História sem Nome
2 Capítulo I
Neste mundo existe um único tipo de leitor que os escritores querem alcançar, eles são aqueles que amam os livros como parte da família, sentem seus cheiros como flores no campo, internalizam as histórias e as marcas eles, os livros, deixam no mundo ou na alma das pessoas, há aqueles leitores que se identificam com um personagem ou uma parte de todos eles, aqueles que conseguem sentir o coração acelerar quando veem um clima mais intenso em uma cena ou aqueles que sentem compaixão quando entendem os motivos daquele vilão, mas ainda assim não tentam justifica-lo. Cameron era um desses leitores.
Ele não possuía um gênero literário favorito ou alguma história que gostasse mais. Isso não era porque os livros não mexiam com ele, e sim porque mexiam de tantas formas diferentes com suas emoções que ele simplesmente não poderia escolher. Ele era um amante da leitura, amava conhecer através dos livros pessoas novas e suas formas de pensar, ir para lugares que não existiam, mas que são incríveis, sentir das mais gentis até as mais arrebatadoras sensações. Cameron amava livros, essa era atualmente a única certeza que ele tinha, embora estivesse no auge dos 21 anos.
Durante as aulas de administração pública o garoto de olhos castanhos pensava no livro que estava lendo recentemente, sorria pequeno com o braço em frente ao rosto sentindo uma euforia genuína, acontece que o personagem principal acabava de receber uma declaração repentina e abarrotada de amor, Cameron queria voltar para casa e saber como ele reagiria, e como sua namorada atual lidaria com isso.
— A qual conceito ou fundamento a descrição se refere? Sr. Santiago? – Cameron ergueu os olhos contendo uma expressão confusa, ele olhou o texto entregue pelo professor de relance sorrindo contido um pouco sem jeito antes de responder em um tom suave. Parecendo desapontado em não ter pego alguém em flagrante o professor continuou a ministrar a aula após constatar a resposta correta do jovem. Santiago suspirou em alivio ao ver que o professor não prestava mais atenção nele, mas foi cuidadoso ao voltar a prestar atenção na aula para não se distrair novamente.
Cameron não era um dos melhores alunos, tinha notas boas o suficiente para se formar com orgulho, porém não era um gênio da administração. Ele também não fazia muita questão de se esforçar mais que o necessário, era um aluno mediano. Além de que, fazia algum tempo que o jovem de cabelos descoloridos em tom branco pensava se era realmente isso que desejava fazer, não que ele tivesse objetivos muito grandes, apenas pensou que administração seria um bom ramo para se trabalhar.
Ao fim da aula, Santiago recolheu suas coisas e decidiu que iria a pé, ele segurou a alça com uma das mãos e caminhou a passos lentos pela calçada da faculdade. Alquimis era uma cidade-capital, se situava no coração de Lifdrasil, enquanto andava Cameron retirava os fones do bolso e os conectava no celular deixando que o som aconchegante de He Comes The Sun acariciasse seus ouvidos durante a caminhada.
Era muito raro a cidade receber algum temporal violento ou ter muitos dias nublados, os dias eram corridos devido a rotina turbulenta dos trabalhadores, Alquimis também era conhecida por investir em tecnologia e ciência, as melhores faculdades estavam ali, assim como centros de pesquisa e desenvolvimento, as empresas ficavam espalhadas pelo país na intenção de equilibrar o território de forma econômica. Aos olhos de Cameron, Alquimis era uma cidade e tanto, ele se perguntava se o prefeito estudava tantos livros quanto podia e por isso administrava bem a cidade, assim como o Governador Geral de Lifdrasil.
Apesar da quantidade de informação visual e auditiva que a cidade continha, Alquimis estampava muitos cartões postais e atraia muitos turistas, bem como estudantes de intercâmbio. Cameron também já havia cogitado fazer intercâmbio, mas como ele poderia pensar nisso quando sequer tinha certeza se sua escolha era boa o suficiente para seu futuro? Ele suspirou junto ao final da música parando em um ponto de ônibus, os dias passavam cada vez mais veloz a ponto de apenas naquele breve momento Santiago perceber que já estava iniciando o terceiro semestre do curso que vinha lhe colocando incógnitas na cabeça.
