Hikari to Kage
2 O belo e a Fera
Notas iniciais
Quando acordei o menor não estava mais na cama, nevava forte do lado de fora e o frio mesmo ao aquecedor era notado.
–- Kuroko? -- chamei ainda que com a voz embargada na sonolência.
–- Bom dia, Kagami-kun. -- sua voz doce invadiu o quarto pela porta. Ainda em silêncio e sem mirá-lo fiz sinal com a mão para que ele viesse até mim.
Seu pequeno peso ficou sobre o meu corpo quando o barulho quase nulo de seus pés cessou.
–- Bom dia, -- o abracei. -- posso saber o motivo que te fez acordar cedo? -- meu nariz roçou nos seus cabelos.
–- São doze da tarde, não está tão cedo quanto pensa. Abra os olhos.
–- Não preciso de olhos abertos para lhe beijar. -- procurei seus lábios no escuro de minhas pálpebras, e pelo meu embaraço, fora o menor quem selou nosso encontro.
Minhas grandes mãos deslizavam por suas costas, subindo aos poucos a blusa grande que ainda o cobria.
–- Kagami-kun não pense em sexo assim que acordar. -- finalmente abri os olhos e o encarei, ele riu da minha cara.
–- AH! -- praticamente gritei, arrancando dele uma face de espanto. Abracei seu corpo miúdo mais forte, beijando o topo de sua cabeça. -- Por que não disse que estava cansado ontem? Vínhamos para a cama, você dormiu no sofá.
–- Me desculpa, eu iria falar, mas foi mais forte que eu.
–- E o que não é mais forte que você? -- não pude deixar de rir e recebi um tapa em meu peito.
–- Vamos comer? Tenho fome.
–- Claro, por que não? Só espera eu escovar os dentes.
Ele se levantou, sumindo de vista em direção à sala logo depois. Cocei minha nuca e um bocejo o seguiu. Os lábios de Kuroko têm gosto de baunilha. Não resisti a me dar um sorriso. Ele é realmente tentador. E mesmo ele dizendo que o Aomine fora apenas um amigo enquanto em Teiko, ainda me sinto temeroso por eles dois. Não gosto disso, me faz parecer que duvido dos sentimentos dele, porém, não é por ele que temo e sim pelo outro animal. Se bem que não acredito que ele faria algo sabendo do meu namoro com o Tetsu, coisa que fiz questão de deixar clara somente para ele.
O pequeno havia preparado o nosso café da manhã, com ovos, bacon, waffes, panquecas e algumas outras coisas as quais ele tem prática. Não é a primeira vez que ele acontece, porém como ele não tem costume de acordar cedo esse trabalho acaba sendo meu.
–- Kagami-kun... -- deixou a xícara sobre a mesa e olhava para seu colo.
–- Sim?
–- E-Eu quero que tenha em mente o que você falará com meus pais. Por que acho que já está na hora. -- vi suas bochechas avermelharem.
Não o respondi, apenas senti meu coração dar uma falha para então recomeçar a tamborilar fortemente.
–- O que disse?
–- Meus pais... Eles devem saber do que eu sinto, de nós...! -- me encarou.
–- Kuroko, isso...!
–- Tudo bem se ainda não estiver preparado, podemos esperar mais um pouco.
–- Não! -- gritei, batendo as mãos fortes na mesa, ele me olhou assustado. -- Desculpa, mas é que eu espero essa frase desde que te pedi em namoro. -- cocei minha bochecha com o indicador. Quando faremos?
–- No final de semana. -- ainda piscava meio atordoado. -- Se estiver tudo bem para você.
–- Eu só preciso preparar algo para falar. -- suspirei fundo. -- Não esperava que você fosse dizer isso logo hoje, logo agora.
–- Achei que já era o momento. Estamos juntos há um tempo... E eu realmente gosto de você, Kagami-kun. Nada mais que justo.
A minha mente passou a girar em torno disso. Eu precisava pensar seriamente sobre o que eu diria aos pais dele. Os conheci e parecem ser pessoas legais quanto a esse tipo de assunto, mas ainda assim não posso deixar que as aparências me enganem.
–- Estou indo comprar bolo, você vai querer? -- girei as chaves no dedo.
–- Sim, por favor, baunilha. -- ouvi seus passos acelerados cobertos por meias até ele chegar a minha frente. Inclinando-se na ponta dos pés para alcançar meu rosto e selar nossos lábios. -- Não demore.
–- Farei isso. -- sorri.
Estava nevando fraco, um cachecol listrado cobria parte de meu rosto, deixando apenas o nariz que tinha a sua ponta vermelha de fora. As mãos estavam envoltas na lã de um par de luvas azuis, da cor do casaco que as acolhe em seus bolsos. As pegadas grandes dos sapatos eram deixadas na neve fofa que havia no chão. E olhando para o chão envolto em pensamento foi que me esbarrei em alguém.
–- OÊ! -- resmungou o dono da voz grave. -- Presta atenção aonde anda, Bakagami!
–- Ahomine! -- uma veia saltaria em minha testa se isso fosse possível.
–- O que faz aqui no frio?
–- Pergunto a mesma coisa. -- nos encarávamos.
–- Hum? -- arqueou a sobrancelha. -- Onde está o Tetsu?
–- Em casa, e onde está sua sombra, a Momoi? -- sorri de canto.
–- Não andamos mais juntos. -- colocou a mão na nuca, desviando os olhos. -- Onde está indo? Estava mesmo a fim de conversar com alguém.
–- Na doceria.
Comecei a andar, ele ao meu lado.
–- E então? Vocês viviam para cima e para baixo juntos, o poderia fazer ela se afastar?
