Hey, Ho. Let's Go!
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Sete
Entrei correndo pelo corredor da sala onde Nicolas estava, como se fosse a única coisa que eu precisasse. E, na verdade, era.
Entrei com a Roberta, com as mãos geladas de nervoso. Abri a porta lentamente porque estava com medo de como Nicolas estava. Assim que abri por completo a porta, lá estava Nicolas em cima da cama, coberto por uma manta “verde-doença”, rindo provavelmente da minha cara, depois entrei rápido, num impulso de pular em cima dele, e eu realmente pulei.
_Oi! Estava muito preocupada com você, cara, sério_ falei quase chorando.
_Ah, baixinha, você sabe que eu não vou te deixar, não sabe?_ ele passou a mão na minha bochecha, e de repente, acreditei que estávamos namorando. Como eu queria beijar aquele menino! Mas, aí então, lembro-me de que não, não estou com ele. Aliás, ele está com a Talita. Menos, Magda, muito menos...
_Não, não sei não. Você não pode, sei lá, sair por aí sem olhar, você sabia disso? Você tem que tomar cuidado, hoje em dia o trânsito está terrível e...
_Magda, tá, xiu_ ele pega as minhas mãos_ Calma. Eu sei disso tudo, tá?_ ele beijou as minhas mãos olhando para os meus olhos, sorrindo_ Só não se esqueça que eu te amo.
_Eu também te amo_ depois que falei essas palavras, não consegui me conter. Chorei como uma menininha que perde o seu primeiro cachorrinho. Mas o meu cachorrinho ainda estava ali, e se recuperando. Só havia quebrado o braço esquerdo e uns arranhões feios na perna esquerda, também. Eu estava feliz por prosseguir meu secreto amor por Nicolas, mas ao mesmo tempo, desnorteada, justamente por ser secreto.
A Roberta foi muito legal comigo, porque ela resolveu ir embora e me deixar lá com o Nicolas, mas não é só por ter saído que ela é legal. Ela é muito cuidadosa com o que fala, também. Ela tem todo o receio do mundo de falar algo que machuque as pessoas, é por isso que ela está sempre cercada de amigos.
Sentei-me na cadeira do lado dele, apenas esperando, choramingando, e ele lá, não sabia se podia rir de mim ou se apenas fingia ser indiferente.
_Magda, calma, tá? Eu sei, eu sou um idiota. Mas não fica brava comigo, não. Sempre que eu faço burrada, você fica sem falar comigo_ ele ri.
_Você acha graça, Nicolas? Eu fiquei muito, muito mal quando eu recebi a notícia de que você tinha sido atropelado. Eu pensei na pior das hipóteses, Nicolas!_ comecei a tremer_ Você não tem noção das coisas, não é mesmo? Acha que brincando, que ir fazendo gracinha vai te deixar livre de coisas ruins. Acontece que você não quer ver as coisas, as coisas como elas são. Elas não mudam por você.
Fui um tanto rude, confesso; mas Nicolas precisava ouvir isso. Já havia um tempo que eu queria falar tudo o que eu falei, e, mesmo ficando bêbada, ainda era mais sensata que ele. Imagine, um homem feito, de 24 anos, com atitudes de garotinhos de 15!
Ele não me olhou com aqueles olhões azuis, pedindo desculpa. Ele me encarou, como um homem devia fazer, o que me deixou até com um pouco de receio.
_Eu admito, eu sempre fui esse garotinho. Perto de você, da Talita. Eu sempre fui um idiota, Magda, eu sei. Às vezes eu não brinco de propósito, eu brinco porque eu não tenho mais o que fazer pra me igualar a você. Eu não sei ser assim, tão... perfeito. A Talita, ela sabe disso_ ele tinha que falar dela?_ Eu amo ela, baixinha. Eu faria tudo para não ficar brincando o tempo todo se durante o tempo todo eu não sei o que falar com ela. Bem, é claro, agora a gente tem o que fazer_ ele ri, maliciosamente, e isso quase me matou. Porque não era só um risinho. Ele olhou pro lado como se lembrasse de alguma coisa (dela). Ele a desejou um minuto a mais.
Pensei novamente em algo bom, como a Roberta me disse pra pensar quando fosse difícil de sorrir_ o que, uma vez, funcionou perfeitamente. Mas eu não conseguia pensar mais em nada! Minha cabeça estava vazia, ou estava totalmente cheia, à ponto de eu não conseguir sequer me mover, nem ter reação. Eu já nem me lembrava que tinha que “sorrir”, estava apenas lembrando do rosto de Nicolas lembrando da Talita_ uma lembrança provavelmente nem tão inocente quando eu queria que fosse. Apenas fugi do olhar dele, e ele mal me percebeu. Ótimo.
Minutos depois, Miguel reaparece. Reaparece assim, do nada, pegando-me totalmente de surpresa. Mas dessa vez, com os olhos apenas um pouco vermelhos, mas com um sorriso incrível. E, devo confessar, lindo. Lindo como se não estivesse chorando, desesperado, meia hora atrás. É impressionante o quão frio um médio tem que ser, mesmo tendo sentimentos. Tá aí o que eu não posso ser: médica.