Isso é para mim? O que eu vou fazer quando tiver um diploma? Devo abrir uma empresa? Empresa de que? Oh...eu poderia abrir uma livraria, gerenciar meu próprio negócio, talvez o pai me ajudaria com o capital inicial e alguns amigos podem querer fazer parte também. Será?
Antes que percebesse o ônibus havia chegado e desfazia um enorme vinco que tinha se formado em sua testa. Cameron não sabia bem explicar, ele apenas tinha a sensação de que por mais que pudesse ser bem sucedido com a administração, algo estava faltando. O garoto passou o cartão pagando a passagem e sentou-se em um banco mais ao fundo, na janela, deixando seus pensamentos voltarem a transbordar de sua mente.
Sendo filho único e com uma situação financeira que não provocava reclamações, Santiago não poderia dizer que passou por situações delicadas que justificassem seu estado de constante insatisfação. Ele tinha a oportunidade de fazer escolhas, tinha condições de arcar com essas escolhas e pais que o apoiariam independentemente de quais fossem. Era privilegiado, admitia. E isso fazia seu peito pesar, ele não queria ser ingrato ou mimado, queria fazer boas escolhas e atender expectativas tanto quanto outras pessoas queriam. Mas era mais fácil somente desejar do que alcançar tal objetivo, Cameron estava penando, porque naquele momento simples enquanto observava a paisagem borrada sequer prestando atenção na música que tocava, ele notou que mais do que não saber o que queria, ele não sabia quem era. Para Santiago, suas escolhas dali para frente definiriam o tipo de pessoa que ele seria para o resto da vida, e essas escolhas eram pesadas e densas demais para alguém que possuía apenas vinte e um anos.
Antes que percebesse, Cameron já passava pelas árvores bonitas de sua rua e inúmeras casas enfileiradas criavam um cenário perfeito de livro que o jovem garoto odiava, sempre que observava as casas irritantemente alinhadas em cores harmoniosas ele se lembrava de algo similar a um bairro de engomadinhos que dependiam dos pais. E Cameron sabia que aquela vizinhança era tudo, menos engomada.
O ônibus parou no ponto que Santiago desceria, com preguiça e ainda pensando nas coisas que rondavam sua mente ele desceu do veículo para seguir caminhando por alguns minutos até que pudesse chegar em casa. Entretanto, uma calopsita se aproximou do rapaz com cautela o rodeando enquanto voava até pousar em seu ombro gentilmente cedido pelo próprio Cameron.
— Ora boa tarde, Kiwi. Como vai? – cumprimentou o pássaro já conhecido olhando ao redor até que seus olhos pousaram em Jenna que descascava uma laranja sentada na calçada de sua casa. Ele olhou para os dois lados da rua atravessando assim que constatou que nenhum carro vinha, durante o processo, Cameron retirou os fones e seguiu até a casa da garota se sentando a seu lado mesmo sem ser convidado, a calopsita ainda ficou um tempo acomodada em seu ombro até levantar voo e pousar na perna de Jenna, somente então ela ergueu os olhos sorrindo para Cameron.
— Olha só quem resolveu dar as caras, lembrou que tem amigos?
— Você é dramática demais. Não foi para faculdade hoje porquê? – Santiago perguntou após revirar os olhos para o drama da amiga voltando a atenção para Kiwi que exigia um pedacinho da laranja.
— Precisei acompanhar meu avô na consulta de hoje, minha mãe não iria conseguir chegar a tempo. Antes que pergunte, sim.
Cameron fez uma careta esticando as pernas no asfalto levantando os olhos para olhar os pedaços azuis de céu que as grandes árvores da rua ainda o permitiam vislumbrar.
— É um alivio que ele esteja bem. Amanhã você irá?
— Desde quando você está interessado nos meus estudos, Cam? Sim, eu vou amanhã, mas trate de levar seu próprio lanche, não vou alimentar você de novo, folgado.
Jenna pôde ouvir com um meio sorriso o choramingo e manha de Cameron, eles eram amigos de infância, mas Jenna era exatamente um ano mais velha. Eles faziam aniversário no mesmo dia e mês, sempre compartilhavam a festa, os presentes, os amigos, os segredos, menos a comida. Jenna era magra, mas comia muito mais que Cameron e seu pai juntos, ela não passava do clássico 1,60 de altura e se exercitava somente por diversão. Desde nova ela odiava dividir comida, mesmo com Cameron, ela dividiria depois de muitas reclamações e alertas para que ele fizesse sua própria comida.
