Hino do Duran
3 Terceiro Capítulo
Av. Paulista, São Paulo.
22 horas e 07 minutos.
Momento do assalto.
- Não seria mais sábio fazer isso durante o dia como os demais grupos? – perguntou um dos companheiros.
- Os demais grupos não têm ex-prisioneiros, nem procurados pela polícia militar.
O gerente era companheiro e fez com que as chaves do banco caíssem nas mãos de Wilson sem que levantasse suspeitas.
Entraram sem problema algum. Eles sabiam que entrar seria rotina, não sabiam se dali sairiam todos vivos.
Pegaram o dinheiro. Tudo muito rápido. Um deles, muito alto, ia atrás de Lisa que pegava o dinheiro. O mais baixo e magro, encontrava-se próximo à porta caso alguém se aproximasse do local.
Apesar das chaves, haviam preparado tudo como se o alarme fosse soar. Afinal, já havia passado da hora do toque de recolher e alguém nas redondezas poderia ter escutado o barulho dos carros e ligado para a polícia.
Wilson recebeu um sinal corporal de Lisa de que já havia distribuído nas bolsas dos presentes o montante. Todos foram saindo, quando avistaram há alguns metros a polícia vindo em direção a eles.
- As bolas. – como uma forma de atrapalhar a tarefa da polícia de correr em sua direção, alguns grupos jogavam bolas de gude ou ping-pong para atrapalhar a sua locomoção.
Sacaram-se as armas, as bolas foram jogadas contra o chão e rolavam em direção aos policiais que corriam, alguns se esquivavam, outros caíam contra o chão, por mais engraçado que fosse visualmente, a graça morria ali dentro de cada um. Um deslize e suas almas seriam tragadas pelas marcas da tortura.
O barulho cortava a noite de rua vazia. O som oco de uma arma disparando anunciou todas as balas que foram atiradas em seguida. Estavam todos chegando no carro quando uma delas atingiu Lisa como uma faca em brasa perfurando sua perna em círculos.
O tempo de repente correu pesado como um fardo. As cores vivas irritaram seus olhos. Wilson parou como fora ensinado e treinado a não fazer.
- James, vamos.
- Eu não posso deixar a Lisa aqui. – a respiração ofegante e o sangue sujando o asfalto cresciam-lhe as lágrimas que não deveria chorar.
- WILSON... VAI PRO CARRO... AGORA. – apesar de fraca, sua voz imponente ordenava, manchava-lhe alma fazendo-lhe andar. – Eu vou tentar continuar em corpo.
James fora puxado para um fusca azul turquesa que acelerou em direção a um lugar qualquer, com um deles seria fácil e o mais importante eles sabiam que era uma das líderes.
Instalações do Dói-Códi.
22h15minutos.
Lisa sentia como se todos os fios de seu cabelo estivessem prontos a serem arrancados de sua cabeça enquanto era arrastada pelo corredor de luz precária. Entraram em um quarto que tinha uma única lâmpada que piscava perturbando sua visão.
- Você será muito bem recebida, rainha. – disse um homem com seus quarenta anos levantando-a pelos cabelos.
Suas mãos amarradas por cordas que faziam seus pulsos quase sangrarem de tão apertadas.
Fora posta no centro de um círculo formado por homens de todos os tamanhos e tipos físicos, alguns de face marcada outros de pele aparentemente macia, quase angelical, outros lhe despiam com os olhos psicopatas.
O primeiro chutou a perna ferida do tiro fazendo-a cair no chão contorcendo-se de dor, o chute foi à deixa para os pontapés, socos, cuspidas na cara que seguiram por todos os lados.
Local desconhecido, São Paulo.
22h20 minutos.
- Cadê a Lisa? – perguntou Remy apoiando-se em uma cadeira para ficar de pé.
Assim que saíram para o assalto. Remy fora levada por Foreman a outro local. Era uma medida de segurança caso um deles fosse capturado.
- Ela... – Wilson respirou fundo recompondo-se – Pegaram ela, Remy.
Foreman pôs a mão nas costas dela para dar-lhe algum tipo de apoio do qual ela se desvencilhou.
- Eu sou a 13 agora. – esse era o número marcado na base de suas costas.
A maioria dos torturadores não deixava esse tipo de marca, mas um deles fazia questão de autografar com uma faca em brasa o número que esta era em sua lista, Remy Hadley fora a décima terceira. Saiu da prisão política porque um dos companheiros era filho adotivo de um general três estrelas.
- Eu... Eu vou falar com meu pai para tentar libertar a Lisa. – falou, Lawrence Kutner.
- Não. Estamos à beira de um golpe. Se nós fizermos o que tínhamos combinado ela terá mais chances. – Ele parecia desesperado, seu cérebro ideológico trabalhava arduamente para calar seu coração humano.
Apesar de soar incoerente aquela era a mais cristalina verdade. Ao realizarem o golpe todos estariam livres, não só Lisa. Tantos outros poderiam pôr seus pés novamente em solo tupiniquim sem o risco de morrerem. Não era SÓ pela Lisa, era pelos outros que perderam a vida, era por Remy que mudara irremediavelmente e pelos outros que como ela foram reduzidos a carne inerte e desalmada e a dois algarismos que não cicatrizavam em sua pele. Era por Amber. DROGA. Era por ele!
Instalações do Dói-Códi.
04 horas e 06 minutos.
Um deles segurava a cabeça dela submersa em um tanque com água.
- Como a esposa está?
- Cara, não consigo levá-la para a cama. Parece que perdeu o interesse por mim. – olhou para o relógio. – Por que não leva a patroa para jantar lá em casa terça? Quem sabe um programa diferente não anima as coisas na minha residência? – olhou, novamente as horas. – Pode tirar, não quero nenhum acidente de trabalho.
Sua cabeça foi levantada, ela tossia convulsivamente e foi jogada em uma cadeira.
- Nomes. – perguntou de forma áspera, bem próximo a seu rosto. Ela pressionava um lábio contra o outro, sabia que o seu silêncio o irritaria, porém se lhe respondesse seria muito pior para sua já debilitada saúde física.
- Bem, temos que comer... Nos vemos mais tarde.
O mesmo ritual pelo qual havia passado ao ser levada até aquela sala, repetiu-se dessa vez em direção a uma cela na qual ela foi jogada, sentindo o corpo inteiro pesar, o que a fez desmaiar.
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