Hogo Heiwa ai
2 Capítulo 2 - Chuva
Capitulo 2
Depois que um sonho inesperado me atacou durante a madrugada de terça feira, acabei acordando às seis da manhã. Me levantei e caminhei até o primeiro andar, meu pai avia deixado um bilhete na mesa, nele estava escrito:
“Makoto, tive que sair mais cedo do que imaginava, parece que ocorreu algum problema no sistema de entregas da firma e vou ter que ficar na cidade por alguns dias, então compre o que quiser na loja de conveniência, deixei dinheiro o suficiente para três dias, não faça nada de errado, juízo moleque!!”
Coloquei a carta na mesa e olhei para a casa vazia, que era pouco iluminada pelo sol, que acabava de nascer entre diversas nuvens de um clima nublado. Como ainda estava com sono, retornei para o meu quarto e me deitei, dormi instantaneamente. Acordei assustado pelo barulho de um trovão, quando olhei para o relógio já estava marcando oito e vinte, me levantei as pressas e corri para o banheiro, troquei de roupa e escovei os dentes, acabei me esquecendo de tomar os antidepressivos, enquanto me arrumava por completo, não percebi que a chuva estava cada vez mais forte do lado de fora.
Não dei atenção ao café da manhã, corri até a saída gritando:
– Até mais tarde mãe!
Abri a porta e saí correndo até o colégio. No meio do caminho foi quando notei a presença da chuva que estava cada vez mais forte, continuei a correr e correr, a chuva foi pesando em cima de mim, trovões caiam e as cerejeiras ao meu lado balançavam espalhando as pétalas molhadas. Cheguei até a metade do caminho, onde tinha uma esquina e mais a frente uma loja de conveniência, o vento me empurrava cada vez mais, mas por pouco, consegui chegar até a frente do edifício, porém, algo aconteceu, a porta estava fechada e as luzes apagadas no interior da loja, eu não notei que um papel estava no chão, já desmanchando com a chuva e nele escrito “Estamos fechados temporariamente”. O papel que estava na porta tinha caído pelo vento.
Eu já estava completamente encharcado quando me distanciei da loja, consegui ouvir duas pessoas que estavam longe em bicicletas e capas de chuva:
– Ontem o noticiário não falou que a chuva seria de tarde?!
A outra pessoa, que aparentava ser uma mulher respondeu:
– Não importa, vamos embora, rápido!
Eu me virei para o caminho do colégio, depois virei a cabeça e vi a volta, que me levaria até em casa, acabei escolhendo retornar para casa, mas do mesmo jeito, o tufão era extremamente forte e me fazia cair várias vezes. Na metade do caminho de volta, eu comecei a me lembrar:
– “Algo precisava acontecer”
– “Ter esperança”
– “Viver...”
Eu me perguntava o porquê, o porquê que eu estava me lembrando destas coisas em uma situação tão extrema. Eu me ajoelhei na estrada, a chuva me atingia como um tapa, chegava a doer. Eu fechei os olhos e imaginei com tudo que tinha:
– FAÇA ALGO ACONTECER!
A chuva continuou e continuou a cair, e eu, ajoelhado na estrada, totalmente encharcado. Nada aconteceu, fiquei com os olhos fechados o tempo todo.
Como uma chuva de primavera, ela acabou rápida, eu me levantei e continuei a caminhar. Meus passos estavam desalinhados e eu parecia bambear ao andar, em uma lentidão irritante. Ainda estava chuviscando e o sol estava de pouco a pouco aparecendo no céu negro. Cheguei até a porta de casa, fiquei parado á encarando, minha expressão era totalmente de desanimo e tristeza, olhei para a placa ao lado, “Masao”. Eu não estava enxergando mais nada, era como se tivesse sido engolido pela escuridão, sem esperança, sem objetivos, sem... Nada.
Me virei para o caminho contrario ao da escola, e segui reto, sem parar em casa. Continuei a caminhar, vi várias cerejeiras caídas, cercas de casas destruídas, plantações arruinadas, mas não me deixava importar com isso e continuei caminhando.
Mais a frente, encontrei uma praça, estava vazia e tinha várias poças de água em seu centro, cheguei perto de um banco e me sentei. Coloquei as mãos no rosto e apoiei os cotovelos em minhas coxas. Estava prestes a entrar em colapso.
