História 10 - ANJO
21 Capítulo Extra - PARTE I
Notas iniciais
Hitsugaya, no momento, estava novamente sentado em seu habitual gabinete e terminava, sozinho, os habituais relatórios que sua divisão recebia e, como habitualmente acontecia em épocas de paz e tranquilidade, Matsumoto não havia chegado ainda. Talvez a ruiva preferira dormir um pouco mais, ou talvez, passou em alguma outra divisão para conversar e matar trabalho.
A vida retornara ao normal.
Conforme prometido no dia anterior, o capitão fora visitar — logo antes do seu horário de trabalho — a garota que havia esperado o acordar durante 3 anos. Os mesmos 3 longos anos e que a agora não pareciam nada mais que um pesadelo ruim que finalmente havia terminado.
No entanto, ao ir visitá-la, encontrou-a dormindo de forma bem relaxada e descontraída, o que o fez pensar que talvez estivesse muito cansada — o que se provou ter uma boa chance de ter acontecido, pois ao grisalho olhar minimamente o local, ligo pôde reparar no enorme número de peças de roupas e sacolas de compras espalhadas pelo quarto -, pois do contrário ela certamente haveria reparado em sua presença no ambiente.
O rapaz acertou.
Após sua saída no dia anterior, Yuzu logo serviu o jantar e sem nem dar tempo da irmã mais velha digerir sua refeição, ela e Matsumoto obrigaram a pobre garota a vestir todas as peças que haviam comprado para ela no dia. Karin até tentou fugir, mas não houve escapatória. A pobre morena, ao terminar o infinito desfile que fora obrigada à fazer, cansada e com pouca paciência, jogou-se na cama e adormeceu quase que imediatamente, fazendo apenas uma nota mental para não esquecer que Toushirou iria visitá-la logo ao amanhecer. E o lembrete realmente foi feito, mas a jovem não conseguiu acordar, pois apesar de seu corpo estar mais descansado, o desgaste mental no dia anterior fora deveras alto. Karin, então, continuou a dormir.
Hitsugaya, no entanto, já estava bastante satisfeito em apenas ver que a garota estava bem. Despedindo-se depois de algum tempo de observação, finalmente voltou ao trabalho. Agora, silencioso, terminava um relatório enquanto vez ou outra se perguntava se a jovem já estaria acordada e se talvez, mesmo que inconscientemente, percebera sua ida furtiva ao quarto dela.
O sol já estava alto e os pássaros cantavam, enquanto a brisa fresca da tarde de verão adentrava à sala do jovem capitão, balançando de leve os fios grisalhos e trazendo o leve aroma da natureza para o ambiente escritorial. O dia estava perfeito e tranquilo.
Em contraste com tamanho silêncio e tranquilidade, ouviu-se o bater na porta, anunciando a chegada de alguém. O grisalho apenas exclamou um “entre”, sem tirar seus olhos do papel que pela terceira vez revisava por ter se perdido em devaneios nas últimas duas vezes em que tentara concluí-lo. A porta se abriu e um shinigami de óculos e com um corte de cabelo um tanto militar entrou.
— Bom dia, Hitsugaya-taichou. Gostaria de falar com o senhor, se possível. — Anunciou Mahiro, cauteloso.
— Certo… Bom dia, Masashi. Algum problema? — Perguntou o rapaz em tom desinteressado ainda sem lhe olhar.
Mahiro estranhou o tom do grisalho, pois sua estádia com o superior lhe rendeu uma boa dúzia de pressão psicológica e ameaças de morte. O repentino tom calmo e desinteressado dele ainda não lhe era conhecido.
— … — O ex-assistente de laboratório pigarreou. — Bem, recebi meu pagamento ontem pelo trabalho na antiga divisão tecnológica e o valor não me parece correto. — Explicou um pouco receoso.
Hitsugaya finalmente levantou seu olhar para Mahiro e este, por sua vez, retesou-se esperando algum gritou ou repreensão.
— Está faltando algo? — Perguntou somente o capitão ainda mantendo o mesmo tom.
O oficial realmente não conseguia entender a incrível mudança que o rapaz sofrera desde a época em que trabalhara com ele. Hitsugaya parecia ter rejuvenescido anos, seu rosto parecia mais jovial, assim como sua voz, além de não haver qualquer indício de ameaça ou irritação; e por último, mas não menos expressivo, o olhar do grisalho parecia ter se tornado mais vivo e intenso, além de ter ganhado um considerável brilho.
