Notas iniciais
Eu estou tão vidrada com essa história, que eu SONHEI com a Magda e o Miguel. Pois é! Boa leitura.

Vinte e três

_Mas o que você vai me contar?

Ele estava suando frio, um pouco trêmulo. Eu nunca vi ele daquele jeito, mesmo no dia em que o conheci. Agora, ele estava preocupado, com receio, como se não pudesse evitar uma tragédia. Ele enfim pegou seu celular.

_Bem... eu namorei uma menina chamada Paola, há um tempo atrás. Namoramos durante seis anos, eu nunca havia namorado uma menina tão delicada e sensível quanto ela..._ ele olhou pro lado, lembrando-se dela, lamentando-se_ Estávamos bem até que ela sumiu sem dizer absolutamente nada pra mim. Eu fiquei muito mal com isso, qualquer um ficaria. Até que eu recebi uma mensagem dela, mesma, de que ela estava doente e não queria me dizer nada. Ela estava com câncer.

Eu, ali, ouvindo, tentando engolir cada palavra que ele dizia, não sabia se aquilo era bom ou ruim. Ele continuou:

_Então, depois de umas sessões de quimioterapia sem muitos resultados, bem... ela voltou pro hospital daqui. _ ele me olhou, sério, com os olhões verdes_ Eu fui visitar ela.

Ele me mostrou a mensagem que ela havia mandado pra ele. Os olhos dele brilhavam como quase nunca os vi brilhar. Ele estava tão encantado com a notícia, tão envolvido por ela, que nem ao menos tentava esconder seu entusiasmo. Dava pra ver nos seus olhos_ e em todas as suas feições_ que ele era feliz com ela. Como se uma chama que tivesse apagado, voltasse com força e ele não pudesse resistir a ela_ e não quisesse.

Mas e eu?!

_Onde você quer chegar com isso, Miguel?_ eu dizia, quase chorando._ Você foi lá no hospital ver a sua ex-namorada sem me dizer nada?!

Ele, então, retomou toda aquela tristeza no olhar, como se eu estivesse sendo rude demais perante à situação.

_Magda... a Paola não sabe se vai viver.

Olhei pra ele. Se fosse uma prima, ou irmã, eu ficaria comovida. Mas era a ex-namorada do meu namorado...

_Os médicos que estão acompanhando ela desde o início disseram que ela não tem muitas chances de ser curada._ ele começou a chorar.

O Miguel estava chorando pela Paola. Eu não sabia o que fazer_ brigar por ele estar tão mexido com a situação ou ajuda-lo, mesmo não sabendo como. Aí me veio à cabeça que, na verdade, eles não se separaram porque um deixou de gostar do outro: foi porque ela não quis contar pra ele que tinha câncer. Então quer dizer que ele ainda gosta dela e ela dele?!

_Deixa eu adivinhar: você tá se sentindo mal por causa dela, não é?

Ele confirmou com a cabeça, chorando. Eu sabia muito bem o que fazer, embora não soubesse como.

_Então, bem... você ainda ama ela? Você está se sentindo mal porque ainda ama ela? Claro que ama, vocês só se separaram porque ela sumiu.

Eu, esperando pra ser interrompida por ele, falando que eu estava errada, que na verdade ele me amava, e não ela. Mas ele simplesmente olhou pra baixo, esperando-me acabar de falar. O que?! Era isso mesmo? Miguel fez isso comigo, de verdade? Eu fiquei muito chocada: ele nunca havia me contado sobre ela, e nunca me mostrou que não era totalmente apaixonado por mim. Quero dizer, ele sempre estava ali, comigo, me admirando, me entendendo. Será que aquilo que eu chamava de amor não era amor, propriamente dito?

_Magda...

Eu estava confusa demais. Eu não queria ouvir mais nada que ele pudesse dizer, porque já nem sabia se aguentaria. E se ele dissesse que tudo acabou? E se ele dissesse que ela faz, sim, diferença pra ele? O que eu diria caso ele realmente gostasse dela?

Claro, ele está acabado, tanto por dentro quanto por fora. Mas e eu? Será que eu merecia ouvir o Miguel falando que amava outra menina, antes de eu aparecer na vida dele? Aliás, será que ele me amava, mesmo? E, agora que a Paola entrou na vida dele de novo, trazendo com ela o motivo de ter saído, um motivo ainda mais nobre que se pudesse imaginar. A lógica das coisas_ embora amor não tenha lógica_ ordenava que eles voltassem, e ficassem juntos pelo menos até saber no que isso ia dar.

Então, me coloquei no lugar dela: e se fosse eu quem tivesse câncer? E se fosse eu quem tivesse passado seis anos inteiros e felizes com Miguel, e de repente perdesse o amor da minha vida por rendê-lo de um sofrimento exclusivamente meu? E voltasse, novamente, à vida dele, agora com coragem para dizer o que aconteceu comigo e disposta a voltar com ele, e descobrisse que ele estava com uma outra menina. O que eu pensaria dessa “outra menina”?

E eu estava sobrando, agora?

Sai da casa do Miguel antes mesmo de ele completar a frase. Estava chorando, feia, ridícula, sem reação racional. Mas o que eu poderia fazer? Durante a minha “volta” pro meu apartamento, ainda me dei o sofrimento de lembrar do rosto de Miguel ao lembrar dela, de manhã. Aquele rosto lindo, doloroso, querendo sair daquela situação sem se mover. Por outra mulher.

Fui andando até chegar ao meu apartamento, o porteiro fingiu indiferença, enquanto na verdade, tinha pena de mim. Eu queria correr, chorar alto, gritar, perguntar as coisas pro Miguel, mas ouvir as respostas que eu esperava. Eu queria que isso nunca tivesse acontecido. Então o nosso amor foi, durante todo esse tempo, um erro? Nunca devíamos ter começado? Pois então, por que Miguel nunca me disse sobre ela? Talvez não fosse necessário falar de um amor que acabou do nada, mas e agora, que ela apareceu de novo?!

Estava subindo as escadas, chorando, quando meu celular toca. Era Miguel, obviamente. Eu atendi, mas sem dizer nenhuma palavra. Ele, do outro lado da linha, chorando, esperando por um “oi”. Eu simplesmente o ignorei, e joguei o meu celular com força contra o chão. Fui me arrastando até o meu apartamento. Quando fechei a porta, desabei.

Miguel, o meu namorado perfeito, não estava mais ali comigo.

Notas finais
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