Hidden Truth
2 Prólogo
Notas iniciais
— Tem alguém aqui? — A voz feminina soou abafada, mas raivosa sendo seguida por resmungos.
Uma mão agarrou firmemente meu pé e me puxou para fora das engrenagens que mexia. A luz repentina fez meus olhos arderem.
— Você está louca? E se eu tivesse danificado uma parte da máquina? — Me segurei para não gritar com a loira.
— Não tem mais nada para arrumar nela, você foi mexer de intrometida. Checou se seu colar está em ordem? — Provocou com um sorriso sarcástico levando a mão até a peça metálica entre meus seios no formato de um medalhão.
— Já chequei. — Bufei cansada. Era a décima vez do dia que checava se estava tudo pronto. — Carol, você não é a única que está ansiosa, mas relaxe um pouco. Você está me dando vontade de ter socar. — Disse casualmente pegando um pano e retirando parte do óleo em minhas mãos.
— Cheguei! E trouxe sorvete! — Uma rouca voz masculina soou e um rapaz moreno de olhos claros entrou com os braços cheios de deliciosos sorvetes.
— Não acredito! — Gritei como uma criança na manhã de Natal, e não, isso não aconteceu porque passei as últimas 72h em claro. Esse é o meu normal. — Se tiver calda de chocolate eu até penso em te dar um beijo! — O rapaz sorriu e retirou dos sacos de papel um grande frasco de maravilha dos deuses.
— Como eu sei que você nunca vai me beijar, nem vou me dar ao trabalho de pedir. Mas não digo o mesmo sobre a Carol. — Sorriu soltando uma piscadinha para a loira que fingiu que não estava nem aí, enquanto eu ignorei o futuro casal e parti para o que interessa: o sorvete.
— Sorvete! Temos sorvete! Tem de chocolate, morango e flocos! Tem cobertura, granulado e trufas! Não importa qual! Quero tudo no meu estômago! Por quê? Por quê? PORQUE É... SORVETE! — Cantei feliz.
— Jully deixa um pouco pra mim! — Exigiu Evan.
— Nunca! — Me agarrei mais ao doce o que me causou calafrios, mas ignorei e voltei a cantar ainda mas animada agora que já estava montando o meu pote com tudo o que tinha direito dentro. — Sorvete! Sorvete! Vou comer todo o sor...
— Até quando você vai ficar bancando uma criança? — Gritou Carol de repente. Deve estar com ciúmes porque o futuro namorado dela está me agarrando enquanto tenta alcançar o pote de sorvete.
— Qual o problema de ficar animada com sorvete? —Mostrei a língua como toda a boa adulta responsável enquanto largava o pote. — Ontem você quase chorou vendo desenho! — Retruquei mostrando a língua e me lembrando de ter a visto chorar com um episódio de Padrinhos Mágicos.
— Qual é? Aquele episódio é épico! — Retrucou mostrando a língua.
— Calma garotas. — Tentou aplacar a briga o rapaz que quase chorava de rir de nossa discussão e me entregando uma grande porção do doce.
Os dois começaram a entrar em uma discussão de como eu era infantil ao extremo e como Carol fez a maior parte do trabalho enquanto Evan tentava me defender e quase apanhava da loira uma cabeça mais baixa. Eu ignorei os dois, todos passaram as últimas 72h em claro terminando o projeto, como eu passava mais tempo que isso acordada durante a faculdade movida a café e Mentos, pelo menos nesse projeto eu tinha mais opções de glicose.
Já estava cansada da discussão (passei os últimos 30 minutos encarando os dois e imaginando quando eles iam começar a se agarrar), o sorvete já tinha derretido, já tinha arrumado o galpão e toda e a graxa e óleo que estavam espalhados pelos meu braços estavam começando a me causar alergia. Calmamente levantei da mesa em que estava apoiada e segui em direção à loira que estava de costas e bati com força um ponto de sua coluna a fazendo desmontar.
— Leve-a para o apartamento dela e a jogue na cama. — Entreguei um molho de chaves na mãe que não estava agarrada a Carol. — Ela deve acordar amanhã. — Disse já indo em direção a porta do galpão pronta para trancar a porta, não podia desligar as luzes por causa do programa que estava rodando, nossa sorte é que a maioria da iluminação é feita por LED e ele puxa pouca energia.
