Hikari to Kage
8 You Make me Happy
Notas iniciais
Já perdi a conta de quantas vezes recoloquei as bolas laranja de basquete dentro do cesto, somente para serem arremessadas novamente em direção a cesta e outra pontuação perfeita de três ser contabilizada. O Ás da Shutoku não cansa de fazer os mesmos movimentos, mesmo na ciência de que sempre cairão no local desejado. Midorima Shintaro, dezesseis anos, cabelos verdes e olhos de mesma cor. Seu objeto da sorte de hoje é um Maneki Neko*, está sobre os bancos de reserva vazios, já que estamos a sós na quadra da escola, hoje é folga dos jogadores, mas claro... Para o outro não há descanso nem quando é para se fazer.
–- Shin-chan! -- resmunguei. -- Até que horas pretende ficar aqui?
–- Fique quieto, Takao. -- pegava outra bola dentro do cesto grande. -- Ainda não cheguei à marca de hoje.
–- Ah. -- suspirei, sentando recostado na parede, passei a toalha sobre a testa, bebendo da garrafa de água. -- Me diga, Shin-chan.
–- O que quer? -- olhou para mim com aquelas esmeraldas fria.
–- Vamos sair hoje?
–- Deveríamos?
–- Hãn... -- cocei a nuca, desviando o olhar. -- Bem, eu acho que não. -- sorri.
–- Se essa era a sua resposta por que a pergunta? -- arrumou a armação dos óculos cuja nem precisava de conserto. -- Não seja estranho.
–- Não estou sendo. -- ergui-me de pé outra vez. -- Em que número está?
–- 68.
–- É, parece que ainda tenho muitas bolas para recolher.
Senti os olhos do outro me acompanharem.
Sim, eu esperava alguma coisa para nós dois logo após sairmos daqui. Mas vejo que minhas expectativas foram em vão. Não julgo o Shin-chan, ele é uma pessoa responsável, ocupada, mesmo sendo tão jovem, provavelmente quando chegar a sua casa passará o resto da tarde estudando, e não pensando que o nosso aniversário de dois anos de namoro é hoje.
Respirei fundo, pensar demais nisso não mudariam em nada os pensamentos vindos do outro. Por mais que estejamos juntos faz dois anos, sempre fui o mais emotivo com relação ao nosso relacionamento. Sempre fui aquele quem deu presente primeiro no dia dos namorados, ou quando fizemos seis meses. Midorima mudou um pouco mais com o passar do tempo, porém não podemos comparar as atitudes. Apesar de tudo, ele é um bom namorado.
O número cem das cestas perfeitas demorou a chegar. Mesmo estando aqui somente para auxiliar, ainda assim o cansaço conseguiu me abater um pouco.
–- Você sabe onde estão as minhas ataduras? -- havíamos tomado banho no vestiário.
–- Tenho uma em minha sacola, pode deixar que farei.
Logo eu estava ao seu lado, com sua mão sobre meu colo, enrolando seus dedos em fitas brancas. Sentia o olhar do outro em mim, e mesmo não sendo comum, me senti com vergonha de tal coisa. Isso não é o que geralmente acontece. O ‘tímido’ desta relação é o cara que está com os dedos cobertos por fitas brancas.
Estamos apenas de toalha amarrada na cintura para cobrir a intimidade. Midorima não se secou direito, e pouco a borda do pano absorve as gotas que escorrem por seu peitoral.
–- Está tarde, venha almoçar em minha casa.
–- Irei. -- encarei seus olhos sorrindo. Ele arrumou os óculos sobre o nariz. -- Ah. Shin-chan! -- segurei seu rosto, selando nossos lábios.
–- Oe!
Nem por isso deixei de sorrir.
Em sua casa descobrimos que seus pais não estavam, um bilhete que falava sobre a refeição se encontrava na frente da TV. Não é uma coisa rara de se acontecer, e mesmo que estivessem em casa isso não afetaria o nosso comportamento.
–- Vá trocar de roupa. Ainda tem algumas peças suas no meu guarda roupa. Irei tirar a comida da geladeira.
–- Suas coisas, eu levo para o quarto.
Lá me troquei e voltei para ajudar a pôr os pratos na mesa da cozinha. Só havia nós dois para comer, não era necessária uma mesa grande.
–- O que você dizia sobre sairmos?
–- Hum? -- pausei os hashis na boca. -- Ah, não incomode com isso.
–- Vamos, Takao, não seja tolo.