Apesar de tudo, Jenna cuidava do Santiago assim como ele cuidava dela. Eram completamente opostos, Jenna amava adrenalina, festas e uma boa aventura de trilha, já Cameron preferia seu quarto ou a biblioteca nacional de Alquimis, Jenna não precisava de mais de dois minutos para decidir algo, enquanto Cameron pediria algum tempo para pensar direito, todavia, mesmo sendo tão diferentes eram inseparáveis.
— Eu estava apenas preocupado, sua ingrata. Não pergunto mais nada, também não puxo mais assunto.
— Ora, mas o que é isso, está pegando drama por osmose, é? Onde aprendeu a falar desse jeito posso saber?
Cameron fez outra careta ao ouvir a fala da menina segurando a risada.
— Eu convivo com a venerada criadora da dramaturgia, Jenna McCartney conhece? Olha... O drama é mil vezes melhor que o meu, você deveria ver, uma vez ela fez o médico enfaixar seu dedo mindinho por causa de uma cutícula mal cortada, por pouco não engessa!
A essa altura Jenna estava rindo baixinho até deixar a gargalhada sair completamente, ela se encostou em Cameron olhando a rua, sua laranja já tinha chegado ao fim a algum tempo e Kiwi tinha voltado para casa pela janela aberta da casa cheio de preguiça.
— Eu não sou tão dramática assim... E eu tinha nove anos quando isso aconteceu ok? Se mamãe tivesse me explicado eu não ia achar que meu dedo estava caindo!
— Jen, o médico explicou cinco vezes para você... Se a Dona Lucy tivesse tentado explicar para você era capaz que acusasse ela de estar mentindo e ainda dizer que ela não te queria com todos os dedos no lugar.
— Eii! Isso não é verdade, ok? Eu estava apenas garantindo que meus belos dedos ficassem inteiros! Imagina uma eu sem dedos, que horror, Cam.
Jenna também era muito vaidosa, tanto quanto sua natureza aguentava, ela gostava de atividades com adrenalina e amava exibir como era boa nisso, na mesma medida que adorava se arrumar e receber elogios.
— Seria a mesma coisa da Jenna com dez dedos, nada mudaria.
— Você é um insensível sabia? Mas eu até acho que é verdade, eu continuaria sendo incrível mesmo com nove dedos.
A garota de cabelos loiros e corte Chanel sorria convencida enquanto se levantava animada. Ela olhou para o amigo oferecendo a mão para ajuda-lo, quando o viu se erguer Jenna o puxou pelo braço antes que ele rebatesse sua fala, o arrastando pela rua até a casa dos Santiago ouvindo-o resmungar para ir mais devagar.
— Você é muito sedentário, para de reclamar, seu molenga. – Eles seguiram ainda com reclamações de Cameron, quando chegaram a porta de madeira branca, o rapaz de olhos castanhos logo se moveu para abrir a porta.
Assim que seus pés pisaram no carpete bem limpo uma voz suave e calorosa vinda da cozinha chamou pelo nome do garoto com gentileza.
— Cam? Onde você estava? Eu e seu pai acabamos de almoçar. Oh, Jenna está aqui também! – a mãe de Cameron apareceu na sala secando as mãos na toalha com um sorriso logo completando. — Vocês já comeram? Temos frango à milanesa e legumes no vapor, vamos indo já para cozinha.
Raika era a típica mãe que cuidava do filho e dos amigos do filho como se fossem uma joia raríssima, sempre que Jenna ou outros amigos de Cameron apareciam ela os entupiria de comida e perguntaria a eles como estavam. Até quando estava no trabalho ela cuidaria muitíssimo bem do filho, deixando bilhetes, mandando uma mensagem ou ligando em todos os seus intervalos nem que fosse para dizer um carinhoso ‘olá’.
Quando entraram na cozinha o pai de Cameron, Godfrey terminava uma xicara de café e já se retirava do local segurando a pasta de couro.
— Oh, Jenna, estava com saudades da comida da sua tia? – Ele riu baixinho sabendo da relação da mais nova dos McCartney com a comida.
