Hinan
22 Lembranças do Passado
Notas iniciais
― fim da tarde! Elas disseram fim da tarde! E agora já é noite! Vou atrás delas!
Vallery dizia enquanto andava de um lado para o outro.
―espere até amanhã, é perigoso sair a essa hora.
Dragon sugeria, seguindo com um gole de sua bebida favorita.
― exatamente! É perigoso e elas estão lá, no perigo!
Vallery batia com força na mesa que estava próxima a ela.
― ficar nervosa não vai ajudar em nada!
Dragon dizia com um semblante calmo.
―como você consegue ficar tão calmo.
Vallery avançava com voracidade na direção do shikõ.
―simples... a Sayo e a Lucy não são crianças, foram treinadas junto com você, elas não são indefesas.
Encarando o shikõ por alguns segundos a garota esta pensativa.
― espero que tenha razão.
Vallery dizia enquanto arrancava a garrafa da mão de Dragon e tomava um gole.
**
―malditos...
A escuridão gigantesca que cercava o deserto próximo a Hinan do norte, fazia com que Andy não tivesse nenhuma visão. Erguendo a mão para o alto, ele projetou uma esfera de energia que iluminava seu caminho.
― quando eu encontrar aqueles dois...
Andy dizia sem esconder o seu ódio. Havia ficado desmaiado por muito tempo e mesmo depois de recuperar a consciência, estava fraco devido ao desgaste na luta contra o minotauro.
Um ruído vindo daquela imensa escuridão fez o shikõ manter seus sentidos alerta. Foi então que ele pode notar a aproximação de um kotonaru.
Erguendo sua mão em posição de ataque, Andy lançou uma grande quantidade de energia, fazendo com que o monstro fosse reduzido a cinzas.
― não venha me encher a paciência... não estou em um dia legal.
Andando por mais alguns minutos o shikõ finalmente havia chegado ao castelo. Naquele momento, Andy havia se deparado com algo que ele não imaginava.
―meu Deus.
O shikõ dizia com os olhos arregalados. O que Andy havia visto, nada mais era do que um cenário de guerra. Tudo estava destruído. O castelo, os soldados e a sociedade...
―Andy...
Lóris se aproximou do shikõ.
― o que aconteceu?
Andy perguntava confuso.
― fomos atacados.
**
― MEU CARRO! EU PRECISO ENCONTrAR O MEU CARRO!
Sayo gritava desesperada.
― o que tem de tão importante nesse carro?
Lucy perguntava com seu desinteresse cotidiano.
― minhas armas, minhas roupas e principalmente... MINHA COMIDA!
Sayo gritava enquanto caía de joelhos, chorando desesperada.
― você tem a sua shuriken, eu tenho meu arco e temos a Lily... da pra sobreviver. E quanto à comida, estamos cercados de arvores, procure alguma frutífera e...
― EU NÃO QUERO FRUTA! EU QUERO COMIDA!
Sayo interrompia Lucy com brutalidade. A arqueira se silenciou. Parada por alguns segundos, Sayo buscava uma solução para seus problemas.
― Lucy... minha querida Lucy!
A guerreira dizia com um sorriso no rosto ―você é arqueira... e arqueiras caçam!
― não. Jamais ferirei um animal indefeso.
Lucy dizia com um semblante sério.
― molenga.
Sayo dizia irritada.
Parada de frente a uma fogueira, Lily pensava em tudo o que havia acontecido mais cedo. Lembrou-se da forma como Erii havia agido, de como ele estava disposto a matá-la sem piedade. Mas ele hesitou, tinha a vida dela em suas mãos, mas por algum motivo ele não o fez. Talvez porque havia notado a aproximação dos outros shikõs, mas porque não terminar aquilo de uma vez?
Levando a mão ao rosto, Lily respirava fundo. Ela estava pensando nisso há tanto tempo, que já nem fazia mais sentido. Virando se para o lado ela pôde notar a presença de Raque, a garota estava apoiada sobre um tronco caído, seus olhos estavam perdidos e ela estava assim por horas. Estava pensativa, assim como Lily. A jovem maga então se lembrou da forma que a garota havia ficado alterada ao avistar aquele shikõ estranho. Lily então se levantou e foi na direção de Raque.
