Histórias de Marinheiro
1 Capítulo 1
Prelúdio do fim
Há muitos anos atrás eu e minha família tínhamos a prática de ir à praia todo fim de semana. Meu pai e minha mãe deitavam-se na areia abrigando-se do sol com protetores solares e guarda-sóis.
Meu irmão casula, Caio, naquela época tinha entre 11 e 13 anos não lembro ao certo. Brincávamos a beira-mar construindo castelos de areia e esses tipos de coisas que se costuma fazer quando é pequenino.
Naquela tarde as ondas estavam um tanto mais agitadas que o usual. O cheiro de algas marinhas se espalhava através do vento tramitava forte. A praia lembrava-me filmes de marinheiros e suas histórias sobre os segredos dos mares. “Uma tempestade está vindo” seria o tipo de coisa que o personagem principal diria, “Vamos catar conchas” foi o que Caio disse.
Eu estava cansado já passavam das 17:00 horas e nossos pais estavam em um bar perto da avenida que ficava em frente à praia.
– Vai na frente já já eu te alcanço – menti para ele – vou só descansar um pouquinho aqui.
Deitei-me na areia e ele foi em direção ao mar, agachando-se na água e procurando as conchinhas. O vento e o odor de algas me deixaram um pouco enjoado e depois de um tempo acabei pegando no sono.
Acordei com frio e notei que estava com o corpo dentro d’água. Quanto tempo eu dormi? Foi o meu primeiro pensamento. A maré tinha subido bastante já. Olhei ao redor procurando por Caio ele estava correndo pela água mais a frente, que estava na altura do seu joelho, sorridente.
E então começou toda a minha tormenta que me motivou a escrever essa carta.
Enquanto corria na água meu irmão tropeçou em algo, a primeiro momento não me importei. Mas após alguns segundos ele não levantou e comecei a me preocupar visto que ele estava submerso. Chamei pelo seu nome com um sorriso disfarçando a preocupação que crescia dentro de mim.
Sem resposta.
Caio?
Sem resposta.
Agora eu estava bastante preocupado. Corri na direção dele e ao chegar lá vi que algas enlaçavam suas pernas e estavam começando a enrolar-se nos seus braços e tronco como se fossem vinhas ou algum tipo de plantas parasitas não sei nem com o que comparar ao que vi.
Avancei sobre ele e tentei tirá-lo d’água. Somente a cabeça dele veio à superfície e o resto de seu corpo continuou submerso. Meu irmão estava inconsciente, porém ainda respirava, e isso serviu para me acalmar um pouco.
Olhei ao redor em busca dos nossos pais ou de alguém que pudesse me ajudar a tirá-lo dali, mas a praia encontrava-se completamente vazia e o quiosque onde eles estavam era muito longe.
Sozinho.
As algas agora estavam em sua cintura já e o mar ficando cada vez mais descomedido. Quando uma onda nos atingia: ficávamos submersos por alguns segundos. Eu tinha de fazer algo o quanto antes, mas o quê?! O tempo não estava correndo em meu favor.
Tive a ideia de cavar a areia por debaixo dele e puxa-lo para fora da água. Quando estendo minha mão para começar a cavar, sinto as algas se enrolando violentamente em meu pulso. Pareciam uma criatura viva.
A última pincelada para completar esse quadro de terror foi uma onda que se formava ao longe, era terrivelmente gigante e com certeza me separaria do meu irmão, não havia mais nada que eu pudesse fazer. Instantes antes de sermos atingidos pela onda Caio acordou, suas pupilas estavam com uma tonalidade esbranquiçada, as finas veias de suas bochechas estavam saltadas e o pescoço dele estava com duas protuberâncias dos lados. As algas me libertaram de seu abraço, então a onda me levou para longe dele.
O fim
Acordei em uma cama de hospital. Meu corpo inteiro latejava, principalmente meu pulso esquerdo (onde as algas se enroscaram), soro estava sendo injetado em minhas veias. Meus pais e Caio estavam sentados em sofás próximos da minha cama e ao perceberem que eu despertei vieram alegres até mim. Alívio tomou conta de mim ao perceber que meu irmãozinho estava bem.
– Graças a Deus você acordou meu filho – berrou minha mãe me abraçando com força – quando seu irmão nos chamou e disse que você tinha sido arrastado para o mar eu pensei...eu pensei... – e começou a chorar novamente. O meu pai também tinha os olhos inchados de tanto chorar, Caio me olhava e sorria aliviado que o seu irmãozão mais velho estava bem.