— Que horror tio! Assim fica parecendo que eu sou uma interesseira. – Jenna fez uma careta, mas também riu seguindo Cameron para sentar à mesa, Godfrey se despediu da esposa com um beijo na bochecha, que mesmo depois de 32 anos casada, corou abrindo um sorriso tímido, ele também se despediu do filho com um tapinha no ombro saindo para voltar ao trabalho.
Raika estava de folga e por isso perambulava animada pela cozinha, fez questão de montar o prato do filho e de Jenna os olhando em expectativa. Ela só se afastou deles quando ouviu elogios a sua culinária, voltou para pia cantarolando alegre continuando a lavar a louça enquanto os mais novos terminavam de comer. Jenna observou melhor o rosto de Cameron que a essa altura já havia se livrado da expressão suave que tinha ao se encontrar com a amiga na rua, parecendo notar seu olhar conflitante, Jenna se ajeitou tentando iniciar um assunto.
— Oh, temos trabalho para semana que vem, não esqueça de terminar os resumos.
— Eu sei, eu sei. – Revoltada por receber uma resposta tão desinteressada Jenna beliscou o braço do melhor amigo o ouvindo quase xingá-la.
— Porque está tão avoado? Aconteceu alguma coisa?
— Hm? Não aconteceu nada, só estou pensando
— E desde quando você pensa sem falar para mim o que está pensando? Vamos, desembuça. – Cameron revirou os olhos soltando um suspiro, apenas deu de ombros levando os pratos para pia dizendo a mãe que ele mesmo lavaria, a Srª Santiago que ouvia a conversa do filho com Jenna não comentou, apenas se afastou da pia avisando que estaria na sala assistindo novela. Jenna sorriu para Raika quando ela passou e levantou indo para perto do melhor amigo, a loira apanhou um pano passando a secar a louça sem deixar de encará-lo fixamente, ela se movia pela cozinha o fitando de olhos cerrados até Cameron soltar um suspiro vencido.
— Eu só estava pensando...quando você escolheu o curso que faria, como tinha certeza de que queria isso?
Jenna parou próximo do armário olhando para Cameron compreendendo a situação, ela suspirou cruzando os braços abrindo um sorriso gentil.
— Bem, eu sempre quis abrir uma loja de grifes, sabe disso. Trabalhar com os maiores estilistas do mundo, já pensou? E acredito que o primeiro passo seria entender a administração de uma maneira mais profunda, não é a minha escolha dos sonhos, mas é a escolha que vai me deixar próxima deles.
Cameron terminou o que fazia se virando para Jenna com um sorriso pequeno, apesar de ainda ter muitos questionamentos em sua mente, ele se sentia um pouco mais motivado.
Horas mais tarde a melhor amiga de Cameron se despediu dos dois Santiago da casa, ambos ficaram na sala assistindo televisão até a hora do jantar. Quando o Sr. Santiago chegou, ele e Cameron foram até a cozinha ajudar Raika a fazer o jantar enquanto conversavam sobre algum colega de trabalho de Godfrey.
O filho único dos Santiago começou a se perguntar se era aquele tipo de vida que queria, um emprego parecido com o do pai, algo similar ao que a mãe psicóloga fazia, ou ainda algo completamente diferente ao que eles possuíam. Quando terminaram de preparar o jantar os três se sentaram a mesa, ainda ouvindo Godfrey contar os ocorridos do trabalho.
— Pois eu fiquei sabendo que o diretor geral saiu arrumando a camisa dentro da calça, logo depois do supervisor de departamento sair também todo descabelado. A secretária do diretor não diz, mas o departamento todinho jura de pé junto que eles têm um caso.
— Ora, mas não duvido, semana passada você mesmo disse que ouviram barulhos vindo do almoxarifado depois deles terem entrado. – Raika completou com uma risadinha enquanto levava o garfo até os lábios, Cameron apenas ouvia tudo vagamente mexendo nos pedacinhos de frango de um lado para o outro no prato, Godfrey interrompeu a história parecendo notar que o filho não participava das teorias tentando refutar o claro caso entre o diretor da empresa e o supervisor de departamento como sempre fazia. Antes que a Srª Santiago pudesse apressar o marido para terminar de contar a fofoca a voz de Godfrey soou mansa.