― você está bem?
Lily perguntou com uma voz calma, enquanto se sentou ao lado da menina. Despertando de seus pensamentos Raque sorriu meio forçado.
― na medida do possível.
― o que aconteceu hoje mais cedo na arena? Quem era aquele bicho que você viu?
Lily perguntava curiosa.
― um velho conhecido meu...
Raque respondia com uma voz baixa.
― entendi. Mas... porque ficou tão alterada?
A maga prosseguia com o interrogatório.
― aquele monstro, ajudou no assassinato do meu pai.
Um pouco assustada Lily ficou sem palavras.
― eu sinto muito. Seu pai era um shikõ?
― não Lily, eu não sou shikõ.
Raque tirava uma mecha de cabelo que lhe cobria o rosto.
― então você é humana.
A maga confirmou.
― não... eu não sou desse planeta.
― VOCÊ É UM ALIEN????
Lily gritava eufórica.
― shiii!
Raque tentava conseguir o silêncio da garota.
―desculpe.
Lily dizia com um sorriso sem graça ― mas é que eu sou apaixonada por aliens.
Raque também sorriu.
―mas eu imaginei que eles fossem mais... verdes.
―que preconceito.
Raque dizia com uma falsa indignação.
― mas... de que planeta você veio?
Lily perguntava curiosa.
― é um pequeno planeta chamado Miran...
Raque dizia com um brilho nos olhos.
― lá é lindo Lily... tem arvores por todas as partes e flores... as pessoas são boas umas com as outras e não existem conflitos...
― uau! Esse lugar deve ser fantástico!
Lily dizia com um sorriso.
―e é! Bom, pelo menos era...
Naquele momento o semblante de Raque se transformou e a garota expressava profunda tristeza.
― se lá não havia conflitos, como o seu pai foi assassinado?
Lily perguntou um pouco sem graça.
―bom... foi um caso a parte.
Raque jogava alguns grãos de areia na fogueira.
― foi há quatro anos...
A menina começava a contar o ocorrido, Lily permaneceu em silêncio.
― eu estava deitada na grama que cercava o castelo do meu pai...
― seu pai era rei?
Lily interrompeu bruscamente.
―sim... mas isso não é algo bom Lily, não em Miran.
― por quê?
― sabe Lily, Miran não foi sempre um bom lugar para se viver... há 300 anos Miran era marcada por violência, prostituição e fome. As pessoas se matavam por qualquer coisa. Havia pessoas que nadavam em ouro e outros que mal tinham o que comer. Um dia o atual rei daquele lugar havia se cansado de tudo aquilo e convocou 3 grandes magos para chegar a uma solução. Meu pai contou que a reunião durou várias horas. Nela estavam os magos, o rei e alguns representantes da lei na época. Mas em fim eles chegaram a uma conclusão. A explicação veio dos magos, eles disseram que a decadência do planeta era culpa dos habitantes e da maldade que eles carregavam em seus corações. O rei concordou com o que ele havia dito, mas não era possível encontrar uma solução para aquilo. Foi ai que um dos magos comentou sobre um feitiço antigo, capaz de resolver esse grave problema.
“― existe um feitiço que separa o corpo de seus sentimentos, assim era possível retirar os maus sentimentos e mandar apenas os bons de volta para o corpo.
Um dos magos explicou. Naquele momento, aquilo parecia uma grande idiotice, mas a boa fama dos magos não permitia duvidas aos presentes naquela reunião.
― papai! O jantar está pronto!
Um pequeno garoto de aparentemente 7 anos entrou rapidamente pela porta.
― Hendrik, é feio entrar sem bater!
Uma bela mulher de longos cabelos negros, dizia enquanto puxava o braço do garoto.
― me desculpem.
Ela dizia um pouco sem graça. A grande barriga que carregava, entregava sua gravidez avançada.
Após a saída da mulher todos ficaram em silêncio.
― então faremos esse feitiço!
O rei dizia com uma voz séria.
― mas esse feitiço requer um sacrifício...
Um dos magos se pronunciou.
― e qual seria?
O rei perguntou um pouco receoso.