— … — Novamente o homem pigarreou. — Na verdade, está sobrando. — Comentou. — De acordo com o tempo em que trabalhei, o valor deveria ser 60% do valor que recebi. Sendo assim, creio que deva ter ocorrido algum erro. — Explicou.
O capitão arregalou levemente o seu olhar e, por fim, largou os papéis em sua mão.
— Ah, é sobre isso que estava falando… — Disse em tom despreocupado enquanto recostava-se na cadeira. — Não há nenhum erro quanto à isso. Eu mesmo mandei que fosse depositado o valor total. Antes que se adiante, caso não lembre, é o valor que lhe foi oferecido no contrato. Era só isso ou tem mais alguma coisa que queira discutir?
— Mas Hitsugaya-taichou, esse valor só se aplicaria se eu tivesse continuado a trabalhar o tempo que fui contratado para exercer minha função. No entanto, fiquei apenas alguns dias, não chegando até o final da carga horária estipulada. — Argumentou o cientista.
— Embora não tenha trabalhado “in loco” durante todo o tempo estipulado, acabou ficando internado durante alguns dias na 4° divisão, perdendo seu dia de trabalho na sua divisão de origem. Sendo assim, é compreensível que se tenha uma restituição pelo dias perdidos. — Contra-argumentou o grisalho. — Pela última vez, tem algo mais que queira discutir? — Questionou novamente sem interesse e voltando a olhar os papéis na mesa.
— … — O homem ponderou alguns instantes.
Hitsugaya, reparando que Mahiro continuava na sala e parecia estar em dúvida sobre continuar, insistiu.
— E então? — Pressionou.
— Hitsugaya-taichou, me permitiria fazer uma pergunta? — Finalmente falou.
O grisalho se interessou em saber do assunto, já que o subordinado geralmente lhe temia — o que definitivamente era compreensível considerando sua situação — e ainda parecia estar meio em dúvida se poderia conversar.
— Faça. — Concordou o olhando novamente.
— Bem… A Kurosaki-san acordou após 6 meses do prazo estipulado e, também, soube que mesmo em coma (fisicamente falando), ela ainda permanecia consciente sobre tudo que acontecia à sua volta. — Expôs categoricamente. — Sendo assim, se não for insolente de minha parte perguntar, gostaria de saber o porquê de terem se passado meio ano do tempo ideal. — Finalmente expôs.
Embora toda a história sobre a Zona de Deus ter se acabado, essa dúvida ainda tirava o sono do curioso cientista.
Hitsugaya bufou e soltou a caneta que antes segurava para assinar as folhas de relatórios. Seus olhos se direcionaram para a esquerda, buscando em sua mente a resposta exata que Karin lhe dera após acordar — afinal, esta fora uma das primeiras perguntas que o grisalho fizera a garota após certificar-se de que ela não voltaria à adormecer por outro longo período.
— Não acho que tenha problema que saiba, já que era um dos envolvidos no projeto e já sabe todo o resto… — Comentou o grisalho. — “Gastei toda minha reiatsu junto com a sua naquele dia. Depois disso, comecei a juntar o que o tanque liberava para curar meus ferimentos e, por fim, para não exagerar, comecei a absorver durante esses 6 meses, o suficiente para restabelecer meu poder. Em resumo, fui eu mesma que roubei a energia do tanque de noite, já estava um pouco impaciente de ficar parada muito tempo, mas ainda pretendia ficar lá umas duas semanas… Mas decidi acordar de uma vez, dando fim também à absorção. Foi por isso que o gasto de reiatsu chegou a ser praticamente nulo antes de eu acordar!”. Foram exatamente essas palavras que ela disse quando perguntei. — Hitsugaya, é claro, modificou o final e ocultou que fizera promessas e súplicas para a garota acordar e que este fora, na verdade, o motivo final para que ela se apressasse em seu despertar.
— Compreendo… — Respondeu o assistente com sua curiosidade finalmente saciada.
— Mais alguma dúvida? — Quis certificar-se o jovem.
— Não. Nenhuma, senhor. Agradeço por ter me dado a oportunidade de trabalhar para o capitão e a tenente Matsumoto. — Agradeceu respeitosamente o ex-assistente ao se curvar ligeiramente.
— Certo. Fez um ótimo trabalho. Agradeça a sua irmã também pela assistência que ela prestou no outro dia. Foi muito útil ter alguém mais para entender aquela máquina. — Admitiu o jovem.
