(Hiatus) The Soul
13 Epílogo Parte Três - Capítulo Seis, Transtorno de Kalifa
Notas iniciais
O problema das almas é muito simples: confiança.
Se todos fôssemos almas, tudo bem. Entendo. Confie na sua espécie. Mas aqui vai um conselho de um ser humano que não confia na sua própria espécie: não deixe as portas destrancadas em hipótese alguma, ainda mais quando você está no meio de uma colonização de um novo planeta. Apenas uma dica.
— Poxa, que clima tenso – comenta Jake. O engraçado nele é que eu gosto dele; é como uma versão mais velha do Jamie. Tímido às vezes, mas quando se permite conhecer, é um verdadeiro babaca contador de piadas ruins.
— Quer ficar calado? – ordena Jared aborrecido.
Ao contrário de mim, Jared não gosta muito dele. Talvez porque eu goste dele e porque ele tem a minha idade, e, só talvez, ele esteja com ciúmes. Por isso, Jared o vem tratando de forma muito... Arisca.
— Tudo bem, senhor mal humorado – ele fala, arregalando os olhos. Solto uma risada aguda e cubro a boca com as mãos para abafá-la.
Jared me fuzila com o olhar. Ops.
Ah, qual é! Não precisa ser tão rude com ele. É apenas um irmão mais velho.
— Pensei que estivessem levando isso a sério – ele fala com a voz já enfraquecida pela culpa por tentar me alfinetar. Realmente ele deve se sentir culpado.
— Olha aqui, quer parar de ser tão grosso com as pessoas? Você sabe que estamos levando a sério. Se você tem algum tipo de desavença com o Jake e está todo irritadinho, devia voltar agora mesmo pra Caverna, porque eu consigo me virar sem você – eu o repreendo com o máximo de frieza e autoridade que posso reunir em voz.
Eu venci – Jared bufa e revira os olhos. Jake quase arranca o próprio braço com uma mordida na tentativa de manter a risada para dentro.
— Quanto... tempo... temos de ficar aqui esperando? – Jake se arrisca falando cautelosamente, os olhos presos nos meus. Gostaria de dizer a ele que Jared é inofensivo, mas eu já esgotei minha cota de ‘mantenha seu namorado domesticado’ por hoje.
— Apenas cale a boca e espere – Jared ralha novamente.
De fato, o clima está tenso. Desde que seguimos o Buscador até a sua casa e nos empoleiramos na garagem, cuja porta estava destrancada, estamos aninhados em um canto escuro do recinto há umas duas horas. Sem se mexer. Estou tão angustiada quanto ele. Jared também deve estar, mas seu orgulho jamais o permitiria admitir isso.
Mergulhamos em um silêncio desconfortável, para variar um pouco. Jared não facilita as coisas em nada, um tremendo cabeça-dura. Como sempre, para aliviar meu estresse, repasso o plano em minha mente. Primeiro, seguimos o Buscador até sua casa (confere); em seguida, nós nos escondemos em algum lugar de fácil retirada e esperamos que ele se aproxime (confere); nós o raptamos e o colocamos no carro desacordado; nós o levamos para a caverna e o interrogamos; mandamos a alma dele, de acordo com os Códigos Morais da Peg – aliás, recentemente instaurados –, para um planeta melhor e o corpo dele terá a si mesmo de volta, assim como Ian. As pessoas têm que admitir que meus planos são ótimos. Realmente bons.
O único imprevisto até agora é que o Buscador em questão mal chegou em casa e já saíra para tomar um café de confraternização ou sei lá o quê na casa do vizinho. Ridículo, nunca desconfiei que almas pudessem fazer tal interação social. Tarde demais para escolher outro alvo – restava-nos apenas esperar por seu retorno.
Um barulho de sino de bicicleta reverbera pela garagem. Nós três nos entreolhamos e, por fim, mantemos vigilantes para a porta da garagem. Quase que como sentindo nosso olhar por sobre ela, a porta vai se abrindo lentamente, quase chegando a ser cruel tamanha sua lerdeza. Os raios de sol começam a banhar o ambiente escuro, fazendo com que eu aperte os olhos com tanta luminosidade.
A silhueta do Buscador surge imponente e muito compenetrada, diferente da maioria das almas. Ele está ao lado de sua bicicleta, seus pensamentos parecem estar vagando para longe dali; completamente distraído. E vulnerável.
Jared parece notar isso também; nós não nos escondemos num canto aleatório, sabe. Ah, desde que Peg deixou minha mente, adquiri esse hábito bizarro de falar sozinha comigo mesma mais regularmente que o normal. Enfim. Não nos escondemos em um canto aleatório – estávamos abaixo de um painel de ferramentas. Jared pega o martelo furtivamente, e eu o aviso apenas com um olhar para que não seja muito agressivo; não queremos matar o cara com uma concussão. Jared parece se aborrecer com meu aviso, como se estivesse tremendamente ansioso para encher alguém de socos e pontapés. Homens e sua necessidade de brutalidade. Ele vai se agachando e se afastando de mim e de Jake, cada vez mais perto de onde o Buscador está arrumando a correia de sua bicicleta. Está caminhando pelas sombras – acho que somente eu o veria, porque estou em constante alerta. Mas em qualquer outra circunstância, eu diria que ele está muito indetectável. Jake se aproxima mais de mim e só então vejo como ele está nervoso.