Após algumas horas de repouso fui liberado. Aparentemente eu tinha me afogado de algum jeito e o Caio foi o único quem viu e pediu por socorro.
Fomos dormir tarde aquela noite, nós quatro assistimos à vários filmes e acabamos dormindo ali no chão mesmo. Mais tarde fui acordado abruptamente por meu pai que corria comigo nos braços pelo corredor do hotel gritando por ajuda. O cheiro de algas marinhas preenchia as minhas narinas...
Eu não conseguia sentir minhas pernas e braços, provavelmente efeito dos remédios que me deram no hospital aquela tarde. Meu pai gritava e batia nas portas dos quartos, mas nenhuma era aberta, percebi que por onde passávamos um rastro de sangue era deixado para trás. Foi então que tardiamente percebi que o sangue vinha do meu pai que estava com as roupas destruídas e com um naco de carne em uma das pernas faltando do qual o sangue corria em pequenos jatos.
Após alguns segundos de fuga e desespero meu pai caiu rendido a exaustão e para suas feridas. Eu consegui mover um pouco as pernas. Comecei a recobrar os sentidos e as forças ‘bem na hora’ pensei, tentei levantá-lo e continuar fugindo seja lá o que estava nos perseguindo. Estava tão assustado que não conseguia falar e sempre que tentava, os únicos sons que saiam da minha boca eram gruídos.
Meu pai caiu novamente após alguns passos. Era um homem muito grande e eu ainda fraco não conseguia carrega-lo. O cheiro de algas, mofo e outros tipos de fungos (que era agora insuportável) estavam brotando no carpete e no papel de parede do corredor.
Uma risada veio do final do corredor que viemos.
– Vai filho, corra e não deixe que ele te pegue. Não tenho mais salvação então apenas vá. – Disse meu pai com sangue saindo por seu nariz. Ele quem?
Pensando nisso agora percebo como isso parecia uma cena clichê de filme de terror...quem me dera.
Sem hesitar, e me arrependo disso até hoje, eu me levantei e corri em direção ao elevador. Meu coração acelerado o frio na minha barriga parecia que me congelaria a qualquer momento, era isso o que chamavam de medo? Ou era algo pior? Sentia a morte se aproximando e tudo o que podia pensar era em sobreviver.
Escutei um estouro e som de vidro se estraçalhando. Atrás do meu velho as lâmpadas do corredor foram explodindo uma após a outra em sequência. O meu pai olhava para o teto com o peito arquejando e a respiração pesada. Continuei apertando freneticamente o botão do elevador. O plano era esse: Eu subiria o elevador e arrastaria papai para dentro e juntos iriamos conseguir fugir de seja lá o que fosse aquilo.
Minha mãe e meu irmão? Eu não fazia ideia de onde poderia estar. A lâmpada acima dele estourou e então a sequência de estouros parou. Ele olhou para o breu em sua frente e começou a berrar, até hoje os gritos dele ressoam em meus ouvidos, uma cobra saiu da escuridão, não, uma cobra não, uma serpente marinha. Sabia disso pois tinha visto uma idêntica uma vez na viagem da escola, mas como ela conseguia se mover fora d’água?
A serpente marinha rastejou sobre o corpo do meu pai e se enroscou em seu pescoço, ela parecia não ter fim e não parava de sair daquela escuridão. Após se enrolar no pescoço do meu pai começou a arrasta-lo para a escuridão que o engolia aos poucos. Os gritos cessaram. A gargalhada retornou e agora bem mais alta, o mofo e lodo se espalhavam por todo lugar empregando o meu olfato e embaçando minha vista. A porta do elevador abriu e cai para dentro dele.
Sozinho.
As lâmpadas voltaram a estourar rapidamente se aproximando do elevador que estava fechando suas portas. Eu, paralisado no chão do elevador apenas via o breu se aproximando e o lodo e mofo penetrando no elevador. A porta então finalmente fechou.
A coisa bateu com muita força na porta assim que ela fechou me fazendo soltar um berro de desespero. Bam. A porta estremeceu. Bam. A porta estava se amassando. Bam. Apertava todos os botões sem me importar qual eu apertava. Silêncio. Por entre a fresta que havia sido aberta pelas batidas nas portas do elevador uma mão muito branca e molhada apareceu e começou a forçar as bordas de uma das portas para abrir. A mesma que ao toque daquela mão decrépita começou a enferrujar e soltar um líquido marrom. Quando finalmente o elevador começou a descer a porta foi aberta. O que eu vi do outro lado não era meu irmão, era algo completamente diferente usando o seu rosto. Pendurados em seu cinto estavam as cabeças dos meus pais completamente vazias como se fossem máscaras de couro sanguinolentas.