Mahiro já ia se despedindo quando começou a ouvir risos alegres e um tanto bobos se aproximando da sala. Ao olhar para o jovem capitão, que até agora parecera tranquilo e de bom humor, finalmente conseguiu identificar certa irritação em seu estreitar de olhar.
A porta se abriu repentinamente e de forma bruta e, por ela, entrara uma mulher ruiva e de passo meio cambaleante enquanto ria alegremente abraçada ao antigo capitão da 10°divisão — tão cambaleante e alegre quanto ela.
— Matsumoto! — Gritou o atual capitão da respectiva divisão. — O que é toda essa baderna na minha sala? — Exclamou um tanto irritado.
A tenente, de fato, estava 100% recuperada.
— Taichou! O que faz aqui? — Exclamou alegre reconhecendo a figura do jovem. — E o Mahiro-kun também está aqui! Ohayou!
— Shirou-shirou! É o Shirou-Shirou! — Apontou Isshin da mesma forma alegre que Matsumoto.
O ex-assistente olhou incrédulo para os dois oficiais recém-chegados. A tenente, em especial, não parecia ter qualquer sombra da mulher trabalhadora e eficiente que Mahiro conhecera na unidade tecnológica.
— Quietos! — Ordenou o grisalho massageando as têmporas em irritação. — Estou fazendo o quê você deveria estar fazendo: trabalhando! — Exclamou, mas a mulher continuava risonha.
— Mas eu não entendo como pode, taichou?! Trabalhar num dia tão lindo? — Reclamou ela.
— Eu é que não entendo com já podem estar bêbados em pleno expediente! Não tem vergonha, Shiba-taichou? — Questionou o rapaz.
O mais velho analisou a pergunta brevemente em meio ao seu olhar embriagado.
— Qual é, Shirou-shirou?! Qual o problema em ser um pai feliz? Minha filhinha acordou! — Argumentou o mais velho alegre entre gargalhadas bobas.
— Ela acordou já faz bastante tempo! Não a use como desculpa! — Irritou-se o rapaz. -Ser feliz e estar bêbados à essa hora são coisas bem diferentes! — Contra-argumentou. Cansado e já acostumado com o comportamento inadequado de seus ex-superiores, bufou e sentou-se. — Se querem ser “felizes”, ótimo! Façam isso longe da minha sala! O cheiro de saquê e as risadas idiotas de vocês estão me dando dores de cabeça. — Declarou.
Matsumoto alargou o sorriso e um brilho malicioso passou por seu olhar.
— Taichou… — Chamou de forma arrastada. Um mau-presságio afligiu o grisalho. — Não era para o senhor estar de folga hoje?
O capitão não entendia bem o porquê, mas a insinuação da ruiva lhe pareceu mais uma afirmativa.
— Não me lembro de ter dito que tiraria alguma folga hoje, Matsumoto! Do que está falando? — Retrucou ele desconfiado. E, embora tenha perguntado o motivo, não sabia vem se realmente queria que ela o respondesse.
O sorriso malicioso se alargou mais ainda.
— Taichou, sabia que ontem eu passei o dia com as filhas do Shiba-taichou? — Perguntou ela.
O rapaz passou a ter cada vez mais certeza de que não deveria ter perguntado.
— Se passou, ótimo para você, mas não me interessa o que você fez ou faz da sua vida fora do trabalho, Matsumoto. — Respondeu ele tentando finalizar o assunto.
Mas o sorriso da mulher em nada diminuiu.
— Óh, é mesmo… Então você também não se interessa pelas minhas conversas com a Yuzu-chan sobre a Karin-chan, não é? — Sugeriu ela.
O rapaz tinha total certeza de que havia algo por trás desse questionamento. Era Matsumoto, ela sabia de algo. Muito provavelmente descobriu sobre sua visita no dia anterior, mas enquanto ele não falasse nada, ela não teria recursos para importuná-lo. Bastava, então, ignorá-la.
— Exatamente! E já que entende, pegue o Shiba-taichou e junte-se ao Masashi que já estava de saída. — Respondeu ele a baixar seu olhar e fixá-los em seus papéis, mesmo que não estivesse realmente prestando atenção neles.
O ex-assistente, até então ocupado com o olhar analitico do ex-capitão da 10° divisão, finalmente se lembrou ainda estar na sala do atual capitão da divisão.