— Relaxa, Jared vai dar conta dele – eu digo, e dessa vez, não para me acalmar, apenas para reafirmar. Confio plenamente nas habilidades dele. Sei que vai dar conta.
— Exatamente por isso – ele diz, deixando-me claramente confusa.
Mas não tenho tempo para refletir. Um baque surdo e Jared está com o martelo erguido para cima de sua cabeça e o Buscador está estirado no chão. Eu me levanto e corro até o corpo jogado, seguida por Jake. Jared parece estar admirando o bom trabalho que fez, mas agora eu compreendo porque Jake disse o que disse; estou um tanto acanhada. Verifico o pulso, rezando para que ele esteja vivo. Pelo visto, Jared o acertou bem na têmpora; é melhor rezar para que ele não tenha tido um lapso de memória ou coisa do gênero. Seria, realmente, a última coisa da qual precisávamos.
— Não era pra ter sido tão bruto! – eu mal controlo meu tom de voz, que sai ligeiramente trêmulo e um pouco mais elevado que de costume.
— Qual é Melanie, ele vai ficar bem – Jared diz displicente.
— Bom mesmo – eu arqueio minhas sobrancelhas mais ainda, de modo que o faça entender que não estou brincando.
Jake não abre a boca nem para expirar.
Jared pega os calcanhares do Buscador e Jake pega os braços, e ambos o conduzem para o nosso carro velho e azulado, cuja lataria enferrujada chama atenção até demais. Eles depositam o corpo – credo, até parece que é um defunto – no porta-malas, e então nos acomodamos nos bancos.
Nós o raptamos e o colocamos no carro desacordado (confere).
Jared gira a chave na ignição e, repentinamente, a atmosfera se torna mais leve. Quase podemos gargalhar todos juntos. Respiro fundo e, espionando pelo espelho retrovisor, percebo que Jake se espreguiça e está prestes a dar início a uma música animada com direito à guitarra imaginária.
— Acha que ele vai saber o significado? – Jared pergunta um tanto mais descontraído. Seu olhar está mais tranqüilo, suas expressões mais suaves... Acho que apenas estava sob pressão ou em um estado muito inebriante de adrenalina, e agora se dera conta de que Jake é um palerma brincalhão, apenas.
— Tenho certeza. Buscadores sabem desse tipo de informação. Aliás, essa coisa de corrompido me parece algo perigoso, do tipo que eles buscam. Põe o Kyle na mesma sala que ele por três minutos e ele já vai sair falando tudo o que sabe – eu brinco, embora não possa haver brincadeira mais séria e verdadeira.
— Evan sabia – comenta Jake com um timbre muito saudoso, que eu nunca ouvira antes sair de sua boca. Pelo menos, não na minha presença; ele e Peg conversam muito, e muito baixinho.
— Sabia o quê? – pergunta Jared, e eu me admiro por sua boa receptividade.
— Quando acharam você e Peg, estavam procurando por cobaias. Evan estava liderando uma pesquisa sobre isso. Mas antes que me perguntem, eu não sei de nada. Só tive o azar de ter meu pai pesquisando com eles, e quando ele morreu não me restou alternativa senão ficar – ele fala brandamente, como se tudo o que ele dissera não fosse tão relevante assim, ou tão trágico.
Jared engoliu em seco e eu encarei Jake perplexa através do espelho retrovisor.
— Ele não ia matá-la – ele comenta após alguns segundos, que na verdade, chegam a parecer horas, dias, semanas e meses. – Ele injetou um soro para que ela dormisse. Quando Peg aceitou morrer de bom grado, eu o ouvi dizer para Sara que ela não era um deles. Um corrompido.
— Quer dizer que se fosse, teriam a matado? – eu não consigo evitar e a pergunta escapa pelos meus lábios.
— Não. Era só um teste. Eu cansei de ver esse teste. Se Evan julgasse que ela era um corrompido, ele a teria levado para a Ala do Tratamento de Choque, sabe. Nunca tive permissão para entrar lá.
— Por que só nos contou isso agora? – perguntou Jared, tão chocado quanto eu.
— Porque nunca perguntaram – ele respondeu simplesmente, dando de ombros.
***
Eu, Jared e Kyle encaramos o Buscador. Ele está amarrado em uma cadeira; os nós não estão tão apertados assim, mas sei que, mesmo frouxos, o Buscador não terá condições de escapar. Jake, graças a Deus, está cuidando de Peg, que voltou a ser um tatu-bola confinado no quarto.
Ele tem cabelos bem negros, lisos, fartos e bagunçados. Parece estar por volta dos trinta anos; tem um queixo quadrado e feições muito severas, assim como uma testa permanentemente enrugada, como se ele sempre estivesse em dúvida. Não é gordo, nem magro, apenas normal e em boa forma. Respira pesadamente. Seus olhos deviam ter sido muito escuros, pois mesmo com a aura brilhante e clara que envolve sua íris, de alguma forma ela parece enegrecida. Ele nos devolve o olhar com muita superioridade, como se nos dissesse que apenas sente pena.