–- Eu começar a namorar. -- pôs as mãos dentro do casaco assim como eu.
–- Na-Namorar? -- pigarreei.
–- Está achando que só você pode? -- abriu a porta do ambiente. -- As damas primeiro. --- me sorriu de lado.
–- Palhaço. -- sentamos no canto, próximo à janela, e pedimos café. Lá dentro estava quente e aconchegante. As luvas e casacos não seriam tão necessários no momento. -- Quando que ela te deixou?
–- No mesmo período em que você e o Tetsu começaram a namorar, que foi quando eu também comecei. -- encarava a xícara sobre a mesa de madeira desforrada. -- De uns meses para cá ela havia mudado seu jeito comigo, estava mais grudenta, me chamava para cinemas, praças.
–- Resumindo, ela estava gostando de você e estava querendo demonstrar isso.
–- O problema é que eu sempre achei que ela gostasse do Tetsu, desde aquele lance do palito de picolé. -- deu de ombros. -- Porém, ela escolheu uma péssima hora para se declarar, se bem, olhando pelo lado de Teiko e hoje, qualquer hora seria péssima. -- sorriu descaradamente.
–- Que malvado. Você poderia ter deixado bem claro as suas intenções desde o início, não acha?
–- Mais? Não há no mundo pessoa mais sincera que eu quando se trata dos sentimentos.
–- Modéstia passa longe.
–- Eu nunca estivesse interessado no Tetsu se era esse o seu medo. Quando me disse da situação de vocês.
–- Como se eu acreditasse.
–- Estou falando sério, Kagami. -- me olhava nos olhos. -- Ele sempre fora meu amigo, e se você ainda tem dúvidas quanto a isso, pergunta ao próprio sobre quem sempre esteve em meu coração. -- tomou do líquido. -- Se eu o quisesse, ele já teria sido meu.
–- Sério, eu não estou reconhecendo você nesse timbre de voz e as palavras. -- franzi a testa.
–- Me deixa. -- seu celular tocou, um sorriso satisfeito tomou seus lábios enquanto ele digitava uma resposta a pessoa.
–- Você não está normal.
–- Não mesmo. Sabe, eu fiquei feliz por você e o azulado terem dado certo. Os pais dele já sabem?
–- Bem... -- engoli a seco. -- Ele está planejando me levar para conhecer os pais dele esse final de semana. Não bem conhecer, mas me apresentar como seu namorado. E eu estou aflito com isso. -- suspirei. -- O que disse aos pais dessa pessoa?
–- A-o-Mi-Ne-Cchi! -- Kise entrou batendo os pés, na direção do moreno. O loiro trajava roupas quentes, um grosso casaco branco, com calças escuras. Pisquei inúmeras vezes ao ver o rapaz pisar forte enquanto se aproximava.
–- Oi. -- sorriu para o outro.
–- Eu estava esperando. -- inflou as bochechas, mas não parecia certamente bravo.
–- Culpe-o, eu estava indo para casa. -- apontou para mim.
–- EI! Eu não tenho nada haver com isso! -- levantei as mãos.
–- Kagamicchi! Que saudades. Onde está o Kurokocchi?
–- Em casa, mas...
–- Chega para lá Aominecchi. -- sentou ao lado do outro, tomando a xícara que ele levava aos lábios para beber o conteúdo.
–- Kise, o que eu disse aos seus pais? -- apoiou um cotovelo sobre a mesa, encarando o perfil do outro com sua cabeça descansando sobre o dorso da mão.
–- Kagamicchi vai falar com os pais do Kurokocchi?
–- Vou, mas como sabe?
–- Ele me contou. -- jogou a cabeça loira para o lado na direção do outro. -- Não seja como ele, “Senhores, o Kise e eu... Nós transamos. Mas não é sobre arrependimento ou coisa parecida que quero falar. Na verdade, quero apenas a autorização para que eu continue com o filho de vocês, faremos sexo mesmo que vocês não aceitem, só para ficar claro.” -- suspirou. -- Foi mais ou menos isso que ele disse para meus pais.
–- Aomine você, -- ele deu de ombros enquanto me encarava de volta. -- eu não posso acreditar. -- não segurei o riso.
–- O que queria? “Oh, por favor, deixe-me ficar com o filho de vocês, eu o amo!” Não que isso não seja verdade, mas nunca que eu chegaria falando algo assim.
Por fim, eu decidi deixar os dois a sós, já que percebi que ficaria apenas atrapalhando o romance dos dois. Fora que prometi não demorar, e por isso acelerei meus passos de volta para casa. Fui recepcionado por olhos caídos e indagadores pelo motivo de minha demora.
–- Desculpe, encontrei o Aomine enquanto ia, -- tirei o cachecol, pendurando-o junto com o casaco. -- ele disse que queria conversar.
–- Como está o Aomine-kun? E o Kise-kun?
–- Então você sabia que eles estavam juntos?
–- Ele havia me dito, quando nos encontramos pouco antes das aulas acabarem, e já era de imaginar, o Aomine-kun gosta dele desde que éramos de Teiko. -- tomou a sacola de papel de minhas mãos, indo à cozinha para separar as tortas em pratos.
–- Sempre achei que o Aomine te quisesse. Cheguei a deixar claro para ele que eu estava com você, como meio de mantê-lo longe.
–- Se houvesse me perguntando, não haveria necessidade disso... Não acha? -- puxou a cadeira, sentando-se. O acompanhei.
–- Fui um besta. -- ri, encarando o morango espetado no garfo.
–- Sim, você foi. Mas não será isso que me fará gostar menos de você Kagami-kun, pelo contrário. -- pela primeira vez no dia ele me abriu um largo sorriso, e naquele momento eu perdi o chão sobre minhas solas.
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