–- Não estou sendo, Shin-chan. -- o encarei. -- Está tudo bem.
Seus olhos verdes tentavam penetrar minha alma.
Após o almoço e limpar as coisas sujas, nos dirigimos ao quarto. Como era esperado Shintaro foi para a escrivaninha estudar, fiquei sentado na cama ou procurando uma posição confortável, não estava a fim de receber broncas do outro por estar atrapalhando.
–- Nee... Shin-chan... -- aproximei por trás.
–- O que quer?
–- Ainda vai demorar muito? -- caminhei com dois dedos sobre seu braço, indo em direção a mão que parara de escrever.
–- Não, não irei.
–- Não me deixe sozinho.
–- Está parecendo uma criança. -- segurou-me pelo pulso, puxando de forma desajeitada por cima do braço da cadeira. Fui posto sobre suas pernas como um neném.
Tirei os óculos do outro, pondo sobre a escrivaninha e me deixei levar pelo beijo. Não são mais tão raros os momentos em que ele toma a iniciativa para as coisas, porém ainda assim é algo que me deixa extremamente feliz. Abracei seu pescoço, sendo guiado a sentar da melhor forma em suas pernas, estar totalmente de frente para ele.
–- Quer ir ao cinema? -- procurou a armação dos óculos sobre o nariz para arrumar.
–- Você está estudando. -- toquei a gola da sua blusa, iniciando outro beijo aflito, impedindo-o de procurar os óculos.
–- Estou chamando você para ir. -- as mãos antes em minhas costas apalparam com gosto minhas nadegas.
–- Está me convidando? -- beijava meu pescoço com avidez.
–- Deixe de frescura, Takao. Sabe que sim.
Não contive o riso.
–- Vamos então. Eu só queria lhe ouvir dizer que sim, que estava me convidando.
–- Você não tem jeito. -- tateava em busca das lentes.
–- Não os coloque ainda. -- segurei suas bochechas nas duas mãos. -- Gosto de olhar seus olhos fora dela... Principalmente naquela hora. -- lambi os lábios, vi as maçãs em minhas mãos se colorirem.
–- Como eu disse, você não tem jeito. Deixe-me sair, preciso trocar de roupa.
Assim foi feito, não demorou muito para estarmos a caminho do programa. Meu humor mudou, não que eu estivesse ficado chateado ou coisa assim, só queria algo para comemorar nosso aniversário. Midorima fez o caminho naquele seu silêncio tão habitual e comum. Respondia apenas as minhas perguntas, porém não se prontificava para fazê-las. Olhando de fora isso pode até soar triste. Mas para quem conhece o jeito do Shin-chan não é nada fora do comum. Só questão de costume. Conseguir tudo o que tenho dele sim pode ser considerado uma conquista e tanto, sou o primeiro até os dias de hoje, espero que por muitos anos que venha, o único com quem o Midorima se relacionou, tanto no íntimo no superficial de beijos e caricias. Sinto-me bem com esse ‘troféu’ se posso assim chamar, já que é uma grande façanha fazer o ato de se aproximar. Sabemos que nosso inicio de amizade não foi lá mil maravilhas.
Compramos a tradicional pipoca e depois refrigerante para a sessão. Por escolha do outro fomos para o final das poltronas, claro, pela altura que ele tem sempre acabamos com algumas reclamações sobre estar na frente de alguém pequeno ou de estatura normal. Haha. Abracei o braço do maior, deitando com a cabeça sobre seu ombro, e assim assistimos ao filme.
No primeiro ano de nosso namoro, no nosso primeiro aniversário, eu havia planejado tudo. O convidei para sair, dei presente, fizemos algumas coisas juntos, e foi maravilhoso. Porém, não é como se eu houvesse desistido de fazer qualquer surpresa este ano. Tenho o meu presente guardado em casa, só... Estava esperando um pouco de empenhado da parte dele. Fiz tanto por nós. Não deveria estar pensando sobre algo assim agora que estamos indo até minha casa. Seus dedos estão nos meus, o ar está levemente frio.
–- Takao?
–- Hum? -- mantive os olhos no chão.
–- Chegamos. Você irá ficar?
–- Eu não sei, você irá? -- o encarei. -- Tudo bem se não puder, Shin-chan. -- recolhi minha mão da dele. -- Eu vou lá em cima, volto logo com algo seu. -- minha mãe me recepcionou quando cheguei.
–- Takao-chan. -- enxugava as mãos no avental. -- Você vai para a casa do Midorima?