Ele deu uma olhada em quem estava sentada do lado do Nicolas_ eu_ e, assim como a minha primeira reação, arqueou as sobrancelhas, e deu um largo sorriso quando me reconheceu:
_Olá, Magda! Nicolas, eu estou vendo que você tem uma ótima companhia, hein?_ Ele piscou para Nicolas como se falasse: “Hm, safadinho”.
_Ela é minha amiga, doutor_ ele falou, rindo_ Ela é só uma amiga.
Ela é só uma amiga.
_A minha namorada está vindo..._ ele olha pro relógio do quarto, que marcava 6h57min_ em praticamente meia hora.
Ela é só uma amiga. A minha namorada está vindo.
Sendo fraca demais, ou forte demais por ter chegado até esse ponto, quase que me revelo de vez. Quase que choro de novo, confessando o meu amor meio perdido_ e proibidíssimo. Mas lembro, como se fosse a minha consciência me acusando de ser tão covarde, de Miguel chorando por causa da menininha. Aquilo até me arrepiou, porque até então, nada me dava a sensação de que o que eu sentia e o por quê de reclamar da vida eram motivos banais, mas aí vi o que realmente interessa_ a vida. A vida daquela menininha era muito importante pra aquele homem, aquele homem que podia mostrar suas emoções sem se preocupar, emoções essas breves, mas mais que verdadeiras. Aquele homem, o Miguel, conseguiu de um jeito profundo e triste tocar meu coração com a dor que eu mesma podia sentir sem conhecer a menininha. E agora, lá, vendo ele sorrir, lindo e à disposição de uma nova pessoa que precisa da sua ajuda, como se nada tivesse acontecido. Era essa força que eu precisava, porque ele resolvia, de um jeito ou de outro_ porque morte não é coisa que se resolva_, coisas muito maiores e mais difíceis que eu com uma habilidade totalmente superior à minha.
_Você não é pediatra?
_Não, sou médico geral. Ainda.
Uma coisa que me impressionou assim que eu tive a oportunidade de perceber, era que, enquanto num momento desses, Nicolas estaria rindo, Miguel simplesmente sorria com os olhos. Suas feições continuavam intactas, masculinamente sérias, como um médico digno de respeito; mas seus olhos verdes me diziam tudo, sorriam para mim como se realmente precisasse dos meus olhos. Isso me intimidou muito, porque até então eu estava acostumada com o sorriso do Nicolas, mas agora, ele me olhava sério, mas de uma forma linda e amigável. Não que o fato de ter me intimidado fosse ruim; era até o contrário, era bom, porque de uma forma ou de outra, aquilo despertava algo a mais em mim, algo que o Nicolas nunca tinha sido capaz de despertar: o sentimento de descoberta. Eu sempre soube o que Nicolas faria, nunca me houve uma surpresa. Miguel tinha em seus olhos os olhos daquela garotinha, de amor, de paixão, olhos os quais eu nunca tinha visto.
Ficamos conversando, eu, Nicolas e Miguel, até que a Talita chegou. Ela chegou correndo, desesperada, assim como eu cheguei.
_Nicolas! Ai, meu Deus!
Ela invade o espaço sem sequer reparar que eu e Miguel estávamos ali. Nicolas dá um pulo sem sair do lugar, logo abrindo os braços e um sorriso largo.
_Meu amor! Está tudo bem, calma_ ele beija Talita. Na boca, óbvio._ Ah, como é bom te ver.
_Nicolas, você me deu um grande susto! Eu...
_Ih... pode deixar_ ele puxa-a com o braço para mais perto da cama dele, colocando a mão no bolso de trás da calça dela_ a Magda já brigou comigo por causa disso, tá?_ ele ri e aponta pra mim.
Talita me olha, surpresa. Ela vem na minha direção, como se fosse me abraçar com o mais apertado abraço. E foi bem isso que aconteceu.
_Magda! Tudo bom? Quanto tempo! Me desculpa por não ter ido na sua casa quinta-feira passada_ como eu disse no começo, ela me visita todas as quintas_ Eu e o Nicolas ficamos lá em casa_ ela olha pra Nicolas, tão indecente quanto ele_ e eu não pude sair. Ai, amiga! Que bom que você está aqui.
_Talita, eu também acho muito bom você estar aqui!_ até que ver a Talita me fez sentir bem de novo, e por um momento nem me importou se Nicolas estava com ela, porque eu a amava também_ Sério, tá tudo bem, eu sei por que você não foi lá em casa. Mas, bem, agora estamos todos aqui, né?
_É!_ ela respondeu histericamente, e voltou-se a Nicolas, beijando-o. Não, não era “meloso”, nem “maçante”. Eu não conseguia sentir raiva por eles estarem juntos, até para isso eu era fraca demais. Eles eram meus melhores amigos, queria vê-los felizes, mesmo que para isso eu tivesse que ficar triste.
Nicolas olhou para Miguel, que até agora estava apenas observando-o, e numa tentativa de falar com os olhos, mostrou que precisava ficar sozinho com a Talita. Miguel finalmente sorri, e me chama para ir até a cafeteria do outro lado da rua com ele. Eu fui, louca para saber até onde eles poderiam ir em um hospital.
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