Histórias do Multiverso
8 Jiyoung Kwon (Universo 2228)
Notas iniciais
Era final de janeiro de 2016, Jiyoung Kwon chegou cedo à sala de aula de sua nova escola, sendo inclusive o primeiro aluno a chegar, podendo assim escolher sua cadeira, optando pelo segundo assento da primeira fileira. O garoto de dezesseis anos era filho de coreanos, embora tenha nascido e sido criado no Brasil por toda a sua vida.
Este era o seu último ano no país sul-americano, pois seus pais retornariam com ele para a Coreia do Sul em julho daquele ano.
Não muito tempo após Jiyoung sentar-se, um garoto branco, de cabelos negros e penteados para cima, entrou na sala. O recém-chegado, que deveria ter a mesma idade que o jovem Kwon, embora mais alto, pendurava em seu ombro apenas uma das alças de sua mochila, parou por um segundo para encarar o menino de ascendência asiática ao perceber que ele era um novato.
— Bom dia. — Desejou Kwon.
— Bom dia. — Respondeu educadamente o outro, antes de sentar-se dois assentos atrás de Jiyoung.
O mais baixo ficou em silêncio, mas após alguns segundos de hesitação, virou-se e se apresentou:
— Sou Jiyoung.
— Breno. — Apresentou-se o garoto branco que não chegava a ser gordo, mas era um pouco mais encorpado do que seu colega de classe, que era mais magro.
— Você também é novato ou já estudava aqui ano passado? — Questionou Kwon.
— Já estudo aqui faz tempo. — Respondeu Breno. — E você veio de onde?
Os dois conversaram por cerca de dois minutos, até que outros estudantes começaram a chegar na sala aos poucos.
— Bereno! — Exclamou um aluno ao entrar e ver Breno, indo até ele e abraçando-o.
— E aê? — Breno disse, mas não retribuiu o abraço. O garoto recém-chegado sentou ao lado dele. — Esse aqui é o Jão.
— Jiyoung. — Corrigiu o descendente de coreanos.
— Sou o Vinicius. — Apresentou-se o outro.
Breno e Vinicius conversaram um pouco, com Vinicius vez ou outra puxando assunto com o novato, fazendo perguntas triviais a ele, para conhecê-lo. Após alguns minutos, o sinal do colégio tocou e mais alunos entraram na sala, juntamente com o professor. Foi um primeiro dia de aula padrão, com o professor apresentando-se e conversando com os estudantes mais do que qualquer outra coisa.
Durante o intervalo, Jiyoung acabou se enturmando com seus colegas de sala, fazendo amizade com Breno e sua roda de amigos, principalmente Bia, uma garota de cabelos curtos e negros, que possuía uma admiração peculiar por asiáticos e suas culturas.
— Então você vai mesmo para a Coreia em julho? Ai, meu sonho é ir lá um dia! — Comentou Bia um dia.
— Quem sabe a gente não se reencontre lá? — Jiyoung sorriu.
Breno se aproximou de onde eles conversavam.
— Minha mãe me mandou convidar meus amigos pra minha festa de aniversário. — Contou. — E como eu não tenho amigos, decidi convidar vocês mesmo.
— Claro, vai ser legal! — Jiyoung confirmou sua presença.
— Quando vai ser? — Bia perguntou.
— Seis de abril, na próxima quarta.
Avançando para o dia da festa…
— Toma. — Neto, outro amigo de Breno, ofereceu uma latinha de cerveja para o garoto de ascendência asiática, numa parte mais afastada das outras pessoas.
— Não, obrigado. — O jovem Kwon rejeitou educadamente. — Eu não bebo.
— Eu também não. — Respondeu Neto, embora em sua outra mão estivesse uma latinha já quase vazia. — Mas hoje é um dia especial.
Jiyoung decidiu aceitar a bebida, provando álcool pela primeira vez e achando o gosto estranho, mas não ruim.
Também com uma latinha de cerveja em mãos, Breno aproximou-se deles, iniciando uma conversa. No entanto, Neto logo os deixou quando sua namorada apareceu.
— Gostando da sua festa? — Perguntou Kwon.
— Nha. — Respondeu Breno. — Eu podia tá upando agora.
Jiyoung sorriu.
— Mas e aí, Jão… Tá de olho em alguma garota?
— Não… — Respondeu, meio sem graça.
— Você por acaso é gay? — O aniversariante foi direto ao questionar.
— Por quê? Tá interessado em mim? — O menor brincou.
— Tá me estranhando? Claro que não.
Os dois garotos permaneceram em silêncio por alguns segundos, com o descendente de coreanos procurando coragem para tomar alguma iniciativa. Foi grande a surpresa de Breno quando Jiyoung puxou seu rosto e o beijou, fechando os olhos, mentalmente temendo que Breno o empurrasse e/ou lhe acertasse um soco, entretanto nada disso aconteceu.
Foi a vez de Jiyoung se surpreender quando Breno retribuiu o beijo, que evoluiu de um simples selinho para um beijo francês.