Quando algo me acalmou, algo chegou até os meus ouvidos como uma salvação, o som das gotas de chuva ecoou e ficou em segundo plano, seu lugar foi tomado por uma música, mas desta vez, o violino soava com uma alegria que aqueceu meu peito, eu tirei as mãos de meu rosto, e lentamente, olhei para frente. A música parou, mas no meio da praça, avia uma garota, magra, com cabelo preto até a cintura e usando um vestido branco, ela olhava para o céu com uma expressão séria. Eu a observava quando começou a olhar para frente e depois para o lado, me encarando. Eu fiquei um tanto desconfortável, ela então começou a caminhar, foi chegando cada vez mais perto. Diferente do que eu sentia anteriormente, eu não tive vontade de fugir. Ela então parou na minha frente, ao contrario de mim, estava completamente seca, tinha um corpo magro e fino, uma pele branca e bonita com um rosto lindo, o cabelo balançava ao vento, eu não conseguia pensar em nada além disso. Ela chegou o rosto perto do meu, me encarou por alguns minutos sem fazer nenhuma expressão, então, levantou o braço e apontou para o lado, eu me virei e vi uma loja de conveniência, diferente da outra, está estava aberta. Ela continuou apontando para a loja e eu continuava sem entender, a garota então me puxou pela manga, como se me chamasse para ir, sem saber como reagir, acabei levantando e a acompanhando até a loja. Ela correu até uma prateleira, olhou todas as opções com uma ansiedade monstruosa e no final, acabou pegando mais de seis tipos de onigiris diferentes, chegou à minha frente, fez uma expressão alegre e me entregou todos os pacotes, passando a mensagem de “compre”. Peguei os pacotes, olhei para eles e depois para ela, mostrava uma cara contente. Então pensei:
–Ãhn?
Ela corou um pouco e desviou o olhar para a direita.
Comprei os onigiris, mais da metade do dinheiro que meu pai avia separado já tinha sido gasto, mas acabei não me importando com isso. Sentamos novamente na praça, ela abriu o onigiri de cebolinha e eu o de pimenta, dei uma mordida e na hora que engoli, senti uma força a mais no corpo, acabei lembrando que não tinha comido nada dês de manhã. Parei e olhei para a garota, ela devorava o bolinho dando uma expressão de felicidade extrema a cada mordida. Ela começou a olhar para o meu onigiri com atenção, foi chegando perto e eu acabei oferecendo, a menina deu uma pequena mordida e começou a pular e a abanar a boca, por causa da pimenta, ela quase chorava. Foi a primeira vez dês de muito tempo que eu senti vontade de rir, mas expressei o que sentia apenas com um sorriso.
Aquele momento que estava vivendo, me deu uma nostalgia que nunca avia sentido antes, não me lembrava de nada, mas me confortava comer bolinhos de arroz no banco de uma praça, encharcado e com uma estranha, achei até um pouco engraçado. O que eu estava sentido durante o tufão, tinha sumido por completo, é como se fosse um sonho, quase um pesadelo.
Eu olhei para a menina, que já estava no terceiro onigiri e continuava com a mesma expressão. Acabei perguntando:
– Éééé... Qual o seu nome?
Ela fez uma pausa, mas continuou a comer logo em seguida, sem saber o que fazer, continuei comendo, e pensei:
–Será que é surda? Muda?
Ela já estava nas ultimas mordidas quando sussurrou:
– Aika..
Eu assustei e olhei pra ela perguntando:
– O que?
Ela falou em um tom alto fechando os olhos:
– Masumi Aika! Este é o meu nome!
Eu parei e pensei um pouco até raciocinar, e então falei:
– Ééé... Masumi-san, o que você estava fazendo no meio da praça?
Ela respondeu suspirando:
– Olhando para o céu!
Eu a questionei:
– Por quê? Estava chovendo e-
Ela me cortou explicando:
– Eu estava tentando ver o sol.
Eu olhei para o céu e depois falei:
– Ãhn.. Mas está nublado, não da para ver.
Ela engoliu o ultimo pedaço do onigiri e então falou:
– Mas é desse jeito que o sol fica mais bonito.
Nessa hora eu senti um calor, uma luz me aqueceu por inteiro e me senti mais aconchegante ainda, Aika olhava para frente com os olhos brilhando, eu me virei e olhei para o céu que cobria a montanha, as nuvens aviam dispersado, o sol refletia criando um céu completamente laranja, e um arco íris ao fundo. Eu olhava para uma paisagem que eu nem me lembrava de que existia, meus olhos se abriram por completo e eu respirei fundo, Aika falou enquanto apreciávamos:
– Quando o céu está nublado, não adianta ficarmos pensando que as coisas estão ruins, por que no fim, o sol sempre aparece...
