Notas iniciais
Sou nova aqui! Preciso muito do seu comentário.

Um


Era 01h18min da manhã. Eu tinha 19, ele tinha 24. Eram cinco anos, mas estávamos equivalentemente como crianças bobas. Éramos amigos há uns 2 anos e meio, mas parecia que nos conhecíamos durante vidas. Nicolas era o nome dele. Estávamos sentados na calçada, numa rua cheia de carros, porém quase sem pessoas, perto da praia. Eu já estava acabada, suada, feia. O lápis preto do olho já estava derretido pelo meu rosto e o batom vermelho, borrado. Eu estava ficando sã e ele, como sempre, estava lá, mais sóbrio que nunca. Conversávamos sobre mim. Ríamos.

Mas ele estava aliviado mesmo por estar ouvindo a minha voz porque horas antes eu estava perdida numa boate, pulando e gritando junto ao DJ_ embora este estivesse bem longe; inconscientemente, me afastei dele por completo e no final, de tão bêbada, sequer lembrava que estava em sua companhia. Saí da boate como um pato desengonçado e fui me rastejando/caminhando até a praia. Uns jovens ao meu redor pareciam não estar preocupados e nem mesmo olhavam para mim. De fato, a boate não ficava mais que cem metros de distância da praia, mas para mim era simplesmente impossível andar diretamente rápido. Estava totalmente descontrolada: rindo, cantando alguma música como “Highway to Hell”, estendendo os braços, bebendo cada vez mais. Quando entrevi a praia por entre umas luzes e vultos, tirei os saltos, os quais por sorte ou por Deus não haviam quebrado. Fui correndo e tropeçando pela rua até chegar à calçada quando senti a areia fofinha por entre os meus dedos de unhas vermelhas. Esfreguei mais meus pés na areia, com a força que eu tinha no momento, na condição de bêbada, até que fiquei tonta e cai ainda na calçada dura. Resmunguei feito uma velha rabugenta, levantei como pude e continuei a caminhar em direção ao mar. Estava caminhando bem, num ritmo até apressado demais, quando ouço alguém me chamando.

Já podia sentir a água gelada quando viro de súbito. Caí novamente, mas desta vez não foi tão doloroso quanto da primeira. Ainda meio zonza, procuro pela pessoa que está me chamando, franzindo os olhos por causa da luz no meu rosto. Estava quase deitada na areia, olhando para o céu escuro. Levei um susto quando um homem chega de repente e levanta a minha cabeça puxando grosseiramente meus cabelos, com uma aparência séria que por um momento conseguiu chamar a minha atenção. Era Nicolas, como já era de se esperar. Reconhecendo meu amigo, falei algo como: “eu molhei meu sutiã com vodka” e ele desatou a rir, como se houvesse passado de meu pai para meu amigo. Fiquei um pouco inconsciente até que ele me catou pelos braços e, como se eu fosse uma criancinha cansada de brincar no parque, me levou no seu colo até alguma parte da praia que ficava mais perto da minha casa. Impressão ou não, me senti muito melhor quando olhei para os olhos dele. Perguntei onde eu estava e se havia feito algo de errado, ele apenas falou que eu estava com ele e me deu um beijo na testa. Nada como se ele fosse um cavalheiro, ou um ogro: era meu.

Recuperei mais ou menos a noção e pude sentir o peso do meu corpo_ como estava cansada! Nicolas ainda estava me segurando como se eu fosse um bebê, apoiando-me em seu ombro grande_ o que todos os homens deveriam ter. De fato, ele é o melhor amigo que eu poderia ter e agradeço até hoje pela Talita ter-me apresentado ele, sobretudo porque, quando não estou com ela, estou com ele, e isso me faz sentir que não preciso de muitos amigos para ser feliz.

_Você não tem casa, sua bêbada? _ele sorriu. Aquele era um tipo de pergunta que não exige resposta_ ele já sabia onde eu morava há muito tempo.

Eu o olhei com a maior cara de tédio que uma quase bêbada podia fazer; tentei me levantar, apoiando minhas mãos no chão sujo, depois me sentei de novo: estava sem sapatos. Tentei olhar para frente, ou para Nicolas, ou para o chão. Meus olhos quase não abriam, mas Nicolas puxou meus saltos que estavam do outro lado dele, balançando-os na minha frente.

_É isso o que você quer? Hoje você não vai à pé para casa, mocinha_ ele levantou tão rápido que me deixou tonta._ Anda, levanta, vadia.

_Me dá meus saltos logo! Eu quero os meus saltos!_ eu estava quase chorando quando acabei de falar “meus saltos”. Bêbados...

Levantei velozmente e isso quase me fez cair pela terceira vez. Quase, porque o Nicolas tem um bom reflexo: me puxou pra perto dele antes que eu caísse. Riu de mim, e eu acabei rindo também, mas depois comecei a chorar. Ele não aguentou, riu mais ainda, depois pegou meus saltos.

_Toma, chorona, você leva isso. _eu peguei meus saltos como se eles fossem um bebezinho. _E eu levo você.

E lá vamos eu e Nicolas e os saltos altos, deixando a praia e subindo a rua do meu apartamento. E de repente, percebi que melhores amigos servem para ser irmão, pai, filho...


Notas finais
Se gostarem, sigam, para ver a continuação! :)