Ho Ho Hopefully
1 Hope For Better Weather
Notas iniciais
Arielle tinha sua própria mente bagunçada nos dias festivos. O Natal, no entanto, lhe era particularmente insuportável. Ver as ruas coloridas de vermelho, as luzes brilhando nas paredes e as árvores decoradas por ornamentos a faziam sentir raiva de tamanha inutilidade – e, pelo que podia perceber, era a única a pensar assim: sua casa era um pontinho branco e imaculado em meio a um oceano vermelho, verde e brilhante. Era uma ilha. A sua ilha, seu refúgio desse feriado.
Naquele dia, no entanto, observou pela janela e seu suposto pedaço de terra ainda não destoava do mar; as casas não estavam decoradas e não havia uma luzinha sequer pendurada na porta das igrejas. Arielle sabia que era só uma questão de tempo, mas isso não a impedia de odiar a legião fanática amante de ornamentos por não permitir que ela se isolasse dentro de casa como fazia já há um bom tempo.
Respirou fundo. Voltou-se para a sala de estar e jogou-se em uma poltrona barulhenta, afundando até que seus pés não alcançassem tão facilmente o chão. Era tarde, talvez já mais de meia-noite, e um único abajur iluminava o cômodo. Hoje é Natal?, perguntou-se, desvencilhando-se do estofado para agarrar o calendário amassado que recebia o mesmo tratamento todos os dias: era agarrado, folheado sem delicadeza e devolvido sem zelo a sua mesinha de repouso. Todo. Dia. Arielle sabia que, se o coitado do calendário raciocinasse, iria desejar assassiná-la.
Aquele ritual apenas era quebrado em uma data do ano – a que ela tanto almejava e odiava. Vinte e cinco de dezembro. Não estava próximo; de fato, ela ainda teria que esperar vários meses para olhar com emoção para o calendário e apertá-lo contra o peito enquanto ofegava involuntariamente. Quantas vezes já fizera aquilo? Três?
Três... Três anos.
Arielle repreendeu a si mesma. Não se lembre. Não pense nisso.
Ela sabia, contudo, que era inútil brigar com a própria mente – ah, aquela maquininha levada que mostrava tudo o que ela menos queria ver. Sempre. Agora não seria diferente: viu-se imediatamente transportada para o Natal de três anos e alguns dias antes e, como sempre que tinha seus pensamentos aflorados a isso, esticou-se em busca de papel e caneta e começou a escrever, traduzindo a lembrança em palavras para que, por mais que quisesse, jamais esquecesse.
“Quinze de março de 2026
Hoje é Natal. Ou, pelo menos, é o que parece. Não pelas casas, ou pela televisão, mas para a minha mente. Maldito vermelho... persegue-me a tal ponto que sinto mais ódio de uma cor do que de qualquer outra coisa no mundo. Todos os dias são Natal. Todos os dias são vermelhos. Mas ninguém parece concordar com isso. Assim, eu aguardo pelo dia em que posso ligar todas as luzes da casa e pintar todas as paredes de branco mais uma vez, cobrindo quaisquer manchas ou marcas que eventualmente surgiram. É algo que me faz bem. Você sabe disso.
Uma mudança que fiz há dois anos foi na porta de nosso quarto: pendurei um bonequinho do Papai Noel em um prego. É pequeno e adorável, com uma barba branca enorme. É o máximo de Natal que deixo passar pela porta de entrada. Lembra-se do motivo por eu tê-lo pendurado ali, e por ele ser o único – único – ponto vermelho de todos os cômodos? Já te contei, aliás? Tudo o que tínhamos na cor vermelha se foi, ou descartado ou pintado com uma tinta barata que acabou sendo bem útil. Meus livros de capa escarlate foram cobertos por esta, aliás, tornando-se adoravelmente beges ou azuis. Não funcionou muito bem quando tive que pintar uma capa com a foto de uma pessoa com a língua exposta, mas tudo bem. Mandei para o lixo os meus esmaltes e roupas que não consegui tingir – ou que simplesmente não pude mais vestir.
Essa limitação é terrível; francamente, você sequer pode imaginar. Sabe a razão para tudo isso, no entanto, e sabe que eu odeio ter que escrever sobre o assunto pela que me parece a milésima vez. E sabe mais ainda que eu espero que me responda. Todos os dias são vermelhos, meu querido, desde que eu recebi o telefonema de um hospital – mas, quando cheguei neste, não havia mais pelo que me responsabilizar ou rezar, apenas confirmar a identidade de um corpo tão desfigurado que me dava arrepios. E, adivinha? Havia sangue por toda parte. Pelos lençóis, por cima da pele (ou do que um dia fora pele), pingando em certos pontos... vermelho. Adivinhe de novo: que dia era? Os médicos de plantão pareciam tão desesperados para voltarem a seus feriados que sequer se preocupavam com o impacto de uma visão daquelas.
A pior parte foi a burocracia. Assinar documentos aqui, atestar reconhecimento ali e mais um lote de porcarias que não consegui concluir leitura. Já havia deixado o corpo naquele momento, e estava na sala de espera vazia senão por mim, alguns enfermeiros e a recepcionista entediada. Eu estava aturdida. Chocada. Talvez não exista uma palavra adequada para descrever tal sentimento. E, para ajudar a minha mente a manter-se 'sã', um boneco do Papai Noel estava grudado na porta que me separava do corpo. Idêntico ao que está em nossa casa. Me faz pensar que você está ali dentro, me esperando, mas sentado sobre a cama e me observando com seus olhos vibrantes.
Todos os dias são vermelhos, meu querido, desde que você partiu. E hoje, novamente, é Natal."
Ao concluir seu pensamento, Arielle lançou o caderno na direção do Papai Noel grudado em sua porta.
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