Hinan
18 A Raiz da Vingança
Notas iniciais
O som do vento era ensurdecedor, erguendo os braços ela buscava por um ponto de apoio, mas era em vão a luz estava cada vez mais longe e ela cada vez mais perto... da morte. Um impacto fez com que Raque gritasse, ela podia ouvir o som de seus ossos se quebrando, ela então sentiu seu corpo escorregar, cravando suas unhas no que parecia ser uma rocha, a menina tentava se segurar, mas era em vão, com os dedos sangrando ela mais uma vez estava caindo.
Quanto tempo aquilo ainda ia durar?
Foi então que um segundo impacto aconteceu, e ela mais uma vez estava caindo... afundando... A água gelada cobria-lhe o corpo e aos poucos ela estava ainda mais distante, distante da luz. Sentiu então ar faltar em seus pulmões, ergueu mais uma vez os braços em busca de ajuda. Mas não havia nada e nem ninguém. Nem o seu avô, nem Jon, nem o Andy e nem Butcher...
Naquele momento Raque não sentia mais nada, nem medo, nem dor e nem desespero. Só tranquilidade uma tranquilidade que ela jamais havia sentido antes, pouco a pouco tudo o que havia restado era o nada.
**
O som dos passos dos milhares de soldados se aproximando, fazia as pernas dos poucos shikõs restantes do castelo tremer.
— TODOS EM POSIÇÃO DE BATALHA!
Allk gritava em alto e bom som a todos os shikõs.
― ESTÃO SE APROXIMANDO!
Marius gritou. Dos 500 soldados do palácio, agora só sobrava pouco mais de 100 indivíduos. Mas independente da diferença de quantidade, cada homem ali estava disposto a morrer por seus ideais.
― ATACAR!
O comando de Allk foi o suficiente para fazer com que todos os soldados avançassem para batalha. A alguns metros dos inimigos, os 100 soldados pararam. A frente do exército, dois homens estavam parados.
― Jon...
Allk conheceu a imagem de seu velho amigo.
― Dragon?!
Marius parecia surpreso. Sacando sua espada Jon, ainda se mantinha em silêncio.
― malditos...
Dragon sussurrou. ― esperaram o castelo ficar vulnerável e logo depois atacaram com tudo.
Parado por alguns segundos, o shikõ sentia seu sangue ferver.
― malditos...
Ele falava em voz baixa. ― MALDITOS!
Fogo brotava de sua pele. Foi então que Dragon sentiu uma mão tocar o seu ombro.
― Dragon... Se perder o controle, acabará com o pouco do que restou do nosso lar. Vamos lá irmão, acabe com esses desgraçados como um shikõ, não como um monstro.
Jon dizia com uma voz calma. Acenando positivamente com a cabeça, Dragon parecia mais controlado.
― cuide deles! Vou ver como todos estão.
Jon dizia enquanto se virava em direção ao castelo. Andando um pouco ele então viu a cena que provavelmente te marcaria por toda a vida.
― não...
Naquele momento, o homem cochichava.
― não pode ser!
Em passos lentos ele se dirigia até o corpo caído, aquele corpo velho e frágil que ele jurou proteger com sua vida.
Olhando para trás ele via Dragon, juntamente com os outros shikõs, lutando. Voltando novamente seus olhos para frente do castelo, ele podia ler todos aqueles semblantes tristes, desolados, desesperados...
Ele então se lembrou... se lembrou de todas as vezes que corria desesperado para o encontro de seu pai, por um joelho ralado, um brinquedo quebrado, ou qualquer outro drama simples de criança. Ele estava ali, sempre esteve ali...
Lágrimas escorriam de seus olhos. A distancia era curta, mais alguns passos e ele estaria lá, mas Jon estava com medo. Havia muito tempo que aquele jovem shikõ não experimentava esse sentimento.
―JOOOON!
Os gritos de Jack fez seu corpo tremer.
― Jon, ele ta morrendo.
Lágrimas escorriam dos olhos dela.
Mas agora Jon estava ali, de pé, diante de Kannot.
― Jon...
A voz fraca e cansada do velho fez o coração de Jon apertar. Sentindo suas pernas fraquejarem, ele então caiu de joelhos.
― pai... papai! Por favor!
