.
— Eu sei – ela diz, andando até mim e me abraçando. – Amanhã é um dia muito importante. Tenho certeza que está ansiosa.
Sim. Vamos fingir que é esse o motivo.
— Não há razão pra ficar aqui, amor. – ela me diz. – Vamos. Volte pra cama e tente dormir um pouco.
Dou uma última olhada para o quarto do meu irmão antes de retornar para o meu próprio. Vovó se senta ao meu lado na cama, correndo seus dedos pelos meus cabelos de uma maneira reconfortante. Tenho certeza que ela está sofrendo tanto quanto eu, então não sinto necessidade de preocupa-la mais ainda com meus pesadelos bizarros.
Meu relógio sobre a escrivaninha delata que já passou da meia-noite. Hoje é o dia em que finalmente irei ao Beco Diagonal comprar meus materiais para Hogwarts. Eu sei que devia estar mais animada, mas a verdade é que estou com medo. Sei a reputação que Jake possui no castelo e tenho certeza que todos irão pensar que somos iguais. Me assusta pensar que posso passar todos os meus sete anos de estudos sem nenhum amigo.
Não sei quantas horas se passam até que eu adormeça novamente, mas quando eu acordo há forte raios de sol inundando meu quarto, aquecendo o gelo dentro do meu coração.
Meus avós parecem estar mais empolgados do que eu e não tenho certeza do motivo. Acho muito gentil da parte deles terem se voluntariado para cuidarem de mim enquanto mamãe e papai estão fora, procurando por Jake.
Há uma grande pilha de waffles sobre a mesa, junto com uma caneca fumegante de chá.
— Animada para a nossa viagem à Londres? – vovô pergunta, tomando um golinho de chá.
— Claro – minto, tentando ao máximo exibir um sorriso entusiasmado.
Vovô me dá um sorriso doce, pousando a xícara sobre a mesa e abrindo o jornal. Ele sempre cheia a tabaco e esse cheiro é estranhamente calmante.
A viagem que deveria levar horas, de Sunderland até Londres, é muito mais rápida com Pó de Flu. Já viajei assim algumas vezes antes, mas a poeira ainda me incomoda um pouco. Acho que ainda prefiro trens.
O Caldeirão Furado é exatamente como eu me lembro, de cinco anos atrás, quando vim com meus pais para comprar os primeiros materiais de Jake. Ainda é bastante sinistro, empoeirado e com um cheiro estranho. Vovô se apressa até o balcão para cumprimentar o dono do local. Vovó pigarreia para que ele saiba que não tem o dia inteiro para sentar e conversar.
Andamos até o pequeno beco atrás do pub, onde vovô toca vários tijolos na parede com sua varinha, em um padrão já bem conhecido, e os tijolos começam a se mover, formando o arco glorioso sob o qual podemos passar.
— Agatha! – alguém grita da multidão. – Quanto tempo! E Sebastian! Roger, venha cá! Agatha e Sebastian estão aqui!
Uma senhora corre até meus avós, parecendo muito feliz com suas bochechas vermelhas. Um senhor parecendo bastante sereno se aproxima dela, acenando com a cabeça para eles.
– Roger, Amélia. É muito bom ver vocês. – vovó diz educadamente. – Já conheceram Athena? Ela recebeu a carta na semana passada.
— Oh, olá, querida. – a mulher chamada Amélia olha para mim com um sorriso. – Agatha, temos tanto para conversar! Já ficou sabendo que Tristan e Madeline Snyde foram mandados para Azkaban? Estão dizendo que eles ajudavam Você-Sabe-Quem!
Vovô olha para mim com um sorriso cúmplice. Ele me passa um saquinho com dinheiro e dá uma piscadela. Sorrio para ele, feliz que ele saiba o quanto prefiro ficar sozinha.
O Beco Diagonal é um lugar bem confuso, cheiro de pessoas apressadas, várias lojas estranhas e pessoas mais estranhas ainda. Caminho pelo local olhando de um lado para o outro, quando de repente dou um encontrão em alguém e caio no chão.
— Meu Deus, sinto muito! – digo, me levantando. A pessoa na qual esbarrei é uma garota de aparência bem interessante. Ofereço minha mão para que ela possa se levantar.
— Está tudo bem – ela sorri. – Eu não estava olhando pra onde ia.
— Nem eu – sorrio.
— Sou Rowan Khanna. – ela diz. Eu já tinha imaginado, pela aparência dela, que ela era indiana, mas o sobrenome terminou de confirmar.
