História De Angeline
1 Nascimento e morte
No dia em que eu nasci, chovia muito.
O velho casarão dos Browning estava escuro e apenas as velas e os relâmpagos enchiam o quarto de luz. Minha mãe suava muito e o risco era grande de que ela não resistisse. Ela sofria de problemas de coração mesmo antes de meu nascimento.
Enfim quando nasci, ela estava ansiosa para ver a herdeira e primogênita da família Browning. Foi quando o médico, a encarou espantado e desesperançado. Ela não estava entendendo o porquê. Até ele conseguir pronunciar a seguinte frase e deixar o mundo dela nos pés.
“Ela não está respirando. Seu coração está tentando o máximo a continuar a bater. Ela não sobreviverá além dessa noite. Me desculpe Anne”
Ela me pegou em seus braços e apenas chorou e esperou a minha morte chegar. Ela sabia que estava chegando o inverno e eu teria uma morte mais rápida e dolorosa. Mas isso não aconteceu. Eu não apresentava melhoras e nem pulsação constante ainda. Quando o quadro clínico dela piorou, o meu piorou junto.
“Anne Johanna Marie Kate Mavis Irisis Stonem di Angelitte Bromellim Browning, ou condessa Anne Kate Browning está completamente insana. Ela ouve vozes e vê pessoas a vigiando no casarão. Seus problemas cardíacos e mentais se agravaram após o nascimento de sua herdeira Angeline Elizabeth Cristina Helena Kathryn Mavis Irisis Stonem di Angellite Bromellim Browning. Será agouros de morte da Condessa ?” jornais escreveram isso por semanas.
As empregadas do casarão sentiam pena e medo de mim. Porque eu não estava nem viva nem morta. Mesmo assim eu sentia que minha mãe estava mal. Minha mãe chorava e gritava muito todas as vezes que se lembrava de meu pai e de como eu havia nascido.
No crepúsculo do primeiro dia de neve, ela me deixou no portão do cemitério do casarão. Ela tinha certeza que eu morreria de hipotermia. E as vozes e agouros iriam deixá-la em paz. Muitas empregadas choravam desesperadas porque não apenas ela poderia morrer mas por dó, eu era apenas um bebê apesar de quase morta.
Nesse dia, meu tio Klaus acabara de chegar para ver o quadro clínico de sua irmã Anne Kate. Ele havia passado boa parte de sua vida na Transilvânia como pesquisador de doenças causadas por fungos. As pessoas temiam ele porque haviam boatos que ele foi visto morto na beira de um rio. Outras, que ele foi visto abrindo túmulos em um cemitério local. O que para eles eram não boatos mas afirmações. Meu tio sempre foi pálido, mas as pessoas diziam que aquele local havia feito a pele dele clarear mais, o dando um aspecto doente.
Lílian, a governanta desesperada e a mais corajosa do casarão o avisou que eu estava prestes a morrer de hipotermia. Mas ela não podia me salvar por estar doente. Ele correu para lá e me salvou. Ele me mordeu e esperou. Lílian presenciou todo o momento com uma velha coberta em suas costas, ela desmaiou umas cinco vezes. Mas esteve lá o tempo todo.
Os dois, sentados em frente ao portão do cemitério, me esperando voltar do mundo dos mortos. Pedindo à Deus uma chance para que eu pudesse pertencer ao mundo dos vivos. Foi quando eu abri os meus olhos, primeiramente vermelhos, que eles tiveram certeza de que eu poderia viver novamente.
Lílian me carregava de volta ao casarão, cambaleando enquanto meu tio permaneceu lá por mais algum tempo. Lílian me entregou nos braços de minha mãe, que gritava horrorizada.
Por muito tempo foi assim. Eu aterrorizei as empregadas e a minha mãe. Aos poucos as empregadas se foram e minha mãe estava pior do que nunca. Mas ela não era a única. Lílian estava realmente morrendo. Klaus explicou milhões de vezes a minha mãe que eu não era um problema e que eu iria me desenvolver mais devagar apenas, eu não era uma ameaça a ninguém.
A única coisa que a acalmava além de um coquetel de remédios era o piano. Ela tocava divinamente. Seus cabelos pretos caíam pelas costas do vestido e pareciam parte do grande piano.
Depois de dois anos Lílian se tornou como eu. E depois de quatro, minha mãe enrolou um longo pano na sacada de seu quarto e pulou.
Lílian disse que o funeral dela foi a coisa mais triste e bonita que ela já havia visto. O corpo foi separado do coração. O corpo foi enterrado no cemitério do casarão e o coração foi cremado e guardado em uma urna.
Nenhum jornal mais falava da morte da condessa Anne Kate Browning, nem de sua herdeira, nem de sua fortuna... de nada. Por longos 296 anos.
Eu cresci e aprendi muitas coisas com meu tio Klaus, como a caçar, subir em árvores, cavalgar e falar vários idiomas. E Lílian me ensinou a andar, falar, ler, e a beber a cor vermelha. Lílian e meu tio Klaus foram como meus pais.
Até o ex-patrão do meu tio mandar uma pessoa me matar para que ele voltasse ao trabalho.
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