— Até depois do almoço, Jully. — Se despediu Evan depois que o ajudei a colocar Carol dentro do carro.
Me despedi com um aceno e não me lembro de muita coisa depois que entrei na minha picape. Lembro vagamente de ficar presa no elevador do prédio junto com uma criança que tinha pacto com o capeta, passei na cozinha pra procurar alguma coisa salgada, percebi que ainda era meio dia e que tentei chegar ao quarto.
Acordei no dia seguinte e senti um cheiro estranho. Parecia uma mistura de urina de gato com enxofre, abri os olhos desesperada e percebi que era só o meu cabelo levantei aliviada a percebi que estava dormindo ao lado da caixa do gato e que apaguei no corredor mesmo, tentei levantar quando percebi que havia um peso quentinho a minha barriga.
— Lily, sai da minha barriga. — Saiu mais como um gemido do que uma ordem. Não ia brigar com a gata de novo, os vizinhos já tinham ameaçado de me internar no hospício essa semana, mais uma vez e eu teria que passar outra hora explicando que não sou louca, só apreço uma.
Agarrei a bola de pelos negros e nos dirigi à cozinha, sabia que não teria anda lá, mas não custava tentar. Coloquei ração na tigela escrita “Lily Evans”, sim eu dei o nome da minha gata em homenagem a mãe do Harry Potter, me processem!
Depois de me certificar se Lily teria comida e água o suficientes para uma semana, limpei a caixa de areia e joguei todos os brinquedos dela na sala — à esse ponto ela já estava brincando pela casa toda —, me certifiquei se as janelas estavam trancadas e fui tomar um bom banho antes de colocar um vestido e uma sapatilha, eu não tinha muitas roupas desse tipo então não perdi tempo escolhendo.
Acariciei uma última vez a felina demorando mais do que o necessário perto de sua cabeça até que ela fechasse os olhos de cores distintas e ronronasse. Antes de sair peguei o celular e a chave do carro.
Desci 16 andares de escada até o térreo, tentei recuperar minha vida e continuei mais dois de escada até a garagem, depois de ontem preferi não arriscar.
Cheguei com tempo de folga e ainda assim fui a última a chegar. Se marca para as 14 por que chegar as 13? Essas pessoas pontuais...
— Bom dia cambada! Isso é comida chinesa? — Peguei uma caixa que estava em cima da mesa, eles devem ter pagado com meu dinheiro, pois minha carteira esta ao lado. Só de vingança peguei todo o Camarão à moda de Xangai.
Ninguém reclamou ou mesmo olhou para mim, a tensão era quase sufocante, os únicos sons em todo o ambiente eram os bips dos computadores, os ventiladores e o mastigar das comidas.
Depois de aproximadamente uma hora estávamos prontos. Carol e eu colocamos os colares que serviriam para transmitir as ondas eletromagnéticas pelo nosso corpo e como um escape de emergência e os brincos que seriam nossos comunicadores. Demos as mãos e subimos na plataforma e fechamos os olhos. Não sei quanto a ela, mas eu comecei a rezar. Se eu morrer deixo tudo para Lily e quando ela morrer vai tudo para os pobres!
— No três! — Avisou Evan distante. — Um... Dois... Três! — Ele disse depois de respirar fundo.
Senti o colar vibrar, primeiro fraquinho e depois aumentando rapidamente até parecer o coração de um beija-flor, um ponto no meu peito começou a esquentar e o calor se espalhou pelo meu corpo como se estivesse em combustão, quando deixei de sentir a mão da Carol tive certeza. Fracassamos, eu morri e agora estou aproveitando as últimas 24h do meu cérebro ativo antes de morrer de vez.
— Jully, abra os olhos! — Uma voz feminina mandou. Até após a morte ela vai me infernizar!
— Morremos? — Perguntei só pra confirmar.
— Não! Deu certo! Nós nos tele portamos! — Ela disse feliz me chacoalhando.
Abri os olhos.
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