Debruçado sobre o peito do líder dos shikõs, Jon chorava como uma criança. Foi então que ele sentiu uma mão acariciar seus cabelos.
― ainda continuam macios.
Kannot dizia com um fraco sorriso no rosto.
― eu ainda uso shampoo de menina.
Jon também sorria.
― shiii! Não diga isso alto! Acabará com a pouca dignidade que ainda lhe resta!
Kannot ironizava.
― eu não estava aqui...
Jon sussurrou. ― eu deveria estar!
Todos ficaram em silêncio.
― TEM QUE HAVER UM JEITO! PRECISA TER UM JEITO!
Jon gritava como um louco ―ONDE ESTA A EQUIPE MÉDICA? ONDE ESTÃO OS SHIKÕS ESPECIALIZADOS NESSA ÁREA?
― mortos...
A voz serena de Allk fez Jon se calar.
― já foi o suficiente filho.
Kannot dizia seguindo com um ataque de tosse.
― eu não pude... eu não fui capaz de te salvar!
Jon mais uma vez chorava.
― você me salvou Jon... há muito tempo!
Jon parou por alguns segundos ― há muito tempo, numa manhã de domingo, um velho desiludido pronto para por fim a sua vida, recebeu a visita de três razões para poder prosseguir. A coragem do mais velho, o fez se arrepender de suas ações covardes, a perseverança do garoto de seis anos, o fez refletir sobre sua decisão de desistir e o sorriso da pequena mais nova... sim, aquele sorriso iluminou a escuridão na qual aquele pobre homem se encontrava.
Você me salvou Jon, e acrescentou 318 anos a minha vida! Quer mais que isso?
O velho sorria.
― Kannot, por favor! Eu não consigo sem você! Se eu consegui suportar todo esse tempo de dor e sofrimento, foi porque você esteve do meu lado.
Jon estava desesperado.
― não seja bobo Jon!
O velho acariciou os cabelos do filho.
― você tem o Dragon, ele sempre será o seu alicerce e você o dele. Já está na hora de ir pra junto da Layla, ela já está a muito tempo sozinha! Já deve estar brava...
Observando o olhar perdido de Kannot, Jon então pode notar que o pobre velho estava em um momento de desvario.
― sim pai... ela deve está sentindo sua falta.
Jon dizia enquanto acariciava os cabelos de seu velho pai, suas lágrimas se findavam em seu sorriso forçado.
― estou cansado Jon, estou cansado...
― eu sei pai. Descanse!
― obrigado filho.
Não foram muitas as ultimas palavras do pobre homem. Kannot deu seu ultimo suspiro, Jon sentiu como se o seu coração tivesse sido arrancado do peito. Pouco a pouco o velho corpo desfalecido, do líder dos shikõs se desintegrava. Partículas de um brilho desconhecido se espalhavam pelo ar pesado daquele campo de batalha sangrento. Tudo o que havia restado era o cheiro de rosas, as rosas que ele tanto amou.
O silêncio reinou naquele local. Todos estavam apáticos, depois de 300 anos, ele havia partido.
Foi então que Jon se levantou, e avançou para cima de Allk prendendo o mesmo contra uma parede, que se rachou com o impacto.
― quem fez isso?
Jon tinha a feição de um louco.
― LARGA ELE!
Jack puxava o braço de Jon. Ele então a golpeou, Jack foi lançada a vários metros de distancia.
― JAAACK!
Allk gritava ao ver sua companheira caída.
― um nome...
Jon apertava o braço contra o pescoço de Allk, fazendo com que dessa forma o mesmo ficasse sem ar.
― E... Erii.
Jon então o soltou. Caindo bruscamente no chão, Allk tentava recuperar o fôlego.
― PESSOAL!
A voz desesperada de Nael assustou a todos. Olhando para a direção da voz, foi possível ver a aproximação daquele shikõ ferido e ensanguentado.
― o que houve com você?
Jack perguntou.
― fomos atacados! Eram dezenas deles, todos fortes e bem armados! Cercaram-nos na beirada do precipício e...
― Onde está a Raque?
Cute o interrompeu. Nael ficou em silêncio por alguns segundos.
―eram muitos... nós estávamos cercados...
― Nael! Onde está a Raque?
Cute perguntou mais uma vez, no fundo ele já sabia a resposta.