— Cam? Está tudo bem? – Raika olhou para Cameron continuando a comer, ainda prestando atenção ao que os outros dois falavam. Cameron olhou o pai sorrindo para ele um pouco envergonhado por ter sido pego no flagra, se ajeitou timidamente na cadeira colocando mais comida na boca dando de ombros.
— Não é nada, só estava pensativo.
— Aconteceu algo? São seus amigos ou a faculdade está ruim? Tem alguém incomodando você? – A única mulher da família Santiago se remexeu na cadeira enchendo o filho de perguntas como uma leoa disposta a matar qualquer um pelo bem estar de seu filhote fazendo Cameron sorrir pequeno para a mãe.
— Não, mãe. Está tudo bem, não tem ninguém me incomodando.
— Mas...? – Godfrey perguntou logo depois de engolir a ultima colherada do jantar olhando de soslaio para o filho que suspirou alto se dando por vencido.
— Hm... Como vocês decidiram no que iriam trabalhar? Foi muito difícil? — Godfrey e Raika trocaram olhares por algum tempo antes dela iniciar sua fala de maneira mansa.
— Bem, eu já devo ter contado para você alguma vez, mas, quando eu estava no ensino médio, uma psicóloga veio conversar com as turmas. Algo parecido com uma palestra, o assunto era o mais falado da época, era sobre bullying, ela chamou alguns alunos como voluntários e fez algumas perguntas. Foi um dia bem marcante para as turmas do ensino médio daquela época, vários alunos choraram, principalmente os que eram agressores. Desde aquele dia eu fiquei fascinada a respeito do comportamento humano, por isso escolhi a psicologia. E é extremamente gratificante ver o meu trabalho fazendo diferença na vida das pessoas. – Quando Raika parou de falar, ela ostentava um pequeno sorriso e olhava com um carinho para Cameron como quem dizia que ele deveria se sentir exatamente assim ao falar da profissão. Cameron vacilou, ele não sabia se podia sentir tamanha fascinação com administração, estar satisfeito em realizar um grande negócio ou gerenciar alguma empresa, para ele parecia um serviço cansativo demais. Ele encarou o prato já vazio a sua frente por alguns segundo diferindo o que sua progenitora havia falado antes de olhar o pai perguntando com os olhos como tinha sido com ele. Godfrey levou algum tempo até perceber que era sua vez de responder, apenas depois de ouvir um pigarro de Raika e a ver gesticulando com a cabeça que ele se ajeitou soltando um murmuro antes de se pronunciar.
— Oh... Então, vejamos, eu apenas gostava muito de tecnologia. Desde pequeno, adorava entender como tudo funcionava, quando estava terminando o ensino médio acabei entrando em um curso de programação básico. Sempre achei muito fácil, e eu queria entender mais, foi assim que decidi que deveria cursar Engenharia de Software, e todos os cursos que envolvessem tecnologia. – Godfrey falava com um brilho no olhar semelhante a uma criança que acabava de descobrir algo muito interessante. O Santiago mais novo ficou frustrado, seus pais pareciam amar genuinamente o que faziam, assim como Jenna amava a ideia de unir as grifes famosas em uma só loja. Ele estava perdido, e não sabia o que fazer. Mas pelo menos sabia que não faria nada que não o deixasse com o sorriso alegre como o da mãe ou o olhar brilhante do pai, Cameron teve ainda mais certeza de que se haviam duvidas a administração não era para si.
— Por que está perguntando isso? A faculdade não está indo bem, filho? – Raika como sempre tinha um tom gentil e um olhar preocupado, seus olhos davam espaço para Cameron demorar quanto tempo fosse necessário antes de responder à pergunta. Godfrey havia se levantado e recolhido a louça, neste ponto da conversa ele terminava de tirar o sabão dos pratos, ele secou as mãos voltando para mesa, Raika colocava os potinhos de sobremesa para os três servindo um pedaço de torta para cada até que Cameron finalmente falou.
— Vou mudar o curso da faculdade. – Diferente de como estava durante todo o dia, o garoto tinha o olhar iluminado, parecia espontaneamente feliz com essa decisão, como nunca esteve desde que havia iniciado administração. A mãe o olhou com curiosidade e cuidado levando um pedaço da torta a boca e o pai arqueou a sobrancelha também curioso.