— Entendo… Uma pena… Achei que você fosse visitar a Karin-chan hoje, já que alguns garotos já iam lá… Como era o nome dele mesmo? O rapaz que estava com a Karin-chan no dia do incidente? — Questionava-se ela fingindo inocência. — Yada… Yama… Yaga… Yagami! Lembrei! Pelo que ouvi se já era um adolescente muito bonito e ficou ainda mais depois de adulto, acredita?
O grisalho permaneceu quieto e bufou cansado sem tirar seus olhos dos papéis.
— Matsumoto, pela última vez… Se não veio para trabalhar, vá embora e me deixe trabalhar. Se continuar aqui, vou esquecer que andou trabalhando decentemente nos últimos 3 anos e encherei sua mesa de relatórios para fazer. — Ameaçou o grisalho.
O antigo superior do capitão olhou um pouco decepcionado para o rapaz, mas a ruiva logo o puxou para sair.
— Não precisa me expulsar, taichou! Eu já estava de saída! — Anunciou ela. — Vamos, Masashi-san! Venha com a gente! Por que não bebemos um pouco? — Convidou-o.
Mahiro nem teve tempo de responder e o próprio capitão já o fazia por si.
— Pare de convidar os shinigamis para suas farras, Matsumoto, e deixe-os trabalhar! — Ordenou o rapaz, indignado.
A ruiva abriu um enorme sorriso e um alerta soou na mente do capitão. Ela fizera de propósito.
— Eu só estava convidando, taichou! Aceitar ou não é por conta dele… E taichou… Você falou do cheiro da bebida, mas não é ele que está forte. Você passa bastante perfume, o bastante para saber onde esteve ou… com quem esteve… — O sorriso da mulher se via em seu mais vitorioso estado.
— Matsumoto! — Gritou o capitão pela última vez enquanto a tenente, risonha, saia porta a fora.
Estressado, afundou em sua cadeira enquanto bufava cansado. A subordina realmente era alguém difícil de lidar.
Enquanto isso, do lado de fora da sala, Mahiro afastara-se assim que pôde da dupla bêbada, deixando para trás a tenente risonha e o capitão a resmungar decepcionado.
— Não entendo como pode estar tão satisfeita. O Shirou-shirou nem caiu na nossa brincadeira. Será que ele está fazendo pouco caso da minha filhinha? Se estiver eu vou acabar com aquele lobo branco! — Exclamou o homem.
— Pouco caso? Eu não teria tanta certeza. — Sorriu ela, vitoriosa. — O taichou é bom em disfarçar suas emoções, mas não é perfeito. — Comentou risonha.
Isshin, confuso, olhou para a mulher em um pedido mudo de explicações.
— Então você não reparou? Ele congelou o relatório que fingia ler. — Riu-se ela ao lembrar da cena. O fato que poderia ter passado despercebido por ela se estivesse em qualquer outra posição na ampla sala do capitão, mas de onde estava, logo pode perceber um incomum brilho se acentuar no papel em resposta pela luz do dia refletida no gelo. A camada era fina e praticamente invisível, mas os cristais de gelo ainda entregavam o feito assim que vistos voltados na direção da luz.
Assim, a ruiva teve certeza de que sua missão havia se cumprido. Conseguira atormentar profundamente seu atual capitão. Como uma perfeita vingança por não tê-la contado já ter se declarado para a jovem Kurosaki, Matsumoto faria o rapaz passar o restante do seu dia torturado pela vontade de largar tudo para ir até a garota que amava e afastá-la de quem quer que fosse visitá-la. E sua vingança não poderia ter acontecido de maneira mais exata.
Durante o restante da tarde, Hitsugaya não conseguiu terminar um só relatório. Se antes tinha problemas para se concentrar por acabar divagando até a memória da morena adormecida, agora tinha em sua mente a perturbadora imagem de alguém tentando se aproximar de Karin. A tarde tornara impossível e o tempo arrastado.
Enfim, seu horário finalmente havia acabado. O capitão não poderia sair antes logo após ter dito não ter interesse em folgar o dia e, estava claro agora, toda aquela situação em sua sala não passara de uma armadilha para si. Se saísse antes, Matsumoto venceria. No entanto, não queria dizer também que ele ficaria um só minuto após seu horário. Sua paciência já acabara e seus pés já se moviam por conta própria. Não iria correr, mas era certo que não iria tardar mais.
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