–- Não tenho certeza. -- o pacote estava em mãos. -- Ele está me esperando na porta.
–- Aconteceu alguma coisa, meu filho?
–- Não, nada. -- adiantei, entregando o presente nas mãos do outro. -- Feliz aniversário de dois anos, Shin-chan. -- suas bochechas se coloriram, arrumou os óculos. -- Eu não irei com você.
–- Então venha jantar comigo. Você virá?
–- Sim, irei. -- sorri de leve. -- Até mais tarde, Shintaro.
Durante esses anos de namoro, fiz muito para fazer o Midorima feliz e ser feliz fazendo isso. Gastei bastante de minhas mesadas com presentes e lembranças, comemorando datas inventas. E em dois anos, bem, como disse, não é como se estivesse desistindo. Só esperava algo, algo que não começasse comigo.
–- Takao-chan? -- era a minha mãe. Suspirei fundo.
–- Sim? -- me recompus.
–- Não irá dizer o que aconteceu?
–- Nada, mãe, nada. -- beijei sua testa. -- Estarei indo na casa do Shin-chan mais tarde.
Joguei-me na cama, respirando fundo. Irei recusar o convite, mas acabei aceitando como sempre fazia se tratando de algo dele. Estava cansando do dia, por isso não medi esforços para me manter acordado, e somente acordei quando o celular tocou sobre a banquinha. Tinha a quase certeza de quem seria, e nem precisou olhar o nome no visor para concluir isso.
–- Takao. Onde está você?
–- Shin-chan. -- bocejei. -- Eu peguei no sono, estarei aí em pouco tempo. -- silêncio do outro lado da linha. -- Shin-chan? -- sentei na cama.
–- Não demore ou a refeição irá esfriar.
–- Okay.
Deixei um sorrisinho escapar. Tomei banho, arrumei-me e saí. O clima ainda não havia esquentado, pelo contrário, o horário só fez a temperatura cair mais. A casa do Midorima não é tão distante da minha, ir andando dá vinte minutos de caminha, dependendo de sua velocidade.
–- Achei que nunca chegaria. -- abriu a porta.
–- Desculpa pela demora. -- fui retirando meu casaco. -- Onde estão seus pais?
–- Não estarão em casa hoje, por meu pedido. -- pisquei algumas vezes. -- Vai ficar aí parado?
De onde estava vi que havia pouca iluminação na sala de jantar, e ao me aproximar confirmei o porquê disso. Velhas estavam sobre a mesa e a luz no mínimo. Meu coração batia forte ao ver a simples decoração da mesa. Caminhando até a sala, pôs uma baixa música no fundo. Eu estava surpreso, bastante surpreso. Esperava estar toda a família aqui, e iríamos comer todos juntos. O garoto de cabelos verdes serviu a comida para ambos, eu ainda não podia acreditar.
–- Shin-chan... -- falei baixo.
–- Conversaremos sobre isso depois. Coma.
Falamos sobre algumas coisas triviais durante o jantar. E após ele, fui levado até o quarto do outro. A porta foi trancada, permaneci de pé, de frente para sua altura, olhando para cima e em seus olhos.
–- Takao. Eu não abri o seu presente ainda. -- apontou para cima de sua escrivaninha. -- Queria fazê-lo contigo. Não sabia o que te comprar. -- sorriu pequeno. -- Eu devo agradecer Takao, por esses dois anos.
–- Shin-chan, não precisa. De verdade.
–- Claro que precisa. -- tocou meu rosto. -- Nunca lhe dei a devida atenção que merece nem tomei atitudes que deveria. E ainda assim você não saiu do meu lado. Não lhe dou as merecidas retribuições, sempre tudo vem de você.
–- Eu não me importo. -- olhei para baixo.
–- Olha para mim. -- a voz era suave. -- Kazunari.
Quase senti lágrimas nos olhos ao escutar meu nome. Os dedos que fizeram meu rosto levantar para enfim nos olharmos mais uma vez.
–- Eu amo você, Shin-chan, por isso não meço esforços para lhe ver feliz.
–- Mesmo que não pareça eu também amo você. Desculpe-me por todas essas vezes.
–- Não peça, e-eu já acostumei, você sempre foi dessa maneira. Foi por essa pessoa que me apaixonei.
–- Sei que ficou chateado achando que não faria nada para nosso dia. -- arregalei um pouco os olhos. -- Estamos juntos há dois anos, presto atenção em suas atitudes. -- abriu um simples sorriso.