— Athena Lockhart – digo.
— Já comprou seus materiais? – ela pergunta.
— Ainda não. Acabei de começar, mas não tenho muita certeza de onde ir.
— Posso te ajudar, se quiser.
Meu sorriso se alarga. Rowan parece ser uma garota legal e uma possível futura amiga. E eu não estou exatamente em posição de recusar amizades, já que todo mundo provavelmente vai me evitar quando souberem quem meu irmão é.
— Eu adoraria, Rowan. – eu digo.
Ela me leva à Floreios & Borrões, me mostrando de cor todos os livros que vou precisar e apontando para alguns bem interessantes que ela diz que adoraria ler. Sendo uma amante de livros, fico honestamente feliz de estar perto de alguém que ame livros e estudar tanto quanto eu.
— Minha família é dona de uma fazenda de árvores. – ela explica. – Fornecemos madeira para os fazedores de varinhas. Nossa fazenda produz madeira da melhor qualidade!
— Parece incrível. – eu digo, pagando pelos meus livros.
— Falando em madeira, precisamos ir ao Olivaras agora mesmo! – ela diz, me puxando pela mão.
Rowan parece estar genuinamente empolgada sobre Hogwarts, talando sem parar sobre como ela pulou pela casa aos berros quando a carta finalmente chegou. Seus pais estão muito orgulhosos por ela ser uma bruxa também.
Chegamos na frente de uma loja velha e empoeirada, quando ouvimos alguém chamar por ela. Um casal que obviamente são os pais dela acenam para nós.
— Vai comprar sua varinha. – ela diz. – Eu já volto.
Eu entro na loja sozinha, sentindo as palmas das minhas mãos geladas pelo nervosismo. Há um senhor atrás do balcão e posso ver milhares de caixas de varinhas empilhadas em todas as paredes. Ele olha pra mim com curiosidade e então me dá um sorriso de boas vindas.
— Veio comprar sua primeira varinha? – ele pergunta.
Faço que sim com a cabeça, me sentindo estranha e ansiosa.
— Deixe-me tomar suas medidas, então. – ele diz, se aproximando com uma fita métrica, medindo do meu pulso ao cotovelo, do cotovelo ao ombro, do ombro aos pés. Ele anda até os fundos da loja e volta com uma pilha de caixas. – Vamos tentar estas.
Ele me entrega uma varinha maravilhosa, feita de uma madeira clara. Me pergunto se essa madeira veio da fazenda da família de Rowan.
— Cerejeira e corda de coração de dragão, vinte e sete centímetros, bem flexível.
Eu a seguro, olhando para ela com curiosidade, e dou uma sacudida. Imediatamente, os papeis sobre o balcão voam pelos ares, caindo pelo chão da loja.
— Sinto muito – digo, devolvendo a varinha para a caixa.
— Tudo bem, querida. – ele diz com um sorriso. – Seu irmão quebrou meu tinteiro favorito quando ele veio comprar a primeira varinha também.
— Lembra do meu irmão, senhor? pergunto. Eu não estava presente quando Jake comprou a varinha. Na verdade eu estava tomando sorvete com meu pai enquanto minha mãe levava meu irmão até o Olivaras.
— Ah, sim – ele diz. – Eu me lembro de cada varinha que vendi. A do seu irmão era de bordo com corda de coração de dragão, vinte e cinco centímetros. Uma pena que a partiram quando ele foi expulso. Era uma excelente varinha.
— Ele fugiu de casa depois disso. – não tenho certeza do motivo de estar contando a este homem sobre o que aconteceu com meu irmão. Acho que depois de tanto meses de silêncio, minha boca não conseguiu ficar calada. – Ele está desaparecido desde então.
— Isso deve ter lhe impactado bastante, não?
— Me sinto mal por ele. Ele amava Hogwarts. Só espero... que ele esteja bem.
— Hm... Sensibilidade pode ser sua maior força, então. – ele diz, me oferecendo uma varinha diferente, cujo cheiro é forte e muito interessante. – Canela e pelo de unicórnio, trinta centímetros, flexível.
Canela. Então esse é o aroma delicioso que estou sentindo.
— Experimente.
Dou uma leve agitada na varinha e uma brisa gentil sopra ao meu redor, meu cabelo flutuando suavemente, e sinto um calor agradável dentro do meu peito. É uma sensação muito boa, na verdade.