Querendo afastar-se da multidão, Bia andava sem rumo quando encontrou os dois garotos, e se escondeu antes de ser vista.
"AI, MEU DEUS!", a garota gritou mentalmente enquanto controlava-se para não gritar de verdade. "MEU SONHO SE TORNOU REALIDADE! JINO É REAL!"
Bia pegou seu celular e tirou algumas fotos, saindo correndo dali assim que viu os dois garotos se afastarem.
— A gente…
— Bebeu demais. — Jiyoung interrompeu Breno. — A gente tá bêbado e não sabe o que tá fazendo.
— Faz sentido. — Concluiu Breno, tomando a iniciativa de beijar o outro garoto novamente.
Em outro local da festa, Bia encontrou Vinicius.
— Você não vai acreditar no que eu acabei de testemunhar. — A menina disse ao sentar-se ao lado dele. — Advinha!
— O qu… — No entanto, Bia não deu tempo para Vinicius falar.
— O Breno e o Jiyoung estavam se beijando!
— Mentira! — Vinicius negou, incrédulo.
— É sério! — Ela insistiu. — Eu até consegui tirar umas fotos escondida.
— Só acredito vendo. — Bia mostrou a ele as fotos. — Não acredito!
Vinicius sentiu uma pontada de inveja e raiva surgirem dentro de si, uma vez que gostava de Breno há bastante tempo, mas nunca foi correspondido.
No dia seguinte à festa de aniversário, no colégio, Bia percebeu que Breno e Jiyoung estavam bastante quietos e um tanto afastados, então perguntou, mesmo sabendo a resposta:
— Vocês estão muito calados… Aconteceu alguma coisa entre vocês dois?
— Não! — Ambos os meninos responderam, em uníssono, o que fez a garota sorrir.
— Hummm… Eu tô de olho em vocês. — Bia disse para deixá-los nervosos.
Jiyoung e Breno conversaram normalmente no intervalo, mas continuaram fingindo que nada havia acontecido na noite anterior, e permaneceram assim por mais alguns dias, sendo apenas no dia onze que Breno finalmente teve coragem o suficiente para admitir a si mesmo que estava gostando de Jiyoung, declarando-se para ele e beijando-o próximo aos banheiros da escola. No dia seguinte, os dois garotos assumiram seu relacionamento para seus amigos mais próximos, e Bia os abraçou e gritou de felicidade.
Mas nem todos gostaram disso. O ciúme de Vinicius inflou ainda mais e ele arquitetou um plano desesperado para separar o casal.
Em um certo dia, Jiyoung estava procurando Breno durante o intervalo, e Vinicius aproveitou a oportunidade.
— Oi, Bereno. — Vinicius o chamou ao encontrá-lo.
— Coé.
Vinicius agarrou Breno e o beijou, mas rapidamente afastou-se, o empurrando.
— Breno, por que você fez isso? — Vinicius fingiu estar indignado.
— Como é que é?
— Por que você me beijou? — Mentindo, Vinicius olhou para Jiyoung, que estava atrás de Breno e tinha testemunhado a cena.
Percebendo que Vinicius não olhava para ele, Breno virou-se.
— Jão. Olha não é verdade. Não é o que parece, eu juro! — Ele tentou explicar-se.
Kwon se aproximou de Breno e Vinicius mal conseguiu conter sua ansiedade esperando que o garoto menor fosse bater em Breno ou iniciar uma discussão, entretanto, quebrando totalmente o clichê de cenas assim em fanfics de yaoi, tudo o que o menino de ascendência sul-coreana fez foi beijar seu namorado, sorrir e dizer:
— Eu acredito em você. — Jiyoung pegou a mão de Breno e o puxou para saírem dali, não sem antes virar-se e declarar: — Você é um péssimo ator, Vinny.
Vinicius ficou ali em pé por algum tempo, atônito com seu fracasso.
— Vou sentir saudades quando você for embora. — Breno confessou.
— Se você esperar, em dois anos eu volto e a gente pode morar juntos.
— Eu espero pelo tempo que for, mas não vai ser fácil.
— Pra mim também… Então vamos só aproveitar o tempo que ainda temos, tá bem? — Jiyoung sugeriu, sorrindo.
— Parece bom pra mim. — Breno concordou e beijou seu namorado.
O beijo foi interrompido quando um estranho portal se abriu próximo a eles, e do outro lado, o cenário parecia com uma cafeteria, de chão de lajotas em um padrão de xadrez, e sentado no banco do balcão de atendimento estava um homem jovem, ruivo, usando um paletó de época e segurando o que parecia um cetro contendo um cristal roxo na ponta, observando os dois garotos com a mesma expressão confusa que eles tinham.
Breno e Jiyoung sentiram que algo estava errado — ainda mais errado do que o portal — quando os arredores da escola começaram a assumir sua coloração esverdeada e desaparecer, como se a realidade estivesse deixando de existir. Por puro instinto, eles correram para dentro do portal antes que ele se fechasse.
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