História de Bar
1 História de Bar
Notas iniciais
Fazia um bom tempo que eu não dava as caras por aqui, mas hoje lembrei de um conto que escrevi há algumas semanas e decidi trazê-lo a vocês. Apenas mais um devaneio meu.
Boa leitura.
Senta que lá vem história. E essa é uma daquelas de bar. Nada extraordinário.
Eu sempre fui de ter muitos amigos, sempre saindo, sempre nos divertindo e gastando dinheiro juntos. Um paga um ingresso pro outro, e na vez seguinte, o outro paga uma bebida pro um. Principalmente cinemas. Ah, os cinemas... já vimos tantos filmes que já nem me lembro mais. Mas às vezes, é bom sair sozinha. Foi em uma dessas vezes que eu tive uma experiência um tanto atípica.
Era noite, e eu precisava muito sair. Sentia que se eu não saísse dessa casa e me divertisse um pouco, meus neurônios explodiriam. E não que eu quisesse sair sozinha daquela vez, mas aparentemente o universo não estava conspirando a meu favor. Um amigo estava viajando, o outro na casa da mãe, o outro doente, outra tinha saído com o namorado e aí por diante. Bom, o jeito era ir sozinha.
Fui num bar que ficava um pouco longe, mas ao menos era bem frequentado. Tinha uma iluminação aprazível; umas mesas para duas, quatro e até seis pessoas; bebidas diversas para todos os gostos e pessoas bonitas. Ora, que mais eu iria querer?
Logo que entrei, notei algo diferente. Nunca havia visto aquele bar man, provavelmente era novato ou alguma coisa assim. Sentei em um dos bancos que davam para o balcão e ele me atendeu. Moreno, bonito, fugaz. Era provável que tivesse um belo corpo também. Dava para perceber pela camisa justa.
— O que a princesa vai querer hoje?
— O especial de limão. – Respondi com frieza, diferente dele, que esbanjava um sorriso tão belo que eu já não sabia se aquilo era um bar ou algum tipo de paraíso.
Ele preparou o especial atrás da bancada, olhando de relance na minha direção de dois em dois minutos. Eu debochei em silêncio. Depois que o drink ficou pronto, ele me entregou com tanta suavidade que pensei que plumas estavam apoiando seu braço. Eu agradeci, me virei, e me pus a beber sem pressa.
Cerca de um ou dois minutos depois, entrou um cara no bar. Depois de vê-lo, pensei “Será que já estou bêbada? Ora, mas tomei apenas três goles! Nada mais que três goles!”. Pois eu jurei ter visto o homem do balcão entrando pela porta da frente. Olhei para o outro lado e ele ainda estava lá. “Ah, a luz. Claro que foi a luz. Afinal, a daqui é tão amena, e eu bebi apenas três goles... quatro.”
Assim a noite se passou. As pessoas cantando no karaokê, dançando aos pares entre as mesas, bebendo o que quer que fosse para lá e para cá. E eu também. Foi como as minhas idas ao cinema: tantas que já nem me lembro mais.
— Você gosta de blues? – Perguntou o moço do balcão. Eu disse que sim, claro, mas mal tive tempo de dizer mais alguma coisa, alguém o chamou lá dentro. Uma voz de senhora, devia ter pra lá dos 50 anos. Devia ser a mãe, ou quem quer que fosse. – Me dá licença um instante?
— Claro. – Disse eu, tão carismática que nem acreditei. Ele retribuiu o sorriso e entrou. Por um momento, poderia jurar que as garrafas estavam se mexendo.
— Ei, será que posso te pagar uma bebida?
— Que? – Perguntei desnorteada. – Você já voltou?
— Voltei de onde? – Ele respondeu sorridente.
— De... ah deixa pra lá. Então... eu gosto de blues.
— Ah é?
— Sim, você não... ah, esquece. – Tudo estava tão confuso. Uma hora ele me canta, me pergunta o que vou beber, depois me pergunta sobre blues e entra. Outra hora ele me aparece fora do balcão, do meu lado, me perguntando se quero uma por conta da casa e não lembra que gosto de blues. Será que ele bebeu tanto quanto eu?
— Então... qual é seu nome?
— Meu... ah meu nome. Sim, sim, claro. Pode me chamar de “Ei”. Gostei de você falando assim. – Ele sorriu outra vez. – E você?
— Nesse caso, pode me chamar de “Que”.
Então conversamos, falamos sobre nossos gostos, em especial bebidas e cachorros. Falamos sobre como odiávamos uva passa no arroz e sobre as vezes em que sofremos micos impagáveis.
Ele se tornou tão meigo em minutos. Foi como se um raio de personalidade caísse sobre ele enquanto conversávamos. Trocamos números de telefone. Ele anotou o seu num guardanapo de papel que havia ao lado, mas eu acabei esquecendo de lhe dar o meu, pois logo em seguida, ele apareceu atrás do balcão. Eu pensei estar muito bêbada. Realmente, a ponto de enxergar a mesma pessoa duas vezes. Foi também quando minha visão começou a ficar turva. E desde então, eu não tenho mais memórias daquele dia. Lembro apenas dele falando logo depois, algo como “Nossa mãe quer fechar o bar mais cedo hoje”.
Acordei na manhã seguinte sobre a minha cama, com os raios de sol entrando pela persiana e com as roupas úmidas em minha pele. Devo ter pego chuva antes de chegar.
Depois de uma boa xícara de café e de um bom remédio para dor de cabeça, eu comecei a pensar. Cheguei a conclusão de que não, eu não havia bebido tanto assim. “Nossa mãe... nossa mãe...”.
É claro. Eram gêmeos. As trocas de personalidade, as mudanças de lugar, a “mesma pessoa” duas vezes ao mesmo tempo. E a única coisa que eu sei, é que um se chamava “Que”, que odeia passas no arroz, tem dois cachorros e escorregou numa poça na frente da escola inteira quando tinha 8 anos, e que o outro era estagiário do bar. O número de telefone? A chuva estragou o papel enquanto eu voltava para casa.
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