Quando ela terminou a frase, eu senti uma pontada no peito, não era uma dor, não era um desconforto, era como um despertar...
Aika olhou para mim sorrindo e perguntou:
– Então, eu não sei o seu nome.
Eu me assustei e respondi:
– É Makoto, Masao Makoto!
Ela levantou, se curvou e disse:
– Então.. Makoto, obrigada pelos bolinhos.
Aika se virou e começou a andar, eu quase levantei a mão direita e pensei:
– Espera.
Mas não fiz, ela continuo andando pela rua e sumiu no horizonte, eu olhei para o céu alaranjado e pensei:
– O sol sempre aparece... né?
Me levantei e fui para casa, deixando os pacotes de bolinho no lixo. Chegando em casa tirei a roupa que ainda estava molhada e entrei na banheira, foi relaxante, acabei pensando, revisando tudo o que avia vivido até ali, normalmente filosofamos e pensamos besteiras no banho, mas eu acabei levando mais a sério o que eu tinha feito hoje.
Saí do banho e fui até a sala, ainda era cedo, me sentei na mesa e liguei a televisão, o jornal dizia:
– Devido a massas de ar pesadas e ventos que foram redirecionados, o tufão acertou Hiroshima com mais potencia, seguindo para o Norte, a chuva deve chegar a baia de Tokyo dentro de dois dias e em Chiba dentro de três dias...”
Eu pensei:
– Lembrei ,ia ter um tufão hoje a tarde...
O noticiário continuou:
– “Os danos causados na área de Hiroshima foram grandes, estima-se que mais de 200.000 Yens foram perdidos em plantações, diversas casas tiveram seus telhados arrancados e temos um total de três pessoas desaparecidas. O governo aconselha aos moradores não entrarem nas estradas pelos próximos dias...”.
Nessa hora o telefone começou a tocar, me levantei e fui atendê-lo:
– Al-
Um homem começou a gritar:
– Makoto? Makoto? Está me ouvindo?
Eu reconheci a voz e respondi:
– P-pai?!
Meu pai então continuou a gritar, avia muito barulho na linha:
– M-Makoto? Você está bem??
Eu respondi em tom alto:
– Sim, estou bem!
Ele então explicou:
– Ah.. Ótimo! Escuta, por causa da chuva vou demorar mais pra chegar em casa! O governo está fechando as estradas por risco de acidentes.
Eu suspirei e falei:
– Tá, eu entendo.
Ele então terminou:
– Fiquei em casa, não faça nada errado, te vejo daqui alguns dias, até... [Biip!]
Coloquei o telefone no guincho e retornei a sala. O resto do dia passou como um tédio, mas eu não tirava da cabeça o que tinha ocorrido de manhã.
Finalmente a noite chegou, peguei algumas sobras de miso na geladeira e esquentei com um pedaço de salmão e arroz, que ainda tinham sobrado. Dei boa noite a minha mãe, com um sorriso mais aberto que o normal.
Depois fui finalmente dormir, dormi em um piscar de olhos, não prestei atenção nem no relógio nem na janela. Nenhum sonho apareceu durante essa noite e acordei na manhã seguinte com o despertador dançando no criado. Troquei de roupa e tomei o antidepressivo. Enquanto descia as escadas, me senti um pouco tonto e me apoiei na parede, o sintoma logo passou, acabei ignorando e fui tomar café. Logo na porta, calçando meus sapatos, falei “Até mais tarde”, mas o sentimento que antes me deixava para baixo agora me deu mais animo.
O caminho até a escola foi normal, passei pela loja de conveniência que estava fechada no dia anterior, mas por algum motivo, continuava fechada. Quando cheguei na escola, fui abordado por Ryuu, que chegou gritando:
– Ei! Por que diabos você matou aula ontem?!
Eu respondi sem interesse:
– Eu não matei aula.
Ele então perguntou:
– Então por que faltou?
Me lembrei do ocorrido, da situação durante o tufão, dos onigiris, e de Aika. Mas acabei sorrindo e respondo:
– Ah.. Estava chovendo muito...
Ele deu uma expressão desigual e falou:
– Ei... no final você admite que matou aula?