A coisa sorriu enquanto aquela água verde era esguichada de seus lábios. O cheiro do mar era extremamente forte e me fazia se sentir leve como se estivesse flutuando na água do mar. As portas não estavam completamente abertas, porém enquanto não fossem fechadas o elevador não recomeçaria a descer.
– Você vai ser o próximo...irmãozão – disse a coisa apontando para mim – venha se juntar a nós e vamos dar um mergulho no mar, não precisa se preocupar em respirar, nós não precisaremos disso lá em baixo.
As cabeças começaram a sorrir juntamente com Caio. Percebi que não conseguia respirar. O elevador estava sendo inundado pelo líquido verde. Eu tinha de fazer algo ou morreria ali.
Não sei se foi a adrenalina do momento juntamente com o medo que tornou possível fazer aquilo. O fato é que eu sabia que iria enlouquecer (ou pior) se não fizesse nada, foi então que avancei na coisa e chutei a cabeça dela que em seguida agarrou minha coxa (o que me deixou com uma marca de queimado ali para o resto da vida) e tentou me puxar para fora de meu refúgio. Eu não parava de gritar. Continuei chutando e me debatendo até que consegui expulsa-lo do elevador que fechou as portas e desceu lentamente.
E assim iniciou-se minha fuga.
Fuga
Hoje faz 24 anos desde a morte de meus pais, quando cheguei no saguão do hotel descobri que era um prédio abandonado como se tivesse passado vários anos que ninguém pisava ali. As paredes cobertas de musgo igual a de navios que estiveram submersos por vários anos.
A polícia nunca conseguiu encontrar meus pais e meu irmão, obviamente eu fui tido como suspeito e posteriormente fui preso. Ao contar a história fui internado em um hospício e considerado culpado pelo desaparecimento de minha família.
No hospício conheci Hugo um pescador que foi internado lá pelo mesmo motivo que eu, segundo ele a coisa tinha possuído o seu pai que também era pescador. Histórias como aquelas se repetiam pela costa do país a séculos descobri mais tarde.
Alguns meses depois que fui preso e colocado no hospício acordei inquieto no meio da noite com o cheiro de peixe podre no ar.
Um grito.
Um baque surdo.
Silêncio.
Saio do quarto e me deparo com o corpo sem cabeça de Hugo estirado no chão, uma pessoa estava agachada perto do corpo de costas para mim. Eu grito. A coisa me observa com curiosidade, eu esperando ver aquele rosto distorcido do meu irmão me surpreendo ao ver um rosto de um velho. Assim como meu irmão naquele dia na praia, seus olhos estavam esbranquiçados e as veias de seu rosto saltadas. Ele não faz nenhuma menção de me atacar. No fim do corredor havia um buraco enorme na parede por onde provavelmente a coisa teria entrado. Eu realmente estou começando a odiar corredores. Pensei enquanto voltava para o meu quarto atrás de mim.
Ao entrar no quarto algo áqueo raspa meu pé e a marca em minha coxa começa a arder. O chão do quarto estava repleto de algas mortas e no fundo do quarto no encontro da parede com o teto olhando para mim estava A coisa que matou minha família e roubou o rosto de meu irmão. Sem hesitar corri e saí pelo buraco na parede do corredor. E mais uma vez estava em fuga.
Agora, anos depois, estou em outro buraco em um país inóspito e desértico bem longe do mar. Escrevo essa carta pois sei que não tenho muito tempo. O cheiro de algas e o mofo já se espalhou pelo quarto. Em poucos minutos aquilo vai estar aqui, mas dessa vez não irei mais fugir. Já estou cansado demais. Velho demais.
O cheiro da pólvora vindo das dinamites espalhadas pela sala se choca contra o do oceano dentro de minhas narinas.
Sinto falta da minha família.
Endereço essa carta para qualquer um que a encontre e não me um julgue louco.
Fique longe do mar e de seus mistérios, nós ainda não estamos prontos para o que habita as profundezas.
Tudo é real.
Não olhe para trás.
Assinado, Você.
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