High School
1 PRÓLOGO - PARTE 1
Elizabeth encarava seu closet com desprezo pela décima vez naquela manhã. Onde estavam as suas roupas? Sempre parecia que não tinha nada novo pra vestir, mesmo que fosse ao shopping com Vitória praticamente todos os dias. Desistiu de procurar no armário, fazendo uma nota mental para lembrar de comprar roupas mais tarde. Hoje definitivamente não é o meu dia. Pensou Liz, enquanto olhava seu reflexo no espelho e notou que com aquelas olheiras e o cabelo em ninhos, ela seria um ótimo zumbi em The Walking Dead. Três batidas na porta, Liz reconheceu aquele gesto como sendo da empregada da casa, Vera. Largou o pente com o qual tentava desembaraçar seu cabelo e se arrastou para abrir a porta com muxoxos.
— Sim?
— Seus pais a esperam para o almoço, senhorita Liz.
— Obrigada, Vera. Já vou descer.
Elizabeth voltou à pentear o cabelo, tomando cuidado para que demorasse bastante. O almoço de domingo era o que mais a aborrecia na casa, porque Liz sabia que era apenas uma forma dos pais tentarem se redimir por passarem a semana inteira no trabalho, fora assim desde que Liz se lembrava, sua companhia sempre era Vera, eram apenas elas duas no casarão. Finalmente, quando seus cabelos estavam tão lisos quanto possível, ela teve de descer.
— Bom dia. 》Liz se forçou a dizer.《
— Bom dia, Liz. Como foi na casa da Vitória ontem à nojte?
— Very cool. 》Liz adorava a expressão de dúvida que seu pai fazia quando ela falava em inglês. Era uma das coisas que ela tomou como hábito, só para irritá-lo.
— Por que voltou tão cedo hoje?
— Because I...
— Português, por favor.
Liz revirou os olhos.
— Eu não quis dar trabalho aos pais de Vitória, saí cedo.
— Certo, mas isso não explica porquê você está cheirando a bebida.
Liz parou a colher que levava à boca no meio do caminho. Ele não poderia ter descoberto, Vitória e Liz haviam planejado sair para a festa da noite passada por meses e Liz tinha certeza que três banhos eram suficientes para deixa-la com aparência sóbria novamente. Ele estava blefando. Mas agora você se entregou. Pensou Liz. Agora ele vai saber.
— Não estou cheirando a bebida, pai.
— Certo, mas por que está agindo como quem tem culpa no cartório?
— Não estou.
— Está, sim.
— Ok, eu fui à uma festa, e daí?
— Acho que eu lhe disse que não poderia ir àquela festa.
— Tem razão, você disse.
— Elizabeth, cuidado.
Liz não respondeu, apenas deu de ombros, sabia o que viria a seguir e ja estava acostumada.
— Você sabe que tipo de gente vai à essas festas, não quero você por lá, não estão à sua altura.
— Acho que você quis dizer à sua altura papai. Pra você ninguém é bom o suficiente.
— Veja bem, Liz, o que as pessoas vão dizer se souberem que eu deixo minha filha sair por aí nessas boates, e logo agora, estou em campanha Elizabeth, você não pode...
— Eu posso, sim, papai. Tudo é sempre a sua campanha, a sua imagem! Sempre a mesma coisa. Estou cansada disso.
Liz se levanta e segue em direção ás escadas para o seu quarto.
— Elizabeth, eu sou seu pai, não falr assim comigo!
Ignore. Pensou Liz.
—Elizabeth, volte aqui, eu não acabei!
Ignore.
— Elizabeth não dê as costas pra mim!
Mas a porta do quarto já tinha sido trancada, e Liz não pretendia abri-la antes do dia seguinte, na hora de ir pra BlackWater High School e deixar aquela maldita casa.
***
Liz acordou com um susto. Pedras batendo nas portas duplas de sua sacada. Não lembrava de quando havia adormecido, mas sua maratona Pretty Little Liars não foi terminada. Liz andou até as portas que separavam seu quarto da varanda lá fora, estava frio demais. Apertando os braços contra o corpo ela seguiu até as grades e olhou para baixo.
— O que está fazendo aqui?
— Vim ver você. 》 Respondeu Robert, com um sorriso no rosto. 《
— Não podia entrar pela porta da frente ao invés de quase quebrar a minha?
Robert não respondeu. Começou a escalar a parede da casa de Liz até parar de frente à ela.
— Bom trabalho, king kong.
— Seus pais não me deixaram entrar.
— Ah... Imaginei.
— Brigaram de novo? 》Robert ergueu uma sobrancelha, já sabia a reposta.
— Não me olhe assim, você os conhece, a culpa não é minha.
— Claro, eu sei.
O silêncio pairou entre eles por um tempo. Ambos sabiam porquê Robert estava ali, na sacada de Liz enquanto estava fazendo 5 graus negativos naquela varanda. Liz e Robert tiveram um breve romance naquele verão, mas agora Elizabeth iria embora.
— Então, como ficamos?
— Acho que... não ficamos. 》Liz respondeu, titubeante.
— Mas eu gosto de você!
— Eu também gosto de você, Robert, mas eu não estarei mais aqui, e mesmo que estivesse, não sei se gosto de como as coisas estão indo.
— Como assim?
— É que você merece alguém que queira mais do que algo casual, sabe? E eu não quero isso, eu não sou essa pessoa. Desculpe.
Robert parecia ter o coração arrancado do peito.
— Mas que porra é essa, Elizabeth? Nós passamos anos juntos, só como amigos, eu sei, mas você sempre soube que eu gostava de você de verdade!
—Robert, escute...
— Não, Liz, me escuta você! Eu era só mais um passa tempo? É isso, não é? Eu vi você descartar um cara atrás do outro desde a nona série, e agora foi a minha vez. Você só me usou pra se divertir e agora vai me jogar pro fim da fila de novo, como todos os outros.
— Não é assim! Você sabe que eu te considero muito, mas como amigo...
— Você me considera? 》Ela gritou tão alto que Elizabeth pulou de susto.
— Elizabeth, isso tudo era mais que uma coisa casual pra mim! Se você realmente tivesse o mínimo de consideração, teria me deixado em paz, as pessoas não são marionetes, não se pode brincar com elas e depois guardar na caixa!
Liz não respondeu. Pra ela era fácil controlar os sentimentos, não se apaixonar... Mas ela esqueceu que os outros não eram como ela. Sentiu um peso cair sobre os ombros, tentou se aproximar de Robert, mas ele se soltou de seus bracos, indo embora.
— Eu nunca mais quero ver você na minha vida, Liz, você é um lixo.
E ele saiu. Descendo a parede que Elizabeth o viu subir milhares de vezes nos últimos anos. Um nó se formou na garganta de Liz quase impedindo-a de respirar, porque naquele momento ela sabia que não o veria na sua varanda novamente.
Notas finais
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