— Eles darão por minha falta – ele resolve se manifestar após perceber que nenhum de nós três o faria.
Acho que estamos atônitos demais diante da perspectiva de respostas.
— Quando derem você já estará longe – Kyle retruca muito irritado. Acho que ele não se manifestou por pura fúria, temendo o que aconteceria caso resolvesse dizer o que quer que fosse.
Eu pigarreio; alguém precisa tomar a iniciativa desse interrogatório.
Nós o levamos para a caverna e o interrogamos (confere).
— Só preciso fazer algumas perguntas – eu digo incerta.
Ele me examina de cima a baixo, suspira e por fim assente quase que imperceptivelmente. Sorrio com o pensamento de que, agora, os papéis se inverteram.
— Bem... – eu tento começar até que me lembro de que não sei o nome do Buscador. E é tão frio chamá-lo assim; traz tantas más lembranças...
— Oceano Pacífico, mas pode me chamar de Ocean – ele fala quase que lendo minha mente. Sinto um arrepio e meneio a cabeça.
— Muito bem, Ocean – eu assumo meu melhor tom de voz seguro e autoritário. – O que você sabe sobre o termo corrompido?
Ele se empertiga na cadeira; parece ter ficado pálido de repente. Mantém sua postura ereta e engole em seco. Ele é uma alma como Peg. Não irá mentir e sabe disso. Está lutando contra isso.
— Nós... Faz um tempo que descobrimos algumas... Peculiaridades – ele começa com a voz fraquejada. Está se martirizando por contar isso a mim, mas ao mesmo tempo, não poderia omitir o fato. Está tendo um conflito interior.
— Que peculiaridades? – pergunta Kyle rudemente, mas ainda bem, Ocean não se demonstra nem levemente ofendido; aliás, parece acostumado.
— Algumas almas dentre nós não se comportam como almas. Existem essas... Peculiaridades. Nós sempre fomos cientes dos riscos genéticos, vejam bem... Mas isso não nos ocorria desde... Desde Pollux, eu acho – ele fala com a testa franzida.
— Adoro histórias. Pode começar – diz Jared um tanto impaciente.
— Bem... Pollux, como bem devem achar saber, é uma ‘estrela’. Há uns dois ou três mil anos atrás, nós, almas, descobrimos que havia sinal de vida nela. Haviam os chamados falcos, umas criaturas semelhantes ao que vocês têm aqui como águias. Possuíam uma visão esplêndida, com cores muito vivas, muito mais cores do que vocês, humanos, enxergam, aliás. Lembro-me até hoje da pelagem... De qualquer forma, naturalmente, nós fomos tentar colonizar o mais recente considerado planeta para nós. De início, tudo ocorria bem... Eram hostis, é verdade, mas não muito difíceis de serem capturados e submetidos às inserções. Mas então... Aconteceu o que chamamos de Transtorno de Kalifa.
“Uma de nossas almas foi inserida nesse falco, uma fêmea, chamada Kalifa. Ela resistiu durante a inserção de forma tão intensa que o código genético de nossa espécie se fundiu ao dela. Literalmente. Os genes se misturaram e alma fora considerada corrompida. A alma, conhecida como Nita, passou a agir feito os falcos, em sua essência, adquirindo todos os defeitos da espécie. O que, obviamente, contrai toda a naturalidade da nossa, que é a perfeição.”
“Em suma, a colonização foi um desastre; Kalifa, agora abrigando uma alma corrompida, Nita, começou a dar origens à falcos mais resistentes e, acidentalmente, mais dóceis, que por sua vez, viam-se em conflito entre resistir às inserções, graças à sua herança genética de Kalifa, ou ceder a elas, graças à sua herança genética de Nita. No fim, todos os falcos tornaram-se hospedeiros de almas corrompidas. Tivemos que abandonar o planeta. Até hoje, Pollux possui uma espécie miscigenada – falcos misturados a almas.”
“Desde o incidente, mantemos os olhos abertos para possíveis corrupções. Nós caçamos almas corrompidas assim como caçamos humanos. Eles são uma ameaça tanto quanto vocês, humanos desgovernados. Uma alma corrompida possui metade dos traços genéticos do humano no qual ela se hospeda; ela pode se tornar agressiva, teimosa... Pode ir contra tudo o que nossa espécie representa. E a reversão... Retirar uma alma corrompida é muito complicado. Uma operação delicada, essa, de separar os códigos genéticos...”
Assim que ele finaliza, só consigo manter uma coisa em mente: bolar um novo plano para arranjar alguém qualificado para essa operação delicada de separar códigos. Oito é corrompido; corrompido pelo Ian. Oito não é como as outras almas porque possui metade dos códigos genéticos humanos de Ian, os defeitos. E, para meu total e completo desgosto, temo que tenhamos matado o único que poderia ter retirado Oito de Ian: Evan. Preciso falar com Jake, e principalmente, com Peg.
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