— Perfeito – ele diz com um sorriso satisfeito. – Esta varinha será sua melhor amiga, Srta. Lockhart. Cuide bem dela.
— Cuidarei. Muito obrigada, senhor.
O exterior da loja é muito mais iluminado e quente, mas eu não sinto mais ansiedade ou estranheza. Não tenho certeza se foi a sensação tranquilizante que a varinha me propiciou ao me escolher ou se foi por ter sido capaz de falar sobre o que aconteceu com Jake com alguém, sem sentir olhos julgadores sobre mim.
— Athena! – Rowan chama do outro lado da rua. – Comprou sua varinha?
— Sim! Canela e pelo de unicórnio. – conto a ela e ela sorri docemente.
— A minha é mogno, diretamente da fazenda dos Khanna. Estou tão feliz que poderia explodir!
— Por favor, não. Quem limparia todos os pedacinhos de cérebro e intestinos do chão? – dou uma risadinha.
Ela sorri.
— Fico feliz por ter te conhecido, Athena. As pessoas geralmente me acham muito estranha. Você acha que eu sou estranha?
— As pessoas dizem o mesmo de mim, Rowan. – digo a ela com um sorriso confortador.
— Mas quem diria algo assim?
— Bem... meu irmão é Jacob Lockhart.
— Jacob Lockhart?— ela pergunta, exasperada. – O mesmo Jacob Lockhart que foi expulso de Hogwarts por quebrar todas as regras na busca pelas Criptas Malditas?
— O mesmo.
— A história saiu no Profeta Diário. Toda a escola vai saber que você é a irmã dele.
— Eu sei – digo, tristemente. – As pessoas vão me achar estranha também.
Sinto a mão de Rowan pousando suavemente sobre meu ombro.
— Tudo bem, Athena. – ela diz. – Podemos ser estranhas juntas.
— Obrigada, Rowan. É muito gentil da sua parte.
— Mas o que eu devo fazer se as pessoas começarem a incomodar você sobre seu irmão?
— Nada, acho. Não quero que você se meta em problemas por minha causa. Só vai atrair mais atenção.
— Você deve estar certa. Vamos ter muito para ocupar nossas mentes, de qualquer forma, com todas as aulas incríveis que teremos. – ela sorri.
— Verdade. – digo. – Fico feliz por ter te conhecido.
O resto do dia é pacífico e divertido ao lado dela. Comemos sorvete juntas, compramos nossas vestes, caldeirões e ingredientes para poções, e quando eu me dou conta, é hora de ir embora.
Vovô e vovó ainda estão conversando com o casal estranho, mas agora eles estão saindo do Empório de Corujas.
— Athena! Aí está você! – minha avó diz. – Quem é sua amiga?
— Vovô, vovó, essa é Rowan Khanna. – digo. – Rowan, esses são meus avós.
— Prazer em conhecê-los. – ela diz.
— Khanna? Da fazenda de árvores? – vovô pergunta.
— Sim.
— Tive o prazer de conhecer seu avô, Mohan. Um homem excepcionalmente inteligente. Estivemos na Corvinal juntos. – vovô diz com um sorriso nostálgico.
— Daada era realmente muito inteligente. Ele é um dos meus ídolos. – Rowan explica, o que me leva a pensar que o avô dela já é falecido. – Uau! Um corujão-orelhudo! – ela exclama, olhando para a coruja imensa dentro da gaiola que meu avô está segurando.
– Ah, sim. Athena, compramos ele pra você. Um presente adiantado de Natal, por assim dizer. – ele ergue a gaiola. A coruja é gigantesca, com grandes olhos amarelos. – Afinal de contas, a deusa da sabedoria precisa ter uma coruja, certo?
Esse é o tipo de sorriso impossível de forjar. Olho para vovô com lágrimas nos olhos e um enorme sorriso nos lábios. Por um momento, agradeço aos céus por ainda tê-lo na minha vida.
O corujão olha para mim com olhos da cor do sol.
— Ele é lindo. Obrigada! – digo, abraçando os dois.
— Tenho certeza que vocês serão grandes amigos. – vovó diz com um sorriso.
Naquela noite, finalmente tenho um sono sem pesadelos. Meu novo amigo Twilight me observa do topo do dossel, seus grandes olhos amarelos me confortando e me fazendo sentindo que mesmo que eu seja assombrada pelos erros do meu irmão, pelo menos irei para Hogwarts com dois novos amigos e a promessa de um futuro brilhante.
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