Hogwarts, 1974.
2 De volta à Hogwarts
Notas iniciais
1.
– Acorde, Black! – disse Potter ao passo que abria os olhos e se colocava de pé. – Nós vamos perder o trem!
Sirius Black levantou-se de um pulo e pensou que seria melhor ter conjurado um feitiço para despertar, pois assim teria evitado aquele susto logo cedo. Coçou os olhos e começou a se preparar para o primeiro dia de aula do terceiro ano deles em Hogwarts.
Avistou onde estavam seus pertences mais importantes e, num movimento de varinha, as suas coisas foram sendo empacotadas em malas e os seus trajes foram pondo-se preparados para utilizar. Nas vestes negras bem costuradas e limpas, via-se o leão dourado da Grifinória em detalhes vermelhos e ele, por um instante, olhou para a fera símbolo de sua casa e lembrou-se de quando fora deserdado pelos seus parentes e por toda a sua família.
Sirius Black ainda bem novo já mostrava destoar da maneira de pensar dos Black, família tradicional e conservadora que desprezava solenemente qualquer coisa que não apresentasse uma pureza de linhagem bruxa. Mesmo sendo ele questionador e insubordinado, preferindo muitas vezes o convívio de mestiços e evitando contato com aqueles de mesmo sangue que o seu, os seus parentes imaginavam que a escolha do Chapéu Seletor faria a criança voltar à razão e perceber que os bons modos, a tradição e a pureza de sangue das quais ele compartilhava estavam na Sonserina, casa que com certeza seria a sua.
Mas não foi isso que aconteceu e sobrou o desgosto de sua mãe, que até já havia comprado todo o material escolar nas cores prata e verde, quando a coruja enviada por seu filho chegava à mansão dos Black com a notícia de que ele havia sido escolhido para a Grifinória. Sirius Black era o primeiro e único da linhagem a ser escolhido para essa casa em séculos. Todos os outros tinham sido da Sonserina.
O jovem Black esperava que a Sra. Black compreendesse, mas não houve qualquer resposta à sua mensagem, nem naquele momento e nem nunca mais, e ele percebeu com amargura que as relações haviam sido cortadas a partir de então.
Era nisso que ele pensava quando seu amigo disse algo que fez Black voltar à realidade.
– Tá surdo, Almofadinha? Já te perguntei três vezes qual o feitiço de limpeza de gaiola e você aí suspirando! – reclamou Potter. – No que você anda pensando?
– Emundare! – Respondeu Black já com mais um aceno de varinha na direção das coisas de seu amigo e a sujeira da gaiola sumiu devolvendo a cor brilhante das grades. A bagagem se fechou em seguida.
Sirius evitava falar da família Black para seu amigo e por isso preferiu não dizer por onde andavam seus pensamentos.
James Potter sabia no que Black pensava quando restava absorto em memórias, mas jamais procurou saber em detalhes o que havia acontecido. Mesmo quando seu amigo descobriu que os elfos tinham ordens de não deixá-lo jamais entrar novamente na mansão de sua família, Potter ofereceu a casa dos seus pais sem nunca ter feito qualquer pergunta sobre o ocorrido. Ele imaginava, mas preferia pensar que o seu amigo precisava dessa ajuda e resolveu apenas ajudá-lo. Black morava com Potter desde então e a amizade só crescia entre eles.
No caminho para a Estação, Sirius e James já conversava normalmente. Os pensamentos desgostosos de mais cedo agora cediam espaço para especulações sobre o novo ano letivo e, principalmente, se haveria algum calouro com habilidade suficiente para tornar o time de Quadribol da Grifinória ainda mais forte esse ano.
– O time tem que ser o de sempre, com alterações pontuais. Gostei do rendimento da equipe esse ano, mas com um goleiro mais talentoso poderemos finalmente levantar a taça do Torneio de Quadribol. – Ponderou Potter.
– Falou o treinador! – Debochou Black em resposta. – Mas você tem razão. Deve ter alguém melhor do que o Weasley.
Weasley era um menino alto, ruivo, sardento e desengonçado que também estava no terceiro ano. Embora ele fosse um jogador razoável, não transmitia segurança à equipe, pois alternava grandes defesas com lances desastrosos. Seus cabelos ruivos ao menos combinavam com o uniforme vermelho alaranjado da Grifinória.
No ano passado, o troféu tinha escapado por pouco e aquele jogo contra a Corvinal, que terminou 60 a 40 e que foi determinante para que o título ficasse com a Sonserina, ainda trazia recordações amargas para os dois.
Conversaram ainda sobre o torneio das casas, sobre o projeto e sobre o álbum de figurinhas de bruxos famosos. Os dois concluíram, então, que, uma vez dentro do trem, comprariam alguns sapos de chocolate para aumentarem a coleção.
Em pouco tempo, atravessaram a plataforma, adentraram o vagão e procuraram um dos assentos próximos a uma grande janela de vidro que dava para a paisagem.
No entanto, o sono atrasado fez com que eles dormissem em pouco tempo e por toda a viagem.
Nenhum dos dois viu quando a moça passou com seu carrinho vendendo guloseimas.
Os sapos de chocolate ficariam para uma outra oportunidade.
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