Hey, Ho. Let's Go!
21 Capítulo 21
Notas iniciais
Vinte e um
Acordamos quase na mesma hora, no outro dia. É claro, como sempre, ele acordou primeiro que eu. Quando eu decidi acordar, Miguel estava voltando pra cama, com o cabelo bagunçado e uma bandeja de madeira, com o nosso café da manhã. Antes que eu pudesse perguntar alguma coisa, ele me disse:
_A Fatinha não vem hoje. Melhor, né?
Ele sorriu com aquele rosto masculinamente sonolento, lindo. Eu tirei o cobertor e sentei-me.
_Ah, que lindo, Miguel!_ disse assim que vi os cafés nas canecas, quentinhos, com marshmallows e pedacinhos de chocolate. O resto se compunha por torradinhas, geleia de morango e manteiga derretida. _Poxa, Miguel, você deve ter demorado um tempão fazendo isso, você podia ter me chamado e...
_Calma, Amor, o que é que tem eu fazer alguma coisa pra você? Pra nós...
E me beijou na testa. O Miguel sempre tinha uma resposta pras minhas perguntas, e as respondia de um jeito que só ele sabia fazer. Respondia a ponto de não me deixar mais perguntas, apenas o silêncio. O silêncio que precisávamos.
A janela do quarto do Miguel dava para um tempo preto e nublado. Estava frio, triste, parado. Perfeito.
_O tempo mudou, hoje, né?_ eu disse, bebendo/soprando o café, separando com o sopro os pedacinhos de chocolate e marshmallow para experimentá-lo.
Sequer havia percebido que Miguel não tinha respondido a minha pergunta, estava lá, em pé, bebendo café, de cueca e camiseta, olhando pra mim com aqueles olhos verde-esmeralda, nem rindo, nem sério. Pensando. Ele pensava, olhando pra mim. Olhando fixamente pros meus olhos, como se procurasse a resposta de alguma pergunta dentro deles.
_Magda, você é linda. Eu já te disse isso?
_Sinceramente? Ainda não._ sorri, porque ele sabia que eu não me importava com elogios.
Ele, então, rapidamente sentou-se na cama, de frente pra mim, ainda me encarando.
_Pois saiba que você é linda. Não se esqueça disso.
Quando Miguel disse a última frase, seus olhos se perderam completamente nos meus. Não que eu fosse tão hipnotizante quanto ele, mas ele se deixava levar. Ele queria conhecer mais do que já conhecia, parecia que eu ainda era um mistério para ele. Ele queria me entender, me saber de verdade, me ter na mais pura forma do “eu”, do “nós”. Não era como nas outras vezes, que ele simplesmente me olhava; agora ele me via. Ele enxergava o que nem mesmo eu podia ver, seus olhos apenas refletiam o que eu os dava para refletir. E, de repente, tudo aquilo, o café, o tempo lá fora, o frio: tudo não era nada. Apenas Magda e Miguel. Ou melhor, nós dois.
Um vento frio vindo da janela me arrepia, bagunça o cabelo do Miguel. Nos distraímos um do outro.
_Miguel, hoje está bom pra ficarmos em casa... o que você acha?_ disse, passando o dedo dentro do pote de geleia.
_Acho que você tem razão._ Miguel sorria com olhos.
Estávamos felizes, só nós dois. Não havia Nicolas, nem Talita, nem Roberta. Havia Miguel e Magda.
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Passamos a tarde toda vendo filmes. O primeiro foi “Paranoia”, que, de fato, eu não gostei muito, porque me deu medo. Mas o Miguel estava ali. Não, não era aquela coisa melada de “ai, o meu amor está aqui, então nada pode acontecer”. É que ele era grande, forte, e eu, apoiada nele, no sofá, me sentia bem mais segura. O segundo foi um dos clássicos do Batman. O terceiro foi “Rockstar”, e devo confessar que, nós dois adoramos ele. Ah, é claro, o que não faltou foi pipoca e Coca-Cola pro “cineminha”.
_Miguel...
_Oi?
_Você lembra do que aconteceu quando a gente saiu pra ver filme?
Miguel me olhou de um jeito ainda mais lindo que ele. Nos beijamos. Eu estava puxando ele pro seu quarto quando ele falou:
_Não, espera.
Eu achei que havia acontecido alguma coisa, mas ele foi rapidamente à cozinha e pegou um pote de Nutella e disse:
_Você gosta?
_Quem não gosta?!
