Notas iniciais
eu estou muito mal pelo Miguel, sério! :(

Trinta e um


_Alô?


_Magda... a Paola... ela...


Miguel começou a chorar do outro lado da linha. Mas não era aquele choro contido, discreto; ele chorava como uma criança, com dor.



Ouvir Miguel chorando pela primeira vez havia sido ruim. Mas agora era muito pior. Agora eu o conhecia, já havíamos vivido juntos. Agora eu já o podia sentir, ver, olhar. Agora ele não era mais só um médico, era_ de uma forma ou de outra_ a pessoa que eu amava_ ou pelo menos uma delas. Ouvir um médico chorando pela paciente cortava o meu coração; mas ouvir Miguel chorando pela Paola era cruel.



É como se eu pudesse ter feito as coisas de um jeito diferente, menos doloroso tanto pra mim quanto pra ele. É como se a culpa de ela ter morrido fosse toda minha. Bem, querendo ou não, eu também havia ficado surpresa. Era como se, se eu tivesse aceitado Paola, ou o namoro dela com o Miguel, ela ainda estaria viva.


Mas eu sou fraca.

Eu odeio admitir isso. Toda vez que há algum problema, eu não consigo resolver. Eu sempre sou fraca demais para aceitar, fraca demais para entender, para fazer o que deveria ser feito. Sou fraca na hora de fazer o que é certo para mim, e mais ainda quando se deve fazer o que é certo para outra pessoa. Até mesmo quando essa pessoa é o Miguel.


As coisas eram muito mais fáceis quando só havia eu e Nicolas. Duas crianças brincando de ser adolescentes. Ou dois adolescentes brincando de ser crianças... no fundo, não fazia muita diferença. Estávamos preocupados em nos divertir, em brigar, algumas vezes. Mas o importante era ser feliz por si mesmo.



Agora, com Miguel, Afonso, longe de Nicolas e cheia de problemas... bem, não funciona mais assim. Agora eu tenho que ser uma adulta brincando de ser adulta. Não é que a felicidade se tornou menos importante; pelo contrário. Era preciso fazer as coisas de um jeito meu, de um jeito que eu não cansasse. Era preciso aprender a viver. E agora, não era prioridade minha cuidar da minha felicidade. O importante agora era fazer os outros felizes. E deixar que os outros também me fizessem feliz.



_Fala, Miguel... o que ela fez?



_Ela... morreu..._ ele chorava, esperando o que eu poderia dizer.



_Ah, Miguel... onde você está?!



_Em casa. Fiquei sabendo pelo telefone... a mãe dela me ligou.



Miguel começou a chorar mais ainda. Era incrível como o choro dele me deixava mal. Ele, chorando do outro lado da linha, me arrepiava toda. Meu estômago se revirava a cada vez que ele tentava dizer alguma coisa que simplesmente não saia da sua boca.



_Tem como... você vir aqui?



_Não sei..._ como eu poderia ir à casa do Miguel naquela hora?



Mas ao sentir que a situação só piorava, eu tive que falar:



_Claro... claro que eu vou.



Desliguei imediatamente o telefone e liguei para Afonso.



_Alô?



_Afonso, desculpa.



Dava para ouvir algum tipo de música por trás da voz dele.



_Ah, que isso, Magda! Você pode me ligar a qualquer hora, você sabe disso.



_Como você sabe que sou eu?!



_Magda, a sua voz é inesquecível, acredite._ ele riu discretamente, e eu sabia muito bem do que se "tratava"._ Então... o que me diz?



Retomada pela onda de dor que o Miguel me deu, começo a tremer e a ficar aflita novamente.



_Afonso, você pode me levar na casa de um amigo meu?



Ele hesitou por um momento. Que "amigo"?! Então, eu continuei:



_A namorada dele morreu.



_Ah, nossa! Claro que eu levo, estou indo aí agora... ainda está de pijama? Digo, devo ir mais tarde?



_Não, pode vir. Eu troco enquanto é isso. Obrigada.



Afonso sabia em qual prédio onde eu morava, mas não o número. Então, avisei ao porteiro (é, porteiros também trabalham de madrugada) para que mandasse Afonso ao meu apartamento.


Enquanto é isso, entrei no meu quarto e tentei decidir o que vestir. Em menos de dois minutos, Afonso já estava batendo na porta do meu apartamento.


_Pode entrar, a porta está aberta._ gritei.



Ele entrou e me esperou na sala, pelo que deu para ouvir pelos seus passos. Saí ainda colocando minha blusa, não muito crente que ele iria se importar com isso.



_E aí... vamos?



_Vamos, claro...



Ele andava em direção à porta enquanto eu recolhia um casaquinho sobre a minha mesa. Fui correndo e fechei a porta, e enfim fomos ao estacionamento, onde ele havia parado seu carro.



__________________



Quando cheguei na casa do Miguel, mal precisei tocar o interfone para que Miguel me atendesse. Afonso esperava, encostado no carro, sem ter muito o que fazer. Eu tentei começar uma conversa que eu mesma sabia que não ia acabar tão cedo:



_Oi...



Miguel não conseguia responder. Olhou para Afonso, para o carro. Depois olhou para mim. À essa altura, ele provavelmente deveria estar pensando que eu e Afonso estávamos juntos, o que era mentira. Mas não era a questão do momento, pelo menos não agora.



Bem, é claro que ainda vou resolver isso tudo, tanto com Miguel quanto com Afonso. Na verdade, tudo dependia da Paola. Querendo ou não, ela foi o motivo da minha " separação" com Miguel. Eu ainda sentia a falta dele, sem dúvida... mas digamos que Afonso a repôs.



