Notas iniciais
Esse é o primeiro capítulo da minha primeira história publicada aqui. Ela é baseada no cenário de Vampiro: a Máscara, que eu jogo já a alguns anos (com um grande intervalo, mas...). Richard foi uma idéia que eu tive pra um personagem, e espero que gostem dele (ou pelo menos das histórias dele). Esse capítulo é só uma introdução ao personagem e à situação em que ele se encontra, então algumas coisas serão melhor definidas nos próximos capítulos.

Richard estava com medo do que estava prestes a fazer, mas há dias se esforçava e não conseguia pensar em nada melhor. A alternativa era voltar às estradas, mas só pensar nisso quase fazia seu coração voltar a bater. Se continuasse peregrinando seus irmãos o encontrariam mais cedo ou mais tarde, e depois do que aconteceu, eles com certeza não o dariam as boas vindas. Mas aqui ele podia se esconder, e até mesmo conquistar a proteção de seus “primos” para o caso de ser encontrado. O risco era grande, e ele se perguntava o que eles cobrariam em troca dessa proteção, mas com certeza ele tinha mais chances de preservar sua existência se decidisse curvar os joelhos.

O tempo que ele tinha para tomar sua decisão estava ficando mais curto, e agora só cinco pessoas estavam na sua frente na fila para entrar na boate. Sua preocupação havia impedido que ele notasse antes, mas a garota à sua frente era bastante interessante. Alta e magra, com os cabelos pretos cortados bem curtos, um pouco espetados para o alto. Ela tinha alguma coisa tatuada no pescoço, mas Dick não conseguiu perceber exatamente o que era. Uma mulher como essa seria uma excelente companhia por algum tempo, ele pensou, logo tentando expulsar o pensamento de sua cabeça, rindo de si mesmo por desejar a companhia de uma desconhecida, provavelmente uma viciada para usar um cabelo daquele. Mas você está sem se alimentar a três dias Dick, e em uma cidade desconhecida, ter uma refeição quente te aguardando em casa pode ser muito útil.

Richard então começou a pensar que precisava arrumar um abrigo melhor. Não que ele precisasse de muito conforto, mas o baú enferrujado de um caminhão sem motor em um ferro velho não era exatamente um local para onde ele pudesse levar companhia. Mas ele não tinha dinheiro, e não conhecia ninguém na cidade que pudesse ajudá-lo nisso. Talvez o homem que ele veio procurar pudesse ajudá-lo, mas ele com certeza iria querer algo em troca, e Dick não estava muito ansioso para vender sua alma para os Membros.

- Senhor?

Ele percebeu então que já estava na porta do clube, e o segurança havia perguntado alguma coisa. O que diabos teria sido?

- Me desculpe. Eu estava distraído. — ele disse, mostrando seu sorriso mais cordial ao segurança.

- O seu nome, senhor? — disse o segurança, sem ao menos sugerir que pretendia retribuir o sorriso.

- Richard. — ele respondeu, tirando o mais rápido possível o sorriso besta do rosto.

- Tem algum documento, senhor Richard? — o segurança, assustadoramente inexpressivo, questionou, estendendo a mão.

- Eu vim falar com Graham! — Richard respondeu, tentando mostrar um pouco mais de domínio da situação. — Assuntos de família, se é que você me entende. Pode me deixar entrar, ou eu devo chamá-lo aqui fora?

O segurança recuou um pouco ao ouvir isso, apenas encarando Richard, e após alguns segundos meneou a cabeça. — Claro, fique à vontade. — ele disse enquanto se afastava do caminho para que Richard entrasse no “Drop of Lust”, a única boate da cidade que se manteve aberta por mais de um ano até onde ele sabia.

Richard seguiu por alguns metros, e assim que virou o corredor e passou por uma porta o ambiente foi tomado pela cacofonia que hoje em dia se passava por música. Ele se concentrou por alguns segundos para se acostumar com o som e as luzes infernais do local antes de olhar a seu redor procurando por aquele que devia ser Graham, mas não estava conseguindo encontrá-lo. Tudo que ele sabia sobre ele era o nome, e as luzes piscando não estavam ajudando nem um pouco. Ele começou a andar pelo salão, tentando encontrar algum indício, dividindo sua atenção entre procurar por um rosto desconhecido e evitar que algum jovem drogado derramasse sua bebida sobre ele.