― a sua esposa está grávida não está?
O outro mago perguntou.
― o que pretende?
O rei estava assustado.
― a primeira parte do feitiço é apenas retirar os sentimentos dos corpos dos habitantes do planeta. Mas o mal não pode ser simplesmente eliminado... fazer algo assim, mexeria com o equilíbrio natural das coisas, ele precisa ser ligado há algo... ser ligado a alguém. A uma criança de coração puro.
O mago explicava.
― o que acontece a seguir?
O rei estava sério.
― a ligação entre o bem o mal deve ser eliminada, para que não seja possuída pelo ódio e transborde para todos os habitantes.
― QUER QUE EU MATE MEU PRÓPRIO FILHO!!!
O rei estava alterado.
― são as condições que o feitiço exige.
O mago também estava sério.
― faça.
Uma voz feminina vinha na direção da porta.
― o que?
O rei perguntava confuso.
― há milhões de crianças morrendo pelo planeta, sejam de fome ou assassinadas... você acha realmente justo que os nossos filhos sejam os únicos poupados?
A mulher do rei dizia com lágrimas nos olhos.”
Foi então que na primavera a criança nasceu. Era um belo garotinho de cabelos claros. Naquela mesma noite o feitiço foi feito, todos os habitantes do planeta entraram em coma. E seus sentimentos foram retirados de seus corpos. Diante dos magos havia duas esferas uma esfera azul escura e a outra era de uma cor rosada.
A esfera azul representava o mal e a rosa o bem.
― tragam-me a criança mais nova.
O mago dizia.
Com dor no coração a jovem mãe trazia o bebê.
O mago então tocou a testa da criança.
― estão ligados.
― onde está o mais velho?
O garotinho andou em direção ao mago. Naquele momento os três magos fizeram um circulo ao redor do filho mais velho do rei. Foi então que uma grande ventania tomou conta do lugar.
― não disse que precisavam do Hendrik!
O rei se aproximava dos magos.
― não se preocupe, nada acontecerá a ele.
Um dos magos respondeu.
― erga os braços.
O outro mago pediu para o garoto, que obedeceu sem reclamar.
Naquele momento todos os magos ergueram as mãos e uma grande luz resplandeceu do céu.
Nas mãos do garoto, surgiu então uma espada.
―essa é a Masayoshi... a espada da justiça.
― Espada da justiça, sério?
Lily dizia com certa indignação, após interromper Raque.
―sim.
Raque respondeu sem entender o motivo da pergunta.
― “espada justiceira, dê-me visão além do alcance”.
Lily dizia seguindo com uma gargalhada.
―idiota.
Raque não havia achado engraçado.
―desculpa, foi mal eu não resisti.
Lily tentava conter o riso.
― como eu estava dizendo...
Raque continuou.
― havia o bem, o mal e a justiça. E a Masayoshi era a única coisa capaz de manter a justiça. O Mal foi selado por magia e lançado no espaço, para longe de Miran. Dez anos depois, Hendrik cumpriu a profecia tirando a vida de seu irmão mais novo, usando a espada, pois era o único capaz de manuseá-la e tirar a vida de Ryan, o irmão mais novo.
Naquele mesmo dia, a mãe dos garotos cometeu suicídio. Talvez tenha sido demais para aquela mulher a morte do filho.
E desde então Miran se tornou um lugar pacifico e bom para se viver.
Raque dizia enquanto laçava mais um punhado de areia na fogueira.
― uau! Que historia de família em?
Lily dizia surpresa.
― pois é.
― mas isso foi 300 anos, certo?
Lily perguntava.
―sim.
― e o que houve com o seu pai?
― a parte mais complicada da história, é que o assassinato não acontecia apenas uma vez. Essa profecia passava de geração em geração. E todos cumpriam, pelo bem de Miran. Mas em uma determinada geração, isso não aconteceu. Meu pai tinha 17 anos e o filho mais novo 10. Eles foram até uma pequena floresta aos arredores do castelo. O príncipe Taylor carregava consigo a Masayoshi e sabia que seu dever era cumprir o que havia sido designado. Mas havia outro dever acima de qualquer profecia, o dever de proteger o seu irmãozinho. Naquele dia os dois garotos voltaram para casa, vivos.