Fomos até a sala e nos sentamos, ninguém mais veio me perguntar o porquê que tinha faltado. O dia seguiu normalmente, durante a aula do Ryuuji-sensei, minha visão acabou ficando ofuscada e o quadro parecia estar mais longe, não entendi bem o que aconteceu, mas voltou ao normal logo depois. Com isso o tempo de aula foi até o fim. Enquanto arrumávamos as mochilas para ir embora, a caixa de som situada na sala deu um aviso vindo da sala dos professores:
– Masao Makoto, compareça á sala dos professores. Repetindo, Masao Makoto, compareça á sala dos professores.
Eu fiquei sem expressão, Ryuu que estava do meu lado riu e disse:
– É, parece que você se deu mal.
– Vamos, eu vou até lá com você.
Quando chegamos até a sala dos professores, Yui-sensei nos chamou, sua cadeira fica no fundo da sala perto da lousa, ela disse:
– Então, Masao-kun, por que não deu presença ontem na aula? Não recebi nenhum comunicado de sua família.
Eu então á respondi:
– Bem... é que-
Ryuu me cortou dizendo:
– É que ele matou aula por causa da chuva sensei.
Eu olhei pra ele com ódio, a professora estava me encarando com a mesma expressão. Acabou ordenando:
– Então já que você tem tempo á perder, vai ficar até mais tarde na escola ajudando na sala de ciências.
Eu suspirei de raiva, e Ryuu começou a rir, a professora de um sorriso sádico e disse:
– O senhor também Fuyuki-kun!
Ryuu deu uma soluçada e gritou para ela:
– Ãhnn??
Eu quase comecei a rir, até a professora dizer:
– Isso é o que você ganha por ser um delator!
Ryuu suspirou até perder todo o oxigênio dos pulmões.
Nos então saímos da sala dos professores, no corredor, Ryuu resmungou:
– Eu tenho medo dessa professora...
Eu só concordei:
– Pois é...
Chegando até a sala de ciências, paramos na porta, antes que eu pudesse abrir, Ryuu falou:
– Você quer mesmo fazer isso? Não te falaram da lenda dessa sala? Que depois das aulas, sempre aparece um m-
Eu não terminei de escuta-lo e o ignorei abrindo a porta, ele então gritou:
– Ei! ME ESCUTA!
Fui entrando na sala enquanto Ryuu resmungava. Quando prestei atenção, tinha mais alguém na sala, não era uma assombração, mas sim uma menina, que estava de costas e tinha um cabelo castanho até os ombros. Quando ela se virou, eu e Ryuu tomamos um susto. Mitsuko Misaki!
Ela chegou perto nos cumprimentando:
– Ora! Eram vocês que iam me ajudar?
Eu sem saber como reagir a tal situação, respondi:
– É-é, é o que parece né?
Quando olhei para Ryuu, ele estava se segurando para não rir de uma maneira tão obvia que chegava a ser irritante. Eu apenas pensei:
–Maldito!
Começamos a arrumar, eu e Ryuu checávamos as ferramentas enquanto Mitsuko-san anotava:
– Ééé... Uma dúzia e meia de tubos de ensaio.
Eu respondi:
–Ãhnn...Correto!
Mitsuko-san então falou:
– Fuyuki-san, três funis de separação.
Ryuu respondeu:
–Ééé.. tem apenas dois aqui!
Mitsuko-san se assustou falando:
– Ê? Sério?
Eu cheguei perto falando:
– Só tem dois mesmo, vamos ter que procurar o outro.
Comecei a procurar, enquanto isso Ryuu deu uma risada e disse:
– O que há Makoto? Nunca imaginei você animado com algo assim.
Eu me virei pra ele e falei sem ter notado o que disse:
– Oi?
Fui andando pela sala a procura do ultimo funil, enquanto caminhava até a metade da sala, me senti tonto e minha visão se ofuscou, senti uma fraqueza extrema e meu corpo desligou, me fazendo cair direto no chão, derrubando as mesas e cadeiras enquanto tentava me apoiar.
Ryuu e Mitsuko-san se desesperaram gritando:
– Makoto!
– Masao-kun!
Os dois chegaram perto de mim, eu já estava desmaiado, Mitsuko-san colocou a mão em minha testa, eu provavelmente estava com uma febre terrível, pela chuva que tomei no dia anterior, já era de se imaginar que algo assim ocorreria...
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