Ele sorriu e abriu o pote. Pegou um pouco de Nutella com o dedo e passou na minha boca, como se fosse “batom”. A gente riu, e eu peguei um pouco e passei rápido na bochecha dele e saí correndo pra cama. Ele veio em minha direção e me beijou intensamente, sem pensar em mais nada. Ficamos sujos de Nutella. Eu tirei o pote da mão dele e o coloquei no armário ao lado da cama, sem nem mesmo ter desgrudado dele. Ele tirou a sua camisa e me beijou novamente. Eu fui pegar o cobertor_ estava um final de tarde frio_ e voltei pra cama.
_O que você acha de Nutella e cobertor?
_O que você acha de mim e você?
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No outro dia, fui acordada pela Fatinha. Na verdade, não diretamente, ela estava passando pelo corredor varrendo o chão, e quando olhei pro lado, Miguel não estava ali.
_Oi, Amor!_ disse a ele, que estava encostado na parede, tão distante e triste...
Miguel se virou e olhou como se ainda estivesse reconhecendo o meu rosto, admirando cada canto dos meus olhos, dos meus lábios, analisando com os olhos molhados, de dor e de arrependimento.
Seus olhos me deixaram triste. Não que eu soubesse o que estava acontecendo, e, de fato, nem era a questão, em si. Seus olhos me lembravam aquela menininha, ainda. O Miguel namorado era o mesmo que o Miguel médico. Suas dores eram as mesmas. Mas dessa vez não era aquele bebezinho lindo e ingênuo; era algo de novo, que eu precisava saber.
_Miguel? O que houve?_ passei a mão pelos seus cabelos loiros. Ele estava pálido.
_Nada, Amor... nada.
E saiu lentamente para fora de casa, no quintal, ainda de camiseta e cueca, procurando ar puro, pondo suas mãos na cabeça.
Eu fui pra cozinha tomar café, triste, mas sem poder fazer nada. Miguel não era como Nicolas; ele era decidido, não falaria, se não quisesse. Nicolas, se eu insistisse, ele falaria. Mas Miguel sofria por dentro.
_Bom dia, Fatinha.
_Bom dia, dona Magda!_ ela estava com a vassoura na mão, bem como no dia em que a conheci.
_Dona, não. Só Magda.
_Tá bom, então, Magda.
Sorrimos uma pra outra.
Sentei-me e tomei café da manhã. Sozinha.
_O Miguel já tomou café?
_Já, sim.
Ela continuou varrendo o chão, mas de repente, ela parou. Veio correndo em passos pequeninos, e me disse, cochichando:
_Magda, o Miguel está meio jururu. Sabe?
“Jururu”? Ela queria dizer “triste”? Confirmei com a cabeça, agora certa de que ela também não estava sabendo de nada.
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Aquilo estava acabando comigo. Ver Miguel daquele jeito me fazia sentir uma vilã, vendo quem eu mais amo sofrer, como se eu mesma estivesse o matando e ele se recusasse a lutar contra mim.
Ele estava sentado na cama, sozinho. Eu entrei, ainda meio trêmula por lembrar do seu olhar dolorido pra mim.
_Miguel, o que está acontecendo? Você está estranho desde anteontem. Não me deixa ver as suas mensagens, não me fala nada, eu...
Ele me olhou. E de repente, parecia que estávamos naquela salinha azul do hospital, onde eu nem o conhecia, quando o meu sofrimento era “Nicolas” e o dele era aquela bebê que havia morrido. Seus olhos pulsavam todo aquele sofrimento, aquela dor que parecia não caber apenas nos olhos.
_Magda..._ ele disse que a voz mais que trêmula_ por favor, não insista. Não é nada, eu prometo pra você.
E então, já não estava mais tão triste. Seus olhos levantaram pra mim como os de sempre.
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O Nicolas havia me mandado outro e-mail. Dessa vez nem tão grande quanto o outro, apenas falando que já tinha chegado lá, que está adorando e que vai me mandar fotos.
_Mandar “fotos”? Pra que?
_Ai, Amor, já conversamos sobre isso, né?
Ele olhou pra mim, eu olhei pra ele. Uma pausa. O celular dele toca, era outra mensagem. Ele o pega, apressado, lê e vai pro quarto. Em menos de dez minutos ele estava preparado pra sair. Parecia que ele estava melhor, como se fosse resolver algo que estava mais do que na hora de ser resolvido.
_Miguel, aonde você vai?_ fiz cara de brava, pra ele me levar à sério.
_Amor, eu vou resolver um problema._ me beijou._ Eu volto daqui à pouco.
E saiu no seu Camaro, à toda velocidade.
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