Então ele sentiu, algo tocando em seu braço, e lábios quase tocando sua orelha. – Richard? – ele se virou subitamente, para ver uma mulher, um pouco mais alta que ele, com o cabelo loiro e olhos azuis, sorrindo para ele. Antes que ele pudesse dizer algo, ela se inclinou e falou novamente em seu ouvido – Eu sou Nicole, vou te levar até Graham. — ela disse, e então o soltou e começou a andar. Richard pensou pela última vez se devia prosseguir, mas observando os quadris de Nicole se movendo sob o vestido que ela usava ele finalmente tomou a decisão. Era melhor conviver com aquilo do que correr o risco de se encontrar com sua “família”.

Nicole subiu uma escada, terminando em uma sala com uma enorme janela espelhada por fora. Richard entrou logo atrás dela, e quando ela fechou a porta, a música da boate foi substituída por um jazz, o que o deixou muito mais confortável. A sala era coberta de veludo negro, e a iluminação deixava o lugar em uma penumbra suave. Havia alguns sofás espalhados, e no maior deles, de frente para a janela estava sentado um negro com a cabeça raspada, que logo se levantou olhando e sorrindo pra Richard.

- É um prazer conhecê-lo, senhor Richard. Eu sou Graham, como você deve ter imaginado. Há algo em que eu possa ajudá-lo? — as palavras e o sorriso do homem sugeriam cordialidade, mas seus olhos verdes sugeriam algo maligno.

O homem era bonito, apesar de seu nariz largo, e usava um terno que lhe caía muito bem. Entre ele e Nicole, loira e alta, com um vestido que Richard diria ser de bom gosto se entendesse sobre o assunto, ele se sentiu inadequado com seus tênis surrados, calças jeans puídas e sua camisa vermelha da sorte, a única na verdade, e que já mostrava claros sinais de idade.

- Eu sou novo na cidade, e não gostaria de ter, bem, problemas com a lei. Eu soube que você poderia me ajudar. Me introduzir à sociedade, por assim dizer.

Richard não conseguiu evitar baixar a cabeça enquanto dizia isso, pois ia contra tudo que ele havia sido instruído a fazer. E aparentemente sua vergonha se tornou óbvia, pois Graham se aproximou, tocando suavemente em seu rosto. Richard ergueu os olhos para ver Graham o olhando com ternura, embora um reflexo no fundo de seus olhos mantivesse a sugestão de maldade.

- Um pequeno favor, que você com certeza não terá problemas em pagar quando chegar a hora, meu caro Richard. Haverá um encontro, dentro de cinco dias. Eu o apresentarei, desde que você esteja lá para isso. — Graham então o soltou, se voltando a Nicole – Traga alguém para que Richard possa desfrutar de minha hospitalidade, e assim o acordo esteja selado.

Ela então se voltou e saiu, o que Richard ficou observando até que a porta se fechasse atrás dela, ignorando o som que entrou por alguns instantes na sala.

- Ela não, meu caro Richard. — Graham disse, interrompendo seu devaneio — Peça-me qualquer coisa, mas não ela. Aquele é o mais precioso de meus muitos tesouros.

Richard apenas se encostou em um canto com a cabeça abaixada, um pouco sem-graça pela situação. Graham voltou a observar a multidão sentado em seu sofá, até que cerca de dez minutos depois a porta se abriu. Nicole havia voltado, e junto a ela um rapaz, com cerca de dezoito anos, o cabelo preto muito curto e o olhar vidrado. Graham fez um gesto e o rapaz se aproximou, se ajoelhando à sua frente. Graham então arrancou a camisa do garoto com um puxão e mostrou suas presas, ao que o rapaz não demonstrou a menor reação, e então se voltou a Richard.

- Compartilhe a refeição comigo, e eu te apresentarei aos Membros, e você poderá ter a não-vida que desejar na cidade.

Richard pensou no que aquele gesto significava, e o que poderia estar escondido por trás disso, e pensou se não seria uma nova oportunidade de voltar atrás. Ele não sabia que riscos sua estadia na cidade e o envolvimento com Graham trariam. Mas a alternativa era voltar à estrada. E esses riscos ele conhecia. A última semana com sua família ainda estava fresca em sua memória.

Richard se agachou e mordeu.

Notas finais
Obrigado a todos que leram (alguem??? lol) e por favor, deixem sua crítica.