― ela... ela estava pendurada e... uma flecha no meu braço... eu não consegui...
― ai meu Deus não!
Jack chorava.
― a sociedade já era...
Allk sussurrava ainda de joelhos.
― SENPAI!
Jack gritava ao ver Jon se afastando. ― aonde você vai.
― eu o caçarei! No inferno se for preciso! Mas eu vou achá-lo e vou matá-lo. Juro pela minha vida.
Com essas palavras Jon saiu dali, deixando todos assustados.
**
― MALDITO!
Vallery gritava enquanto atirava parte da sua mobília contra a parede.
― hoje ela ta estressada...
Sayo e Lucy assistiam o ataque de fúria da amiga.
― acho que deve ser TPM.
Lucy completou.
― não, não... o tal do Jon esteve nas redondezas.
― e ela ta com raiva porque não conseguiu mata-lo?
― é o que parece.
― vai acalmar ela!
Lucy dizia enquanto empurrava Sayo.
― isso é fogo! Daqui a pouco passa.
Sayo dizia com certo desdém.
**
― ME TIRA DAQUI!
Lily gritava.
―chega dessa barulhada! Eles não vão te ouvir!
Bisco parecia impaciente.
― EEEEEEEI! ALGUÉM AI?
Lily o ignorava.
― meu Deus! Eu estou falando com acéfalo?
―fique quieta garota irritante!
Um homem dizia enquanto batia nas grades.
―mas como...? Ah! Eu desisto!
Bisco parecia decepcionado.
―moço, o senhor poderia por favor abrir essa cela?
Lily dizia com uma voz meiga.
― ah, claro! Ele vai fazer isso de livre e espontânea vonta...
As palavras de Bisco foram interrompidas pelo som da tranca da cela se abrindo.
― ta de sacanagem...
―senta.
O homem sentou.
―feitiçaria... VOCÊ É BRUXA!
Bisco gritava surpreso. Lily sorriu.
― o senhor sabe pra que lado fica a saída?
Lily perguntou.
― vá pela esquerda, suba as escadas e saia pelos fundos! Lá não tem guardas nesse turno.
O homem dizia com uma voz serena.
―muito obrigada! Agora fique aqui sentado até seus amiguinhos chegarem ta?
Lily tocava a cabeça do soldado, como se fosse uma espécie de cachorrinho.
― hey! Não vai me deixar aqui vai?
Bisco dizia a menina que já se preparava para sair.
―você tem dúvidas?
Lily respondia com um sorriso no rosto e em seguida saiu.
― o que ela está fazendo?
Bisco cochichava.
Lily corria o mais rápido que podia, se virou rapidamente para trás para ter certeza de que não estava sendo perseguida e sem perceber deu de cara com um guarda.
― opa...
Uma coronhada foi o suficiente para deixar a garota desacordada.
Passado alguns minutos, Lily pouco a pouco recuperava os sentidos.
―onde eu estou?
― adivinha?
Bisco dizia ironicamente.
― droga!
Lily parecia decepcionada.
―qual o seu problema?
Bisco perguntava idignado.
― como assim?
―o cara disse esquerda... E-S-Q-U-E-R-D-A!
― E daí?
Lily perguntava confusa.
― então porque você foi pela direita?
Lily parou por alguns segundos.
―ele disse direita.
― não disse não!
―disse sim!
―não disse não!
―me deixa em paz!
Lily estava sem argumentos.
**
As águas cristalinas do rio que ficava depois do precipício, apresentava uma calmaria incomparável. Uma pequena movimentação na água fez alguns pássaros que estavam ali por perto se afastarem. Foi então que um braço agarrou um pedra que estava na margem, puxando o restante do corpo, uma garota respirava ofegante.
―eu... eu estou viva?
Raque permaneceu ali por alguns segundos e em seguida nadou até a margem. Sentada em terra firme, a jovem shikõ procurava por ferimentos, sem sucesso.
Passando a mão em seu pescoço, ela sentia algo queimar sua pele. Se dirigiu então rapidamente para a beira do lago. Em seu reflexo ela podia notar um colar com três pétalas...
― três pétalas?
Raque estava confusa, levando a mão à cabeça ela parecia se lembrar de algo. Algo sobre ela, algo sobre o seu passado.
Fale com o autor