_Afonso... valeu por me trazer aqui._ me virei a ele, mas sem sair de perto do Miguel.



Ele entendeu o que eu quis dizer: "Obrigada, já fez a sua parte. Agora, saia daqui!". Simplesmente entrou dentro do seu carro, piscou o olho para mim, acenou para Miguel e foi embora.



Quando os faróis do carro desapareceram e ficaram apenas as luzes dos postes, um imenso vazio tomou conta de mim. Não sei porquê, nem como, só sei que quando Afonso saiu, é que eu pude realmente sentir a dor daquele momento.



Miguel, com seu rosto um pouco apagado pela escuridão, mas ainda lindo e triste, me olhava com os olhos mais dolorosos que eu já havia visto em toda a minha vida. Seus olhos verdes, agora me pareciam de uma profundeza tão grande... como se não fosse o verde "esperança", e sim verde "doença", cor de hospital; uma cor que eu não poderia decifrar em palavras.



Eu e ele, ali. A rua vazia. A dor. A morte.



Ainda estávamos em silêncio, mas regra é que não precisamos de palavras quando a dor diz tudo. Ali estava: tanto a morte quanto a solidão. Os dois entrelaçados, por mais que parecesse impossível. Solidão leva a morte. Morte leva a solidão. A minha solidão me fez brigar com Miguel. A morte de Paola o deixava na mesma situação que eu.



Não que solidão e morte sejam a mesma coisa.



Nos olhamos como já era de costume. Magda e Miguel.



Ele me abraçou. Tão fortemente, sem nenhum resquício daquela delicadeza propriamente digna do Miguel. Sim, porque em todas as vezes que ele tinha "contato físico" comigo_ como um simples abraço_, ele tomava o maior cuidado comigo, sobretudo porque eu era realmente bem menor que ele.



_Ela se foi... e eu nem estava lá...



_Calma, Miguel. Eu... sinto muito.



Ele desfez o abraço, discretamente, e me encarou. Ele achava que não, eu não sentia muito.



_Sério, Miguel. Nós éramos... namorados... mas eu não poderia ser tão fria assim.



Dessa vez, fui eu quem puxou o olhar de Miguel. Não queria de jeito nenhum parecer falsa justamente num momento tão delicado. E não, eu não estava mentindo pra ele: eu também estava triste. É claro, como já disse, não tanto quando ele. Afinal de contas, mesmo que eu não estivesse tão triste quanto Miguel, a dor dele era inacreditavelmente torturante para mim.



_Eu sei, Magda. Obrigada por vir aqui... eu devo ter interrompido alguma coisa entre vocês dois e..._ ele dizia, sem demonstrar nem ciúme, nem indiferença, apenas confusão.



Demorei um pouco para me lembrar de quem Miguel se referia: Afonso. Não que nós nunca tivéssemos tido "nada"... mas agora, é como se as coisas não tivessem acontecido.



_"Vocês dois" quem? Eu e o Afonso? Ah, não, eu só liguei pra ele me trazer aqui.



Ele me olhou de um jeito "você está de sacanagem comigo, né?!" e virou, em direção à sala, enquanto dizia:



_Vamos entrar... aqui está muito frio.



Na sala do Miguel encontrava-se um retrato de Paola. Finalmente pude conhecê-la. Ela era linda. Tinha seus cabelos escuros e encaracolados, curtos, e sorria abertamente. Seus olhos refletiam alguma espécie de luz, mesmo sendo totalmente negros. Era um pouco morena, diferentemente de Miguel. Na foto, eles estavam juntos, felizes.



_Tudo aconteceu assim, tão rápido... ela chegou, saiu, chegou e saiu. Mas agora ela não pode voltar mais.



Ele falou, tão quieto, tão frio, diferente do Miguel do telefone. Agora parecia um médico.



Eu estava tão cansada de fingir! Fingir que era forte, principalmente. Eu não aguentava ficar longe do Miguel como eu parecia aguentar. É como eu disse: eu queria que ele me fizesse feliz e me deixá-lo fazer feliz.



_No fundo... a gente já sabia disso. Só não queria assumir. Pra doer menos.



Ele me olhou, com os olhos arregalados, surpreso com o que eu disse. Eu estava segura do que ia fazer. Nos olhamos tão intensamente, novamente. Ele, tentando descobrir qualquer tipo que fosse de pista através dos meus olhos, e eu simplesmente alheia a ele.



Se esperasse uma atitude dele, ficaria me sentindo a mesma fraca de sempre. Era preciso me arriscar um pouco. Era preciso parar de me importar com o que ele pensava, com o que ele acharia.



O amor é dado. Já a paixão é egoísta. O amor se faz feliz com a felicidade do outro. Indeciso e sonhador, e ao mesmo tempo certo e racional. É necessário que o outro esteja pleno e realizado para que se sinta satisfeito consigo mesmo. Já a paixão quer tudo pra ela. Toma numa só golada tudo o que o amor pode oferecer. Quer tudo, e quer agora, urgentemente. É egoísta justamente porque faz o outro feliz com a sua própria felicidade. Enquanto o amor é um explorador de uma terra desconhecida, determinado a desvendar todos os possíveis segredos; a paixão é a própria terra, esperando ou talvez clamando por um explorador.



Eu estava apaixonada.



Miguel mal podia manter sua respiração uniforme, quanto mais desviar do meu olhar. Estava hipnotizado como uma criancinha ouvindo uma história. Precisava prestar atenção, saber dos detalhes.



Fomos chegando mais perto, mais perto... até que tomei uma atitude egoísta: o beijei.


Notas finais
Cadê os reviews, seus divos?!