Houve revolta por parte dos pais e de todos os superiores que sabiam da profecia. Mas o meu pai não se importou, ele era bom e não concordava em sacrificar uma criança inocente para que o planeta ficasse em paz.
“nós fazemos a nossa própria profecia” ele sempre dizia. Mas não foi bem assim que aconteceu.
Raque dizia com um semblante triste.
― meu tio sempre teve uma personalidade forte, era rude e egoísta. Não obedecia aos pais e desrespeitava os irmãos. Mas todos achavam normal, devido ao fato de ele ser a ligado a todos os sentimentos maus existentes. Só que 20 anos após o ocorrido as coisas mudaram de foco.
Era inverno, Miran estava completamente coberta de neve, era mais um dia tranquilo como qualquer outro. Eu e meu irmão estávamos sentados na varanda, quando fomos surpreendidos por gritos. Foi então que senti alguém puxar o meu braço.
“― vão com o seu avô.”
Minha mãe dizia. Parecia desesperada.
Levantamos rapidamente e corremos em direção ao carro, foi então que uma explosão fez com que nós parássemos. Olhando para a origem do ataque, vi então ele... Taiko.
Conselheiro e melhor amigo do meu pai.
“―o que está acontecendo Taiko?”
Meu irmão perguntava confuso.
“― vão logo! Ele é um traidor!”
Minha mãe dizia com um semblante sério.
Eu e meu irmão entramos no carro.
Ela juntamente com um grupo de soldados, permaneceu para controlar a situação.
O carro partiu em alta velocidade, uma ultima olhada e eu a vi caída no chão.
Ficamos escondidos na casa do meu avô por três dias. Até então eu não estava a par de tudo o que havia acontecido. Mas um dia eu ouvi meu irmão e meu avô conversando. Soube então que meu tio havia matado o meu pai com o auxilio de Taiko e que o castelo havia sido tomado por ele. Ninguém era capaz de detê-lo.
Naquele mesmo dia meu avô saiu para buscar informações, algumas horas depois ele voltou para casa. Estava ofegante e muito ferido.
“―estão todos mortos! Não há esperança! Leve a Raque e fuja para longe desse planeta, você é nossa única esperança Ally”.
O pobre velho dizia enquanto entregava a espada que havia conseguido roubar para o meu irmão.
Ele não durou muito, morreu logo em seguida. Eu queria chorar, queria enterrá-lo, mas tudo o que eu ouvi do meu irmão foi “não há tempo para pranto Raque”.
Ele estava sendo forte, ele precisava ser forte.
Nós corremos como loucos pela floresta com intuito de não sermos descobertos. Levando em conta as circunstancias, era obvio que ele estava atrás de nós... atrás da espada.
Chegamos então até o local aonde o nosso avô guardava a nave.
Eu entrei, estava com medo. Foi então que meu irmão me entregou a espada. Eu sabia que ele faria aquilo. Eu chorei. Implorei para que ele entrasse... mas ele não o fez.
“viva por Miran”
Foram as ultimas palavras que eu ouvi da pessoa que eu mais amava em todo o mundo.
Naquele momento, Raque já estava chorando.
― Raque... o que aconteceu com o seu irmão.
Lily perguntou.
― eu não sei Lily! Eu não sei!
Raque chorava ainda mais. Sem hesitar Lily a abraçou. Permanecendo assim por alguns segundos, Raque então se acalmou.
―como se chama o seu tio?
Lily fazia mais perguntas.
―Céverus.
Naquele momento a pequena maga sentiu seu coração bater mais rápido.
“Céverus...” ela já havia ouvido aquele nome. Lembrou-se do shikõ que havia invadido Hinan há algum tempo. “devolva a espada do mestre Céverus” ela se lembrou da sala de interrogatório.
― aqueles olhos...
Lily cochichava.
― olhos vermelhos repletos de ódio.
Raque completou.
Lily a olhou assustada.
― ele está aqui?
―ainda não.
Raque respondeu com um semblante sério.
―isso é um alivio.
Lily suspirou.
―como eu disse...
Raque lançava mais um punhado de areia na fogueira ―ainda não.
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