–- Sabe que se não me fizesse feliz não estaríamos mais juntos, não é? Não se preocupe.
Ergui os braços até seu rosto, tomando-o nas mãos juntei nossos lábios. O abraço do outro veio em minha cintura, chegando meu corpo mais para frente. Caminhamos às cegas para trás em busca de sua cama; senti quando a encontramos e o maior deitou devagar me trazendo ainda consigo até estarmos deitados e acomodados. Retirei seus óculos, pondo no chão e voltando ao seu rosto. Sentia seus dedos me tocando a pele de leve, com carinho, em todos os pontos aos quais sabia que eram os meus favoritos, ou que mesmo que não fosse dito em voz alta era de se esperar alguma reação a mais. Os beijos já eram mais vorazes, os toques mais íntimos, a voz saía por fracos gemidos de minha parte.
O peso do Midorima estava sobre o meu. O corpo grande de mãos abertas sabia bem como trabalhar não de forma bruta, mas com toda uma maestria que não é de esperar de alguém assim. Quando o recebi dentro de mim mais uma vez, minha voz não fora contida. A força e a velocidade faziam meu corpo subir involuntariamente, minhas unhas fincadas nas costas nuas e suadas. Eu sorria a cada investida, mesmo quando os sons de prazer não me deixavam fazer direito. Enfiei os dedos por dentro de seu Chanel verde, puxando os fios na vontade que tinha de gritar alto demais. A cama fazia o barulho dela, misturada ao nosso e suas violentas batidas contra a parede.
Sentia-me feliz, completo e realizado. Como todas as vezes que nos encontramos dessa forma. Como todas às vezes que apenas conversamos. Como todas as vezes que sei que ele estará do meu lado não importa o porquê.
Não contive o meu som quando finalmente cheguei ao meu ápice, e meu parceiro ao dele. Permanecemos abraçados, curtindo o momento, curtindo um ao outro.
–- Preciso entregar o seu presente. -- sentei quando ele levantou, acompanhei sua movimentação. -- Como disse, eu não sabia o que comprar. -- em quanto de costas, peguei seu óculo no chão, colocando-o em meu rosto. -- Preciso dos meus óculos. -- virou-se para mim, ia direto ao chão procurá-lo.
–- Não, eles são meus por hora. -- sorri, arrumando a armação no nariz.
–- Tsc. -- abrindo o guarda roupa tirou uma pequena caixa de lá. -- Toma. -- arrumou o lugar vazio sob o nariz, não contive a risada. -- Está rindo de quê?
–- De você.
–- O que é tão engraçado?
–- Você, -- puxei sua mão para que sentasse. -- toma. -- devolvi as lentes.
Desfiz o embrulho, destampando a caixinha. Dentro havia uma corrente com um pingente de águia, abaixo dela duas alianças.
–- É lindo, Shin-chan. -- abri a o fecho da corrente a colocando no pescoço. Midorima pegou as alianças, tomando minha mão e encaixando uma delas em meu dedo anelar.
–- Quero ficar com você sempre. -- beijou minha testa.
–- Você me terá sempre. -- selei nossos lábios depois de encaixar o outro anel em seu dedo.
Já perdi a conta de quantas vezes recoloquei as bolas laranja de basquete dentro do cesto, somente para serem arremessadas novamente em direção a cesta e outra pontuação perfeita de três ser contabilizada. O Ás da Shutoku não cansa de fazer os mesmos movimentos, mesmo na ciência de que sempre cairão no local desejado. Midorima Shintaro, dezesseis anos, cabelos verdes e olhos de mesma cor. Seu objeto da sorte de hoje é um urso de pelúcia, está sobre os bancos de reserva vazios, já que estamos a sós na quadra da escola, hoje é folga dos jogadores, mas claro... Para o outro não há descanso nem quando é para se fazer.
–- Shin-chan! -- resmunguei. -- Até que horas pretende ficar aqui?
–- Fique quieto, Takao. -- pegava outra bola dentro do cesto grande. -- Ainda não cheguei à marca de hoje.
–- Ah. -- suspirei, sentando recostado na parede, passei a toalha sobre a testa, bebendo da garrafa de água.
–- Me diga, Takao.
–- Hum? -- encarei as esmeraldas que me encaravam.
–- Vamos sair hoje?
–- Deveríamos? -- sorri para ele.
–- Tsc. -- arremessou uma bola em mim. -- Não se faça de estúpido.
–- Deveríamos, claro que deveríamos. -- corri em sua direção, jogando-me sobre seus braços.
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