— E o que vai cursar?
— Ainda não sei, pai. Mas eu sei que não quero estar em um escritório pelo resto da vida até me aposentar. Acho que não me vejo fazendo qualquer coisa ligada a administração na verdade. Ver você e mamãe falando do que fazem, e também a forma que a Jenna falou sobre o que quer fazer, me ajudou a perceber que estou indo pelo caminho errado. – O mais novo dos Santiago falava enquanto comia a torta um pouco mais animado, o pai sorria caloroso e a mãe o olhava com orgulho ostentando um sorriso mais aberto.
— Não tenha pressa, meu amor. Você ainda é bastante jovem, pode escolher com calma. Mas agora me digam...
— Sim, querida. A torta está espetacular, assim como tudo que suas mãos fazem. – Godfrey sorria com carinho para esposa, esta por sua vez soltou uma risadinha o respondendo com falsa indignação.
— Não vale! Você sempre elogia tudo que eu faço, Cameron o que acha da minha torta? – O rapaz olhou para o pai, depois para a mãe com um meio sorriso antes de responder um pouco risonho.
— Um pouco doce...
— Ah! Está vendo, eu sabia que não estava perfeito.
— Para mim está ótimo... – Godfrey tornou a murmurar batendo o pé, logo ambos estavam em uma divertida discussão sobre a quantidade de açúcar que deveria ser colocada na torta da próxima vez. Cameron observava tudo com um silencioso sorriso. Seus pais pareciam um casal de livro as vezes, tantos anos juntos e o pai ainda flertava vez ou outra com a mãe, assim como ela ainda preparava surpresas inesperadas para o marido. Ainda trocavam cartas em datas comemorativas e a troca de olhares as vezes era tão intensa que Cameron tinha que se retirar para não sentir que estava sobrando. Claro que eles usavam do máximo de discrição possível, mas não era como se tivessem vergonha de demonstrar o que sentiam um pelo outro todos os dias. O filho adorava, ele não entendia muito bem como era possível estar com alguém durante tantos anos, mas achava a relação dos pais muito bonita.
O resto da noite se seguiu calmamente, já em seu quarto Cameron apanhou o caderno que usava para se organizar. Iniciou suas anotações do que precisaria fazer para trancar o curso de administração e em uma folha separada começou a listar cursos de áreas que se sentia mais à vontade. Depois de algumas horas se organizando e ignorar mais uma vez o enorme acumulo de mensagens no celular, Santiago apanhou seu livro se acomodando próximo a janela, agora finalmente saberia se o personagem principal rejeitaria o melhor amigo e mais, se a namorada atual dele também lhe daria um fora.
Cameron estava sentado em uma posição complicada de se descrever, com os olhos tão grudados nas páginas que mal piscava. Sorria largamente soltando alguns sons incompreensíveis até finalizar a última página, Santiago fechou o livro solenemente e soltou um suspiro. Ele passou alguns segundos encarando um ponto qualquer do livro e exclamou o mesmo que sempre exclamava após terminar um livro.
— Porque eu li tão rápido? Ainda não acredito que os três ficaram juntos no final, muito exótico. – Santiago levantou de onde estava e se jogou na cama após guardar o livro, apagou a luz do quarto resmungando alto ainda inconformado por ter terminado de ler tão rapidamente de novo, ele se embrulhou na colcha leve se ajeitando de maneira que pudesse encarar o teto escuro. Deu de ombros decidindo ir à biblioteca no dia seguinte, precisava superar o recente término do romance que leu, quem sabe um pouco de aventura dessa vez.
Cameron bocejou se aconchegando na própria cama e deixou os próprios pensamentos rondarem sua mente, a trama que tinha lido e as que ainda leria, será que ele deveria considerar escritor como uma de suas profissões? Cameron riu para si mesmo, apesar de amar a leitura, não era muito fã da escrita, foi com os pensamentos nos livros e no que faria dali em diante que o garoto de cabelos platinados adormeceu, incerto com seu futuro, mas agora com a certeza de que não era tão ruim assim não saber o que fazer ainda, ele deveria respeitar seu próprio tempo.
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